Resenhas do Cárcere - Variações sobre um tema de Emilio Oliver

A respeito do post do “yanque go home”, como o chama Paulão K, sobre mobílias e vozes do além, por coincidência recebi uma mensagem miasmática, psicoberrada. Talvez faça parceria com a poesia de Donne (às avessas) e receba a necessária purificação.

Pronto, ganhei a minha própria tia Zulmira, ou melhor, tá mais pra primo Altamirando.
Pois a priminha cyberpresidiária resolveu me usar como mula pra suas (delas) elucubrações carcerárias, e não é que na Colonia Temporal Delta-Kappa-Zeta 171 existe vida inteligente? Parece que sim, pelos relatos contradandeados via ondas hipercondensadas enviadas durante uma transmissão de um telefoto de Osama Bin Laden com um furo na testa. Após degravação e decodificação, descobri que zezita via de regra tá metida com tráfico de resenhas literárias.

Trambique, podem crer. Arrumaram por lá uma leitora voraz especialista em leitura dinâmica, tão dinâmica que não lê os livros, só os títulos, e pelos títulos resenha os conteúdos. Fantástico? Só lendo pra crer; e confesso que pelo que li até que a resenhista leva jeito, apesar de certas licenças poéticas e chutes pro mato. Pra aquela turma que não lê nem cartaz de “proibido fumar”; ler resenhas de alta literatura universal, mesmo um tanto “adaptadas”, já é um avanço, né?

E como naquele antro seria impossível produzir um “Memórias do Cárcere”, pela simples razão de que o alambique de cachaça antariana que mantêm por lá impede qualquer esboço de memória coerente e inteligível, achei melhor denominar “Resenhas do Cárcere” ou “Pobres Resenhados”
...

Enfim, taí, se não publicar a desclassificada ameaça reescrever Corpus Hermeticum somente utilizando notas de rodapé e diagramas betanuméricos. Melhor não corrermos esse risco.

Então lá vão as resenhas. Perdão pra quem leu os livros... além dos títulos.



As Pupilas do Senhor Reitor

Reitor da Universidade de Altos Estudos Cosmoproctológicos de Sri Lanka decide participar como voluntário no experimento da equipe kraicos de investigações surfimetaquímicas, em duplo propósito de encorajar a curiosidade dos jovens no caminho das aventuras cogniscientes e também e principalmente porque Kiri Te Kanalhi, o pequeno príncipe srilankino fazia parte da intrépida trupe. Sendo escopo do projeto a comprovação científica da tese “Pimenta nos Olhos dos Outros é Colírio”, manipularam, no laboratório-cozinha da universidade, extrato composto de essências de dedo-de-moça, malagueta, corisco, do reino, fura-cueca, verde-diabo e a-que-matou-o-provador-real; componentes esses diluidos em solução do destilado de cana denominado “amansa sogra” (com o teor corrosivo atenuado mediante dose concentrada de curare e estricnina), decantado em filtro de malha 0,785 microns e encapsulado sob forma de colírio-spray; produto esse que foi aplicado mediante borrifação contínua a intervalos regulares de dez minutos no interior dos globos oculares do intrépido reitor, patrono da ilimitada inventividade da mocidade alegre srilankina, sendo as reações fisiológicas imediatamente anotados em planilha de observação segundo modelo indicado pelo Conselho Internacional de Ciência e Pajelança.

Após a quinta aplicação, os observadores observaram e anotaram evidências de desconforto físico, manifestado por verbalizações de baixo calão (mesmo para os padrões de Sri Lanka), abundância de lacrimação e recusa mecânica do cobai..., voluntário, em descerrar pálpebras. Dificuldade removida pelo método de imobilização total e grampos dilatadores de pálpebras.

Após a vigésima aplicação, anotadores anotaram gradual letargia por parte do voluntário, evidenciada pela diminuição do fator esperneandi, além do efeito psicopseudopatológico de inesperada inclinação política ao republicanismo migratório. À parte isso, as lágrimas haviam se alterado quimicamente para uma secreção lilás deveras fascinante.

Ao final do experimento, após as cento e quarenta e duas aplicações previstas, observou-se a alvissareira ocorrência de eliminação da miopia congênita do senhor reitor, juntamente com a eliminação das pupilas pelo fenômeno de derretimento pupilar, seguido de vaporização espontânea e evacuação de todo o subssistema ocular através da urina em tonalidades furta-cor (preservada para pós-análise laboratorial), além do imprevsito efeito colateral de liquefação do saco escrotal.

As pupilas do senhor reitor são unanimemente consideradas pela comunidade científica de Delta do Ganges a maior contribuição srilankina na área de cosmetologia paraóptica hindustânica, os participantes tendo sido recomendados para o Nobel de Filosofia Aplicada de Jericó e o senhor reitor justamente agraciado com a comenda Johannes Faber de Antimonia Autoflagelante, comenda essa que hoje exibe orgulhosamente, enquanto exibe sua tigela feita da sagrada madeira de sicôromo, no beco dos mendigos eruditos de Nova Délhi, suplicando por um punhado de arroz (com pouca pimenta, pelo amor de Gautama Sidharta).



Ulysses

Odisséia de dez anos condensados em uma só noite do jovem artista James Fenimor Joyce pelas vielas perigosas de Dublin tentando regressar ao seu lar que insiste em mudar de endereço sempre que ele tira a chave do bolso pra introduzir em fechaduras que assumem fenoformas de vaginas mandibulares estrictamordentes pulsando à introdução de gargalos de puríssimogin cana quentepra espantalhar frio sempre acometido por hordas da torcida organizada dublinense gritamolando sacandinaviamente atropelacidade as penélopes esgueirantes ruivas como cenouras lunares entretecendo teias pentagonais sob vagasbundas estrelas da ursa menor vociferando contra druidas e feiticeiras circenses melopéicas sob proteção de netunos prometéicos que nunca cumprem a palavra paidéica de velar por minha nenhuma quadripulação e onde está a minha trepulição? arrebatada pelo canto sincotrônico de sereias alheiras oferecendo fartoscheiosseios de onde borbotam e besuntam o leite da égua marinha me nos oferecendo peitosseios bocas oferecendo seus rabos à marujada cansada de guerra desabandonados ao tombo do navilho desrrumado oh meu capitão que comandou meu time na acachapada derrota para um manchester united que enviou um negro cavalheiro de tróica a trucidar virilhas esfarelentar caneleiras cabeleiras cadeiras de rodas empilhadas como ossadas paralípticas fósseis futuristas manuseografados desclassificados e joyce grita normanormanor nonorma norma namora amor amora rameira em cuja bocetinha rósea se entrearfando pelos grandes lábios palpitantes de antissêmen de onde se pode griptar cripticamente os eccos ecquusdistantas do sempitesão auricular de norma gritando enrabamecomemeucumedestroça me medicaliza com esta pica feito espada de excalibur rasgando mordendo chupando em irrompendi os sete blue véuvets de todos os tavernáculos com seus hajids bebezarrões estrepúlicos alisando coxas e nádegas de salomés penélopianas e cortando a cabeça do cacete de evangélicos pra oferecer a norma normal cortando norma pois James odeia norma deseja noras em formato carnívoro carnefrutuosa gordurosa oleosa enguia safídica de opereta norrabo de norablum musa difusa em semifusa da gozada infinira jorrando espermacetes de centrípeto ondisséquito sem idílica ilha ilídica ida nem lida nem filha na roda rosqueada que não sósse acaba nos vastos pelos públicos de eneida sóssassaricomeça sempre recomeça.



Anti-Dühring

Ensaio sob o ponto de vista germânico sobre uma questão que tira o sono dos camaradas: “Por que ocasiões anti-dühring, apesar da ternura”?
Hay que endurecerse... Pro velho Ernesto era moleza (ops, que língua...). Meses embrenhado em matagais acompanhado de bando de barbados suarentos e fedidos produz condição mais que favorável a coferir a qualquer Sancha bigoduda uma visão de Messalina voluptuosa. Maria pega o mato é hora, arriba a ssssaia e vamonús embora...”.
E quanto aos camaradas da banda de lá? Têm do que se queixar no sentido estético-formal? Rosas e Nadias e Helgas e Alexandras e Katiuskas e Olgas. A companheira do camarada-mor se chamava simplesmente Jenny von Westphalen. Tem como ser canhão com um nome desse? E essa: Nadia Kruspkaia... e outra: Natalia Sedova. Nomes que rolam na língua, deslizam no céu da boca, acariciam as cordas vocais... Kaiam na gandaia, profetas, entre tantas rosas em botão, olgas marinhas, luluzândreas salamândricas...
Entonces, Che mi viejo, refilosofar e retransformar o mundo sensível é preciso, pra buscar na pleonástica plenitude o momento do êxtase interruptus que de súbito levanta a fundamental indagação epistemológica: “O que será que será que me deu...?”. Senão, vejamos: “ ... Era a época em que, segundo a frase de Hegel, o mundo descobriu que tinha um cérebro. Em primeiro lugar, porque o cérebro humano e as conclusões a que chega com seus raciocínios se outorgam o direito de serem aceitos como base de todas as ações e de todas as relações ...”.
O maldito cérebro humano, pilha carregada de teses e antíteses e na hora da da síntese... ops, ei, caçador de mim, vais negar fogo por contra de um trauma, de uma ansiedade descontrol? Anti-Dühring, esse Mahatma Gandhi se metendo a pacificar Átila e seus hunos demoníacos logo quando a cavalgada chega ao seu ápice de rapinagem e glória. Vade retro, raquítico asceta pros outros mas não pra si. Não façam o que eu faço, só façam o que eu digo, que sobra mais pra mim. Pra cima delas (ou deles), Vladímires e Giuseppes, como ensinam Maiakovski, Brecht, Breton, Bocage, Homero, Shakespeare, Lao Tsé, Follo... Vejo Iago rondar o vosso leito, conspirar contra vosso trono, tecer intrigas na penumbra da silenciosa noite.
Liberdade e Necessidade. Liberdade da matéria, Necessidade do espírito. Portanto, camaradas, trabalhar sobre A Negação da Negação. Em outras palavras: De pé, ó vítimas do Anti-Dühring! Nada tendes a perder senão a inútil castidade”.



O Vermelho e o Negro

Aquino Paiakã de Sá e Obobo Thatodo Nu, xavante e senegalês, evadem-se da prisão estadual de Alcatrazes, localizada no litoral Norte do estado de São Paulo, onde cumpriam pena por formação de quadrilha em temporada proibida a atividades juninas, e vagam meses pela inóspita Serra do Mar acorrentados um ao outro, alimentando-se de preguiças do mato, cascas de ipê amarelo e restos de red bull dispensados das janelas de motoristas anti-ecológicos que trafegam pela Rio-Santos.
Nesta jornada, redescobrem-se seres em estreita comunhão com o meio natural, reconhecem-se entre si como bons selvagens naturalmente gregários e desenvolvem tórridos intercursos bilaterais-interraciais sob a ardência solar da América do Sul. A corrente que os prende, que de início é estorvo, prisão portátil, em certo momento passa a simbolizar, para os fugitivos, signo de compromisso, selo de pacto sacramentado por todas as divindades africanas e indígenas.
Uma densa aventura cheia de emoções e lições de vida, esta redescoberta por parte de dois “procurados”, enquanto se escondem de patrulhas rodoviárias e ludibriam trakkers munidos de parafernálias sonoras e equipamentos de sobrevivência, de que o mundo todo se resume a caminhar o caminho dos peregrinos fichados por Deus e cujo destino vai dar em nada. Em certa altura da via crúcis a dois (mais exatamente a 1250 metros do nível do mar), convencem-se de que prisioneiros estão todos os outros homens sobre a face da Terra e que somente a ambos fora concedido o dom da suprema liberdade. A maior revelação, porém, surge no instante em que descobrem, estupefatos, encantados e maravilhados, que nem se faz preciso a existência de fêmea pra fazer um homem gemer sem sentir (só no comecinho, um pouco de) dor. Libertação total dos desejos vãos, das ilusões do querer e não poder.
Quando a força-tarefa Bope os encurrala contra um abismo sem fim, com vista para a enseada de Mangaratiba, nossos bravos guerreiros exemplares em vermelho e negro se beijam com vagar, com imenso carinho, como uma relutante despedida; dão-se as mãos e se atiram pela ribanceira, ante do olhar atônito do tenente-coronel Nascimento (que pela primeira se debate numa ínfima dúvida interior: “Será assim tão booooooom”?).
Voando de mãos entrelaçadas para a viagem sem retorno rumo à batalhada liberdade, que sociedade nenhuma lhe poderá cancelar, prendem-se num olhar definitivo pleno de paixão e esperança.

Já não são Paiakã e Obobo; são Telma e Luiza.

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Respostas a este tópico

Todas as resenhas já estão no "Index Librorum Prohibitorum". nenhum direito para a desclassificada.

Quanto ao original Ulysses voltará para o Index com suas obscenas 900 e lá vai fumaça de paginas, como ficou por um bom tempo na terra do yanque go home”.


PUBLIQUE-SE, REGISTRE-SE E CUMPRA-SE.


pois então,

quase me animando a ler joyce, depois de tanto palavrão... a inspiração do irlandês pralguma coisa serve.

mas, dele, li orelhas e muita coisa sobre ele e até aprendi que caetano também é bom leitor de orelhas, mas o cara, nem sei se é esperto ou inteligente, mas que é safado, ah, isto é, capta, pelas orelhas, o espírito da coisa e...

mas não é só joyce que me anima a ler sobre ele. tem aquele outro carinha, que eu li, até que bastante, e fui teimosa, mas dele o que mais é o sobre ele, contado pelo antônio cândido. adorrrrrrro, oliver. ah, falo do bigodudo alemon... o nietzsche, lembra? claro, aqueles aforismas no crespúsculo dos deuses, são pau prá toda obra (acho que até, gabriel, o pensador -quanta ousadia!- é capaz de citar, pensando que entende...

 

ah, sim, e com você aprendo monte de coisas, sem precisar recorrer ao google. como nestas sua revisão livre de gente importante, mas mais bem compreendidas depois que morrem. não foi assim que nietzsche disse? então, queridinho, aguardemos... na irlanda até tem um concurso prá quem ler o ulisses. claro, nem tanto, né?

 

Lembrei de um historinha infame contada por um professor sobre a erudição de oitiva dos brasileiros. O exemplo foi a ponte aérea Rio/SP: cariocas falam horas a fio de um livro que não leram, afinal no Rio se instalou a "República das Letras"; paulistas são mais contidos, porque leram, mas não entenderam patavinas (palavra daqueles tempos). 

Por isso minha amiga Isabeau não lê as orelhas de Marie Claire, porque navega na web, o mar, segundo ela, das palavras soltas dos beletristas. Quem acha que biblioteca é paraíso são os castos, bruxos e vaga-bundos, gente velha e antiquada.

Flores para São Google. Ai de nós, sem o padroeiro do séc.XXI. 

 

São Google E O "DOMÍNIO PÚBLICO" (por enquanto).

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.do?selec...

 

 

Paulo,

Recebo tanta mensagem para socorrer o "domínio público" pela escassez de visitantes. Ele perde feio para a wiki e até para os blogues ou para o yahoo responde. 

Rezo também para o querido São Longuinho que pode achar coisas perdidas. Espero descobrir outro santinho para que uma outra coisa não se perca: o silêncio, único, impecável, das bibliotecas públicas. Silêncio especial, porque há uma comunicação misteriosa entre aqueles seres estranhos, às vezes ela se realiza na hora de tomar um cafezinho.  

Mas tudo é bão se a alma não é um balão, para conter o consumismo e a consumação por livros. Há sempre o risco de não ter o tempo para outros estímulos, outras flores e jardins, para o sexo, a vida encolhe, amolece, solitária.

 

domínio público?

e como este menininho vai ler?

 

Você é impossível.

Estava lendo o Blog do Além, da Carta capital. Adoro essa página. O morto que fala nessa semana é Bin Laden, "enterrado no mar".

Um dos projetos do terrorista mór seria detonar a Barra da Tijuca. Rolei de rir.

Procuro meus óculos para ler as resenhas do Liu. Viajar por Babel, sem perder a ternura diante da dureza das letras. Seja terno, enquanto duro. Tomara.

Revistas deveriam ter orelhas, para ler com o garotinho esperto do vídeo da Luz. 

As matérias de hoje me fazem duvidar até de Maio 68. 

Um beijo, Liu. De del Rio ou del Maya.

 

Da lama se registra que estão começando a cortar as orelhas até dos livros, o que causa transtornos desde consultar a micro resenha que vem explicando resumidamente o que vem escrito lá dentro (aliás bem parciais. Nunca ninguém leu orelhas recomendando: "Mal escrito, pessimamente estruturado, linguagem empolada. Nem pense em comprar, que é um lixo") até na hora de marcar a página, quando as pálpebras se cansam (significa que ou se lê o livro de cabo a rabo de uma tirada ou fica depois meia hora procurando a página onde parou). As narinas que nos perdoem, mas orelhas são fundamentais.

Bem a propósito, estamos aqui com uma orelha que nos informa: "Ceia tem parentesco com cena. Numa, se come; noutra, se representa. Para navegar na Ceia que se tem em mãos, finja ser este livro um barco e você um pescador, munido do mínimo: vara e isca, preguiça e astúcia".

Precisa mais? Precisa ler o livro? Dá pra ficar o resto da vida só lendo e relendo esta orelha. O sonho de Da Lama é aprender as nunces do orelhismo. Melhor que isso, só hai kai. 

Melhor que haicai, o twitter. 

Maravilhosa contenção.

 

pa tu, bmzim:

 

 

 

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