Leem-se todo dia reportagens bipolares sobre a violência no Brasil, um dia sobre a impunidade dos bandidos, no outro sobre a violência da polícia. Qual seria a origem disto?

Talvez se tenha que buscar no passado e nos dias de hoje a origem de tudo isto, e responsabilizar tanto a “bandidagem” como a polícia é retirar da população brasileira a responsabilidade de tudo isto.

No passado era tudo mais simples, existiam de um lado os cidadãos de bem e do outro lado os outros. Que eram cidadãos de bem? Também é simples esta resposta, eram pessoas que tinham consciência da cidadania e conseguiam garantir seus direitos, poderíamos até dizer simplesmente, eram pessoas que possuíam o direito de voto. Talvez já se tenha perdido a memória, mas voto universal é algo recente, no Brasil Colônia votavam somente os “homens bons”, ou seja, pessoas de famílias endinheiradas, proprietários de escravos e só os homens. Com o Brasil Império mudou muito pouco, precisava ser homem livre e ganhar a partir de determinado valor, no fim do império a restrição dos rendimentos foi eliminada levando a que 1,5% da população brasileira pudesse votar. Com o início da República quase não mudou nada, as mulheres só foram ganhar direito ao voto em 1935 e os analfabetos em 1988, como os analfabetos eram mais de 50% até 1950, até esta data só 50% tinha direito de votar.

Em resumo, somente em 1988, 100% dos adultos brasileiros foram ganhar o direito ao voto, lembre-se que até 1932 os votos não eram secretos e com isto um empregado que votasse contra o patrão poderia simplesmente perder seu emprego.

O voto configura o cidadão e como quem não é cidadão não tem os seus direitos garantidos pode-se dizer que grande parte da população brasileira era tratada como não cidadão até pouco tempo. Estas pessoas que ocupavam os estratos mais desfavorecidos da população brasileira eram contidos socialmente através da polícia, ou até se pode dizer, como não havia saúde pública generalizada, como não existia ensino público para todos, como o saneamento básico também era mínimo o único contato que o Estado Brasileiro tinha com grande parte da sociedade era através da polícia. Esta tinha atividades mais diversas de repressão, como por exemplo, até as décadas de 30 e 40 as religiões afro-brasileiras eram perseguidas pela polícia, tanto as religiões como a capoeira, sendo estes tomados como feiticeiros ou marginais.

Em 1964 a repressão muda de direção, ela serve diretamente no combate explícito de qualquer movimento popular, e esta repressão veladamente é aprovada pelos remanescentes dos “bons homens” do Brasil Colônia. Um prisioneiro comum ser torturado pela polícia era um fato corrente até trinta anos atrás, mesmo após a democratização.

Com o desenvolvimento dos movimentos de direitos humanos, torturas explícitas e públicas a suspeitos de crimes vai diminuindo ano a ano, porém as condições dos presídios brasileiros, verdadeiros resquícios de prisões medievais, confirma que ainda se está longe de um Estado para todos.

A falta de pudor da imprensa brasileira, que expunha suspeitos de baixo nível de renda ao ridículo, vem diminuindo a cada dia, mas quando se mata uma pessoa por dia nas nossas favelas se acha muito natural, entretanto quando um representante dos “bons homens” é morto num ato de um criminoso qualquer saem para as ruas grupos vestidos de branco pedindo paz e segurança.

Estamos na presença de dois movimentos inversos, o sentido de cidadania que aumenta a cada dia na população em geral, e o medo que se alastra por todos os descendentes dos “bons homens” que muitos no fundo se sua mente ainda gostaria de uma polícia com seu próprio arbítrio “pedalasse” na porta de qualquer comunidade popular a busca de suspeitos de crimes.

Enquanto não houver a conciliação entre o direito da maioria com o fim do sentido de “bom homem” em toda a sociedade a polícia ficará entre a cruz e a espada, ou reprime sem grandes preocupações com as leis tornando-se arbitrária e truculenta ou segue conceitos de direitos universais e é taxada de leniente ineficiente.

Ainda teremos mais muitos anos para tornar o Brasil um país civilizado.

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