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Neste final de semana quando as vinte maiores economias do planeta se reuniram para analisar e apontar caminhos para os grandes negócios intermediados pelos chefes de estado, no Brasil uma gigantesca contradição cai sobre nossas cabeças – o reconhecimento pela Unesco do Sítio Arqueológico Cais do Valongo (RJ) como Patrimônio Mundial na categoria “locais de memória e sofrimento”, ao mesmo tempo em que nos preparamos para outra vergonha nacional que cairá da mesma forma, a saber, as chamadas reformas “trabalhistas” e “previdenciárias”.

Tem sido demasiadamente difícil trabalhar num instrumento de expressão, temas múltiplos que nos conduza a uma conclusão estarrecedora com a em pauta. A paciência do receptor anda baixa, mesmo com as mais bem intencionadas iniciativas. Sei o risco que corro nesta insólita segunda-feira 10 de dezembro de 2017. É o recomeço do fim.

O Sitio arqueológico, que teve impulso por coincidência ou extrema boa vontade dos pesquisadores na gestão da ministra da Cultura Ana de Holanda, ensejou descobrir ali o tesouro histórico, reabrindo a ferida centenária diante de nossos olhos, justamente quando o estado é assaltado por gestores não tão diferentes dos traficantes de escravos quando começou essa dolorosa jornada registrada na ilustração (acima e abaixo). Falo do Estado em frangalhos, que sobre ele pretende-se criar novo estado com novo piso, sepultando anos de lutas e sofrimento. A semelhança de se jogar pedras e cimento sobre o passado não encerra apenas a metáfora, atinge a dignidade da Nação em construção. A tevê ainda ontem à noite, mostrava um esqueleto (ou seriam vários) nas escavações de 2011. E ai, vai ficar assim mesmo, apenas olhar curioso? E a atualidade não revela tamanho escárnio?

Também neste final de semana, num desses programas semanais, um jornalista (?) do Valor Econômico, que deixou a barba rala crescer para dar um pouco de credibilidade as sandices que profere, dizia candidamente, como se fosse algo também reconhecido por um organismo internacional, que as “necessárias reformas trabalhista e previdenciária” serão votadas e concluídas e somente então o presidente será afastado. Ainda ontem à noite, um conhecido larápio colunista, hoje residindo em Veneza, falou dos estúdios de Manhattan Connection em Nova Iorque que nesta semana “vai sair à condenação de Lula” e segundo ele “será um divisor de águas na política nacional”. Será que para manter o mínimo de dignidade um jornalista não deveria dizer que nesta semana deve sair à sentença que pode condenar o ex-presidente?

 

Será que já atingimos um grau de mau-caratismo e insensatez pouco importando o que pensam ou são os adversários? É esse o estado que esse jornalismo vândalo pretende criar? Tratar quem pensa diferente como inimigo? Voltaremos à época da escravatura, dos maus tratos, dos julgamentos sumários e dos enforcamentos em praça pública? Aqui de onde produzo esse modesto texto tem uma praça, paradoxalmente denominada Independência, que durante o Império foi conhecida como Praça dos Enforcados. Um negro ali pendurado serviu de troféu para os mandões.

Sei dos riscos que se corre ao tratar num só texto vários pequenos temas, por essa razão encerro dizendo: retornei há pouco tempo para Araraquara, onde estão sepultados meus pais e alguns dos mais brilhantes amigos (Luis Antonio Martinez Correa, Walace Valentin Leal Rodrigues e José Roberto Arantes de Almeida e Rodolpho Telarolli – esse cremado); aqui se celebraria (?) neste 2017 dois séculos da fundação da cidade. Voltei para concluir um trabalho inacabado de algumas décadas. Não só por isso, porque também por conta do maremoto político e institucional que se abateu sobre o Brasil nos últimos tempos, e também porque a cidade é governada desde janeiro último por um ex-ministro de Dilma, alvo da voracidade da imprensa local e nacional até o voto final de Gilmar Mendes. Imaginei que aqui poderíamos transformar esse refugio num modelo de resistência e colaboração entre todas as forças progressistas, especialmente no campo da cultura. Espaço tem aos montes, o que tudo indica falta é compreensão da miséria em que nos metemos, nesses duzentos anos de independência e República. A vasta assessoria que em tese ajudaria o prefeito a dar luz a essa contraposição não passa de um grupo de escoteiros eufóricos e confortados com os próprios salários nos cargos de confiança. Quanto ao prefeito não ouso dizer nada, até porque a ele não tive acesso, mesmo nos chamando um ao outro pelo primeiro nome. Não estou nem ai com isso.

Concluindo: não são duzentos anos de história dos Campos de Aracoara (antigo nome pela qual a região era conhecida) e sim dois séculos de história do Brasil, que pressupõe os anos que ainda pertencia ao jugo português, e as terras devolutas, virgens aqui existentes deveriam e foram dividas entre os comparsas dos aristocratas de então.

Jair Antonio Alves - dramaturgo

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