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Dando uma olhadinha nos EUA, Canadá, UE, onde há uma "polícia"(!) militar?

 

Essa excrescência, criada em 1809, por D. João, ficou-nos de herança colonial, pura e simplesmente.

 

Para prevenir crime?, que nada..., além de dispositivo truculento a reprimir a população, está mais para associar-se ao crime (inda que por vista grossa, até porque é alvo fácil, estático, uniformizado, e tal, portanto, digamos em autodefesa), evitando a inglória, insensata, perdulária e antiecológica faina de enxugar gelo com toalha de papel.

 

A fonte de trombadinhas e congêneres, por ora, é inesgotável, afinal, sem segurança de saúde, sem perspectiva de vida por educação, sem sentimento de pertencimento, sem habitação digna, saneamento etc..., como esperar que não se sintam, desde o nascimento, tratados, assim, como inimigos por esta "sociedade"?!

 

Acabar com ela, sim, será passo importantíssimo - entre outros, de certo - para pôr fim com o Estado de Guerra que vivemos, óbvio face às dimensões da violência, incompatíveis com tempos de paz, conforme os últimos 40 anos.

 

Um troço destes, que mantém forças militares constantes com armas voltadas de costas para as fronteiras, há 200 anos, não é um país, mas uma colônia, um pardieiro.

 

Otimizar sua atuação é militarizá-la inda mais - qual será o limite para um Estado de Polícia? A implantação de chips identificadores, com GPS, quiçá, com eficácia punitiva por secretar meio de choque químico, mais drogas modeladoras de humor, além das antidepressivas, ansiolíticas, indutoras de sono, num generalizado enquadramento psiquiátrico-ambulatorial a céu aberto, espalhar por todo lado sistemas de controle visual e auditivo, enfim, redução da pessoa humana a um arremedo feito de bom comportamentismo radical e artificial, etc...? Sempre a fraude!

 

Preciso, sim, investir nossos parcos recursos nas causas destas distorções que são de fundo histórico, colonialista, anti-civilizatorio, impatriótico, compondo um amálgama perverso, demófobo, escravagista (não racial), perseguindo para punir, então, os membros dessa pseudo-elite (pseudo por fraudar a competição!) que, galhardamente, cooptada pela Metrópole, desde que lhe facilite a rapinanagem, deixando cascalhos volumosos para os apátridas locais.

 

Esta minoria decisora, dá, assim, curso às suas desmedidas criminosas (hýbris) por pura má índole, impulsionada por libido dominandi et possidendi, impondo a ferro e fogo sua pluto-clepto-dividocracia.

 

Preciso, para começar, seguir a lição de Comte, completando com "amor" o lema da bandeira, que os lugar-tenentes da pseudo-elite, tão positivistas, esqueceram, em ato falho desvelador do que viria, e continuaria; sem falar de perpetuarem a designação desse amontoado de gente por termo destinado pela língua portuguesa a lugar de guarda de coisas ou animais, ou a profissão tida por inferior (-eiro), e não de proveniência de país ou cidade (brasiliense, brasiliano...)  – outro ato falho, pois, não há um país, nestas paragens!

 

Numa república digna do nome, polícia é civil. O resto é tropa de ocupação repressora da escumalha, da escravaria, dos reduzidos a semoventes, e ruminantes.

 

E ruminantes ruins dado o trato emprestado, assim tidos pelas igrejas (rebanhos do Senhor(?!)), passando pela escola industrial (adestradora, do memorize e repita, dócil e obedientemente, escola torturante por inviabilizar inteligência, seja dizer: inumana!), pelo transporte "de massas", e por que não na atuação jagunceira de "agentes da lei", conforme o coronel(!), o sub capo di capi da área, que, indubitavelmente, se reporta a Vice-Reis, e estes a Ss.  Majestade(s} protegidos na confortável e distante Metrópole.

 

Mas a ralé, tôme de cacete, AR-15, bala perdida, pesada porta a dentro, sem mandado,(!) etc., no mínimo, uma humilhante, revista ao gosto do instinto olfativo do travestido (posto que em nome do Estado) meliante, antirrepublicano, claro, tudo em nome da lei e da ordem, para o progresso sabe-se de quem e de que modo.

 

Imprescindível pensar, e pensar com espírito elevado, pensar com a grande angular aberta ao máximo, com olhar voltado ao conjunto da obra pensar em projeto civilizatório, deixando no passado as velhas fórmulas, autoritárias, truculentas, em que a vida não tem por finalidade senão servir à opulência de incontinentes pulsionais, de psicopatas, dominantes ou complementários.

 

Pensar com temperança (sofrosýne) tal qual engendraram os antigos gregos, inspirados numa ética do bem viver (eudaimonia), processo que teve início na solução política do desastre de uma Grécia feita mar de sangue, por vinganças intermináveis (a justiça era privada, tal qual a nossa se afeiçoa, pelo nepotismo, pela dignidade cifrônica, por prestar-se ao lawfare), também por escravização por dívida (dividocracia), por uma aristocracia despótica, opulenta e conspícua.

 

A solução do projeto civilizatório grego foi rica, rompeu com as tradições das teocracias despóticas, daí, fundar o Ocidente, o ocaso daquelas velhas formas de poder (rei-deus, estamento sacerdotal e braço guerreiro – conquanto, diga-se, com o cristianismo se tenha decaído em recidiva, reduzindo o Ocidente a uma referência geodésica.

 

Pois bem, a solução engendrada foi composta de: democracia, justiça pública, luta pela liberdade, busca da verdade, o que pressupõe, hoje, garantir eficácia a voz e voto, não só aos pater famílias, entretanto, conforme as linhas de ação da modernidade, a todos, indiscriminadamente, acolhendo harmonicamente as alteridades, alforriando espíritos, de ordem sexual, de status econômico, grau de escolaridade,

 

Enfim, acabaram por dar ouvidos a Hesíodo, posicionaram-se na direção do lógos (palavra verdadeira, vs. mýthos, palavra mágica), a razão não mistificada (racionalidade vs. racionalismo), seguindo na direção de se fazerem homens, para abandonar a besta-fera.

 

E para falar em eficácia de voz e voto, posto que relevantíssimo para a questão em comento, aqui, verdadeira radiação de fundo[1], cumpre ter em mira a urna, eletrônica.

 

Este dispositivo é verdadeira interface, na forma de caixa preta, vez que somente seu programador realmente sabe o que se passa dentro dela, para sair o que de lá sai.

 

Ela, efetivamente, afasta o voto do votante, a coletividade de cidadãos, assaltados em curatela decretada ex officio por uma magistratura abduzida[2], entregue a rasgo anti-republicano e político-cleptocrata de viés técno-científico.

 

É assustador, e verdadeiro sinal de fé cega, não se dar conta ou assumir isso, i.e., a imensa vulnerabilidade da forma eletrônica de votação, e a gravidade da, ipso facto, mais que plausível neutralização do fundamento da republica e da democracia, ao fim e ao cabo, comprometendo de morte o próprio processo legislativo na infiltração do Congresso e do Executivo com “representantes laranja”(!), compondo o baixo clero, bando de títeres de seus padrinhos, e dos financiadores destes.

 

Por outra, antes mesmo dessa arma tecnológica contra a vontade política da cidadania, o sistema pretensamente representativo, anos-luz do imemorial “cada homem um voto”, para além do hiper-desequilibrante da disputa eleitoral, o poder econômico.

 

Trata-se, destacadamente do coeficiente eleitoral (fábrica de membros ao baixo clero) e pela reserva de mercado dos partidos para a candidatura e elegibilidade de pretendentes.

 

Vale atentar que partidos políticos são organizações verticalizadas, com seus caciques, chefes, braços-direitos, sabujos, até a ralé, parasitas viventes da mercancia política, donde a feudalização do Estado com a partilha de cargos de todos os tipos.

 

Além disto, lembre-se, para agravar a situação e delinear o quão longe estamos de democracia, logo, de liberdade, lembre-se das intra-corporações estamentais, com assombrosa incontinência libidinal, usurpando pessoalmente poder a si conferido publicamente, repercute, p.ex., com acintosa sangria dos cofres públicos por hiper-super-megaremunerações incompatíveis com a lei (teto constitucional) e com a moralidade administrativa (começam a carreira ganhando coisa de mais de 70% acima do necessário a integrarem os 5% mais bem remunerados da população (i.e., 20 salários mínimos, cf. IBGE).

 

Com efeito e todo respeito, considerando o paradigma meritocrático adotado por eles mesmos, fossem tão competentes assim, a iniciativa privada tem muito mais a oferecer, eticamente, e ficaria honrada, além de ser o lugar certo para quem visa ao luxo ou enriquecer.

 

Destarte, onde democracia? onde governo do povo, pelo povo e para o povo?! onde soberania?! Um escárnio! Que respeito esperar dos subalternos[3]?

 

Tudo se assemelha, e assim se deve tratar, como semelhança, vez que igualdade é instrumento de um delírio abstracionista do real, se assemelha ao Antigo Regime, com seus teologismos, suas arbitrariedades, suas opulências, seus revoltados, suas masmorras, seus absolutismos, seus mercantilismos obsessivos, suas truculências estúpidas, quando não simplesmente boçais, suas guardas nobiliárquicas.

 

Este é o tudo que a modernidade traída, a dos libertários vitalistas, antagonizava com república, democracia, dignificação da pessoa humana, primado da liberdade (pensar, externar pensamento, autodeterminação, direito sobre si, direito de escolha...), isonomia, justiça e solidariedade sociais, laicização do Estado, devido processo legal, etc., etc., etc...

 

Tais benesses civilizatórias e civilizadíssimas da modernidade traída, todavia, inda nos são ilustres desconhecidas, senão no nome, às vezes, como verdadeiras cenouras de burro.

 

Noutro viés, tais princípios são-nos muito mais (des)conhecidos graças ao fomento à histeria coletiva, a mesma que se mostra na alterofobia, na demofobia, levando à paranoia social, terminando no afascistamento generalizado, especialmente na forma contemporânea do produtivismo/consumismo funcionalizante no ritmo do calculismo de mira cifrônica, em prol – sempre bom lembrar – das burras da minoria minoritária mínima.

 

Daí, a manutenção de uma polícia militar simboliza o divórcio do Estado contrapondo-se à sociedade, já sob militarização do cotidiano, pelas técnicas de dominação, controle e manipulação dos modos de produção.

 

Para constatar basta considerar a deletéria influência do estrategismo inerente ao competitivismo darwinista cretinizante, da desumanização da Teoria Analítica, da psicologia comportamentalista, das técnicas de gestão, da automação informática, nos reduzindo a subespécie de h*** sapiens sapiens, seja, a um h*** sapiens non-sapiens perifericus wireless, com a apropriação das tonalidades afetivas pela indústria médico-farmacêutica, que dessaniza lucrativamente as saudabilíssimas reações emocionais, etc...

 

Se quisermos viver bem, ou significativamente melhor, num mundo minimamente em paz, nestas paragens, cumpre aparar as arestas do colonialismo que inda nos impregna, e uma importante dessas arestas é o modo como se enfrenta o desvio à lei penal, como se organiza e atua o Estado para isso, sabendo que a regra é de esperar que se exerce o poder que se tem, e, se mantendo o legado colonial de um aparato policial militar, persistirá a mentalidade excludente e de violenta oposição entre o Estado e a cidadania na esteira dos valores coloniais – “ajo em nome do Rei, os outros são servos do Rei, portanto, seus escravos de primeira classe, sob cujo poder estão os de segunda classe, mas todos sob o jugo do Rei do qual somos agentes incumbidos a manter a ordem a qualquer preço ...” [esse é o tom da militarização] – a modernidade traidora apenas reorganizou este sistema..

 

Sem profunda e radical reestruturação das relações de poder, a começar pelo que afeta a relação Estado cidadania, ora completamente invertida, quem deveria servir, submete-nos, direta ou indiretamente, a servi-lo, não há o que esperar, senão falsificação da realidade, para o que serve a grande mídia, sempre empulhadora, e vamos para a ‘irrealidade do cotidiano’[4], com as antissociais perversões de sempre.

 

A presente crítica não é pessoal, trata-se, tão-somente, de firmar opinião.

[1] Na astronomia, diz-se dos ecos da origem do universo, as mais antigas radiações detectadas.

[2] Abduzir é modo de dizer a preservá-la de um julgamento ético, garantindo-lhe o privilégio da dúvida e a presunção de inocência!!!

[3] Não sei porque, adveio-me o Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. /  E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. / Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... / Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, / Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? / Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

[4] Título de clarividente livro de Humberto Eco.

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