Retrospectivando, parei um pouco na varanda e olhei pro meu fusca-bala branco e limpinho. Pensei onde poderíamos nos sujar neste domingo. Qual mini estradinha vicinal mineira, entre pedras, poeira, solavancos e sopapos no assoalho estaria nos esperando?

Memorizei as conhecidas e voltei pra dentro de casa.

 

Lembrando de uma que é puro areioão, daquelas que a gente precisa passar de pé embaixo, chamei a cachorrada, peguei meu aipódi, meu canivete de magaiver e vesti uma bermuda mais velha ainda.

A Serra da Canastra é linda!

Ao ir subindo, é possível antever a visão maravilhosa que teremos lá de cima, e, claro, a vontade de voar que vai dar quando olharmos pra baixo.

 

Fora eu o Euclides da Cunha, saberia descrever com riquezas de detalhes o tipo de solo, que variedades botânicas avistaria veria nos rasantes que iria dar. Mas, como não sou, o detalhamento fica por conta das imagens existentes na Internet. Googlou, achou.

No meio do passeio, desci do carro. Sentei na melhor pedra achada bem no topo de um morro. Ajeitando os fones, liguei o ipod.

 

Respirei fundo o vento que ventava manso e esperei pelo áudio que iria me surpreender (o meu é daqueles piquititinhos que não tem visor nenhum, cada apertada no controle é uma surpresa).

Sorte grande!!! A faixa era “Deep Song” de um CD do Vince Mendoza, um arranjador e compositor deslumbrante, cria do Claus Ogerman.

 

Cordas afinadíssimas, ralentando, aquela massa colorida, o arco do contra-baixo chamando as violas e violinos para respirar junto.

E eu voando, as asas estendidas, planando, os olhos de um lado pro outro, indeciso entre tanta beleza, tanta magnitude...

 

Lá de cima, via 4 manchas pequenas pelo verde desta época de chuvas correndo de um lado pro outro. Três brancas e uma preta. Ao longe entre as cordas e o ruído do vento, ouvia os latidos de excitação que só a liberdade total nos faz todos latir.

Quando ia passando por uma garganta de pedras brilhando, só pra resfrescar minhas penas, torci um pouco o corpo e desviei pra mais perto da espuma de uma cachoeira alta.

 

A existência nos surpreende sempre, sem mais nem menos reinauguram a gente por dentro. Exatamente no momento do geladinho nas minhas asas, em sincronismo, suavemente, surgiu o sax do Michel Brecker.

Curvei a costas em arco e subi direto pro sol. O ar leve me levava mais pro alto da paisagem. Até que perdi a sustentação, mergulhei. Em uníssono, cordas e piano num tempo lento, tempo de vôo, solto, livre.

Ao longe, apareceu uma pequena fila de uns carros. Vinham devagar. A pintura brilhando. Apontei meu vôo pra terra, abri as asas freando, desliguei o aipódi e pousei na pedra.

O primeiro Jeep inglês parou na minha frente. Um rosto vermelho e o cabelo loiro do motorista saíram pela janela. Lá dentro tinha uma mulher.

- Estamos longe da cidade??? Um companheiro nosso capotou, precisa de socorro. Machucou um pouco.

Indiquei o caminho, avisei do areião, esperei todos passarem, todos com suas esposas maquiadas, chamei os cachorros e liguei o carro.

Voltei por onde eles tinham vindo.

Parei numa fazendinha que tinha um trator velho. O homem me ouviu e arrastou as chinelas pra dentro de casa. Avisou pros cômodos da casinha branca.

- Vô ali, já volto!
Saiu e foi pro trator.

- Espero o senhor lá.

Saí na frente, apressado, os meus companheiros sacudindo de um lado pro outro.

Subi, desci, derrapei, quase bati no barranco. Ia pensando “Será que foi grave? Não, senão os amigos ficariam com eles...”

Depois de um riacho lindo numa grotinha de sombras, ao subir, deparei com o carro, tombado e com duas rodas no ar.

 

Buzinei no meio do pó e encostei.

De trás do carro saiu um sujeito vestido à la rambo, e me perguntou.

- Que foi?

O roteiro estava estranho, eu é que deveria perguntar o que foi.

- Vim ver se precisavam de ajuda...

Apareceu um segundo sujeito. Seu braço estava um pouco arranhado. Falava pelo celular e fez sinal preu esperar. Desligou.

- Pode ficar sossegado, acabei de falar com o 0800 do seguro. A minha cobertura prevê helicóptero desde de Ribeirão Preto. Eles vão chegar logo. Não se preocupe. E se voltar pra cidade, avise os nossos companheiros, por favor.

Tentei entender melhor e desisti.

- Acho melhor você mesmo ligar pra eles. Só uma pergunta: de onde e quando saíram pra viajar?

- Sexta de noite, de São Paulo.

Fiz a manobra e desci passando de volta pelo riacho das árvores de sombra.

Coloquei os fones e liguei o aipódi.

Devagar, voltei pra minha pedra.

No caminho, avisei ao homem do trator que ele podia voltar pro seu domingo, eu voltaria pro meu.

Antes de alçar vôo de volta, me lembrei que um helicóptero viria lá dos lados da represa.

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