POR QUAL PAÍS EU QUERO LUTAR?


(escrito sob o impacto do belo documentário “Irmãos de sangue” – sobre as vidas de Henfil, Chico Mário e Betinho)


Assisti agora, na TV Brasil, parte do documentário “irmãos de sangue” – creio que peguei do meio para o fim – e emocionei-me com os relatos, as cenas que narravam e mostravam o fim da ditadura, a volta dos exilados, a história comovente dos irmãos, sua luta final contra a Aids que ceifou tão precocemente suas vidas.


O filme termina com a apresentação da maravilhosa música “Ressurreição”, num arranjo especialíssimo de Wagner Tiso, música que Chico Mário compôs em homenagem ao Henfil, quando este achava que não sobreviveria a uma cirurgia. A música bem poderia ter sido composta para o Brasil, que literalmente ressurgia, renascia para um projeto democrático, a ditadura se extinguindo aos poucos, a volta dos exilados, a luta pelo retorno dos direitos civis a pleno vapor, o nascimento do PT, do movimento “Diretas Já!”, Lula tornando-se o líder dos operários e do novo partido, o Brasil sonhando tanto, num momento mágico da sua história, o gigante-adolescente querendo florir, querendo fazer sua própria história. Tragicamente, no auge dessa luta toda, partem os três irmãos, que – cada um a seu modo – tanto lutaram por esse sonho de muitas vertentes.


Fui levado de volta ao meu 1979, faculdade nacional de Direito, Rio de Janeiro, ano histórico para nosso Brasil, a ditadura resistindo ao seu fim eminente, as pressões sociais incontroláveis àquela altura, o desejo por liberdade, voto direto, o desejo de sermos nação de novo, e não povo tangido por ditadores, aflorando em toda a parte, quem viveu lembra... Era um Brasil que “sabia lutar”, que estava unido, independentemente da timidez de parte da mídia, da omissão de um ou outro setor mais acovardado. Pautávamos a imprensa, não éramos pautados por ela! Criávamos novas forças sociais espontâneas, novos caminhos, novos desejos, a cada dia. Não esperávamos ações do governo ou de quem quer que seja. Corríamos atrás! Tempo lindo aquele 1979 e os anos que se seguiram até a morte definitiva da ditadura. Éramos o Brasil que sonhava... Éramos o Brasil que lutava bravamente por seus sonhos...


Depois...? Depois todo mundo sabe o que veio, né? A frustração das eleições indiretas em 1985, a alegria menor mas ainda assim vitoriosa, com a eleição de Tancredo Neves, a perplexidade sofrida com sua morte inesperada, a nação sem saber o que esperar do governo Sarney, os desacertos desse mesmo governo, mas, surpreendentemente, e esse mérito temos que lhe conceder, um ambiente altamente democrático, um governo que recebeu críticas pesadíssimas, e agiu dignamente no quesito ampliação de fortalecimento da democracia e os direitos elementares à mesma. Finalmente teríamos a eleição direta para presidente!


Éramos então uma democracia tão real, que logo o primeiro presidente, não resistiu a ela: caiu pelo impeacheament, e passamos no teste com louvor: a democracia seguiu seu rumo, Itamar assumiu, fez um belo governo de transição para o próximo presidente, domou a inflação, bancou o plano real, e entregou a faixa a FHC, esperança da esquerda brasileira, do povo brasileiro na verdade, de um governo progressista, onde finalmente nossas chagas sociais mais profundas – miséria, péssima distribuição de renda, educação, saúde, etc. – começariam a ser tratadas.


Deu no que deu... O Governo da desesperança! O grande fiasco a nível social, as fraquezas do presidente (de personalidade mesmo) impondo-se brutalmente sobre as necessidades de transformação, sua guinada radical ao liberalismo e à ortodoxia monetária, pondo o país de joelhos, quebrado, diante do mundo. Um êxodo sem igual, centenas de milhares de jovens buscando oportunidades - inexistentes aqui - na Europa, nos EUA, no Japão, na Austrália, por todo o mundo... Um crescimento pífio, a concentração de riqueza maior do que nos tempos da ditadura, os salários em queda, um ambiente depressivo e sem esperança nos últimos anos de seu segundo mandato. Sua única bandeira, o controle da inflação através do plano real. Um ambiente propício portanto, à vitória de Lula! Literalmente, “A esperança venceu o medo!” – E como tínhamos medo daquele Brasil, isso sim, país sem brilho, sem projeto, sem renda, sem emprego, sem luz própria, olhados como terceiro mundo, mais do que nunca, a grande mídia ocultando um certo desprezo que FHC era tratado, até com “broncas públicas”, por Bill Clinton e outros governantes.


Mas a tal da esperança venceu finalmente! O “presidente-caricatura”, omisso e fraco, entregava a faixa e voltávamos a sonhar com as transformações que sonhávamos lá atrás, desde que Jango fora derrubado do poder, desde que a democracia, em fins da década de setenta, voltava a ser prenúncio de realidade...


Não vou perder tempo lembrando tudo o que vimos nos dois governos Lula, principalmente no segundo mandato, quando Lula superou todas as expectativas, e de combalido quase derrotado pelo golpe do mensalão, tornou-se, literalmente, “o cara que mudou a face do Brasil”, aqui dentro de nossas fronteiras, modificando radicalmente o rosto do país, melhorando a vida de todos os brasileiros, como também colocando o Brasil na agenda internacional, com um brilho, uma força, jamais conquistados anteriormente.


Tudo mudou no Brasil para melhor! Crédito, empregos, educação, saúde, atuação diplomática, etc. etc. MAS, INCRIVELMENTE, APESAR DE TODAS ESSAS MUDANÇAS, RESPIRAMOS HOJE, UM AR PESADO DE UMA CRISE AMARGA, QUE NUNCA CHEGA, MAS ESTÁ SEMPRE ANUNCIADA AOS QUATRO VENTOS!


E esse é o motivo, finalmente, desse post! PORQUE, SE FINALMENTE TEMOS MOTIVOS CONCRETOS, PALPÁVEIS E MENSURÁVEIS PARA TERMOS MAIS E MAIS ESPERANÇA, VIVEMOS,  NO AMBIENTE MIDIÁTICO, COMO SE O PAÍS ESTIVESSE SEMPRE À BEIRA DO PRECIPÍCIO...?


Um país não é feito só de dinheiro, empregos, melhor distribuição de renda; ele contém elementos “espirituais”, sócio-emocionais, eu diria, que também determinam a qualidade de vida, a qualidade da “felicidade” daquele povo. E, paradoxalmente, há em grande parte da população uma certa tensão, uma desesperança, uma ESPERA DE QUE ALGO INEVITAVELMENTE RUIM ACONTEÇA... embora ninguém saiba exatamente o que...


Chegou a hora de reconhecermos, todos nós, sociedade civil, que enfrentamos sim, uma nova ditadura, também cruel, também ilegítima, porque destrói sim, nossa liberdade, destrói nossos sonhos, destrói uma atmosfera de “felicidade civil” que era para o Brasil estar experimentando, orgulhosamente, pelos feitos extraordinários do Governo Lula.


Essa ditadura imposta pela mídia, nos rouba informações verdadeiras, nos rouba o direito a um debate sincero sobre os graves problemas que ainda enfrentamos, nos rouba o direito a sonharmos em paz – MERECIDAMENTE!!! – com um país melhor, mais progressista, mais justo, com leis realmente válidas para todos, e tudo aquilo que chamamos progresso humano!

Ao tratar o ofício do jornalismo como panfletagem sórdida e tentativa de manipulação do povo, para sua ideologia, preconceitos e preferências políticas, além de interesses pragmáticos inconfessáveis, a grande mídia brasileira, esse quarto poder de influência fortíssima e capacidade única de monólogo direto com a população, torna-se “o novo ditador do Brasil”, talvez até mais maléfico, esse ditador, do que o folclórico João Figueiredo, primeiro dos militares a demonstrar real desejo de distensão democrática.


NÃO SOMOS ESSE PAÍS VOMITADO PELA MÍDIA DIA E NOITE!


NÃO SOMOS ESSE PAÍS ONDE TODOS DO GOVERNO SÃO CORRUPTOS, E TUDO O QUE LULA CONSEGUIU FOI PELA “SORTE” DOS BONS VENTOS INTERNACIONAIS!”


NÃO SOMOS ESSE PAÍS, À BEIRA DE UMA CATÁSTROFE QUE PROVARÁ A INCOMPETÊNCIA DO GOVERNO PETISTA, A QUALQUER MOMENTO!


Essa gente sórdida, vendida, preconceituosa, gente de alma pequena e enferma, essa gente odeia o Brasil! Essa gente gosta do “Brasil charmoso” de FHC, o presidente de cinco idiomas, “o príncipe”, tão apegado na sua vaidade, aos elogios dessa mesma mídia, e das elites empresariais do país. São algumas centenas apenas, de famílias tradicionais e ricas, seguidas bisonhamente pelos poucos milhões da chamada classe média alta – Jardins em São Paulo, Leblon/Ipanema no Rio, e assemelhados nas outras capitais – que, na verdade, simplesmente não aceitam o fracasso que foi o governo FHC, essas são as pessoas que ODEIAM E ODIARIAM LULA, INDEPENDENTEMENTE DAS COISAS QUE ELE FIZESSE EM SEU GOVERNO.


Essa é a gente que no fundo, despreza o povo brasileiro, têm preconceitos arraigados contra nordestinos (bons para pedreiros, empregadas domésticas, porteiros e atendentes de lanchonete...) e contra as pessoas pobres; reclamam de mais carros na rua, mais gente “andando de avião”, o “andar de baixo” se misturando com quem detinha os privilégios desde sempre.


Talvez seja esse seu grande medo, seu grande ódio: Lula não só rompeu todas essas barreiras, como acabou se tornando o maior presidente da história do Brasil, teve esse reconhecimento solidamente lá fora, e ainda promoveu a subida à classe média, de trinta milhões de brasileiros.


E agora, afinal, início do governo Dilma, cabe a pergunta-título: “Por qual país eu quero lutar...?”

Cada um de nós tem sua resposta, e provavelmente, muitos concordam em diversos pontos: justiça de verdade (como somos fracos nesse quesito!), mais educação, mais saúde, melhor gestão da coisa pública, salários melhores, erradicação da miséria, etc. etc.


Se não passarmos a levar muito a sério a questão da ausência total de caráter da grande mídia, e nos deixarmos pautar pelos ódios e emocionalismos exacerbados criados por essa máfia, nos perderemos em disputas cegas, perderemos a capacidade de sonhar, e talvez cheguemos a perder a felicidade que fazemos jus, pelo momento histórico único e especial do qual fazemos parte.


Ver a história desses três irmãos tão corajosos, repletos em suas vidas, de alegria, luta cívica, arte e beleza, no meio de tanta dor e sofrimento, me fez lembrar, como numa metáfora, da história do nosso país tão maravilhoso.


Por isso voltei ao “meu 1979”, congresso da UNE em Salvador, passeatas contra a ditadura, a alegria pelo retorno dos exilados, a eleição logo depois, de Brizola aqui no Rio, e tudo o que se seguiu...


Somos, e temos que ser, maiores do que esses insanos da mídia. Não podemos deixar de sonhar e manifestar nossa alegria e espírito de luta, para que os progressos continuem. Como naqueles tempos de lutas e sonhos, somos nós, sociedade civil, nem governo, nem mídia, mas nós, quem provocaremos – ou não... – os novos caminhos, os novos destinos, que queremos para o Brasil.

Por qual país queremos sonhar e lutar...?

 

    Frase maravilhosa da música "O bêbado e o equilibrista"

A esperança, equilibrista, sabe que o show de cada artista, tem que continuar...”

 

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Respostas a este tópico

Bom texto, Eduardo. E que bom ver você participando aqui de novo.

Abs

 

Oi, minha amiga! Pois é, tô voltando devagarzinho... - rs - Veja esse filme, é lindo! Bjo procê!

Vou tentar ver.

Abs

 

Eduardo teu texto me deixou emocionada. Como é bom ler algo tão inteligente,mas simples na sua escrita.Sem precisar de palavras difíceis para se comunicar. E, como se comunica. E,como atinge o coração da gente.

Obrigado por este texto tão lindo e tão atual

Bjs

Bom mesmo, né? E melhor ainda ver o Eduardo aqui de volta. Precisamos de pessoas como ele.

Excelente texto.

nunca posso esquecer o dia em que conheci Henfil pessoalmente , era 1978,

ficou para mim, a referência como pessoa.

depois conheci pessoalmente betinho, mas só em 90. outra referência..

Exemplos de vida.. a serem copiados..seguidos..

Só posso repetir feito papagaio... - rs - veja o filme, Stella!!!. Bjo.,
Marise, obrigado pelas palavras gentis. Emoção gera emoção, né? - rs - Na verdade, o filme é que é belo e emocionante!!! - rs. - Eu de fato, fui reportado de imediato "àqueles tempos" - bons, no sentido de um Brasil unido e lutando, não? A sociedade ciciol vai ter que se unir de novo, para demonstrar que não aceitamos essa mídia absurda e mau caráter. Bjo!

Caro Eduardo: veja este filme, que para mim tem uma dupla moral, que lembra o sugestivo Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago. Tem a ver com "Por qual Mundo queremos sonhar e lutar...?  Me tomei a liberdade de retocar a sua pergunta.

http://www.youtube.com/watch?v=s6NNOeiQpPM&feature=share&no...


 

Federico, acabei de assistir o filme. De uma singeleza ímpar, gostei muito! De fato, um país melhor, ou indo mais longe, uma humanidade melhor, passa certamente pel,a questão da Educação! Obrigado pela dica! Abraço. - PS - O livro Ensaio sobre a cegueira, foi um dos mais impactantes e criativos que já li!

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