Então. Eu precisava de pedregulhos para o fundo do vaso em que pretendo plantar uma mudinha de pimenta. O vaso vai ficar na varanda, ao lado do alecrim azul que ofereci para a Maria Magnoni, em troca do fermento de garrafa dela. Foi uma transação poético/comercial que não deu certo porque ela está aí no Brasil e eu moro no Japão. Sou um carcamano no oriente.

Percebi que cascalho de rio resolveria meu problema e, por acaso, há um riozinho que passa bem junto da minha casa. Como esta é uma atividade do meu primeiro dia de férias em anos, decidi principiá-la com uma cerveja. Tenho o hábito de conversar com o Kami deste rio, conversas que são sempre melhores com uma cerveja. Um Kami é um Deus, mas não é um Deus como Esse que vocês têm aí, porque o Kami é muito mais acessível. Parece mais com os Deuses da África, que nós também temos aí.

Mas voltemos ao cascalho da pimenta, que é o começo desta história. Foi fácil escolher as pedrinhas que precisava: fui até o meio do ribeirão e apanhei, colocando-as no saquinho que me deram quando comprei a tal da latinha de cerveja. Uma latinha, diga-se, porque a cerveja aqui é excelente, mas é muito cara. Enquanto eu catava os seixos, com água pelos joelhos, carpas recém nascidas brincavam nos meus dedos. Mais adiante havia uma família de tartarugas tomando sol e, do outro lado, uma garça almoçava carpinhas mais azaradas. Sim, vida por todos os lados num riozinho que atravessa kilômetros de zona urbana densamente povoada.

Eu nunca vi nada parecido no Brasil. Nunca.

Digo isto para que tenhamos mais respeito quando falarmos de Fukushima.  

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Respostas a este tópico

Hermê

 

Há um problema na natureza que favorece os Japoneses, o chamado tempo de recorrência. Todos os eventos naturais tem estatisticamente um período de recorrência que segue leis estatísticas próprias, lei de Gumbel ,por exemplo. Porém para se utilizar esta estatística com eficiência temos que ter um período mínimo de observação, no mínimo 100 anos! No Brasil, por exemplo temos registros de cheias de rios longos em poucos lugares e muitos foram perdidos. O bom exemplo dito é Blumenau, na década de setenta (ou sessenta, não sei bem) houve nesta cidade uma cheia excepcional, foi aquele Deus me acuda, para estudar os máximos foram atrás dos dados históricos e descobriram que o Dr. Blumenau depois de uma grande cheia no século XIX tinha mandado registrar todos os níveis significativos de cheia. Resultado, viram que já no século XIX tinham ocorrido cheias iguais ou maiores e com os dados do Dr. Blumenau foi possível com mais de 100 anos de registros estabelecer as regiões que são passíveis de inundação.

No resto do Brasil as coisas são diferentes, grande parte dos dados são recentes e além disto muitos dados do DNOS foram perdidos na época da extinção do mesmo pelo Presidente Collor de Mello.

Agora quanto a poluição o Japão também tem alguns eventos que levam este país a ter mais cuidado, há a famosa "Doença de Minamato" que matou mais de 900 japoneses por intoxicação por mercúrio em 1959 (aproximadamente 3000 pessoas sofreram desta doença), logo os japoneses cuidam mais do meio ambiente porque já sofreram com isto, ou seja, a cultura japonesa foi moldada também pela desgraça.

Se falarmos em termos de Europa e USA o problema é o mesmo, grandes acidentes e grandes poluições levaram estes países a tomar mais cuidado. Há regiões na Europa e USA em que foram notar a influência de determinados poluentes depois da morte de muitas pessoas.

Em resumo, quando olhamos países com mais respeito ao meio ambiente temos que ficar atentos que isto não saiu de uma maior consciência, mas sim de grandes desastres.

Uma questão filosófica que me aflige, Maestri:

Que diferença faz se o respeito à natureza saiu de uma maior consciência, ou de traumas passados?
Às vezes fico com a impressão de que você acredita que a tal da consciência é a mola mestra da História.

Hermê

 

Simples, temos que saber das motivações para não propor algo que não tenha aceitação, não adianta fantasiarmos que não dá em nada.

 

Claro que a consciência que a mola mestra da História, a consciência que estamos na m..., a consciência que se fizermos isto nos ralamos, a consciência que .....(e vai daí por diante).

 

Não esqueça daquela frase:

 

Primeira parte (consciência romântica)

Trabalhadores do mundo, uni-vos,

 

 

 

Segunda parte (consciência real)

vós não tendes nada a perder

 

 

 

 

Terceira parte (a verdadeira consciência)

a não ser vossos grilhões

 

O Marx se vivesse hoje ficaria rico escrevendo livros de motivação!

Realmente, não há nada parecido no Brasil. Por aqui a coisa ainda funciona assim:

 

 

 

Há gente que tem consciência do estrago poluidor nas águas, mas permanece omissa diante dos fatos. Quem se mobiliza minimamente para denunciar os estragos é visto com desconfianças e críticas reacionárias, tipo, ser acusado de contrário ao 'progresso', tacanhos, ludditas e coisas afins. Poluição e degradação de ambientes são vistas como valor no atraso político do Brasil.

 

Um protesto criativo, como o retratado abaixo, uma denúncia contundente da degradação urbana é logo folclorizada e vista como ato  de "embalados por todo um espírito New Age". A omissão é reconfortante para certos espíritos.

 

 

 

Era exatamente isso que eu queria comunicar, N
Quando soube (no curso de saneamento há mais de 30 anos) que todo o esgoto da cidade era lançado no Tietê e Pinheiros sem nenhum tratamento... entrei em crise

obrigado

funciona assim e...

assim:

 

e as pessoas não percebem as relações entre o voto depositado nas urnas e as "tragédias" anunciadas. para certos governadores e prefeitos, um fato como este é um impulso na carreira política!

 

um trecho sobre a questão:

"O gerenciamento atual não incentiva a prevenção destes problemas, já que a medida que ocorre a inundação o município declara calamidade pública e recebe recursos a fundo perdido e não necessita realizar concorrência pública para gastar. Como a maioria das soluções sustentáveis passam por medidas não-estruturais que envolvem restrições a população, dificilmente um prefeito buscará este tipo de solução porque geralmente a população espera por uma obra.

Enquanto que, para implementar as medidas não-estruturais, ele teria que interferir em interesses de proprietários de áreas de risco, que politicamente é complexo a nível local. Além disso, quando ocorre a inundação ele dispõe de recursos para gastar sem restrições.

Para buscar modificar este cenário é necessário um programa a nível estadual voltado a educação da população, além de atuação junto aos bancos que financiam obras em áreas de risco."

 

retirei daqui:

 http://ambientes.ambientebrasil.com.br/agua/artigos_aguas_urbanas/e...

 

Daqui a pouco vai ficar parecendo que eu estou compondo uma ode ao Japão...
mas, no tsunami deste ano, houve uma aldeia costeira atingida em cheio pela onda, que não registrou uma única vítima fatal. O fato foi tão assombroso, que todo mundo foi lá perguntar como isso aconteceu. O chefe da aldeia respondeu que, por ocasião do tsunami de 1933, que matou meio mundo no lugar, a primeira coisa que o antecessor dele fez foi redigir um manual para que a tragédia não se repetisse:''nenhuma casa ou prédio público será construído abaixo da cota tal'', ''serão deixadas livres rotas de fuga e áreas de refúgio'', ''haverá treinamento anual de prevenção nas escolas'', etc. E assim se fez, porque são japoneses. E também porque o índice de Gini japonês é escandinavo, e todo cidadão tem recursos para construir como corresponde e, se não tiver, tem direito a uma moradia do estado, que obviamente não foi construída em área de risco.

A zona comercial da cidadezinha desapareceu, mas foi só prejuízo material.

 

Pô! Banco financiando obras em área de risco! Devem achar que cumprem seu papel social porque incluem um segurinho no pacote...

eh!

por estes lados,

são os beneficios da seca..Pra uns

bom.. deus é tão..mais tão brasileiro que quando não é seca é chuva..

tipo assim "''façamos o homem à Nossa imagem... e domine sobre os peixes e as aves e toda a terra''.

 eu completo....e sobre os outros homens tambem. Esta é a melhor parte

aí quando a gente organiza um assentamento, onde todos possam viver em pé de igualdade....

somos comunistas, vagabundos.. oportunistas.. e sobretudo invasores

invasores!

sem dúvida, a ode seria merecida, não?

mas, por diversas razões, as relações do homem oriental com a natureza são muito menos predadoras, não? até parece que aqui cultivamos uma espécie de verniz romântico acerca da relação homem X natureza. sei lá, viu, hermê, eu não sei explicar... mas, por exemplo, é assustador o número de empreendimentos imobiliários aqui na ilha... e, olha, até que se tem um pessoal vigilante, mas o morro acima tá ficando chique demais. e são os muitos ricos que invadem, desrespeitosamente, áreas de preservação permanente, sem dó, sem piedade. assusta mesmo.

Vide o que aconteceu nas cidades serranas do Rio!
O que aconteceu com as cidades serranas do Rio que não aconteceu nos últimos 1000 anos?

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