O ovo da serpente da linguagem racialista


Por José Roberto Militão

“ PRETO é cor; a “raça” é negra”? Alimentando o ovo da serpente.

No combate ao racismo é imperiosa a desconstrução da linguagem de pertencimento racial. No espaço de uma semana, em dois tópicos, sucessivos e concorridos debates na internet sobre racismo no portal LUIS NASSIF ocorreu o uso abusivo em mais de duzentas vezes, da classificação racial dos pretos e pardos na condição racial de “negros” (`19/02, ´Preconceito sutil é mais forte e perpetua o racismo´; e 18/02, ´O DNA dos “Negros” e Pardos brasileiros´,)  http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/preconceito-sutil-e-mais-f....


Ficou obvio o uso da linguagem racialista é fonte do racismo que queriam combater. O perfil dos debatedores, sem dúvida, é de humanistas não racistas. A maioria reconhece a contundência do racismo sutil, tão bem exposto no texto de ANA MARIA GONÇALVES denunciando o cartunista ZIRALDO, com provas textuais, da prática do racismo na linguagem que uniu, com o intervalo de um século, dois expoentes da literatura infantil: ZIRALDO do sutil ´Menino Marron´ resolveu sair às ruas no carnaval de 2011 determinado a propagar a defesa pública da literatura com odiosa pregação racista e eugenista de MONTEIRO LOBATO, mentor intelectual de um plano de genocídio da raça negra proposto no livro ´O Presidente Negro´, a “solução final” para erradicar a “raça inferior”. http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id....

Na condição de escritores para crianças, ambos utilizaram com maestria da poderosa arma da linguagem para a sedução às suas crenças, da fértil mente e frágil alma. ARISTÓTELES, em a Política, afirma: somente o humano é um "animal político", isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais possuem voz e com ela exprimem dor e prazer, mas o humano possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os humanos são capazes. É isso: a linguagem capacita o homem, para o bem ou para o mal. A identidade política da ´raça negra´, em vez da cor preta, expresso no slogan, é uso perverso e irresponsável da linguagem que consolida a crença racial, semente de mais e mais racismo. Qualquer identidade racial é odiosa.

No combate ao racismo é essencial o pressuposto da igualdade humana a partir da única espécie humana. Consiste, ainda, na negativa, reiterada, de qualquer ´raça´ humana.

(continua...)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-ovo-da-serpente-da-lingu...

 

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Respostas a este tópico

 

    n.Almeida,

    gostei da tua pomba da paz. É o símbolo do meu PSB... rsss.

 

     Grato por responder ao ORLANDO, acho que ele é remunerado pela FORD FOUDACION para tentar me confundir....rss

 

      Ele consegue enrolar tudo, para ao final dizer: nós ´negros´, nossa etnia ´negra´ nossa ´raça negra´..etc.

 

bye, obrigado.

n almeida

[[...o que denota que não concorda com a designação, pois é coisa de racista; usá-la como categoria para definir pessoas de vários tons de pele escura torna racista quem a usa. Ele estranha um grupo social trazer para si uma definição pejorativa e bastante ofensiva, porque racista....]]]

Prezado de onde você tirou essa história de que a palavra negro é ofensiva e racista? Não acredite em tudo que o Militão escreve/diz.

No Brasil, a palavra preto, com efeito, está relacionada a ofensa racista - tipo "pretinho" etc. Por outro lado, nos EUA, negro [nigger] é ofensa. Negro não é "raça", assim como como preto não é cor. Negro, no Brasil, incorpora - pelo menos para os negros, a comunidade   e a cor da pele.

Embora a palavra negro tenha sido usada, pelos portugueses, para designar os negros escravos ou todos os escravos no Brasil, a palavra preto está - muito mais - ligada a ofensas racistas.

Estamos aqui lidando com uma questão semântica e mudar de preto para negro ou afrodescente, não irá acabar com o racismo no Brasil. Afrodescendente é ridiculo pois dilui a noção de negritude em um continente que não é todo de etnia negra. Ademais, no Brasil, teríamos que ter eurodescendentes, asiático descendentes etc. Querer mudar de negro para preto por que negro tem conatações escravocrata/racista é, sobretudo, ingênuo. Fomos [nós negros] escravos e não deixeremos de ter sido escravos, só por que, agora, não somos mais [semânticamente] negros e sim pretos. Nossa [negros] história foi construída como negros [escravos] e dela tenho orgulho enão vergonha. Não sei quanto ao Militão...

Não me sinto desconfortável sendo chamado de negro e, sobretudo, não vejo a conotação negativa ou perojativa do termo. No entanto, ser chamado de preto me incomoda; eu me lembro de que, quando criança, eu não tinha nome: era o pretinho [assim mesmo no diminutivo]. Minha cunhada mora no sul do país e um amigo dela, médico, de lá, só é chamado de "aquele pretinho médico" diferente de "aquele médico negro" ou japones ou branco etc...

 

Um abraço

 

 

 

 

   ORLANDO,

   "Negro não é "raça", assim como como preto não é cor." Meu querido, preto é a cor preta, é cor da melanina que pode ser marron, amarela, avermelhada. Qual o problema disso? Se branco é a cor branca, qual o problema de preto ser a cor preta. Afinal, preta é a nossa cor humana. Não há nisso nenhuma concessão ao racismo.

   " Negro, no Brasil, incorpora - pelo menos para os negros, a comunidade   e a cor da pele." Eis uma afirmação falsa, uma manipulação que tem sido utilizada pelos racialistas (aprendida na academia). A ´comunidade´, ao responder ao IBGE responde que é preta, parda, marron, café-com-leite, queimadinho, amulatado, caramelo e mais 120 diferentes auto-designações, menos ´negro´. Conforme o princípio da antropologia, essa a narrativa que deve ser respeitada.

       " Embora a palavra negro tenha sido usada, pelos portugueses, para designar os negros escravos ou todos os escravos no Brasil, a palavra preto está - muito mais - ligada a ofensas racistas."  Ora, meu caro: como assim ´para designar ´os negros escravos´... Nada disso, a palavra designava qualquer escravo. O que o ESTADO fêz foi outorgar a designação infame, degradante e vil para designar os PRETOS DA COSTA D´ÁFRICA (ART.10 da Lei pombalina).

 

      A palavra ´preto´ sempre foi utilizadas pelos africanos, vide as milhares de organizações, igrejas, associações, irmandades, cemitérios e quilombos de PRETOS e de PARDOS... jamais tivemos de ´negros´. Entendeu??

 

     "Estamos aqui lidando com uma questão semântica e mudar de preto para negro ou afrodescente, não irá acabar com o racismo no Brasil. Afrodescendente é ridiculo pois dilui a noção de negritude em um continente que não é todo de etnia negra."

      De fato não acaba, mas não se considerar ´negro´ é reconquistar a inteira humanidade sonegada pelo racismo. A ideologia racista se baseia na negação da tua inteira humanidade, por isso ela te classificou como pertencente à raça ´negra´, a ´raça inferior´. Como preto você estará afirmando a tua humanidade: os humanos podem ser pretos, brancos, amarelos, vermelhos, não há uma hierarquia na cor. A hierarquia somente se manifesta quando você aceita a classificação ´racial´.

     Aliás, esse fenômeno que aconteceu com os afro-americanos, após um século de classificação racial pelo Estado.

     É disso que estou falando: quando o estado nos classifica pela ´raça´, como fêz POMBAL e conforme fez os EUA o racismo passa a ter legitimidade pois o conceito de raça tem implícita a hierarquia racial.

 

     A minha oposição é negar ao estado o direito de classificar os brasileiros - brancos e pretos - pela falácia da ´raça´ pois a nossa narrativa de povo, não tem o pertencimento racial, embora, saibamos que ocorra o racismo e que ele se manifesta, entre nós, até agora,não pela violência, mas pelas discriminações injustas. É o que o saudoso MILTON SANTOS dizia ser a tolerância relativa que é uma vantagem inicial para o objetivo maior: destruir o racismo.

 

       Evidente que o racismo é uma obra de 250 anos e levará tempo para ser destruído, porém, se o estado aceita a classificação racial, como fizeram nos EUA, então essa destruição será quase que impossível ou será muito mais difícil.

 

abraço,

Militão.

ORLANDO: você me obriga a um bom exercício para melhor articular a argumentação nesse tema tão difícil de ser compreendido.

Prezado Militão

Você não consegue abandonar o papel de garoto propaganda do embranquecimento brasileiro. Seu discurso foi articulado há quase um século por racistas e eugenistas brasileiros. Ele [discurso] está  na boca do Magnoli e Ali Kamel e de todo o neo racismo brasileiro.

Meu caro Militão, você se preocupa com a questão semântica e eu com a politica ideológica. Negro e preto muda de conceituação nas várias partes do mundo:

[[[...Certos sociólogos brasileiros, como Clóvis Moura, consideram o termo "negro" o mais adequado para classificar o grupo racial ao qual a pessoa pertence. Argumentam ainda que existe uma grande resistência da sociedade brasileira na utilização do termo citado, em razão deste ser considerado, erroneamente, uma palavra preconceituosa. Para estes sociólogos, a palavra "negro" não possui conotação pejorativa, e que o receio em utilizar o termo dito correto se deve ao fato da sociedade brasileira, ao contrário do que pensa o senso comum, possuir uma forte carga racista em relação ao negro, oculta pelo mito da democracia racial.

Em Angola é utilizada com o mesmo sentido, e com idêntica gama e subjectividade de conotações. Um indivíduo de raça negra, pode dizer-se orgulhoso de ser negro e sentir-se ofendido por ser chamado de preto  É usada com muita frequência a palavra em gíria bumbo com idêntico significado. Esta, da mesma forma, pode ser tomada como ofensiva ou ser perfeitamente inócua e usada entre amigos...]]]

Não bastasse o texto acima ser muito claro, há pequenas sutilezas politico/ideológico/semânticas. Ou seja, branco é etnia e cor, no entanto, os asiáticos [japoneses, coreanos, chineses] são amarelos e indígenas são vermelhos. Isto é, só há unidade na cor branca. Portanto, a cor/etnia atribuida a uma pessoa, está carregada de ideologia e, sobretudo, seu significado muda no espaço e tempo, embora o significante continue o mesmo.

Não há "raça" negra ou preta - mas um ethos ou povo negro. Onde está contida a cor e etnia. Os negros americanos não são negros e de cor preta ou de cor preta e negros. Eles simplesmente são black. Não tem sentido traduzir black por preto, pois o sentido/significado é muito mais amplo e complexo do que simplesmente uma cor. Ele [black] está cheio de significados históricos, politicos e ideológicos.

O mesmo não ocorre com preto em português. Se a palavra negro está, segundo você, carregada de significado negativo, cabe ao negro honrar sua história - não tendo vergonha de si mesmo e de seu passado - mas construindo um presente rico de significados e significantes.

Prezado você se preocupa com o significante [palavra negro] e eu me preocupo com o significado [idéia/conceito] que, nós negros, possamos dar a essa palavra. E não aquele significado a ela atribuido por pessoas alheias ao ethos negro. Ou seja, os racistas de antes e agora.

Prezado o IBGE é parte de uma estrutura de manuntenção de um status quo, ou seja, supremacia numérica de brancos e esvaziamento numérico de negros. Isto é, a tentativa de branqueamento continua. Temos a cor branca e suas variantes menores é assim que funciona.

[[[...De fato não acaba, mas não se considerar ´negro´ é reconquistar a inteira humanidade sonegada pelo racismo. A ideologia racista se baseia na negação da tua inteira humanidade, por isso ela te classificou como pertencente à raça ´negra´, a ´raça inferior´. Como preto você estará afirmando a tua humanidade: os humanos podem ser pretos, brancos, amarelos, vermelhos, não há uma hierarquia na cor. A hierarquia somente se manifesta quando você aceita a classificação ´racial´...]]]]

Prezado a questão continua sendo semântica; negro é simplesmente uma palavra/significante cabe, a nós negros, darmos a ela o verdadeiro significado/idéia ou conceito que a dignifique. Ou seja, sendo o que, com efeito, nós negros somos - descendenstes de ex escravos - e sentindo orgulho disso. Não deixaremos de ser filhos e netos e bisnetos e tataranetos de escravos mudando de negro para preto se não tivermos auto estima e respeito pelo que nossos antepassados foram e ajudaram a construir nesse país.

Eu tenho orgulho dos meus antepassados e não vergonha.

 

Um abraço

Militão

O conceito de etnia deriva do grego ethnos, cujo significado é povo. A etnia representa a consciência de um grupo de pessoas que se diferencia dos outros. Esta diferenciação ocorre em função de aspectos culturais, históricos [escravidão], linguísticos, artísticos e religiosos. Portanto, quando eu uso negro no sentido de comunidade não saio do significado original de etnia. Ou seja povo negro.


militão e orlando,

gosto de ver este confronto de idéias.

ele é bonito e engrandece o debate, mas, no fundo, sabe o que eu acho?

há, ou eu sinto, um desvio de rota, perdida num emaranhado semântico, sim, e, com isto, o protagonismo do homem, do homem negro, se perde, se desvia, da luta.

 

eu até creio que este discurso da diferença funciona como uma espécie de diversionismo, imposto pelos teóricos do pós-modernismo, com a clássica ênfase nas tais especificidades. afinal, não há diferenças entre os homens. há, sim, preconceitos que inventam diferenças para justificar formas de opressão.

 

somos iguais. diferentes são as criações culturais que justificam servidões. penso que este discurso precisaria ser redefinido. etnias existem. cores existem. geografias e culturas formam homens. ruim mesmo é o discurso da diferença que separa em compartimentos aquilo que é igual. assim como não gosto do discurso que evoca a tolerãncia, começo a desgostar deste discurso da diferença. igualdade e preconceito, estas, para mim, me parecem palavras chaves da luta emancipatória de todos.

 

enfim, por que é tão difícil orlando e militão e todo mundo estarmos juntos, na luta contra o preconceito que promove servidões?

belo texto, simone. lindo mesmo demais da conta.

mas nossos meninos não querem, ou não sabem ouvir. precisam de coisas que não sabemos direito, ou se sabemos nem queremos nomeá-las.

 

agora, brigar, num vai e volta que chega ao lugar comum das incompreensões que amordaça a luta, ah, isto é feito com maestria. bom, deixemos, pois...

 

e, afinal, se é raça, etnia, ou o escambau, a realidade dos fatos históricos não nega: houve um grupo social determinado que foi submetido a um jogo desigual e desumano. cabe ou não reparo?

 

    Obrigado Simone, obrigado LUZETE,

    vcs. enriqueceram o post.

 

    muito obrigado.

bye, Militão

Chéries...

 

"Um bom exercício para melhor articular a argumentação nesse tema tão difícil de ser compreendido" parece não ser bem o encaminhamento dessa discussão que tá enveredando pro surreal. Como as “meninas” terem enriquecido o post. Não enriqueceram. Indagaram, esbravejaram, colocaram pontos de vista solenemente ignorados; parte por apreciação complacente a vozes decocrativas, “enriquecedoras”; parte por incompreensão do que manifestaram elas.

A queixa e o pedido, machos bizantinos, foi no sentido de jogar a briga pras ruas e becos, pra boca do povo, que não tem complexo de inferioridade a ponto de exibir saberes semânticos ou antropológicos. Um rapper prefere se autodenominar negro; acha mais digno, porque no meio em que vive (apartado de ares condicionados e pilhas de livros acadêmicos) preto é usado contra ele como ofensa. Compadres de zezita preferem preto, porque negro tá semânticamente associado a escravatura, “neguinho do pastoreio”, negra mucama.. Questão de preferência e como “desce” ao fígado (sempre entrelaçado ao fel do estigma histórico-econômico colonial que ataca direto no coração e na mente). Hispanicoamericanos (peruanos, haitianos, cubanos, jamaicanos, panamenhos...) têm uma profusão de nuances na paleta em claro-escuro, e utilizam “el negro”, “la negrita”, seja pra insultar como pra acarinhar. Um antropólogo usa negróide na boa, sem derrapagem discriminatória. É terminologia, serve ao rigor científico, não como camisa de força discursivo.

A jogada de discutir firulas semânticas volta a excluir o popular de um papel que é dele, seja negro, preto, crioulo, negão, amarelo, japa, china, coreano, índio ou bugre. O que é corre pelas ruas é porrada visceral, que tira sangue, enquanto se discutem terminologias acadêmicas sem se mover el culito de la silla. Complexos e carteiradas não retiram a necessidade histórica de tentar legitimar-se agregando a arrogância falsamente cult do colonizador. Criem suas próprias categorias, não se fiem nas categorizações que doutores brancos impõem a cada temporada, como moda de estação, nesse projeto pesudocientífico de obsolescência programada e incremento de vendas de “novas” teses e novos (pré)conceitos linguísticos. Militão acerta na milhar: palavreado não carimba preconceito. A expressão “afrodescendente” é a pior forma de insulto. Tirando barbarismos civilizados, o resto vale tudo. Só não se esqueçam de que preto é ausência de cor e branco é soma de todas as cores. O que quer dizer isso? Porra nenhuma, é conceito ótico, ótimo pra artistas plásticos e fotógrafos. A dignidade (ou a destruição da dignidade) do ser humano tá muito além e acima disso.

O que das cotas? E o emaranhado semântico? Simone del Río e Luzete tentaram puxar a conversa pro chão, pro esclarecimento das políticas, da linguística e da organização social-política-ideológica do nergo/preto/amarelo/índio dentro da perspectiva de discurso de classe e domínio de classe, do homem contra o homem independentemente de cor, sexo ou religião. Querem saber das políticas de governo, das ações culturais, da didática do exercício autodidático (ou bloqueio) de gente que é discriminada não por palavreado, mas por atos concretos, rotineiros, diários, planejados.

Mas o post é de vocês, fiquem à vontade. Como existem outros por aí demonizando ianques e gringos, mst’s e agronegociantes, israelenses e palestinos. O mundo (a vida) é tão simples, non? Tony Tornado cantava “Black is beautiful”, Malcolm X e Angela Davis mandavam bala denominando-se “panteras negras”. A política da rua é preto no branco.

"Malcolm X e Angela Davis mandavam bala denominando-se “panteras negras”. A política da rua é preto no branco".

 

Não seria black panther, em vez de "nigger panther"? Acho que você levava bala dos dois se fizesse essa inversão.

A tradução direta de expressões leva a equívocos.
Se para norteamericanos e ingleses "nigger" tem um viés depreciativo, a versão ao português ou hispânico guarda outros componentes ligados à fala (e entendimento) específicos. Por que não ficou então "panteras pretas"? Houve um movimento político-literário chamado "negritude", em resistência ao colonialismo branco, de dentro da própria África. Se era questionável ou não, se alcançou objetivos, tudo pode ser discutido. O que não se pode é indexar expressões.

Ninguém vai levar bala por isso, cidadão ene, ou leva sim, quando em lugar errado na hora errada.

Deixa zezé passar a palavra ao professor Milton Santos:

"Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
.......

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.

Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida".

Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil".
Pardón, só dessa última vez.
Zezé jura não colar mais nada.

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