PREÇOS RELATIVOS E DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Flavio Lyra(*) . Brasília, 07 de Dezembro de 2012.

No programa Conta-Corrente de hoje da rede Globo, dois economistas neoliberais deixaram subtendido que a baixa competitividade atual da indústria brasileira é resultado da pouca abertura do país ao mercado internacional. Os aludidos especialistas parecem desconhecer as estatísticas das transações comerciais do país com o exterior, que mostram claramente que estamos importando, cada vez mais, produtos industriais e acumulando déficits crescentes na balança comercial desses produtos. Ou, não consideram preocupante o risco de desindustrialização a que o país está sujeito. É realmente, lamentável que essa gente internalize a visão ideológica das grandes corporações privadas internacionais e tente vendê-la a nossos compatriotas como verdades teóricas irrefutáveis. Será apenas pobreza intelectual, ou vai muito além disto?

Na contramão do que pensam os aludidos sábios livrescos, defendo a tese de que o problema de nossa indústria decorre precisamente da baixa proteção frente à competição externa a que tem estado sujeita. Respondem por isto vários fatores: a insuficiência de investimentos no setor de transporte; a privatização de serviços de infraestrutura e de indústrias básicas; a redução das barreiras à importação, a política de aumento real do salário mínimo; e a política cambial que mantém o real apreciado. Com essas políticas, não foi possível ajustar-se ao mercado internacional e os preços relativos de nossa economia se alteraram em desfavor da maior parte dos produtos industriais, reduzindo a rentabilidade do capital nessas atividades e desestimulando os investimentos, tanto em instalações quanto em inovação tecnológica.

A falta de investimentos em transporte e privatização elevaram sensivelmente o preço relativo de vários insumos importantes como telecomunicações, energia e transportes. A redução das barreiras à importação e a valorização do real diminuíram as margens de lucro dificultando a competição nos mercados externo e interno. Produziu-se, assim, uma especialização perversa para a dinâmica da atividade industrial, que eliminou horizontalmente a produção de componentes, com a destruição de elos das cadeias produtivas.

É indiscutível que era necessária maior especialização industrial, pois com o avanço do processo de globalização um elevado grau de autarquia mostrava-se antieconômico e era um obstáculo a maior integração na economia internacional. A especialização desejável, porém, precisava ser planejada de modo a manter a verticalização de determinados setores e não ser entregue às forças do mercado, como acabou acontecendo. Por exemplo, a indústria de componentes no setor de material elétrico e comunicações, até então muito desenvolvida, for varrida do mapa, no final dos anos 90.

Os neoliberais só têm olhos para a competição estática entre produtos de atividades já estabelecidas e esquecem inteiramente a competição dos capitais entre setores produtivos, que de fato são os determinantes da dinâmica na atividade produtiva. Não perceberam, portanto, que as mudanças nos preços relativos contra o setor industrial tiveram três conseqüências nefastas para o desenvolvimento do país: Deslocaram os investimentos para os setores mais rentáveis, como o agronegócio, a indústria extrativa mineral, telecomunicações e o grande comércio; desestimularam a formação de capital na indústria com a esterilização da poupança interna do setor, em aplicações financeiras; e estimularam o investimento no exterior.

O surgimento da China, como grande importador de nossos produtos primários e o aumento da massa salarial estimulado pelo aumento real do salário mínimo, permitiram ofuscar durante alguns anos a debilitação a que estava exposta a indústria do país, por insuficiência de investimentos. Mesmo nos poucos anos, durante o segundo governo de Lula, em que acumulamos superávits expressivos na balança comercial, não cessou o processo de deterioração da competitividade da indústria, por falta de investimento.

Cabe reconhecer que, especialmente durante o segundo governo de Lula, houve uma retomada do investimento na indústria, graças à atuação do BNDES, mas quantitativamente aquém do que seria necessário para relançar a economia brasileira num novo ciclo de desenvolvimento.

Com o agravamento da crise mundial a partir de 2008, ficou inteiramente evidente a situação de fragilidade competitiva do parque industrial brasileiro e de sua baixa capacidade de reagir frente às mudanças na política econômica dos Estados Unidos e dos países centrais, que buscam sair da recessão e reequilibrar suas contas externas inundando a economia mundial com farta emissão de moeda. O resultado desta política de expansão monetária é o agravamento da já insustentável situação de apreciação da moeda nacional e da perda de competitividade da produção industrial.

A política econômica do atual governo vem atuando na direção correta de aumentar a rentabilidade relativa dos investimentos no setor industrial, seja reduzindo os custos relativos da produção industrial, seja permitindo o aumento dos preços relativos da produção industrial: Destacam-se nesse sentido: o aumento das tarifas de importação e as isenções de impostos para vários produtos; a redução da taxa de juros básica, que desestimula as aplicações financeiras; a retomada dos investimentos públicos e privados na infraestrutura; a redução da margem de lucro dos concessionários de serviços de infraestrutura; a redução dos preços da energia; a redução da taxa de juros dos empréstimos a longo-prazo e o aumento da capacidade de financiamento do BNDES.

Persiste, entretanto, a forte pressão que a apreciação do real exerce sobre a competitividade dos produtos industriais, estimulando as importações e desestimulando as exportações. As ações que o governo adotou para desestimular as entradas de capital estrangeiro produziram, até agora, efeito limitado sobre a desvalorização do real.

Diante da ameaça real de intensificação do processo inflacionário o governo tem sido cauteloso no que toca a correção da apreciação do real. O retorno de taxas mais altas de inflação é temido, tanto pelo impacto desestabilizante geral do quadro econômico, quanto por seu efeito direto sobre o poder de compra dos salários. Este último aspecto, profundamente indesejável em relação às mudanças positivas alcançadas em matéria de melhora na distribuição da renda, pois impactaria diretamente sobre a base política do governo, a classe trabalhadora.

Os crescentes déficits na conta corrente do balanço de pagamentos, decorrentes da debilidade da indústria para exportar e competir no mercado interno são cada vez mais preocupantes. A esperança de corrigir o problema mais frente com o aumento das exportações de petróleo, com a entrada em atividade do Pre-sal, em vez de uma solução pode vir a constituir-se num problema adicional em relação ao setor industrial. O aumento da disponibilidade de moeda estrangeira pode equilibrar as contas externas, mas mantidos os preços relativos atuais, com o real apreciado, não haverá estímulo para a retomada necessária dos investimentos industriais.

As ações que o governo tem adotado até agora para melhorar os preços relativos em favor da indústria podem não ser suficientes e não haver alternativa que aumentar a proteção da atividade industrial, mediante a combinação entre desvalorização do real e aumento das barreiras a importação. Esta, certamente, é uma alternativa abominada pelo pensamento neoliberal, que acredita que só maior abertura ao mercado internacional de bens e de capitais vai ajudar à retomada do crescimento. Esta visão, simplesmente, ignora que o mundo está em recessão e que por vários anos, ainda, o comércio internacional de produtos industriais poderá manter-se estagnado.

(*) Economista. Cursou doutorado de economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.

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Respostas a este tópico

Flávio.

Vou fazer uma crítica ao crítico dos críticos! Tanto eles como tu mesmo esqueceram de um fator que acho mais importante do que todos acima elencados, a falta de desenvolvimento de tecnologia autóctone no Brasil.

Não adianta termos tudo que falaste se não tivermos desenvolvimento próprio de uma indústria brasileira, talvez o pior que Fernando Henrique fez em termos de legislação, foi a modificação do conceito de Indústria Nacional, e vejo, me desculpe pelo termo, esta miopia característica de economistas e administradores que não enxergam a diferença entre produção no país e produção genuinamente nacional.

Durante os últimos 70 anos, após a criação da Siderúrgica Nacional e a Petrobrás por Vargas, não vi nenhum movimento nesta direção.

Porém este processo de criação de uma indústria nacional, passa necessariamente por um item que tanto os teóricos de direita como os de esquerda esquecem, o básico do básico, a educação pública do primeiro e segundo grau universalizada e de bom nível, sem este pré-requisito ficaremos mais quinhentos anos na dependência.

Parece uma consideração um pouco simplista, mas se compararmos países industrializados no passado e no presente veremos claramente que a única coisa em comum ao processo de industrialização foi a criação de um ensino público de bom nível, ensino público oficial como o Prussiano, ou mesmo o comunitário como o norte-americano.

Num país de analfabetos funcionais, não é possível ter uma indústria competitiva, o resto é consequência disto tudo.

Chamo a atenção disto, pois idéias desenvolvimentistas ou neo-liberais minimizam a importância da educação, eu posso dizer com segurança, se houvesse um investimento público maciço em educação, poderíamos continuar por uma década desindustrializados, porém depois desta década, com algum estímulo, mesmo que marginal a indústria, retomaríamos a industrialização em outro patamar, este sim sustentável!

Flávio.

Olhe com cuidado o que escrevi sobre a data de 27 de outubro de 1717, tem provocações explícitas no texto, para tirar o mecanicismo da cabeça de muitos, mas deixando de lado as provocações vai de encontro ao que falei.

Rogério: O que busquei salientar no artigo é que sem preços relativos que favoreçam a indústria, os capitais privados não vão se dirigir para ela, pois não será rentável.Quanto à necessidade de desenvolver tecnologia e de melhorar a qualidade da mão-de-obra estamos de acordo. 

Flávio.

Me desculpe, mas sem educação não haverá nunca indústria no Brasil. Não adianta redirecionar capitais para um ou outro setor, país sem educação é país de baixa produtividade e com o aumento na informatização e robotização do processo produtivo, qualquer outro custo se torna marginal.

É só levantares o custo de produção de países europeus, se somarmos mão de obra (unitária),  impostos e outros custos que denominam impropriamente "Custo Brasil", veremos que a produtividade do nosso assalariado é baixo exatamente pela falta de educação.

Não falo como um acadêmico de curso tecnológico que pensa ser o incremento a projetos de P&D como a grande falta no Brasil, o que nos falta mesmo é educação básica.

Tenho notado nos últimos tempos, com o aquecimento da economia e a diminuição do desemprego que levas de brasileiros que estavam fora do mercado de trabalho estão ingressando nele. E o mais notável de tudo é o despreparo para atividades básicas no setor de serviços (que tenho maior contato), se transladarmos isto para a indústria veremos que isto é o CAOS.

Noutro setor que conheço mais, o setor de construção civil é mais flagrante este problema, com a falta de mão de obra, apesar dos salários estarem subindo, não há uma resposta no aumento de produtividade, simplesmente porque sofisticam-se os métodos de produção (resultado lógico para o aumento do custo de mão de obra), mas simplesmente não há profissionais para a área.

Outro exemplo, no polo naval que está se desenvolvendo aqui no Rio Grande do Sul, soldadores estão sendo transportados de estados a mais de 2000km pois no Rio Grande do Sul não tem mão de obra especializada.

Precisamos de ALFABETIZAÇÃO correta, para não bloquearmos o nosso desenvolvimento e continuarmos o aumento da massa salarial.

Mais um outro exemplo, algumas empresas de calçados, migraram do RGS ao nordeste atrás de mão de obra barata e isenções fiscais, pois mesmo com isto estão fechando suas fábricas por problemas de inadequação de mão de obra.

Temos que começar a olhar a produção não só sob um ponto de vista de mero capital, temos que olhar a produção como um processo orgânico em que diversos fatores sociais e culturais pesam muito. Devemos parar com a visão meramente contábil e voltar a ter uma visão ECONÔMICA.

Rogério: Estou de acordo contigo,  educação é fundamental para aumentar a produtividade. Mas, sem mudar o tipo de relação comercial e financeira que vimos mantendo com o exterior e deixando que o "livre mercado" determine qual será nossa estrutura produtiva vamos acabar produzindo somente minério de ferro e soja e não vamos ter mesmo necessidade de mão-de-obra qualificada. Meu texto é sobre uma condição necessária, embora não suficiente.

Abração.

Flávio.

Talvez a minha ênfase educação tenha deixado uma impressão errada quanto a meu repúdio a falácia que é o "livre mercado", não é isto. O que quis dizer que qualquer movimento para a defesa da indústria nacional, esbarra na inexistência de uma mão de obra qualificada.

Rogério: Acho fundamental melhorar a educação no Brasil. Mas, se oferta de mão de obra qualificada fosse a solução a Europa não estaria em crise. A primavera árabe foi produzida pela juventude instruída e por gente com curso universitário que não tem onde trabalhar. Na Espanha 40% dos jovens com boa formação não têm trabalho. O discurso de falta de mão de obra qualificada para justificar a estagnação industrial muitas vezes é conversa de empresário que explora os trabalhadores e usa a poupança acumulada para comprar títulos do tesouro ou mandar dinheiro para paraísos fiscais. Isto, em vez de investir na própria indústria, inclusive na formação e treinamento de pessoal.

Flávio

São dois casos bem distintos. Entretanto podemos tentar trazer para uma realidade comum. Onde há uma ênfase na produção industrial a crise não é da mesma forma da onde se abriu mão da indústria. Mas o ponto básico, que chamei atenção na minha primeira crítica é a falta de mão de obra qualificada que no estágio atual da economia brasileira, também critico a direção que está tomando a Europa, que procurou num processo de abertura de mercado transferir parte de sua indústria para os países periféricos, imaginando que o setor de serviços absorveria todo o excedente da força de trabalho.

Eu tenho uma visão um pouco diferente do jogo, e resultado do mesmo, que os países do ex-primeiro mundo fez em termos de redistribuição da produção em todo o mundo.

Não diria com toda a certeza que a Europa tenha se preparado em termos de qualificação de mão de obra para a especificidade com que ela pensava em conservar seu status. Mas isto é um longo assunto que não caberia aqui como comentário.

Rogério: No geral, estamos de acordo.

Rogério,

Você quase disse o que realmente é necessário, chegou muito próximo. Veja, não basta que se dê auxilio a inteligência e ao conhecimento nacional como se tem feito nos últimos 70 anos, é preciso imprimir no senso acadêmico a ideia de criatividade e agressividade positiva, seja, criar e mostrar a necessidade da criação, para que os consumidores tenham possibilidades de real melhorias. Se não, vamos ficar na mesmice das reservas de mercado, que apenas favorece alguns amigos do rei e o povo fica pagando uma conta para enriquecimentos de poucos e promoção do atraso.

Neste caso, compete ao Governo apontar tendências, indicar caminho, desobstruir as veredas, e promover a credibilidade de nossas instituições. Claro que ainda não temos a cultura do crer em nós, mas é preciso criá-la, sem o que vamos sempre correr atras dos que agem assim.

Claro, que também se faz necessário, pararmos com esse discurso retórico e tendencioso como o que faz o post do Flavio. Precisamos todos trabalhar pelo bem do país, sem importar com quem está fazendo. Se a ideia é boa para o pais, não importa a ideologia, de quem a teve, isto é provinciano de improdutivo, é preciso crer mais no indivíduo e em sua capacidade ao invés de criar comissões e favores.

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