Portal Luis Nassif

Por que os movimentos da direita se esvaziaram tão rápido?

As manifestações do dia 26/03/2017 foram enigmaticamente esvaziadas em relação a séries de manifestações realizadas pela direita no último ano, qualifica-las de fracasso ou qualquer outro nome é uma mera questão retórica que serve simplesmente para motivar a militância da esquerda ou mesmo a militância mais progressista alargando o espectro dos que se vão se tornando contra o Golpe.

As 630 pessoas em Brasília, praticamente o mesmo número de policiais destacados seguir os manifestantes somadas com algo em torno de um pouco mais de 2000 pessoas no Rio de Janeiro e uns 20.000 (dados não confirmados) em São Paulo são o que para cidades com mais de alguns milhões de habitantes uma verdadeira não existência destas como um movimento de massa, ou seja, manifestações que não chegaram a agrupar 0,1% das populações destas cidades, como o complemento disto é 99,9% estatisticamente é possível se dizer que elas não existiram.

Praticamente ao mesmo tempo, na Inauguração Popular da Transposição do Rio São Francisco promovida com a presença de Lula na cidade de Monteiro (no Cariri paraibano situada a 311 km de João Pessoa) levou para uma cidade de 30 mil habitantes uma multidão nunca lá vista de 50 a 60 mil pessoas.

Uma não existência de manifestação da direita contraposta com um evento que as pessoas tinham que viajar centenas de quilômetros, mostra uma total mudança de comportamento, ou melhor, uma aparente mudança de comportamento da população brasileira. Porém deixando de lado discursos propagandísticos é importante analisar o porquê desta aparente mudança de comportamento.

Várias pessoas propõe uma explicação sobre esta aparente mudança de comportamento, inclusive no dia 28 do mesmo mês o Sociólogo Marcelo Zero faz um artigo publicado no Brasil247 que pretende explicar o que está ocorrendo e ao nosso juízo a explicação deste assessor parlamentar da bancada do PT no Senado é completamente equivocada.

Marcelo Zero , como todo o bem cientista social (também tenho este vício apesar de minha formação não ser nem próxima à área), divide as razões em cinco grandes temas que irei reduzi-los e quem quiser lê-los é só ir neste link.

1)      A falha dos golpistas em não entregar a população uma retomada da economia.

2)      A generalização dos eventos de condenação mediática e legal a elementos fora do PT pela Lava-Jato e STF.

3)      O fraturamento dos grupos parlamentares de situação atual devido a diferentes pautas que são e serão votadas.

4)      A desconstrução do Estado de Bem-Estar através do ataque aos direitos previdenciários e trabalhistas.

5)      A liderança de Lula abatendo os seus detratores no judiciário.

Infelizmente a análise despreza o mais importante, a luta de classes, e os movimentos de ascensão e descenso tanto do proletariado em geral como das forças de reação ou mesmo de grande parte de uma pequena burguesia urbana que em parte seguiu o movimento conservador.

Contraponho o único parágrafo como a verdadeira causa de toda a mudança, sendo que os cinco itens elencados ou são meras consequências ou simplesmente uma faceta da intensidade dos movimentos populares.

O primeiro item é talvez o mais fraco e que permite uma fácil demonstração de sua pouca importância na variação das intensidades dos movimentos.

Uma recessão continuada no Brasil que vem quase há quatro anos sofrendo efeito de uma crise econômica, não é sentida de imediato em um curto período de tempo, se houvesse alguma ruptura poder-se-ia notar num ambiente neutro em termos de divulgação de notícias um forte desconforto contra um governo, porém com a ampla divulgação de notícias falaciosas na grande imprensa este efeito é dissipado e fortemente atenuado. O desemprego, a perda de receita não é algo linear para todos e mais é lançado na cota de autorrecriminação do que na responsabilização do governo.

A Lava Jato é mais um mecanismo de catarse das classes dominantes do que algo que atinge níveis mais populares da população, a confiança que a imensa parte da população brasileira tem na polícia e judiciário é mínima. A justiça é vista pelo proletariado brasileiro como mais um mecanismo de opressão que sempre lhes é desfavorável, principalmente nas populações urbanas dos grandes centros. As figuras de Moro, Dallagnol e de toda a polícia federal é vista com desconfiança pela população em geral, e pecam no discurso tanto Lula, Dilma e demais membros dos partidos mais democráticos quando elogiam e dizem que reforçaram e vão reforçar o poder destes elementos, pois simplesmente o que o povo não tem a mínima confiança são nas pessoas que representam estas corporações. Logo, para o povo em geral, Moro, Dallagnol e delegados da Polícia Federal são figuras nada agradáveis e diria que mesmo políticos corruptos que tenham determinada habilidade tem mais apoio nas classes mais desfavorecidas do que membros da polícia e judiciário.

A fragilidade tanto de Moro como de Dallagnol como figuras políticas é imensa, e na primeira oportunidade em que os próprios partidos mais progressistas pararem de elogiá-los eles se desmontam como um castelo de areia. Vide por exemplo que Dallagnol recebeu repúdio público até de crentes em sua igreja em que atua quase como um pastor. Os únicos que gostam da polícia e do judiciário são os familiares dos mesmos, pois mesmo as classes dominantes execram estas figuras quando elas tentam até dentro da lei exercer os seus poderes constitucionais contra crimes ou infrações de poderosos.

Talvez o único ponto que deve ser considerado com mais relevância é a fratura dos diversos grupos parlamentares golpistas, pois se chamarmos corretamente este fenômeno como as contradições que existem nos grupos dominantes se entende claramente o que ocorre. Ao mesmo tempo em que as diversas investigações, denúncias judiciais, processos e condenações progridem, elas vão desnudando os diversos grupos de poder de forma assimétrica, retirando poder de determinados e reforçando dos outros. Como não há um programa pré-estabelecido para as mais diversas situações a própria desordem estabelecem uma nova ordem, o repúdio a ação das forças policiais e do judiciário, que se dá numa total falta de planejamento de ataque dos diversos grupos de poder, num dia um grupo está como algoz e no outro está como vítima.

Porém o autor, que provavelmente vive diariamente no meio político parlamentar, acha que o objeto de toda esta confusão está centrado nos políticos, porém o desarranjo do poder político, tornando inviável dentro de um ambiente de denuncismo e criminalização aparentemente aleatória de grupos econômicos, trás uma desorganização no sistema de poder movimentado através do suborno e propinas que sempre rege sistemas capitalistas. Está se tornando inviável momentaneamente o desenvolvimento da sociedade dos grandes capitalistas nacionais, sendo que os espaços serão simplesmente ocupados por outros corruptores internacionais que mesmo corruptos estão longe das garras dos justiceiros dos tribunais.

Este sentimento de insegurança em mesmo propor uma pequena propina para acelerar um processo burocrático dentro da lei, tira a lubrificação do capitalismo no Brasil, trazendo desconforto aos “players” do mercado! Talvez este seja o motivo que justifique o inacreditável esvaziamento das manifestações no Rio de Janeiro.

A quarta razão pelo esvaziamento dos protestos da direita sobre o ataque a sociedade de Bem Estar Social através das propostas de novas legislações é um verdadeiro delírio do nosso sociólogo, que confunde os discursos dos parlamentares com a realidade do país. Primeiro o estado de Bem Estar Social no Brasil é uma verdadeira piada tanto para as classes dominantes como para os trabalhadores. As categorias mais organizadas do operariado brasileiro em nenhum momento participaram nas manifestações da direita, e devido ao acomodamento e dispersão das direções sindicais Além de discursos completamente golpistas de inúmeros dos líderes de algumas centrais que só serviram para desmobilizar. Ou seja, excetuando algumas organizações de setores mais combativos as mobilizações AINDA não tiveram uma participação efetiva de associações profissionais e sindicatos.

Além disto, nos dois extremos da pirâmide social brasileira, no extremo superior, eles não utilizam o que poderíamos chamar as organizações do estado de Bem Estar Social Brasileiro, já no extremo inferior da pirâmide a aposentadoria fora os que já estão aposentados isto não aparece como um direito tão líquido e tão certo, e os demais benefícios sociais são na maioria dos casos na população em geral subtraídos ou diminuídos.

Devido a isto, pode-se dizer que até o momento não houve uma mobilização efetiva dos setores mais organizados ou mais organizáveis, isto quer dizer que o espaço para o crescimento dos movimentos populares ainda é imenso e realizável.

Quanto à liderança de Lula ela nunca foi abalada, mesmo com tríplex, sítios e outras besteiras mediatizadas pelos justiceiros de Curitiba, sempre Lula foi e será por muito tempo uma referência política, talvez a própria desorganização do Partido dos Trabalhadores ou omissão de lideranças políticas do mesmo, permitiram uma perda de popularidade de Lula. Agora, poucos acompanham o andamento dos processos contra o ex-presidente e o único sentimento que está renascendo que este como grande parte da população está sofrendo a perseguição da polícia e do judiciário, ou seja uma raiva a estes sistemas de poder atávico.

Agora que foi feita uma crítica aos pontos elencados pelo sociólogo, resta apresentar o contraponto. Por que as manifestações foram maiores no passado e agora simplesmente desapareceram? Uma resposta correta sem partidarismos talvez explique melhor do que uma procura de causas improváveis.

O governo Lula nunca teve a mínima preocupação de educação política na população, a sua política que mais parecia uma social democracia de baixa intensidade beirando posturas assistencialistas e de caridade cristã! Em contraponto esta política era regada por dois fatores, uma tímida, porém real transferência relativa de renda aos setores do proletariado mais desorganizado, políticas públicas no setor da educação que tiveram algum impacto num número pequeno de pessoas, e um intenso culto a personalidade.

Isto tudo leva a uma compreensão distorcida dos mecanismos modificação social, coisa que era desejada pela burocracia partidária, pois uma educação política aumenta o nível de reinvindicação ultrapassando do tolerável pelas classes dominantes que de certa forma participavam na conservação do governo.

Com a eleição de Dilma, no primeiro mandato houve uma continuidade e a implementação de outros programas sociais, porém o culto a personalidade se esvaneceu não sendo mais suporte ao governo. Isto fica completamente claro pois no momento que Dilma enfrenta a fraude do processo parlamentar do Golpe ela se viu fragilizada, por atos de misoginia dos golpistas, passando surpreendentemente no momento de maior ataque um aumento de popularidade e apoio real ao seu governo coisa que lhe foi negado por uma simples falta de carisma.

As forças populares desde o início do golpe identificaram este como tal, porém de amplos setores políticos partidários aceitarão o arremedo de julgamento da presidente. Os setores populares foram mais vítimas da falta de uma liderança partidária efetiva do que qualquer coisa, com isto os setores mais na base da sociedade simplesmente se recolheram a contragosto, pois identificam tanto na polícia como no judiciário instrumentos que prolongam os braços de seus patrões.

Como o discurso de redenção da moral e dos bons costumes são claramente identificados pelas classes populares como tão reais como uma nota de R$3,00, pois os a imensa maioria deles enxergam seus patrões como indivíduos pouco honestos. Todos os fatores acima elencados são claramente vistos como consequência do golpe e são internalizados como tal, porém estas pessoas ficaram e ainda estão aguardando uma coordenação mais eficiente e com palavras de ordem simples e efetivas.

Por outro lado os setores pequenos burgueses tipo profissionais liberais, mais próximos aos grandes capitalistas, não estão vendo nenhuma vitória no desenvolvimento do atual governo. Ao mesmo tempo em que não veem vitórias na caminhada em direção a ideologias neoliberais e antinacionalistas totalmente mal conduzidas e explicadas de forma tosca e displicente pelos líderes sociais da burguesia. Além disto, as próprias capengas e ante didáticas lideranças começam a conflitar-se e dividir-se em várias correntes sem dar a mínima noção ao seus públicos porque estão brigando, tão contraditórias e primitivas as discussões que chegam ao ponto de se resumir a desaforos pessoais, levando uma desorientação completa sobre quem seguir.

O discurso de negação ao PT e Lula e demais, serve para alimentar somente durante o momento que o PT estava compartilhando o poder com as classes dominantes. Discursos negativos cansam e chegam até enojar quando a insistência aumenta e nada aparece como novidade. O próprio sentimento de desconforto causado pela má gestão do governo atual coloca no imaginário de imensos setores da classe média uma espécie de viabilidade de um novo governo do partido dos trabalhadores, pois fantasmas e mitos como Fórum de São Paulo, Forças Armadas Bolivarianas, para as pessoas normais não alucinadas, adquirem a real dimensão doença mental daqueles que as propagam.

Apesar dos três últimos belos e poéticos parágrafos do sociólogo Marcelo Zero, que com o título quer montar um complicado enredo shakespeariano, ele vaticina na sua conclusão final que “O golpe está perdido.” e não o que poucos notaram (onde eu me incluo há mais um ano) que ou o “Golpe sempre esteve perdido” ou que “A fase sem pau-de-arara do golpe foi superada”, restando eles perderem em definitivo ou tentarem a segunda fase (com pau-de-arara), que é arriscada, pois se falharem não comprometerão somente o dinheiro e o poder, mas sim o pescoço.

Exibições: 22

Responder esta

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço