O ovo da serpente da linguagem racialista


Por José Roberto Militão

“ PRETO é cor; a “raça” é negra”? Alimentando o ovo da serpente.

No combate ao racismo é imperiosa a desconstrução da linguagem de pertencimento racial. No espaço de uma semana, em dois tópicos, sucessivos e concorridos debates na internet sobre racismo no portal LUIS NASSIF ocorreu o uso abusivo em mais de duzentas vezes, da classificação racial dos pretos e pardos na condição racial de “negros” (`19/02, ´Preconceito sutil é mais forte e perpetua o racismo´; e 18/02, ´O DNA dos “Negros” e Pardos brasileiros´,)  http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/preconceito-sutil-e-mais-f....


Ficou obvio o uso da linguagem racialista é fonte do racismo que queriam combater. O perfil dos debatedores, sem dúvida, é de humanistas não racistas. A maioria reconhece a contundência do racismo sutil, tão bem exposto no texto de ANA MARIA GONÇALVES denunciando o cartunista ZIRALDO, com provas textuais, da prática do racismo na linguagem que uniu, com o intervalo de um século, dois expoentes da literatura infantil: ZIRALDO do sutil ´Menino Marron´ resolveu sair às ruas no carnaval de 2011 determinado a propagar a defesa pública da literatura com odiosa pregação racista e eugenista de MONTEIRO LOBATO, mentor intelectual de um plano de genocídio da raça negra proposto no livro ´O Presidente Negro´, a “solução final” para erradicar a “raça inferior”. http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id....

Na condição de escritores para crianças, ambos utilizaram com maestria da poderosa arma da linguagem para a sedução às suas crenças, da fértil mente e frágil alma. ARISTÓTELES, em a Política, afirma: somente o humano é um "animal político", isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais possuem voz e com ela exprimem dor e prazer, mas o humano possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os humanos são capazes. É isso: a linguagem capacita o homem, para o bem ou para o mal. A identidade política da ´raça negra´, em vez da cor preta, expresso no slogan, é uso perverso e irresponsável da linguagem que consolida a crença racial, semente de mais e mais racismo. Qualquer identidade racial é odiosa.

No combate ao racismo é essencial o pressuposto da igualdade humana a partir da única espécie humana. Consiste, ainda, na negativa, reiterada, de qualquer ´raça´ humana.

(continua...)

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-ovo-da-serpente-da-lingu...

 

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Respostas a este tópico

 

             ZeZé,

             Esteja a vontade, o post é nosso e visa isso: provocar reflexões, críticas, novas luzes...

             De fato, na questão da linguagem não é dirigida ao povo, cidadão comum em sua labuta diária pela vida, ela foi dirigida aos formadores de opinião cuja inspiração foram os comentaristas em dois post sucessivos no portal do Nassif. Também é dirigida para a academia onde foi forjada a linguagem racial que não corresponde à narrativa do povo, e tem sido oficializada, agora nos documentos, programas e políticas públicas com a manipulação da soma de pretos e pardos que resultam numa fictícia ´raça negra´.

             Na questão da tradução literária e nas comunicações de expressões, desculpe, mas ocorreu sim a utilização abusiva da linguagem racial. ´The black panthers´, não eram ´panteras negras´, nem FANON escreveu ´Pele ´Negras´. Máscaras Brancas). Escreveu Black Skin, White Masks. Também Steve BIKO não liderou um movimento da ´Consciência Negra´ nos anos 1970 que foi THE BLACK CONSCIOUSNESS, que segundo ele, mais que a cor da pigmentação, era a atitude mental de ser black que foi a razão de sua morte sob tortura dos o estado racial do Aphartheid. O uso intencionalmente alterado na versão, induziu toda a minha geração dos anos 1970, a uma falsa identidade ´negra´, já que inspirada em transgressões das regras vernaculares.

 

            De outro lado, a síntese do que disse Milton Santos, se não me engano, numa entrevista para a FOLHA, logo após o reconhecimento internacional, ele próprio sempre se recusava ser visto como nessa condição racial, ele queria ser visto simplesmente como um cidadão, um brasileiro, o pensador, o intelectual, o questionador da globalização e da própria academia. Enfim, a síntese está neste vídeo, seu último depoimento a respeito, em que fala sobre isso, sobre o que desejamos ser, simplesmente, brasileiros. http://www.youtube.com/watch?v=xp9_fPuYHXc

 

            Outra coisita mas: tanto o espanhol quano o português, impôs a designação de ´negros´ aos escravos, na onda (ou tsunami) da implantação do racismo no século 18, sendo portanto, a meu ver, indissociável a pretensão racista contida na designação. Assim o estigma ´negro´ prevalece tanto na lingua inglesa quanto na nossa. A questão é que no Brasil ela tem servido a nos impor um pertencimento racial que não temos (e não queremos).  Aliás, o trabalho de PETRONILHO, anexado por SIMONE, revela que foi uma elite ´negra´, embranquecida e mal formada, quem se auto-designava ´negros´ e demonstrava extremo desprezo aos pretos e pardos.

            Na condição de filho e neto de quilombolas, criado na zona rural do norte do Paraná até os 15 anos, já escrevi (naõ sei onde está) a respeito do quanto a gente preta, rural, analfabeta, era desprezada pelos ´negros´ urbanos. Cheguei em São Paulo em 1968 e senti isso ainda mais forte. Nos anos 1980, convivi com idosos ex-integrantes da ´Frente Negra Brasleira´, e eles achavam um absurdo que um jovem e promissor advogado, representante da comunida ´negra´ no governo do estado, pudesse ainda desfilar em escola de samba... era quase blasfêmico para o Doutor Lucrécio, então com 80 anos.

            Enfim, são fatos. A minha preocupação não é com o passado. É como alterar isso para o futuro, em minha disposição de luta contra o racismo, no que considero a linguagem correta, especialmente pelos formadores de opinião uma questão essencial e não simples perfumaria semântica.

 

abraço,

Militão.

 

z,

Antes de mais nada, devo dizer que, na rua ou em qualquer lugar, a política é arco iris. Esse negócio de preto no branco, outubro ou nada, fica para a hora da insurreição.

Não está em discussão o uso duma palavrinha ou outra. Discute-se o uso da linguagem para afirmar crença ideológica odiosa: a existência de 'raças'. Veja acima a postagem original.

Nenhuma palavra em si é ofensiva ou abjeta, depende do uso que fazemos. Amigos as vezes se tratam de fdp sem romper a amizade, no dia que a flexão for mal entendida, a relação estremece. Espero que não entenda que recomendo balas para você, no máximo, bombons e caramelos.




Veja mais em Parole, parole

nesta discussão toda eu tendo a concordar com o orlando, sabe militão, nesta incessante busca de resignificar a palavra negro. você a nega, como se ela, a palavra, tivesse gerado o preconceito, o racismo.

 

eu duvido que o orlando discorde destas suas palavras, onde você situa que a sua "preocupação não é com o passado. É como alterar isso para o futuro, em minha disposição de luta contra o racismo". mas, acho que o orlando discordaria desta passagem final. nela você entende que o racismo (um racismo genérico) encerraria "a linguagem correta". e, ao final, você assevera que esta seria "uma questão essencial e não simples perfumaria semântica."

 

acho, sim, militão, não obstante o profundo respeito que nutro por suas opiniões (estou até quase convencida de que cotas sociais seriam mais adequadas a nossa realidade, tal como você defende), que há, sim, como apontado por outros comentaristas, um debate uqe incide sobre perfumarias semânticas. afinal, o que tem de feio e errado, na palavra negro, senão o preconceito que ataca um grupo social bem específico e que você se nega a chamar de negro mas, que, conceitualmente, está muito bem definido. eu acho que a luta é daí prá frente... em direção á igualdade, pois nada justifica a desigualdade, senão a estupidez humana.

 

 

 

 

           LUZETE,

           esse é o problema e foi a gravidade disso que motivou o post original: pessoas bem formadas, ativistas por um mundo melhor, que repudiam o racismo e desejam a sua eliminação ou, no mínimo, sua neutralização, não enxergarem, não perceberem, tal como você e o nosso ORLANDO, não conseguem enxergar o simbolismo do pertencimento racial que a designação de pretos e pardos como ´negro´ (que é raça).Nisso eu digo que o racismo fez uma obra quase perfeita: naturalizam a infâmia, o degradante e o vil o que torna quase impossível a vida social em razão do racismo.

 

          Na introdução do post, consignei uma citaçao de ´A Política´ de Aristóteles que vale a pena. Ele (de quem ouso ter algumas restriçoes) afirma com sabedoria não contraditada:   "somente o humano é um "animal político", isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem. Os outros animais possuem voz e com ela exprimem dor e prazer, mas o humano possui a palavra (logos) e, com ela, exprime o bom e o mau, o justo e o injusto. Exprimir e possuir em comum esses valores é o que torna possível a vida social e política e, dela, somente os humanos são capazes."

 

        Com o post procurei provocar essa reflexão e iniciava dizendo: " No combate ao racismo é imperiosa a desconstrução da linguagem de pertencimento racial."  Enderecei para os nossos colegas comentaristas, como tenho feito perante a academia. A palavra ´negro´, ao contrário do que você pensa, encerra um vasto vocabulário conceitual. Significa ´a raça inferior´; significa a prova da hierarquia racial; significa que os pertencentes àquela ´raça´, não desfrutram da inteira humanidade; significa enfim, que existem ´raças humanas´ e que essas raças possuem diferenças que justificam o tratamento desigual.

 

         Aliás, aqui, volto a ARISTÓSTELES para lamentar que suas idéias eram tão poderosas que uma delas, falsa, a do ´escravo natural´, veio ser a base da construção do racismo com a negação da inteira humanidade dos índios e dos africanos escravizados. Foi com base nessa concepção aristotélica que em 1550/1551, o cônego SEPÚLVEDA venceu a disputa num Tribunal espanhol contra as teses da igualdade do Bispo LAS CASAS, o primeiro Bispo de CHIAPAS.

 

        COM QUE DIREITO? http://bdjur.stj.gov.br/xmlui/handle/2011/20748

        Era a síntese que LAS CASAS fez a defesa da dignidade e humanidade dos índios em face do colonizador espanhol. Com fulcro na bíblia e nos evangelhos, o bispo dizia que os índios eram tão filhos de Deus quanto o espanhol.Que podiam ser evangelizados. Podiam ser súditos, porém, não deveriam ser escravizados nem violados em sua dignidade como faziam.

 

         JUAN GINÉS DE SEPÚLVEDA, cônego e filósofo, sustentou com a teoria de Aristóteles que os índios eram inferiores o que autorizava sua entrega ao colonizador e sua escravidão. LAS CASAS lutou de 1530 a 1551, chegou a conseguir a sustação do direito de apreensão e entrega dos índios aos ´cuidados´ do colonizador. Foi vencido pela argumentação de SEPÚLVEDA, para quem o espanhol, cristão e civilizado, tinha condições superiores para cuidar dos índios.

 

        A miséria de CHIAPAS e a história que conhecemos do destino de 70 milhões de índios das Américas, além da escravidão africana, em que foi empregada a mesma argumentação, são a prova de que a idéia da diferença ´natural´ de humanos e da superioridade, sempre resultaram em genocícios. Se LAS CASAS tivesse vencido, a história seria diferente. Jamais teriam existidos ´negros´ nas Américas. A designação de qualquer povo como ´negro´ é a negação da sua inteira humanidade pois essa foi a principal justificativa para a escravidão de índios e de pretos.

 

         Mesmo para quem não gosta de direito, pela riqueza do debate e da repercussão que dura até nossos dias, (é baee dessas nossas reflexões) vale a pena conhecer essa história que transcorreu perante um Tribunal que, de certa forma, decidiu ali o futuro da humanidade na forma que ora conhecemos pelo menos nas Américas, na África e Europa, além de grande parte da Ásia e Oriente Médio. Foi sacralizada a idéia da diferença racial de humanos.

 

         Como estamos prestes ao pronunciamento do nosso Supremo Tribunal, a questão em jogo é se a tese vencedora sera a da igualdade humana de LAS CASAS ou da hierarquia racial de SEPÚLVEDA e que os racialistas sustentam com fulcro no velho filósofo grego que RUI BARBOSA consagrou na ´Oração aos Moços´: "A verdadeira igualdade consiste em tratar-se igualmente os iguais e desigualmente os desiguais a medida em que se desigualem "

 

          Portanto, para o racialista, ´negro´ é a identidade racial que representa a prova da desigualdade. E as ´cotas raciais´ representam o tratamento desigual para produzir igualdade. FALÁCIA pura!

 

          O que sustento, como LAS CASAS, é que o humano preto, branco, vermelho ou amarelo, são todos iguais e devem, perante o estado, terem a garantia da igualdade de tratamento.

 

          A obra quase perfeita do racismo não foi perfeita, pois deixou margens a que se tenha esperança: " eu acho que a luta é daí prá frente... em direção á igualdade, pois nada justifica a desigualdade, senão a estupidez humana." Vale a pena revisitar a história do Tribunal de Valladalid, existem vários trabalhos sob diversos enfoques a respeito. Esse é sob o ponto de vista do direito e da justiça:

http://bdjur.stj.gov.br/xmlui/handle/2011/20748

 

abraço, Militão.

 

 

 

Prezada Luzete,


Se você não concorda com o Militão por ele resignificar a palavra negro, eu discordo do Orlando por ele resignificar a palavra raça. Dê uma espiadinha em texto da lavra dele:

"Não há contradição, posto que, para mim, e para esses teóricos [antropólogos e sociólogos] e, não os biológos. "Raças" são comunidades/povos/etnias que foram/são excluídas em função de um grupo hegemônico [cultural e economicamente e politicamente] determinar o que é "certo"/"errado"/"bonito" ou "feio". Dentre essas "raças" ou comunidades temos: negros, índios, homosexuais, gordos, pobres, mulheres etc. Na verdade, essas "raças" são seres humanos iguais, biológicamnte, a todos os outros seres que, entretanto, são estigmatizados em função de diferenças fisicas [gordo, magro, negro, índio, feio etc], religiosas ou econômicas. Essas "raças", com efeito, são comunidades, de seres humanos, excluídas"

Ele toma ideologia como fato real; se existe alguém na academia pensando da forma que ele expõe, então  essa raça fictícia imaginada por acadêmicos ganha realidade.

Ele tirou essa "idéia" daqui:

"A concepção do racismo baseada na vertente biológica começa a mudar a partir dos anos 70, graças aos progressos realizados nas ciências biológicas (genética humana, bioquímica, biologia molecular) e que fizeram desacreditar na realidade científica da raça. Assiste-se então ao deslocamento do eixo central do racismo e ao surgimento de formas derivadas tais como racismo contra mulheres, contra jovens, contra homossexuais, contra pobres, contra burgueses, contra militares, etc. Trata-se aqui de um racismo por analogia ou metaforização, resultante da biologização de um conjunto de indivíduos pertencendo a uma mesma categoria social. É como se essa categoria social racializada (biologizada) fosse portadora de um estigma corporal. Temos nesse caso o uso popular do conceito de racismo, qualificando de racismo qualquer atitude ou comportamento de rejeição e de injustiça social".

http://blogln.ning.com/forum/topics/se-preto-e-cor-a-raca-e-negra?x...

Como se vê, além a raça das mulheres, dos gordos, dos pobres e dos homossexuais, existem a raça dos jovens, dos burgueses, dos militares e dos etc.

O problema com esse "pensamento" é que:

- Irmão e irmãs são de raças diferentes.
- Se um gordo faz regime com sucesso, ele muda de raça.
- Quando o jovem envelhece, ele também muda de raça.
- Se o burguês fale e o pobre acerta sozinho na mega sena, eles mudam de raça.
- Milhares de jovens mudam de raça quando se apresentam para o serviço militar obrigatório, no começo do ano, e quando dão baixa no final do ano, voltam para a raça original.

Eu não vejo necessidade de construir o conceito de raça, abandonado pela biologia, dentro do campo da ciência social, o Orlando vê.

 

Um abraço, um queijo, e fique com a saudação de uma da "raça" das homossexuais, para a "raça" das mulheres.


 

Bom dia Luzete!

O racismo no Brasil é mais elaborado projeto [em caráter mundial] de descontrução de identidade - desenvolvida nos últimos 120 anos. Não é mais, hoje em dia, algo engendrado e levado a cabo de forma consciente, no entanto, as tentativas de branqueamento e, todos os conceitos que embasaram esse plano eugenista brasileiro, ficaram e estão no imaginário do cidadão brasileiro. E, igualmente, afeta negros e não negros [brancos].

Somos um país [a América do Sul, grosso modo, padece do mesmo cancro histórico, isto é, exclusão social e econômica de todos os não brancos - indígenas e negros] miscigenado onde, infelizmente, essa miscigenação não se traduziu em igualdade de tratamento/respeito para todos. Isto é, não há isonomia social e econômica e os não brancos [negros/índios etc.] estão - ainda - na base da pirâmide sócioeconomica.  

E o problema está longe do social - é politico e étnico. Portanto, a solução para essa desigualdade não pode ser ancorada - apenas - em inciativas paliativas [melhorar a qualidade da escola pública etc.] mas em projetos mais ousados de inclusão social e econômica: ações afirmativas étnicas.

A sofisticada máquina de exclusão étnica no Brasil, faz com que, hoje em dia, eu e Militão, dois negros, não consigamos nos entender e, sobretudo, nos unirmos para dar mais visibildade ao negro que, no Brasil, está [e sempre esteve] alijado da distribuição de riquezas e moblidade social e econômica.   

Ademais, o debate étnico no Brasil está impregnado de um certo maniqueismo. Ou seja, todos aqueles  [negros em especial] que denunciam o racismo no Brasil são racistas e, sobretudo, querem instaurar o ódio étnico. Figuras como o sr, Demétrio Magnoli vai aos jornais e às TVs e chama os negros de racistas e nazistas. Nunca vi o Militão discordar do sr Magnoli. Por outro lado, o sr Magnoli é tido como defensor da democracia étnica brasileira e de lutar a favor dos negros.

Esse debate que o Militão sugeriu em seu post, não irá muito além se não discutirmos o cerne da questão, isto é, a identidade do negro que, de certo modo, está ligada à identidade do brasileiro. Se não conseguirmos unir todos o negros  [pardos/mulatos/morenos etc..], em torno de um objetivo comum, a eugenista teoria de branqueamento, desenvolvida no início do século passado, terá sido vencedora.

Sou casado com uma mulher branca [mais uma vez repito isso] e de cidadania portuguesa, minha avó era branca e metade da minha família é da cor branca. Não posso ser racista, pois, teria que começar odiando a pessoa a quem eu mais amo nesse mundo: minha mulher. Minha ex mulher era uma mistura de negros  e  índios. E, sobretrudo, boa parte de meus amigos são brancos.

Militão, apoia-se em uma teoria frágil e semântica - preto ou negro. Os grupos do "movimento" negro do início do século passado lutavam por inserção na vida sócioeconomica do país e, talvez, usassem o termo preto, no entanto, a tentativa era de se afastar/fugir do estigma da escravidão e não lidar com os problemas que a escravidão tinha causado. Na verdade, esses negros, mais vulneráveis em função do projeto de branqueamento, queriam ter tudo que o branco tinha. Nem que para isso tivessem que embranquecer. Era comum, nessa época, no Brasil, a venda de produtos que prometiam que a pessoa ficaria branca. E, tristemente, era usado pelos negros.

Defendo a mudança de atitude do negro brasileiro - ter mais apreço e carinho pela sua história, não obstante a escravidão. História digna e de muitas lutas. Isto é, não tentar negar sua origem e passado escravocrata. Sobretudo, ter mais respeito próprio e vontade de redefinir  sua trajetória de vida. Isto, sim, dará significado à sua vida, não obstante, a nomenclatura - negro ou preto. 

A atitude do Militão, ao contrário, é a vontade de jogar tudo para debaixo do tapete e continuar com a farsa da democracia étnica.

Ao querer maior visibilidade economica e social, o negro não se coloca contra ninguém [em especial o branco] e, também, não quer  incitar o ócio étnico.

Ao contrário do que o Militão crê, não sou racialista - "raças"  no sentido biológico não exitem. No entanto, a criação de subgrupos socias e econômicos, não raro excluídos e à margem das sociedades, é uma realidade. A sociologia e antropologia defendem a existência desses subgrupos e os chama de "raças" ou comunidades de excluídos. Ou seja, essa denominação "raças" serve para batizar comunidades de excluídos de uma determinada sociedade. E, na verdade, essas "raças" ou subgrupos socias e econômicas têm uma gestação politica e ideológica. 

Como já disse inúmeras vezes ao Militão, o racismo independe da existância de "raças" - o racismo é, com efeito, um exercíco de poder. Portanto, os negros no Brasil, não poderiam ser  racistas pois não detém o poder.

Os judeus, na Alemanha nazista, eram considerados uma "raça" [ethos ou povo] inferior, não obstante serem da mesma etnia e nacionalidade dos outros alemães, mas, e, sobretudo, por terem uma orientação religiosa diferente e por terem, supostamente, " matado" Jesus.

 

Um abraço

 

     ORLANDO e N. ALMEIDA,

 

     - o que nos une é saber que o racismo existe e atua de forma eficaz no Brasil.

     - o que nos separa é a estratégia como combate-la.

 

     Nós temos pleno acordo com a história pois a conhecemos. Só que a interpretamos de forma diversa. Ele pensa que ´raça´ e racismo sempre existiram (já escreveu isso).

 

     Eu afirmo que o sentimento de superioridade de um grupo sobre outros sempre existiu. (Aristóteles e o ´escravo natural´ e o debate LAS CASAS x SEPÚLVEDA em 1547/1551), porém foi no século 18 para enfrentar o iluminismo que se consolidou a divisão dos humanos como o nome de ´raça´, era a ideologia do racismo, em que fez a classificação ´racial´ e designou os pretos como pertencentes à ´raça negra´ aquela que seria a base inferior da hierarquia.

 

     Portanto é uma construção social e ORLANDO às vezes reconhece isso. E deve ser descontruida, eu penso. Qual a pré-condição para isso: o repúdio à classificação racial e o repúdio ao pertencimento àquela ´raça inferior´, a única que recebeu um nome próprio ´negra´. A minha atuação está sendo para impedir que o estado, no século 21, faça o que o estado fez no século 19 nos EUA: estatizar o conceito de ´raça´. A minha atuação se destina a levantar perante a academia e os formadores de opinião a responsabilidade com o uso abusivo da linguagem racial.

 

     Em relação ao MAGNOLI, fiz sim críticas públicas ao livro ´Uma Gota de Sangue´, o qual li antes da edição. Fiz críticas públicas e leais, não foram pelas razões do ORLANDO. Minha crítica foi enderaçada ao membro da academia em razão dele empregar a linguagem racialista denominando os pretos e pardos como ´negros´: " José Roberto Militão, levanta alguns pontos críticos no livro: "A questão é tão delicada que o próprio Magnoli por algumas vezes utiliza definições raciais em seu livro como "brancos e negros". O advogado diz ainda que a sociedade tem de abrir os olhos para a questão de diferenças. "O racismo deve ser eliminado pela raiz, e antes dele vêem as definições raciais". Para Calligaris a situação está longe de ser resolvida, e isso só acontecerá quando o ser humano for definido como individuo e não como grupos." http://portalimprensa.uol.com.br/portal/ultimas_noticias/2009/09/24...

 

     O que o ORLANDO não compreende é que eu tenho um papel político nesses debates, pois não falo como cientista social, mas como militante contra o racismo e que nas questões legais e jurídicas tem repercussões que precisam ser avaliadas. Exerço o papel de dizer o que pensava MILTON SANTOS e o que pensa a maioria dos afro-brasileiros conforme a única pesquisa específica sobre leis raciais.

    Copio para ele perceber, por exemplo, a interlocução com um dos mais respeitados pensadores afro-brasileiros na academia,  meu amigo Henrique Cunha Jr. Diz o seguinte:

 " De: hcunhajr
Enviada em: quarta-feira, 16 de março de 2011 09:23
Para: Militão - Terra
Assunto: Re: artigo: IDENTIDADES ´negras´ (pretas)

 Prezado Militao .

Agradeço as suas considerações e comentarios. Eu desde de 1990 tenho trabalhado o termo afrodescendente, no Brasil e fora dele. Orientei trabalhos mesmo nos USA com este intuito.

Perdi posições politicas dentro dos movimentos negros por estes trabalhos. Mas agora até a Nações Unidas adoram este termo.

Outra nao posso utilizar povo negro, pois colide com o Itamarati. O povo implica em autonomia politica . É dificil. Tambem uso afro-brasileiro, pois é um criação da epoca de 1940 e tem implicações outras. Bom por isto fico com a descendencia africana. No afrodescendente e definindo ´negro´ como o afrodescendentes em virtude da história politica, econonomica, social e cultural do Brasil. E sempre enfatizando estes fatores nominalmente.

Um abraço. Cunha"

 

         Enfim, o ORLANDO precisa perceber que a identidade racial não signfica que seja um ´orgulho racial´ positivo. Nos EUA onde é manifesto o pertencimento racial dos black´s, porém, ele tem sido negativo pois pertencer a uma ´raça inferior´ socialmente considerada viola a dignidade humana das crianças e dos jovens o que tem sido comprovado, por exemplo com os vídeos "crianças pretas x bonecas" que se encontram no Google. 

 

abraços,

Militão.

 

     ORLANDO,

     tem um problema conceitual sério, em 09/03 às 21 hs, ele afirmava o seguinte neste mesmo post (pág.2 dos coments): "Prezado, minha mulher é branca, filha de portugueses e minha avó era, igualmente, branca. Logo, não posso odiar brancos ou qualquer outra etnia....  Militão, o racismo existe e sempre existiu a revelia do conceito de "raças"."

 

     Portanto, ele acredita que o racismo seja uma fatalidade humana, assim como Aristóteles pensava a inferioridade inata. Sem desmerecer a inteligência e cultura de ambos, estão equivocados.

 

     O racismo é uma construção social que a ciência tentou legitimar e não conseguiu, e hoje a evolução da ciência com a genética destruiu sua base biológica. Se foi construida, poderá sim ser destruida. MANDELA disse em seu discurso de posse: "Ninguém nasce odiando o outro. Se foram capazes de ensinar a odiar, nós podemos ensina-los a amar." Ou seja, o racismo não é da natureza humana. Podemos ensinar a humanidade a não crer nisso.

 

bye.

Prezado Militão

[[[O racismo é uma construção social que a ciência tentou legitimar e não conseguiu, e hoje a evolução da ciência com a genética destruiu sua base biológica. Se foi construida, poderá sim ser destruida. MANDELA disse em seu discurso de posse: "Ninguém nasce odiando o outro. Se foram capazes de ensinar a odiar, nós podemos ensina-los a amar." Ou seja, o racismo não é da natureza humana. Podemos ensinar a humanidade a não crer nisso.]]]

O racismo sempre houve, só não era conceitualizado. Sempre houve o desprezo pelo outro em razão de diferenças  fisicas, religiosas ou culturais e isso, desde a antiguidade [escravos no Egito, Roma  etc..].

Não somos santos e o racismo como a inveja e tantos outros estigmas morais e éticos fazem, sim, parte da natureza humana e, sobretudo, existem à revelia do conceito de "raça".

 

[[[...O racismo tem assumido formas muito diferentes ao longo da história. Na antiguidade, as relações entre povos eram sempre de vencedor e cativo. Estas existiam independentemente da raça, pois muitas vezes povos de mesma matriz racial guerreavam entre si e o perdedor passava a ser cativo do vencedor, neste caso o racismo se aproximava da xenofobia. Na Idade Média, desenvolveu-se o sentimento de superioridade xenofóbico de origem religiosa.  ..]]]

 

Um abraço 

 

    ORLANDO,

    o texto citado não traz a fonte. O fato de constar no Wilkipídia não empresta credibilidade a um texto pretensamente acadêmico. De qualquer forma, contra ele te apresento ao grande PIETRO BARBUJANI autor do já clássico ´A invenção das Raças´, que contraria a divagação acima.

   http://www.antropologia.com.br/entr/entr36_br.htm

 

    O que tratamos aqui é o ´racismo´ no contexto que conhecemos: a idéia da diferença e hierarquia racial em razão da cor da pele. Por isso que é relevante consignar que ´NEGRO´ não é equivalente à cor ´preta´.

 

    Porém, sei, como diz BARBUJANI, que desconstruir isso no século 21, equivale a dizer no século 17 que a terra gira em torno do sol. Mas é possível. Basta que a academia tenha consciência dessa verdade. Já fui surpreendido por eminentes doutores da academia, que surpresos no meio de debates, chegaram a afirmar categoricamente que ´preto´ e ´negro´ eram sinônimos.

 

     Teve um caso especial que passados alguns dias, me escreveu, reconhecendo que nunca haviam pensado no assunto  - e que se retratava - e que passariam a considerar a diferença semântica das duas designações, bem como, que essa diferença tinha relevância. Agradeceu e se disse preocupado com sua vasta produção acadêmica que incide nesse erro crasso.

 

      Tem valido a pena fazer esse alerta. Assim como tem valido a pena dizer que leis raciais representam a criação da ´raça estatal´ e legitima a construção social da ´raça´, com sua presumida hierarquia e tratamento desigual, o que, por conseguinte, significa o estado praticar racismo, realimentando a serpente e seus ovos.

abraço, Militão.

>> CVA - O senhor argumenta no seu livro que a idéia de raça é uma construção social e não um dado biológico. Temos visto, no entanto, como a idéia de raça é ainda vigorosa e tem justificado práticas de xenofobia e racismo. Como o senhor entende a militância de segmentos sociais marginalizados, como aquela dos movimentos sociais negros, que se afirmam no resgate da identidade negra?

Barbujani - Uma vez mais isto mostra como a idéia de subdivisão racial tem suas raízes mais na política, na economia e na psicologia do que na biologia. Defender os movimentos negros (ou gays) me parece a resposta de setores da sociedade que vêm sendo discriminados há muito tempo. Se, como acontece no EUA, o rótulo racial é acompanhado por pequenos privilégios, como o acesso mais fácil à universidade (para negros e latinos) ou a possibilidade de se abrir um cassino (para os nativos dos EUA), é compreensível que estes grupos aderirão a estes rótulos. Mas este é um fenômeno norte americano e às vezes conduz a um paradoxo. Para entender isto, eu recomendo a leitura do extraordinário romance de Philp Roth, A Marca Humana (Cia. Das Letras).


 

 

 

Prezado Militão

[[[[...No seu livro, ele sustenta que o conceito de raça (diferenças genéticas marcadas entre grupos humanos) é uma construção social e não um dado biológico; que nós as inventamos e as levamos a sério por séculos. Ele argumenta que “a palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica reconhecível no DNA da nossa espécie” e que, hoje em dia, não é possível ver em nenhum de nós um membro de uma espécie diferente. Portanto, no seu entender, resta conhecermos até que ponto somos diferentes no interior de uma única espécie e o que significam essas diferenças. Ele não vê nenhum motivo prático, concreto, para continuar usandocategoriaraciais....]]] 

 

Eu concordo com ele. E, ele,  não diz nada diferente do que venho dizendo. No entanto, quando ele diz que não vê nenhum motivo para se usar categorias "raciais", ele se esquece que, não obstante nossa vontade, elas, continuam sendo usadas. E, sobretudo, o racismo sobrevive à revelia do conceito de "raça". Prezado, a luta não é semântica, mas politico e ideológica. O racismo é anterior ao conceito de "raças". 

Um abraço                                                                         

Prezado Militão

O que eu disse é que, em nenhuma ocasião, você criticou, pelo menos publicamente, o sr Demétrio Magnoli, por ter, por meio da mídia chamado [Magnoli] os negros brasileiros de racistas e nazistas e, sobretudo, de os negros no Brasil quererem fomentar o ódio racial.

 

 

Um abraço

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