Revolução Socialista de 1917 (*Ou a diferença entre Stalinismo e Comunismo)


No espaço de cinco anos, a Revolução Socialista de 1917 na Rússia defrontou-se com as lutas e as conseqüências decorrentes da I Guerra Mundial, da guerra cívil, da invasão de 18 potências estrangeiras, do bloqueio econômico-financeiro das potencias coloniais, e da fome e da peste que se seguiram. O legado dessas lutas prolongadas foram a morte dos quadros mais brilhantes e abnegados do Partido Bolchevique, a destruição da quase totalidade do aparelho produtivo e, o mais, importante, o quase completo desaparecimento da classe trabalhadora, com a progressiva ascensão de uma burocracia civil e militar estatal cada vez mais poderosa, herdeira do despotismo do antigo regime feudal czarista.

Para Marx e Lênin, assim como os comunistas de modo geral, o sucesso da revolução na Rússia dependia da vitória da Revolução também no Ocidente, pois sabiam que o capitalismo era [e é] um sistema mundial, e não podia ser derrotado apenas pela ruptura de seu elo mais fraco. O projeto da Revolução Russa como estopim de uma Revolução mundial fracassou quando a Revolução no Ocidente foi logo em seguida derrotada, especialmente na Alemanha, com a traição do partido dos social-democratas, e quando o Exército revolucionário foi derrotado na Polônia. Lênin estava ciente de que a derrota da Revolução no Ocidente era um sinal de que a revolução russa estaria condenada à degeneração. Os fatos posteriores vieram lhe dar razão e ao próprio Marx.

Em seguida, as dificuldades se avolumaram, especialmente com o agravamento da doença de Lênin, vítima de dois atentados, até sua morte em 1924, por envenamento por ordem de Stalin, conforme as revelações, décadas após, de seu cozinheiro e enfermeiro. São bem conhecidas as lutas desesperadas travadas por Lênin para impedir que a direção do Partido caísse nas mãos de Stalin, considerado por ele um dirigente truculento, ignorante e inábil – nas palavras de Lênin, “um cozinheiro de molhos picantes”.

Em dezembro de 1923 e janeiro de 1924, com sua morte à vista, Lenin recomendou a seus aliados na direção do Partido que fosse providenciado o afastamento de Stálin, à vista da postura desastrada e truculenta no encaminhamento da questão das nacionalidades. Lênin defendia a independência das demais repúblicas socialistas e a associação voluntária, por parte delas, na federação soviética, enquanto Stálin vinha impondo a força essa associação, o que se constituía em maus augúrios para o futuro da Revolução.

Pode-se colocar um marco para a derrota definitiva da Revolução Russa quando da morte de Lênin em 1924 e a eleição de Stalin como Secretário-Geral. Daí em diante, com o domínio absoluto do Partido por Stálin, segue-se, em linhas gerais, a traição da Revolução Russa com a implantação draconiana de um Capitalismo de Estado, o qual, jamais pode ser confundido com o socialismo de que tratou Marx, Engels ou o próprio Lênin, e muitos outros.

O próprio expurgo stalinista do alto escalão do Partido, intensificado após a coletivização forçada das terras dos camponeses em 1928, baseou-se na traição fundamental manifestada na violência infligida contra seus próprios membros, testemunho da auto contradição radical do regime: a tensão inerente entre o projeto comunista e o desastre de sua realização, e o fato de que, na origem do regime, houve um projeto revolucionário autêntico – os expurgos foram necessários não só para apagar os vestígios das origens do próprio regime, mas também como uma sua negatividade radical no âmago do próprio regime.

O terror stalinista foi simultaneamente uma tentativa de apagar os vestígios do passado revolucionário autêntico e a inscrição, em si, da traição da própria Revolução, sob o disfarce de prisões e execuções arbitrárias que ameaçavam todos da nomenklatura.

Para Marx, Engles e Lenin a Revolução deveria ensejar condições para a “livre associação dos produtores”, ou seja, de todos os trabalhadores, os quais se emancipariam do jugo do capital em um regime cuja característica era essa essência libertária. Assim, pode-se refletir sobre a tragédia da Revolução Russa, perceber sua grandeza, seu inigualável potencial emancipador e, ao mesmo tempo, a necessidade histórica de seu resultado stalinista, decorrente do fracasso da revolução no Ocidente, da resultante introspecção do impulso revolucionário, da industrialização e da coletivização forçadas e do quase suicídio do Partido com os expurgos stalinistas dos anos 1930.

Assim, o que ruiu em 1989, supostamente devido ao planejamento centralizado, conforme a visão míope do processo histórico, não foi a Revolução Socialista de 1917. Esta já havia se degenerado e desaparecido nos anos 1920, por circunstância históricas do tempo, que condicionaram e sofreram influência da ação dos homens da época.

Alguém poderia condenar os da esquerda que desafiaram a histeria anti-comunista em seus países, fazendo-o com a maior sinceridade, naquilo que é conhecido como outra tragédia produzida pela Guerra Fria. Eles estavam preparados para ser presos por suas convicções comunistas e em defesa da União Soviética. A natureza verdadeiramente ilusória de suas crenças torna a postura subjetiva deles excepcionalmente sublime, eis que a realidade miserável do regime stalinista deu à íntima convicção deles uma beleza frágil. É um paradoxo que, entre os de esquerda, muitos se recusaram a ver, mais nem por isso devem ser condenados, pois essa cegueira, paradoxalmente, é componente mais profundo de cada postura “ética”.

Ao analisar o entusiasmo pela Revolução Francesa, Kant já havia observado esse paradoxo em seu “Conflito das Faculdades” [1795]. O verdadeiro significado da Revolução não era o que acontecia nas ruas de Paris e nem no cadafalso da Bastilha, mas na resposta entusiástica que os eventos de Paris despertaram aos olhos de observadores simpatizantes em toda a Europa:

“”A recente Revolução de um povo rico espiritualmente pode até fracassar ou ter sucesso, acumular miséria e atrocidade, mas, contudo, acende no coração de todos os espectadores [que não tenham sido engolfados nela] a tomada de posição de acordo com os desejos, que beira o entusiasmo, o qual, uma vez que a sua verdadeira expressão não ocorre sem riscos, só podia ser causada por uma disposição moral dentro da espécie humana””.

Assim, a dimensão real não se encontrava nos acontecimentos violentos em Paris, mas em como essa realidade aparecia aos observadores e nas esperanças que, assim, despertavam neles. A realidade do que ocorria em Paris pertencia à dimensão temporal da história empírica, mas a imagem sublime que gerou entusiasmo pertence à eternidade.
O mesmo se aplica à Revolução Russa, em sua busca da libertação dos trabalhadores. A “construção do socialismo em um só país” certamente “acumulou miséria e atrocidade”, mas, no entanto, despertou o entusiasmo no coração dos espectadores.

A questão é se cada “ética” deve se apoiar nessa negação fetichista, em que muitos da esquerda se apoiaram no passado: “Sei que coisas terríveis ocorrem na União Soviética, mas, no entanto, confio no socialismo na União Soviética.”

O fato é que a maioria das éticas universais traça uma linha e ignora muitos sofrimentos: a da morte dos animais que consumimos, o dos milhões que são torturados e assinados nas diferentes guerras, a da exploração do trabalhador pelo capital, que impõe uma sociadade iníqua, egoísta e hedonista, e que recusamos a ver, são exemplos.

Cada gesto fundador de universalidade ética é excludente de outras formas de ser e quanto mais universalmente explícita é uma ética mais brutal é a exclusão a ela subjacente. Vemos sempre o Outro imponderável como o inimigo, e não quem mereça nosso respeito incondicional, pois toda noção de universal é colorida por nossos valores particulares e, assim, implica exclusões secretas.

Evidentemente que o fracasso da União Soviética e das experiências socialistas em outros países não devem ser confundidos com o fim da luta pelo socialismo, que se inscreve como uma imposição decorrente do próprio impulso do capital desenfreado pela auto-acumulação e concentração, que dissemina uma iniquidade crescente, num processo que degenera a natureza, inclusive seu bem mais precioso: a humanidade.

Hoje, um aspecto da emergente sociedade “global” está em jogo: com o fim da breve utopia Fukuyamesca dos felizes anos 1990 Clintonianos, muros estão surgindo por todo o mundo: entre Israel e a Faixa Ocidental, em torno da União Européia, e na fronteira dos Estados Unidos e do México. Vigora na Europa legislação que impede o fluxo de imigrantes.

Chegamos, aqui, à verdade da globalização neoliberal: a construção de muros para impedir o ingresso de seus excluídos. Aqui, evidencia-se com toda a clareza a análise humanista de Marx sobre o capitalismo, como um sistema que estabelece “relações entre coisas” e não “relações entre pessoas”.

Na tão celebrada livre circulação aberta pelo capitalismo globalizado, são as coisas [as mercadorias] que circulam livremente, enquanto a circulação de pessoas é crescentemente controlada.

Revela-se, assim, a crua “dialética da globalização”: a segregação dos povos é a realidade da globalização econômico-financeira. Essa nova modalidade de racismo é mais brutal que as anteriores: sua legitimação não é nem naturalista nem cultural, mas simplesmente o mais descarado egoísmo. A divisão fundamental é entre os incluídos na esfera da propriedade e os dela excluídos.

O que se impõe, ainda hoje, como sentenciou Rosa Luxemburgo no início do século XX, é a escolha entre “Socialismo ou barbárie”. E nesse processo, a forma de transição. Evidentemente, não pode ser à moda de Kautsky, segundo a qual uma revolução seria aceitável e ocorreria quando pelo menos 51 por cento dos eleitores a aprovassem.

É impossível divisar-se alguma “garantia” para a Revolução. Já foi muito criticada a postura da "Necessidade Social"[não se deve arriscar uma revolução prematura, deve-se esperar o momento certo, quando a situação estiver “madura” e conforme as leis do desenvolvimento histórico, ou quando a classe trabalhadora tiver amadurecido] ou da legitimidade [“a maioria da população não está do nosso lado, portanto, a revolução não seria realmente democrática] normativa [“democrática”].

Isso levaria a que a liderança revolucionária, antes de assumir o poder do Estado, tivesse que pedir permissão para alguma figura do Grande Outro [faça um plebiscito para se certificar de que a maioria apóia a Revolução].

A Revolução não é autorizada senão que por ela mesma.

A própria Democracia é não apenas “a institucionalização da ausência do Outro”. Ao institucionalizar a ausência, ela a neutraliza – normaliza — , de modo que a inexistência do Grande Outro é novamente suspendida: o Outro está novamente aqui disfarçado de legitimação/autorização democrática de nossos atos

Em contraste com essa lógica, o papel das forças emancipatórias não é o de passivamente “refletir” a opinião da maioria, mas o de instigar as classes trabalhadoras para mobilizarem suas forças a fim de, assim, criar uma nova maioria, uma maioria “dinamicamente criada”.

O temor de todo renegado social-democrata, da tomada do poder prematuramente, implica uma visão positivista da história como um processo “objetivo” que determina, com antecipação, as coordenadas possíveis das intervenções políticas.

Dentro desse horizonte, é inimaginável que uma intervenção política radical – que tomasse as coisas pela raiz – mudasse essas coordenadas realmente “objetivas” e, assim, criasse as condições para seu sucesso.

Ao contrário do que pensam, o passado puro é passível de mudança pela ocorrência de um novo presente e, em especial, por nosso poder de mudá-lo. O sentido histórico envolve uma percepção, não apenas da herança do passado, mas de sua presença, que pode ser modificada pela introdução do novo, que tem a capacidade de também alterar o significado do próprio passado.

A liberdade é, assim, inerentemente retroativa, não é simplesmente uma “necessidade reconhecida/conhecida”, mas uma necessidade reconhecida/assumida, a necessidade constituída/atualizada por meio de seu reconhecimento.

César, ao cruzar o Rubicão, não fez nada mais além do que ele era virtualmente. Cruzou o Rubicão simplesmente por ser César. E o impasse da transição mundial ao Socialismo, inclusive no Brasil, resulta do fato de muitos atores da esquerda não terem agido como revolucionários reais. Ninguém pode realizar o que não traz em si potencialmente. Mas, o curso pode ser corrigido e a esperança emancipatória em um mundo igual e livre segue viva.
Fonte: comentário de um leitor (Índio Tupi) do blog do Nassif

*Subtítulo meu.
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Respostas a este tópico

o índio tupi é figurinha carimbada, difícil de se achar neste mundinho.

análise excepcional, ainda que me faça milhões de perguntas. o índio declara que a revolução não precisa de autorização e está corretíssimo. contudo, eu me pergunto, para além da podridão do capitalismo que forja muros que cerceam pessoas, enquanto garante o livre trãnsito de mercadorias, onde estão aquelas outras condições que apontariam, hoje, para a inevitabilidade da revolução.

 

é desta análise que sinto falta. de uma análise que indique os homens que dirigirão a revolução, onde eles estão sendo forjados (no movimento da fábrica? no partido? qual partido, concretamente, no Brasil), onde estão aquelas contradições entre o pleno desenvolvimento das forças produtivas e a miséria do trabalhador do outro lado? são contradições de outra natureza que estariam sendo forjadas e não percebemos? estas contradições são globais ou se cairá naquela decisão que levou a revolução em um só país, decisão que oferecia resistência, mas que, depois, foi aclamada por tantos, em todo o mundo.

 

apontar equívocos depois sei que é mais fácil, importante é antever e evitar...

A análise precisa do fato é muito apropriada, sendo que não podemos nos ater pelos impercausos e desatinos de alguns, pois a roda do tempo não para, e a dialética nos mostra o movimento impreciso do tempo, mas implacável quanto ao futuro, que com certeza nos levará ao socialismo.

Sessão de 27 de novembro de 1917, II Congresso dos Sovietes de Operários e Camponeses de Petrogrado.

Pronunciamento de Lênin diretamente ao Comitê Executivo dos Camponeses.

“Neste momento, está em jogo, não só a questão da terra, mas o problema da revolução social. E esse problema não se limita à Rússia. É um problema de importância mundial, a questão das terras não pode ser separada das demais questões da revolução social. Para confiscarmos a terra, teremos de vencer, não só a resistência dos proprietários russos, como a resistência do capital estrangeiro, porque os proprietários estão ligados a eles, através dos bancos...”.

“... Sem a mais estreita união dos trabalhadores explorados do campo com a classe operária e com o proletariado de todos os paises, a revolução socialista não poderá vencer, nem o decreto sobre a terra poderá ser aplicado integralmente. De agora em diante, toda a organização do Estado, na Rússia, será erguida na base desta estreita união. Essa união das massas exploradas do campo com a classe operária e o proletariado de todos os papises garante a vitória do socialismo no mundo inteiro, desde que exclua toda tentativa, direta ou indireta, clara ou disfarçada, de colaboração com a burguesia ou com seus políticos influentes”.

Pra entender o texto precioso que você descolou, Paulão K., em momentos de reflexão e redefinição de metas das esquerdas, encacarando evidentemente “rachas” como passos naturais à depuração das idéias. Tudo é divino maravilhoso, e vida é luta renhida. E Luta renhida é pensar um certo idealismo dentro de um texto impecável: uma certa contradição entre “falha estrutural” – que Lênin, Trótski e Lunatcharski haviam projetado para o proletariado internacional, que seria arrastada na onda revolucionária bolchevique – que não ocorreu por razões várias de correlação de forças entre burguesia e insurreição, sacralização de um ideário democrático firmado pelas revoluções morteamericana e francesa; intelectualidade (ativismo) europeia surfando nas ondas do progressismo iluminista e positivista e, principalmente, a auseência do fator “fome”, que mobiliza ação desesperada, radical, final, revolucionária.

Responsabilizar Stálin ou atribuir o fracasso à “falha estrutural”? eis a escolha idealista. À (i)maturidade relativa das massas proletárias europeias? que abdicaram da revolução em troca de conquistas graduais? seguras? E com isso ilhando e isolando a revolução dos sovietes sob a pressão de bloqueios, sabotagens, desabastecimentos e propaganda, além da nítida inferioridade técnica-industrial?

Stálin é resultante de escolhas de caminhos em becos sem saida. Internacionalismo ou defesa intransigente da manutenção da revolução em um só pais acossado. A história julgará? O que se pode julgar, talvez, de antemão, é a imensa cagada satalinista no que toca à política externa (e somente isso, o resto é moralismo e questionamento de opções). O que compromete Stálin é o comprometimento com uma política defensiva, a realpolitik espúria, não-dialética, não-revolucionária, de pactuar com a burguesia er o militarismo, com isso sabotando sistematicamente qualquer iniciativa de ação revolucionária em toda a Europa imperialista, e cujo exemplo mais infame e dilacerante foi a Guerra Civil Espanhola, quando o PC soviético stalinista escolheu sabotar um dos maiores experimentos revolucionários do século 20 em troca de espaço de manobra e alívio militar.

Não deu certo, como se viu depois, além de causar, ser responsável pelo maior morticínio em fileiras de legítimos revolucionários que tentavam inaugurar um inédito experimento paradigmático de revolução concreta, social, cultural, política. Utopia realizável de afirmação libertária morta sob “fogo amigo”, sob a política stalinista de manutenção do processo doméstico, defensivo, quando Lênin e Trótski e Lunatcharski sempre trabalharam com a ofensividade insurrecional. Stálin matou revoluções e matou o internacionalismo.

Mas Stálin foi a pedra no meio do caminho em época de escolhas decisivas. Escolheu. A história o julgará. Materialismo dialético exige escolhas instantâneas, no calor do momento e aceitando os riscos. Lênin jogou todo o peso de sua figura histórica na data chave de 7 de novembro de 1917, nem um dia mais nem uma hora menos. Fez revolução.

Stálin jogou com a “colaboração da burguesia e seus políticos influentes”. Semeou contra-revoluções.

""Stálin é resultante de escolhas de caminhos em becos sem saida. Internacionalismo ou defesa intransigente da manutenção da revolução em um só pais acossado. A história julgará?"

Penso que a história já o julgou e a sua defesa intransigente do "socialismo em um só pais". 73 anos em uma linha de tempo na história é um "pum" da borboleta que tinha duvidas se foi ela que sonhou que era  Chuang tse, ou se foi Chuang tse que sonhou que era ela.

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