Sinais de Fumaça - Dialogando com todo mundo e o mundo inteiro

Segue o texto integral de reflexão formulada pela coordenação política MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que, ao lado de outros movimentos legitimamente nascidos de carências concretas dos totalmente desassistidos de políticas públicas, e totalmente apartados de estatísticas economicistas fragmentárias, transita o dificil, porem firme terreno da arregimentação política a oferecer renitente resistência ao avanço predatório do capital, construindo práxis diária apoiada na busca de unidade, na consolidação teórica e no enfoque realista, pragmático, do que há para se combater e construir, desatrelado mas não apartado de instâncias partidárias, governamentais, organizativas. Explicitam-se claramente os caminhos convergentes de movimentos de base com organizações trabalhadoras, partidos de esquerda e sindicatos. Clama por unidade, não antagonismo.

São sinais de fumaça a sinalizar aos caras-pálidas que a história ainda está em pleno andamento - a despeito do inconformismo dos muitos candidatos a coveiro - e que o processo econômico nada representa, ou representa tudo, face ao imprescindivel engajamento político, à necessidade cada vez mais presente de transformar estruturalmente, e não apenas retocar.

Cosméticas já não servem aos que subitamente estão identificando suas próprias faces diante da imensa vitrine das relações sociais; e não se envergonham mais de sua própria imagem.

É um texto longo, porque havia que ser longo, detalhado, explicativo. Mas merece ser lido e pensado por cada palavra e cada vírgula.

Saudações e viva!



O MOVIMENTO POPULAR E OS DESAFIOS DA CLASSE TRABALHADORA NO BRASIL
Guilherme Boulos,
membro da coordenação do MTST


A Crise como desafio de organização

A crise econômica coloca novos problemas e recoloca os velhos. Crises são sempre momentos de ataques aos trabalhadores; ao menor sinal de perda, o capital quer logo socializar os prejuízos. Reza uma cartilha bem conhecida: demissões em massa, aumento da precarização, cortes de salários e gastos públicos. Abre-se então um período onde a resistência e a luta aparecem como cada vez mais urgentes e necessárias. As organizações da classe são levadas a sair da inércia e responder aos ataques. Numa crise, quem não é capaz de oferecer respostas rápidas aos problemas fundamentais é atropelado pelos fatos novos que a conjuntura apresenta num ritmo intenso. É, portanto, um momento em que o debate da organização de classe adquire outro significado: menos abstrato, mais dinâmico e urgente.

A atual crise é, por um lado, velha. Remete à própria lógica de produção do capitalismo, ao que Marx chamou de “contradição em processo”. Ou seja, o movimento em que a fome do capital de produzir mais em menos tempo se converte em diminuição da rentabilidade de seu investimento. Estimulado pela concorrência, o capital introduz sem parar inovações tecnológicas, que aumentam a produtividade e o grau de exploração do trabalhador, mas que encarecem o investimento em meios de produção – gerando uma tendência de queda nas taxas de lucro – e levam a crises periódicas de superprodução. Historicamente, o capitalismo “solucionou” estas crises com a abertura de novos mercados, criando mais necessidades de consumo e desbravando mais territórios, não sem antes descarregar sobre o trabalhador o peso de suas perdas. E numa fuga para frente reinicia seu movimento alucinado de valorização. Mas a cada crise, ao lançar mão de seu expediente padrão, o capital afunila suas possibilidades futuras.

Neste sentido, a atual crise é também nova, trazendo elementos que não existiam em crises anteriores ou que nelas apareciam bem menos desenvolvidos. Não é por acaso que os trilhões de dólares injetados nos mercados – que em outros tempos seriam um tanto desproporcionais – não têm evitado o aprofundamento dos sintomas. São muitas as “novidades”. Assistimos nas últimas três décadas a um direcionamento inédito de capitais para os investimentos financeiros. O encarecimento dos custos do processo produtivo, expresso em meios de produção e serviços necessários à realização do valor, levou a uma profunda seleção e concentração do capital, fazendo com que muitos capitalistas migrassem seus investimentos para a especulação, à espera de uma maior rentabilidade. Pela mesma razão ocorreu um aumento de dependência da esfera produtiva em relação ao crédito, alimentando a expansão de uma estrutura financeira complexa e gigantesca.

Paralelamente a esse inchaço financeiro ocorreu um processo de liberalização e desregulamentação do movimento internacional de capitais. As fronteiras se dissolveram e o capitalismo se aproximou como nunca da consolidação de uma economia mundial, onde os Estados nacionais passam a ser simples pólos, com maior ou menor fragilidade e influência, o que resulta na redução de seu poder de controle e intervenção sobre o movimento do capital. Junto a isso, o papel desempenhado pelas instituições internacionais, blocos e grupos de Estados tem se demonstrado no mínimo insuficiente, a todo o momento limitado por contradições entre uma intervenção planejada em nível internacional e os interesses nacionais. Ademais, a atual crise – além de brotar deste contexto de hipertrofia financeira e internacionalização desregulamentada do capital – nasceu no principal centro econômico mundial. Diferencia-se por isso de todas as crises vivenciadas nas últimas décadas, nas quais os EUA terminavam por ser o garantidor em última instância da liquidez do mercado. O problema é quem garantirá agora. Estamos, portanto, diante de uma crise capitalista profunda e grave, com desdobramentos e alcances muito difíceis de prever.

Este quadro coloca para a esquerda socialista – muito mais do que respostas – uma série de questões no campo da ação política. Sabemos que as crises econômicas trazem em geral um potencial de intensificação da luta de classes, de ascenço nas mobilizações da classe trabalhadora. É certo, porém, que nem toda crise realizou de fato este potencial, inaugurando um período de grandes lutas e enfrentamentos. Mas é também certo que as grandes lutas e revoluções tiveram quase sempre uma crise econômica entre seus desencadeadores. Enfim, nem toda crise gera ascenço de massas e revoluções, mas, no mínimo, as crises criam condições mais favoráveis para que ocorram. Isto porque nos momentos de normalidade e crescimento, os trabalhadores – por mais explorada e subordinada que seja sua condição – permanecem integrados ao processo de valorização do capital, o que permite sua sobrevivência. A crise abala profundamente os laços e contratos entre trabalho e capital, abrindo caminho para o novo.

Neste momento é central o papel do elemento organizativo, das formas e níveis de organização da classe trabalhadora. É o velho debate das condições objetivas e subjetivas, ambas indispensáveis; só do raro encontro entre elas é que nascem as grandes transformações. O preparo político-organizativo é decisivo para o aproveitamento de uma circunstancia histórica favorável. Apresentar uma saída socialista para a crise do capitalismo não é somente proclamá-la. É preciso ter organizações de classe politicamente capazes e com condições de ampla mobilização para conduzir o processo de ascenço e – no limite – obstruir a reprodução do processo de valorização do capital. Estar à altura desta necessidade é o grande desafio das organizações da classe trabalhadora para a construção do socialismo.

Esse desafio envolve duas tarefas fundamentais. A primeira é, naturalmente, o acúmulo de força social pelas organizações. A capacidade de potencializar identidades coletivas a partir das demandas específicas da classe, convertendo-as em organização e mobilização, é algo essencial para a luta dos trabalhadores. Construir força social implica o desenvolvimento contínuo e progressivo deste trabalho – o trabalho de base – articulando ação reivindicativa com uma estratégia política. A possibilidade de direcionar estrategicamente ascenços de mobilização se define não no próprio momento de ascenço e nem apenas com a apresentação de bons programas, mas no dia-a-dia da organização da classe. A essa tarefa está ligada uma segunda: a construção da unidade organizativa. A fragmentação e divisão da esquerda socialista – tanto no sindicalismo quanto no movimento popular – dificulta muito o desenvolvimento de uma referência política classista, efetiva e simbolicamente. A possibilidade de nossas lutas reivindicativas permanecerem limitadas em si mesmas e do poder de mobilização que temos perder-se na dispersão é muito maior com a divisão. Só a disposição à unidade permite um enfrentamento vitorioso – especialmente neste momento de crise – do desafio de organizar uma classe desestruturada pelo capital. Assim, acumular força social e unificar forças organizativas são nossos desafios.

Uma classe mais complexa

Definir, entender e organizar a classe trabalhadora hoje é algo bem mais complexo do que foi em outros momentos do capitalismo. No princípio de seu desenvolvimento, o capital concentrou os meios de produção com a formação da grande indústria e, com isso, concentrou também os trabalhadores. Produziu condições comuns de existência, o enfrentamento no espaço de trabalho dos mesmos problemas e do mesmo adversário (o patrão), possibilitando a formação de uma identidade de classe. Os trabalhadores, vivenciando esta identidade e percebendo-se coletivamente como classe, criaram desde cedo seus instrumentos de organização para a luta, associando-se em sindicatos. O sindicato consagrou-se como a principal forma organizativa da classe para o enfrentamento direto e imediato ao capital, não só na indústria, mas também nos serviços, construção civil, comércio, etc. A classe trabalhadora se valeu das condições criadas pelo próprio capital, transformando a concentração no espaço de trabalho em identidade, organização e luta.

Mas ao longo do século XX o capitalismo passou por profundas transformações. As mudanças na produção, especialmente a partir das últimas décadas, alteraram de forma decisiva as relações de trabalho, a condição do trabalhador e a configuração da classe. Uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora está empregada no setor de serviços (e não na indústria), cujo inchaço representa o aumento da complexidade do processo produtivo e da infra-estrutura necessária para sua reprodução. Segundo dados da OIT, em 1990, 53% dos trabalhadores brasileiros estavam empregados em serviços; e, segundo o IBGE, o percentual de trabalhadores empregados na indústria no Brasil caiu de 28,5% em 1980 para 21% em 2004. Uma tendência mais recente é a perda de espaço da relação assalariada tipicamente capitalista para o trabalho por conta própria, principalmente em serviços e comércio: em 1980, 82% dos trabalhadores brasileiros eram assalariados, número que caiu para 72% em 2004 (IBGE). E nas relações assalariadas houve um movimento profundo de precarização, com o aumento dos contratos temporários, a terceirização de parte das funções, a explosão da informalidade e outros ataques à estabilidade do emprego. Mesmo o trabalho industrial, em seus postos com menor exigência de qualificação, tem sido duramente atingido pela instabilidade. A isso se soma ainda o aumento do desemprego crônico, com a exclusão sem perspectiva de retorno ou simplesmente a não inclusão de grandes massas de trabalhadores, seja por fatores de idade (muito jovem ou muito velho) seja pela maior exigência de qualificação formal mesmo para as funções mais simples.

Assim, um segmento importante da classe não consegue mais envolver-se nas relações regulares de trabalho, alternando períodos de desemprego com trabalhos temporários, informais e de baixo rendimento. Ocorre, portanto, um movimento de diversificação nas relações de trabalho e na própria condição do trabalhador, sob o signo da instabilidade. Este fato é decisivo e tem conseqüências profundas na configuração e organização da classe trabalhadora.

A instabilidade na relação de trabalho tem como conseqüência uma instabilidade nas condições de identificação e organização de classe através do espaço de trabalho. A formação de uma identidade coletiva dos trabalhadores exige um mínimo de regularidade e estabilidade na relação com o trabalho. O desempregado ou o trabalhador temporário tem condições muito menos favoráveis de se perceber enquanto classe e tomar consciência da exploração no espaço de trabalho do que o operário que mantém uma relação regular e formal com este espaço. Sem falar no trabalhador por conta própria, muitas vezes sem colega nem patrão, que é levado por sua condição a perceber os problemas e soluções como particulares e individuais. Não é por acaso a imensa dificuldade do movimento sindical em organizar estes segmentos. Assim como não é por acaso que os elementos mais ativos de grandes lutas sindicais sejam muitas vezes os trabalhadores com relação mais estável com o emprego, exemplo dos ferramenteiros nas grandes greves metalúrgicas do ABC. É claro que a instabilidade que se expressa no desemprego e no trabalho precário não é um fato novo, mas acompanhou todo o desenvolvimento capitalista A diferença hoje está na dimensão que este problema adquiriu, tornando-se um traço marcante da condição do trabalhador.

O desafio de organizar a classe trabalhadora no mundo atual passa inevitavelmente pelo enfrentamento desse problema. É insustentável para um projeto socialista desconsiderar todas essas transformações e complexidades. Se pretendemos organizar os trabalhadores devemos partir de sua condição, do lugar onde estão e da forma como se reproduzem e não esperar que a classe se adéqüe a nossas formas de organização. Organizar esta imensa massa precarizada e dispersa, atirada à própria sorte pelo capital, não é um fator secundário. É uma necessidade estratégica. A idéia de que o operariado industrial, por sua posição na produção, é o portador histórico da causa socialista e o único segmento indispensável para sua vitória não responde à situação da classe trabalhadora. O que não deve nos levar a uma inversão equivocada. É claro que sem o envolvimento de uma parte ativa do operariado – especialmente dos setores mais estratégicos da economia – não se faz revolução num país como o Brasil. Mas o operariado sozinho tampouco tem condições nem força para fazê-la. A maior parte da classe trabalhadora não está no chão da fábrica e, além disso, grande parte dela está fora das relações regulares e formais de trabalho. A organização da classe em seu conjunto exige, portanto, a combinação de formas organizativas diferentes. É nessa necessidade de dar resposta organizativa às mudanças no mundo do trabalho que os movimentos populares ganham um novo significado.

A importância do movimento popular

A questão que precisamos colocar é a seguinte: como organizar este vasto segmento de trabalhadores que está fora do raio de ação do sindicalismo? E, a partir dela, duas outras: onde está esta parcela da classe que mantém uma relação mais frágil e distante com o trabalho? De que modo vivencia as condições de exploração e forma sua identidade coletiva? O capitalismo, como de hábito, criou o problema e apresentou caminhos para a solução. Ao mesmo tempo em que fragmentou e diversificou o mundo do trabalho, o capital concentrou estes trabalhadores em imensas periferias urbanas. Criou, com isso, condições para a reconstrução de identidades e para o desenvolvimento de organizações de resistência nos territórios periféricos.

A segregação social capitalista determina uma segregação espacial. A divisão de classes se materializa no espaço e marca a formação dos centros urbanos. Apesar de apresentar-se como caótico e desordenado, o processo de urbanização responde à lógica do capital e define fronteiras internas. Por vezes fronteiras muito bem demarcadas, como no caso das “cidades paradisíacas” no meio de concentrações de pobreza (ex. de Alphaville, em São Paulo) ou nas iniciativas de murar as favelas. Forma-se um território periférico, que não é simplesmente o bairro como local de moradia do trabalhador, diferenciado de seu local de trabalho. E que não é necessariamente periferia no sentido geográfico, mas no sentido social. É um território socialmente moldado, que concentra trabalhadores e desempregados e define-se por uma série de características: forma de ocupação do solo geralmente irregular; condições de vida precárias; carência de serviços públicos e infra-estrutura básica; relação com o Estado marcada por clientelismo e repressão; coexistência com formas de poder informais e ilegais; dentre outros elementos. O território periférico não é, portanto um espaço qualquer, mas o resultado de um processo social que determina identidades econômicas, políticas e culturais. É, tal como a fábrica, um espaço de concentração de trabalhadores criado pelo capitalismo e que possibilita a formação de identidades coletivas.

O que dá sentido e potencializa o território periférico como espaço de identificação de classe é o fato de que aquela parcela mais duramente atingida pela instabilidade nas relações de trabalho mantém relações sociais mais regulares e estáveis a partir do território. É aí que vivencia uma parcela importante de seu tempo, antes vivido no espaço de trabalho, tempo marcado por condições comuns de opressão e pelas mesmas carências e problemas. Isso possibilita a percepção da identidade, como primeiro passo para uma consciência de classe. A identidade real e simbólica da periferia não pode ser subestimada no desafio de organização da classe trabalhadora. É claro que contém em si uma série de limites, sendo o principal deles o fato de que não se forma no coração do conflito entre capital e trabalho, isto é, no processo de produção. A percepção da natureza da exploração do trabalho e a definição do capital como adversário é aqui mais difícil e cheia de mediações. Mas mesmo este limite não descaracteriza seu potencial de organização e luta contra o capital. Basta notarmos que, ao longo das últimas décadas e principalmente na América Latina, surgiram inúmeras expressões de movimentos populares territoriais, organizando os segmentos mais espoliados da classe trabalhadora em enfrentamentos de grande radicalidade e por vezes com claro caráter anticapitalista.

Podemos levantar dois importantes e recentes exemplos: o movimento piqueteiro na Argentina e as organizações de bairro na Bolívia. A formação e ascenço do movimento piqueteiro se deu com o aumento do desemprego e a desestruturação das relações de trabalho. Sua marca, principalmente dos movimentos da região metropolitana de Buenos Aires, é a organização dos desempregados e trabalhadores precários a partir dos bairros. Demonstrou a capacidade de uma massa desagregada pelo capital em organizar-se e tornar-se protagonista de grandes lutas sociais. As organizações piqueteiras desempenharam um papel decisivo quando, com o aprofundamento de uma crise econômica em 2001, ocorreram mobilizações que derrubaram presidentes e converteram-se em luta política com reivindicações de classe avançadas. É certo que não foram os únicos agentes deste processo e que mostraram nele muitos de seus limites, mas isso não diminui o valor do potencial organizativo que demonstraram. No caso boliviano, a Fejuve de El Alto, junto a outros movimentos populares, levou seu poder de organização e mobilização a um nível de radicalidade capaz de enfrentar o Exército e isolar a capital do país, gerando uma crise de abastecimento, tendo grande responsabilidade para a queda do presidente Sanchez de Lozada. São apenas exemplos, que, como qualquer outro, carregam as particularidades das situações em que se desenvolveram, mas que mostram as possibilidades da organização da classe nos movimentos populares, a partir do território.

A atuação do MTST e de outros movimentos urbanos no Brasil, apesar de ainda muito limitada, também traz elementos para considerar este potencial: capacidade organizativa em ocupações e comunidades, formação de militantes para a luta de classes e um poder de mobilização que – considerando a situação das lutas sociais no país – não é insignificante. E é interessante reforçar que o que está em jogo aqui é exatamente a organização dos segmentos mais precarizados da classe: um cadastro realizado em uma ocupação do MTST na zona sul de São Paulo, com mais de 5.200 pessoas, mostrou que 71% delas eram trabalhadores temporários, informais ou desempregados, enquanto somente 26% eram trabalhadores formalizados e com emprego regular.

Os movimentos populares, por não organizarem os trabalhadores no local de produção, dificilmente têm condições de desempenhar um papel importante na obstrução do processo produtivo e, pela mesma razão, não têm o patrão como adversário direto e imediato. Esses elementos negativos ajudam a pensar o que seria o eixo de uma estratégia socialista de atuação dos movimentos no território. Se os movimentos não têm condições de parar a produção de mercadorias, já demonstraram ter condições de parar a circulação. Da mesma forma, se não lutam diretamente contra os patrões, têm grande potencial de luta contra o Estado capitalista. A formação do valor das mercadorias se dá na produção, no processo de trabalho, mas a realização deste valor depende da circulação e da venda da mercadoria. Ou seja, obstruindo-se a circulação da unidade de produção ao mercado de consumo obstrui-se o processo de reprodução do capital. A forma como essa circulação acontece no Brasil e em outros países é principalmente através de rodovias, o que faz da capacidade de bloquear rodovias um horizonte importante para a luta contra o capital.

Além disso, a luta por direitos básicos dirigida contra o Estado, embora não tome o capital como adversário direto, pode se desdobrar em uma luta anticapitalista. Reivindicações como a moradia, serviços públicos e infra-estrutura urbana são aparentemente inofensivas, por não tocarem na estrutura produtiva e nas relações de trabalho. Mas, mesmo a mais limitada das reivindicações, quando não pode ser atendida adquire um caráter geral. Ou seja, se o capitalismo não se mostra capaz de resolver o problema crônico da falta de moradia, ou qualquer outro, a luta por essa demanda – quando levada às últimas conseqüências – ganha um sentido de enfrentamento ao capitalismo. E podemos afirmar que o conjunto dos problemas urbanos (moradia, assistência de saúde, etc.) – por sua articulação interna com a lógica do capital e pela perda estrutural da capacidade integradora do Estado – dificilmente poderão ser solucionados por este sistema em países como o Brasil. Portanto, o afastamento da relação direta entre capital e trabalho não inviabiliza uma estratégia socialista para o movimento popular.

Essas formulações não têm como objetivo propor uma prioridade da atuação do movimento popular em relação ao movimento sindical ou da organização territorial em relação ao espaço de trabalho. Mas sim defender a idéia de que o movimento popular é, como o sindicato, uma forma de organização da classe trabalhadora, que pode ter um importante papel estratégico para luta contra o capitalismo. Entender esta questão como uma oposição entre sindicalismo e movimento popular seria profundamente equivocado. Trata-se, ao contrário, de uma relação complementar. A organização da classe trabalhadora em seu conjunto passa pela unidade e complementação desses diferentes pólos. O desafio é precisamente este: construir a unidade de uma classe fragmentada, partindo das diferenças nas formas de organização e de luta, para chegar ao seu encontro no objetivo histórico do socialismo.

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Hermeneuta, dê uma olhada no seguinte texto do Hobsbawn (republicado pelo Azenha): acho que tem algumas coisas que podem te interessar.

Socialismo fracassou, capitalismo quebrou: o que vem a seguir?

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. A prioridade não é o aumento do lucro e do consumo, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Isso significa iniciativa pública não baseada na busca de lucro. Decisões públicas dirigidas a melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal. A análise é do historiador britânico Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm - The Guardian, reproduzido na Carta Maior

Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias -, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo.

Conhecemos duas tentativas práticas de realizar ambos sistemas em sua forma pura: por um lado, as economias de planificação estatal, centralizadas, de tipo soviético; por outro, a economia capitalista de livre mercado isenta de qualquer restrição e controle. As primeiras vieram abaixo na década de 1980, e com elas os sistemas políticos comunistas europeus; a segunda está se decompondo diante de nossos olhos na maior crise do capitalismo global desde a década de 1930. Em alguns aspectos, é uma crise de maior envergadura do que aquela, na medida em que a globalização da economia não estava então tão desenvolvida como hoje e a economia planificada da União Soviética não foi afetada. Não conhecemos a gravidade e a duração da atual crise, mas sem dúvida ela vai marcar o final do tipo de capitalismo de livre mercado iniciado com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda.

Ninguém pensa seriamente em regressar aos sistemas socialistas de tipo soviético, não só por suas deficiências políticas, mas também pela crescente indolência e ineficiência de suas economias, ainda que isso não deva nos levar a subestimar seus impressionantes êxitos sociais e educacionais. Por outro lado, até a implosão do mercado livre global no ano passado, inclusive os partidos social-democratas e moderados de esquerda dos países do capitalismo do Norte e da Australásia estavam comprometidos mais e mais com o êxito do capitalismo de livre mercado.

Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado a sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados sem nenhum exagero como Thatchers com calças. O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos.

A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa. Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata. Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização.

Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global. O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e o com a recuperação mais difícil também.

É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí a nossa disposição – inclusive a nacionalização -, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar. No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim.

Por um lado, não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões na esperança de encontrar o caminho da saída.

Por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas. Por acaso se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas? Ou de que a organização e a contabilidade empresariais deveriam ser os modelos inclusive da função pública, da educação e da pesquisa? Ou de que o crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais – exceto uma minoria de pobres – estejam um pouquinho melhor? Ou de que o que um país necessita, em qualquer caso, é um máximo de crescimento econômico e de competitividade comercial? Não creio que tenham superado tudo isso.

No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas.

Tomemos o caso de Londres. É evidente que importa a todos nós que a economia de Londres floresça. Mas a prova de fogo da enorme riqueza gerada em algumas partes da capital não é que tenha contribuído com 20 ou 30% do PIB britânico, mas sim como afetou a vida de milhões de pessoas que ali vivem e trabalham. A que tipo de vida têm direito? Podem se permitir a viver ali? Se não podem, não é nenhuma compensação que Londres seja um paraíso dos muito ricos. Podem conseguir empregos remunerados decentemente ou qualquer tipo de emprego? Se não podem, de que serve jactar-se de ter restaurantes de três estrelas Michelin, com alguns chefs convertidos eles mesmos em estrelas. Podem levar seus filhos à escola? A falta de escolas adequadas não é compensada pelo fato de que as universidades de Londres podem montar uma equipe de futebol com seus professores ganhadores de prêmios Nobel.

A prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva. Mas isso significa – ou deveria significar – iniciativa pública não baseada na busca de lucro, sequer para redistribuir a acumulação privada. Decisões públicas dirigidas a conseguir melhorias sociais coletivas com as quais todos sairiam ganhando. Esta é a base de uma política progressista, não a maximização do crescimento econômico e da riqueza pessoal.

Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico. E, levando em conta a gravidade da crise econômica, deveria ser um deslocamento rápido. O tempo não está do nosso lado.

Artigo publicado originalmente no jornal The Guardian
Tradução do inglês para o espanhol: S. Segui, integrante dos coletivos Tlaxcala, Rebelión e Cubadebate.
Tradução do espanhol para o português: Katarina Peixoto
Liu, quando você quiser dizer algo, diga em seu próprio nome, nao impute intenções e significados aos outros; pelo menos nao a mim, tá? Quem está fazendo essa contraposição entre o Hobsbawn e o Boulos é você, e tb nao fui eu quem disse que este é um bosta, tá?
É mesmo, falha minha.
Releve, tá?
Estou retirando.
Não retire, por favor.
Essa é uma prova que o diálogo está bom.
nossa, o que ele vai retirar?
vou ficar quinem você. só com um olhinho esperto!
(mas eu entendi, foi só um acidente de percurso. quem não os sofre?)
Anarquista amiga

Eu acho que os textos recentes de Hobsbawn fornecem uma big picture do cenário presente, mas me deixam meio ansioso quanto ao QUE FAZER.

Por um lado há a avaliação amplamente disseminada do refluxo em que se encontra o movimento sindical, em escala planetária. As causas disso são apontadas na reorganização da produção, certamente desfavorável à organização dos trabalhadores. Estou à caça de uma análise objetiva do toyotismo X fordismo porque suspeito que aí, na comparação de características essenciais e acessórias, garimparemos uma pauta de demandas conseqüentes, configurando uma estratégia eficaz.
Estou falando de coisas muito objetivas, sobre as quais pensei no chão da fábrica, como por exemplo: por que o capital agora adere aos turnos de 12hs, quando o problemão social do desemprego (e a queda no consumo) seria fortemente mitigado pela adoção de turnos de 8hs?

Por outro lado, os movimentos populares pipocam em todas as periferias, de todos os lados do planeta. Há milhares de iniciativas maduras, há os foruns sociais, mas ainda assim... parece uma coisa ainda atomizada, em busca de uma ação mais coordenada. A facilidade atual da Intenet ajuda, mas ainda está longe de ser a solução. Falta inventar alguma dinâmica nova. Na finada pauta neoliberal, submetida ao devido escrutínio, certamente está a agenda conseqüente para o movimento popular. Ou, trocando em miudos, temos que gastar dinamite é nas vigas mestras do edifício capitalista presente. A pauta do Put People First é suficiente para isto?

abraços

PS - me parece que algumas mensagens foram removidas desta troca de idéias, porque não percebo nexo entre algumas delas. Que aconteceu? Melhor deixar quieto?
Olha, nao tenho capacitação suficiente para te responder. Gosto da perspectiva geral que o Hobsbawn levanta, mas como implementar isso... Do lugar social que ocupo (professora num curso de Letras...), tenho pouca perspectiva sobre esse tipo de questao. Sou anarquista, como o meu nick indica; mas tb acrescentei o adjetivo Lúcida porque desconfio muito de coisas muito no plano do ideal. Por isso manifesto alguma desconfiança com relação a coisas como democracia digital, coisas assim. Seria ótimo se estivéssemos maduros para a democracia direta, mas acho que para isso seria necessário antes um grau muito maior de organização da sociedade, coisa que nao vejo (mas reconhecendo, como disse acima, que nao tenho muito como ter informações sobre isso). Me parece que uma boa direção de progresso sao coisas como economia solidária, cooperativismo, etc.; a partir desse tipo de iniciativas se poderia pensar depois em soluções políticas. Agora, se isso é possível de ser posto em prática em larga escala nas condições atuais do capitalismo... NAO SEI.

Quanto às mensagens retiradas, deixe para lá. O Liu postou algo que sugeria uma dada posição minha, nao gostei, ele retirou, OK, papo encerrado.
Só pra sistematizar um pouco, Hermenauta,
Tentando captar o seu sinal de fumaça, você supõe que a transição ao modelo toyotista fragmentou as relações no "chão da fábrica", desespecializou (e descaracterizou) o operário, diminuiu as unidades produtivas, diluiu o existência física do patrão, promoveu noções de trabalho criativo, "colaborativo", e pulverizou a necessidade de pactos sociais que, pela própria natureza pragmática de intermediação entre capital e trabalho, requeria a existência de sindicatos fortes e representativos.
Me parece também que você considera um paradoxo o turno de 12 horas, significando redução do capital variavel, incrementando desemprego num momento em que há perspectiva de subconsumo.
Isso leva também à hipótese do Estado amorfo, não mais mediador, mas articulador de interesses "micro", tomando como referência a desregulação (jurídica) de proteções trabalhistas e direitos sociais nos setores educação, saude, transportes, habitação, que estão sendo atirados à vala rasa da privatização e terceirizações.
A finada pauta neoliberal mundializa a segregação social, até em níveis de segregação espacial em territórios geográficos ocupados simultaneamente (não sei bem a expressão), produzindo o abalo nas capacidades agregadoras de sindicatos e associações formais, e com isso mundializa a "periferização social" dentro dos próprios entornos urbanos elitistas.
O "cada um por si" seria uma tentativa desesperada de busca por oxigênio de um projeto acumalativo em carater planetário.
Uma viga mestre aonde colocar dinamite seria procurar formas de furar o bloqueio entre baias e equipes cooperativas internas de unidades produtivas, conjuntamente à uma pauta interligada entre sindicatos e organizações populares capaz de exercer pressão sobre os Estados, mediante fóruns sociais, intersindicais, na redefinição do papel daqueles enquanto responsáveis pela promoção de aparatos jurídicos, econômicos e políticos.
É por aí que se prossegue, Hermenauta?
Vocês acreditam mesmo que o toyotismo, enquanto forma de trazer para a fábrica a ideologia colaboracionista, deixou o trabalhador ainda mais desnorteado sobre as formas de luta?

mas eu acho que não é só isto...

parece que o capitalismo, de fato, promoveu a incorporação de uma massa significativa de trabalhadores neste espectro de classe média... e aí, a coisa se complicou.

lembro da defesa de uma tese, onde a doutoranda, teoricamente, incorporou todo o ferramental teórico do marxismo clássico. mas a pesquisa de campo (hummm) era a análise da experiência da volvo no paraná... e aí ela encontrou operários satisfeitos... com turnos de trabalho mais adequados que os do passado... refeitórios e alimentação exemplares... quadra de esporte... momentos de folga para desestressamento... conclusão: a social-democracia havia pregado um golpe no ferramental teórico...

por isto, acho que é um outro momento de luta. trata-se da incorporação mesmo dos excluídos... aqueles que nem o Estado, nem os partidos tradiconais são capazes de dar conta.

e, portanto (concluo eu) me parece que são os movimentos sociais mesmo que irão ou terão que dar as diretrizes do caminho, voltadas para os deserdados da terra (na imagem linda de FF, que sempre gosto de citar)... da terra... da casa... da comida... da saúde... da escola...

por aí? tô fora do tom?
Totalmente dentro do tom, samba de todas as notas.
Já até se falou em volvismo, ponta de lança do toyotismo.
Não sei é o velho fordismo se adequando, buscando saidas, cooptando subjetivamente, mas representa de fato uma multiqualificação como representa desemprego em massa.

Volta a tese velha de guerra do velho, Luzete: "Aos que nada tem a perder caberá a necessidade de chamar à unidade".
Fiquei um pouco quieto, revendo o foco.
A discussão que o texto propõe é a A CRISE COMO DESAFIO DE ORGANIZAÇÃO.
Consideradas as dificuldades atuais do movimento sindical operário, em grande parte geradas pela reorganização da produção levada a cabo pelo capital, resulta evidente a importância do trabalho da organização popular nos seus territórios.
Em certa altura, o texto coloca a idéia de que - grosseiramente resumindo - se não podemos obstruir a produção, resta-nos restringir a circulação das mercadorias, bloqueando as ruas. Eu discordo: restam-nos muitas outras alternativas de luta.
O capitalismo, como sempre, cria o problema e apresenta a solução. Um dos maiores êxitos do capital foi a dominação ideológica das massas através da máquina de comunicação, portanto uma das principais frentes de combate é a nível do simbólico, na propagação da cultura de direitos, onde temos um atraso de 500 anos para tirar. Boal nos fará falta, mas deixou instrumental eficiente para o desenvolvimento criativo de ações em torno de demandas conseqüentes que sejam reconhecidas e até aplaudidas pela população em geral. Respeito muito a ''mística'' do MST, porque eles sabem o que estão fazendo. Se o confronto sempre deixa um saldo de consciência nos envolvidos diretos no episódio, ações EXPRESSIVAS que surpreendam a ponto de terem repercussão na mídia têm efeito multiplicador incomensurável nesta nossa sociedade midiática. Eu diria que ganharíamos muito se carnavalizássemos alguns momentos da luta.
Por outro lado, o movimento popular precisa de vitórias, e pode obtê-las resolvendo problemas. Até as mais incipientes associações de bairro podem se constituir, por exemplo, em cooperativas de consumidores com convênios vantajosos, por exemplo, com o MST. A idéia é curto-circuitar a circulação de mercadorias, em lugar de obstruí-la. Deve haver maneira de se fazer coisa parecida com materiais de construção e outros produtos, tornando cotidiana a idéia de solidariedade.
A crise adentrará 2010, ano eleitoral, atípico, com oportunidades especiais. E tem o PAC... tem gente falando de 500bi para a construção civil para os próximos anos. O ''Minha casa, minha vida'' é assunto pra ser deixado para as reuniões das empreiteiras?
Deixemos o toyotismo e a internacionalização do movimento pra outra hora.
Eu acho que é por aí que se prossegue. E sou hermeneuta, hermenauta é o outro.
Debate fundamental. Copio do texto do Liu uma proposta: que se desenvolva uma pauta interligada entre sindicatos e organizações populares capaz de exercer pressão sobre os Estados, mediante fóruns sociais e intersindicais.

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