O “Programa Bolsa Família” é apontado como causa de todos os males envolvendo a escassez de mão de obra, tanto no campo como nas cidades, justamente porque beneficia aquela parcela de pouco mais de 11 milhões de famílias que, até o início do século XXI, não era tratada e muito menos vista como sendo gente, apesar de fazer parte da espécie humana.

Era o “trabalhador alugado”, como conhecido aquele prestador de serviço esporádico que servia ao fazendeiro de vez em quando para realizar o plantio da safra ou colher a produção, recebendo uma merreca por esse serviço e passava o resto do ano fazendo biscate, sem direito a coisa nenhuma que fosse concedida a um trabalhador de carteira assinada e hoje migrou para as cidades, atraído pela demanda existente na construção civil e outras atividades.

Era a “lavadeira” da roupa de quem podia pagar uma mixaria pelos seus serviços, que saía do seu rancho puxando um rebanho de crianças penduradas nas saias, botava a trouxa de roupas sujas na cabeça, lavava-as onde encontrasse água e devolvi-as ao final da tarde, de barriga roncando, até perder o bico na trombada com a máquina de lavar.

Por fim, aí sim, vem aquela galera que não nasceu com a vocação para o trabalho e se escora em qualquer coisa em troca da sobrevivência. Agora, por falta de uma atividade laboral que ocupe ao menos parte do tempo, rapidamente a casa enche de crianças que, enquanto brasileiros, tem os mesmos direitos, já que a constituição não faz nenhuma distinção em relação aos filhos de “acomodados” quando trata de educação e saúde, por exemplo, e não se pode exigir e muito menos esperar aprendizado por parte de pessoas passando fome.

Na verdade o que se vê são as mesmas pessoas que condenam o analfabetismo e a ausência das crianças na escola criticando o Bolsa Família, que é justamente o meio que viabiliza e até obriga essas famílias a matricularem seus filhos na rede pública de ensino.

E assim, vem aquela pergunta: essa cobrança de educação não inclui as crianças das famílias abaixo da linha da pobreza, ou estas só mereceriam aprender a ler se os pais resolvessem trabalhar? Enfim, o meu neto deve aprender e o filho do morador de rua não? E se um pouco mais adiante as coisas se inverterem? É bom lembrar que quando Deus nos colocou aqui não nos forneceu nenhuma garantia ou seguro sobre o futuro.

Afinal o “indignado” tem o dom e até a obrigação se indignar e cumpre isso ao pé da letra, embalado pelas ondas e letras da mídia, conseguindo a proeza de ficar chocado tanto com uma criança descalça pedindo uma moeda num sinal de trânsito, como com uma mãe passando o cartão no caixa eletrônico e retirando aquela ajuda que lhe permite mandar o filho para a escola de barriga cheia e roupa limpa, como os demais colegas.

E ainda querem que essas pessoas que acabaram de ser alçadas a condição de gente votem contra o governo que promoveu a mudança em suas vidas? Por que não pensaram nisso antes?

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