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Roteiro dramatúrgico e cinematrográfico

Duas cidades do interior de São Paulo (Santo André e Ribeirão Preto) oferecem subsídios para que seja mais bem entendido o personagem Antônio Palocci neste momento. Para os defensores do Golpe sua “confissão” é a “bala de prata”, há urgência na liquidação da fatura; para os que foram atingidos ainda não. É bem provável que não seja o tiro de misericórdia se houver um pouco mais de atenção por parte das forças organizadas que defendem um projeto democrático para a sociedade brasileira. O personagem aqui tratado talvez tenha se equivocado e recebido nos bastidores a promessa de que Lula, PT, Dilma estão fora da disputa e a “sociedade brasileira” vai relegar isso tudo, e ele vai poder tocar sua vida, como empreendedor e articulador no mundo dos negócios. Pode não ser assim a vida, do qual Palocci foi coadjuvante. A história mostrou que acidentes podem acontecer e ele definitivamente condenado a arder no fogo até o seu final. Não recomendamos nem corda nem veneno.

Outro equívoco, de petistas que insistem em compara-lo a José Dirceu. O ex-líder estudantil tem história única e só pode ser avaliado se colocado lado a lado com outros militantes históricos (Luiz Gushiken, Djalma Bom e Lélia Abramo, entre tantos). Isso porque os citados tiveram atrás de si um movimento, um seguimento importante de trabalhadores que ganharam espaço em toda luta do PT para se firmar como opção política. Antônio Palocci não, se projetou a sombra, ocupando espaços (próprio da Política) e subindo de acordo com a conveniência. Ele é um oportunista, não necessariamente no sentido negativo do termo (digamos futebolístico). Nesse particular é fundamental que todos que procuram entender o que está acontecendo, se voltem no tempo e perguntando em que ano, momento e lugar ele ascendeu ao posto de terceiro homem na escala de importância para a chegada de Lula ao Planalto.

Vivíamos o fatídico janeiro de 2002. Num final de semana, o prefeito de Santo André, Celso Daniel, em seu terceiro mandato foi a um jantar com um amigo e ex-chefe de segurança Sergio Gomes. A saída em direção ao ABC ele sequestrado e morto na manhã do dia seguinte. O motorista, amigo e ex-chefe de segurança ileso dando início provavelmente a mais intrigada história política e policial ainda sem desfecho. Daniel coordenava nessa época as finanças da campanha de Lula (que acabou vitoriosa em outubro daquele ano), em seu lugar de imediato foi colocada a questão “quem substitui Celso?”. Estava lá Antônio Palocci, prefeito em segundo mandato de Ribeirão Preto. A história tinha lhe reservado a grande oportunidade e ele estava preparado para assumir. E por quê? Porque José Dirceu então presidente do partido coordenava com mão de ferro todas as articulações políticas e para tanto precisava de dedicação exclusiva. José Genoíno era então candidato a governador e não poderia renunciar a essa tarefa. Sobrou para Palocci a oportunidade histórica. Não se cobrou dele nenhuma coerência, salvo defender com unhas e dentes talvez a última oportunidade de Lula já na terceira tentativa. Palocci foi escolhido de pronto o substituto e empossado por aclamação.

O dia do velório de Celso Daniel. Isso veio acontecer na segunda-feira, pois o corpo do prefeito foi encontrado na manhã de domingo, e contado todo o processo de autópsia, liberação e procedimentos legais, acabou aumentando a comoção nacional, em especial de todos os petistas e simpatizantes. A explosão (gratuita e impensada do presidente do Diretório Estadual no sábado) dizendo ser um ato terrorista foi calada a seguir substituída pelo silêncio. A responsabilidade de encontrar os culpados seria obviamente do Estado, e assim foi. Apesar das controvérsias importa dizer como se comportaram na segunda-feira Lula e Antônio Palocci.

Os transportes públicos para o ABC foram prejudicados justamente a partir do meio dia, retornando a sua normalidade no final da tarde daquela segunda-feira. Faltou energia sobrando especulações até hoje não dissipadas. Medo talvez de uma manifestação política sem igual? O público presente praticamente moradores de Santo André,  vizinhanças e aqueles que arriscaram pra lá se dirigir com veículos próprios. Essa excepcionalidade deu às emissoras de tevê a oportunidade de ser a única forma de presença nos lares e ambiente de trabalho para acompanhar o adeus ao militante histórico Celso Daniel. Essa situação fez registro do comportamento de Lula sentado ao lado de Marisa, absolutamente em silêncio, enxugando furtivas lágrimas usando um lenço, próprio de hábito dos homens simples. Lula estava ali como um companheiro, não como candidato a nada. Verdadeiro, pouco se importando com o que estava ao seu redor. Já Palocci surpreendeu a todos em imagem imortalizada pelas mesmas câmeras de tevê aparecendo de colete a prova de balas (sic).

Revendo as cenas desta quarta-feira do depoimento de Palocci, e lembrando dele em outras situações onde tropeça no destino com um caseiro por nome Francelino. Em 2010, involuntariamente “esquecendo” de se justificar preventivamente dos sinais de riqueza que se formou tão rapidamente, depois que saiu do governo Lula. Também lembramos sua milionária campanha (2006) a deputado federal, usando de recursos (campanha por telemarketing) comum em eleições seguintes; MAIS, de sua avaliação que fez da equipe de governo de FHC, quando coordenou a equipe de transição nos últimos meses de 2002, dizendo que a ausência de planejamento estratégico nos governos FHC e fazendo deboche por consequência, nos convence que de fato Antônio Palocci é um homem publico moderno. E como qualquer produto industrial de nosso tempo, de fácil substituição para quem quer que se valha de seus préstimos.

Antônio Palocci vale mais como um homem vivo para o PT, Lula e Dilma, temerário que ele venha cometer alguma besteira, do tipo “vida, chega não brinco mais”. Já para os adversários dos governos que compreende 2003/maio2016 (contrariamente ao Procurador que inventou um ano a mais – 2002) não interessa que permaneça vivo. Se levado a um julgamento no Supremo como testemunha pode ser inquirido, por um advogado de defesa, quais foram suas relações com os meios de comunicação e aí ele não pode mentir.

Para Antônio Palocci lembro que em determinadas situações colete a prova de balas é inócuo. Politicamente sabemos que ele já escolheu o seu fim.

 

 Jair Antonio Alves - dramaturgo

(*) 1- Pensamos ilustrar com foto do velório de Celso Daniel, no entanto optamos por um quadro de Bosch. A cena é por demais mórbida e precisamos de alguma esperança nos dias atuais;

2- Em nenhum momento passou pela nossa cabeça que o analisado aqui pudesse ter alguma relação com o episódio de janeiro de 2002.

 

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