REFLEXÃO FEMININA

     Sabendo-me mulher, feminina, com ares de menina. Longe de ser carente... presente, independente e envolvente. Educada rigidamente para servir amando, entre mulheres fortes demais para se libertarem sem culpa. Que me perdoem as feministas, nossa independência não passa de uma prisão de segurança máxima.

     No discurso da igualdade, nos esquecemos de que biologicamente e psiquicamente somos diferentes. Sentimos, pensamos, falamos e agimos diversamente. Habilidades próprias, natureza enraizada. Negar a diferença seria como negar a essência. Instalar conflitos, não se permitindo Ser.

      Nos momentos de reflexão e cansaço, onde a sobrecarga deixa vir à tona a fragilidade, questiono e investigo as perdas e ganhos que tivemos.

     Perdas de identidade, submersas à ausência de afeto. De um lado, uma mulher plural que assume responsabilidades e deveres e acumula afazeres, dores e solidão. Do outro, homens também perdidos, antes mantenedores, senhores rígidos. Hoje, imersos em uma desordem de sentimentos. Tão confusos, que nem ao mesmo percebem a importância vital que têm na vida de uma mulher.

   Maturidade adormecida de ambos, que perderam o sentindo do relacionamento como aprendizado e crescimento mútuo.

    Nossas diferenças não deveriam nos servir de campos de batalha. Vivemos como se estivéssemos disputando espaço em um mundo onde existe o suficiente para todos. Ao romper um relacionamento, não deveríamos sentir ódio por quem tanto nos ensinou, afinal, que nos aponta defeitos, pode também nos proporcionar a evolução. São laços que criamos e, ao rompê-los poderíamos sair fortalecidos, na certeza de que fizemos nossa parte.

     Tenho consciência de que nada disso é muito fácil, aliás, sei o quanto é difícil, mas se abandonássemos as certezas e verdades que pensamos possuir, nos desarmando, permitindo-nos que a autenticidade, com serenidade e discernimento, tome posse de nossos sentimentos, poderíamos viver melhor e em harmonia, não desejando ser o que não somos, não acumulando mágoas desnecessárias. Uma utopia de amor, uma ilusão que me vincula a esperança de que chegará o dia em que, mais do que diferenças, seremos a soma, a totalidade e, que a sensatez nos permitirá ir de encontro ao outro destituídos de armaduras internas que nada acrescentam.

                              

                              

                

Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 08/03/2010
Código do texto: T2126383

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Respostas a este tópico

Um texto realmente muito interessante. Parabéns à autora. No meu portal São Carlos em Rede também fiz uma homenagem de própria pena para a mulher. Feliz dia para todas elas!
Wanderlúcia, Wanderlúcia, cuidado com as outras meninas, se elas não gostarem vem chumbo grosso. Eu nem vou dizer se gostei ou não para não alertar os gansos.

Melhor, vou dizer algo, não gostei tá muito feminista.
Não me considero só feminista meu amigo, sou feminina!
Mulher... trabalho, sou casada, tenho três filhos e faço tudo com muito carinho.
Só questiono, e há algum tempo... entre perdas e ganhos, o que "eu" não gostaria de ter perdido!
Cada um pensa a seu modo, assim como existirão pessoas que não apreciarão o texto, outras poderão refletir sobre o mesmo...
Só gostaria de que você desenvolvesse qual seria a alternativa... Você nao está propondo a volta atrás, está? Ficar dependente de um homem, nao poder resolver a própria vida... E antes havia menos solidao? Só nos retratos.
Se tivesse soluções, não estaria levantando questões. Tenho experiência suficiente e necessária para escrever e pensar sobre o tema, o que não quer dizer que pregue verdades. Não acredito em ninguém que se julgue dono da verdade.
Não sou uma pessoa que viva de nostalgia e saudades...só se me proporcionaram aprendizado e alegria.
Sou uma mulher independente, desde muito cedo, e sei o que falo quando digo que acumulamos funções. Falo e escrevo de mim, para mim... sou minha própria leitora e, se por acaso, passei a idéia de querer retroagir ao passado... me desculpe, é um equívoco.
Tenho valores e "convicções"( que com o aprendizado vou modificando), que fazem parte da minha história associada a história do mundo que sempre acompanho buscando evoluir. Nunca estivemos tão sozinhos!
Penso que citei algumas alternativas no texto...
Nunca estivemos tao sozinhas? Tem certeza? Antes uma mulher que vivia mal com o marido, às vezes até apanhava, etc., nem ao menos podia se separar... Solidao nao é viver sozinha, solidao é nao ter como se garantir a autonomia, nem amparo...
Cada um responde por suas experiências e vivências!
E quando digo que nunca estivemos tão sozinhos, não me refiro somente às mulheres.
Amparar para mim é sinônimo de cuidar...
Visao meio individualista... E nao creio que seja esse o amparo que as mulheres precisam, por que, e sobretudo por quem, deveriam ser "cuidadas"? A gente cuida de crianças, enfermos e outros despossuídos. Acho absolutamente minorizante achar que mulheres devam ser cuidadas.

Amparo, no sentido de que falei, é legislação favorável, ou pelo menos nao impeditiva (mulheres eram consideradas menores, sabia disso, até os anos 60... nao podiam abandonar o lar, ou perdiam o direito aos filhos... e outras "coisitas" mais); é possibilidade econômica, possibilidade de ter emprego e estudar; é a possibilidade de decidir se quer ou nao filhos; é uma cultura menos anti-feminina, menos hipócrita (sabia que em pleno ano de 1968, no banheiro masculino da Fac. de Economia da UFRJ havia uma lista de todas as mulheres da faculdade que "davam"?).

Você parece bem jovem. Acho que nao tem idéia de como as coisas eram antes. Ainda falta muita coisa, sobretudo que as próprias mulheres exijam dos seus companheiros que partilhem as tarefas do lar e da educação dos filhos, que parem de se submeter apenas ao desejo deles. Mas viva o que foi conseguido!
Aliás, sob o aspecto "cultural" do caso, veja o tópico de nossa amiga Vera das Alterosas no blog-mae hoje: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/08/as-mul-heres-nos-...
Minha cara...
Apesar da pouca idade, nem tão pouca assim, sou uma pessoa instruída e politicamente envolvida em questões históricas do nosso país. Leio muito e acompanho a evolução do feminismo com bastante interesse, inclusive estudando e desenvolvendo pesquisas relacionadas ao tema.
As mulheres, você disse bem, eram consideradas menores, hoje, a realidade é outra e, aprendemos com o passado, não há como revivê-lo e transformá-lo , a não ser que os discursos radicais e os lamentos históricos possam ser substituídos por ações efetivas e diálogos permanentes.
Não sou e nunca fui individualista, só que penso ser perda de tempo ficar levantando questões que não favorecem a proximidade, mas, rerforçam as diferenças e as dificuldades, que já são tantas entre homens e mulheres.
Talvez a minha geração, saiba mais do que você pensa, porque aprendemos com os erros e acertos do passado.
Só agimos de forma diferente, com uma consciência diferente, o que não quer dizer que aceitamos à submissão.
Bom... para mim a discussão está encerrada!
Possivelmente, vc já tenha lido, e se não leu, está aí a sugestão:

1968, O que fizemos de nós(Zuenir Ventura)
Deslocamentos do feminino( Maria Rita Kehl)
Amor Paixão feminina( Malvine Zalcberg)

Procure não julgar as pessoas antes de conhecê-las... eis um grande aprendizado... com respeito a sua opinião...obrigada pela contribuição
Bom, nao creio que tenha feito nenhum "julgamento" de ninguém, apenas feito algumas contraposições ao que você escreveu. Tb nao acho muito democrático dizer "discussao encerrada", mas Ok. Realmente nesse tom nao vale a pena.
Ser feminista sem abdicar de ser feminina, esta é a charada, não é isto Wanderlúcia?
um caminho que não é simples, ainda mais nos dias de hoje.
ser mulher, jamais governanta.
ser fêmea, sem ser subjugada.
ser profissional, ser dirigente,
ser mãe, não ser escrava.
ser plena. inteira. ser mulher.
parceira. somar. um e uma!

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