Sinais de Fumaça - Dialogando com todo mundo e o mundo inteiro

Segue o texto integral de reflexão formulada pela coordenação política MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), que, ao lado de outros movimentos legitimamente nascidos de carências concretas dos totalmente desassistidos de políticas públicas, e totalmente apartados de estatísticas economicistas fragmentárias, transita o dificil, porem firme terreno da arregimentação política a oferecer renitente resistência ao avanço predatório do capital, construindo práxis diária apoiada na busca de unidade, na consolidação teórica e no enfoque realista, pragmático, do que há para se combater e construir, desatrelado mas não apartado de instâncias partidárias, governamentais, organizativas. Explicitam-se claramente os caminhos convergentes de movimentos de base com organizações trabalhadoras, partidos de esquerda e sindicatos. Clama por unidade, não antagonismo.

São sinais de fumaça a sinalizar aos caras-pálidas que a história ainda está em pleno andamento - a despeito do inconformismo dos muitos candidatos a coveiro - e que o processo econômico nada representa, ou representa tudo, face ao imprescindivel engajamento político, à necessidade cada vez mais presente de transformar estruturalmente, e não apenas retocar.

Cosméticas já não servem aos que subitamente estão identificando suas próprias faces diante da imensa vitrine das relações sociais; e não se envergonham mais de sua própria imagem.

É um texto longo, porque havia que ser longo, detalhado, explicativo. Mas merece ser lido e pensado por cada palavra e cada vírgula.

Saudações e viva!



O MOVIMENTO POPULAR E OS DESAFIOS DA CLASSE TRABALHADORA NO BRASIL
Guilherme Boulos,
membro da coordenação do MTST


A Crise como desafio de organização

A crise econômica coloca novos problemas e recoloca os velhos. Crises são sempre momentos de ataques aos trabalhadores; ao menor sinal de perda, o capital quer logo socializar os prejuízos. Reza uma cartilha bem conhecida: demissões em massa, aumento da precarização, cortes de salários e gastos públicos. Abre-se então um período onde a resistência e a luta aparecem como cada vez mais urgentes e necessárias. As organizações da classe são levadas a sair da inércia e responder aos ataques. Numa crise, quem não é capaz de oferecer respostas rápidas aos problemas fundamentais é atropelado pelos fatos novos que a conjuntura apresenta num ritmo intenso. É, portanto, um momento em que o debate da organização de classe adquire outro significado: menos abstrato, mais dinâmico e urgente.

A atual crise é, por um lado, velha. Remete à própria lógica de produção do capitalismo, ao que Marx chamou de “contradição em processo”. Ou seja, o movimento em que a fome do capital de produzir mais em menos tempo se converte em diminuição da rentabilidade de seu investimento. Estimulado pela concorrência, o capital introduz sem parar inovações tecnológicas, que aumentam a produtividade e o grau de exploração do trabalhador, mas que encarecem o investimento em meios de produção – gerando uma tendência de queda nas taxas de lucro – e levam a crises periódicas de superprodução. Historicamente, o capitalismo “solucionou” estas crises com a abertura de novos mercados, criando mais necessidades de consumo e desbravando mais territórios, não sem antes descarregar sobre o trabalhador o peso de suas perdas. E numa fuga para frente reinicia seu movimento alucinado de valorização. Mas a cada crise, ao lançar mão de seu expediente padrão, o capital afunila suas possibilidades futuras.

Neste sentido, a atual crise é também nova, trazendo elementos que não existiam em crises anteriores ou que nelas apareciam bem menos desenvolvidos. Não é por acaso que os trilhões de dólares injetados nos mercados – que em outros tempos seriam um tanto desproporcionais – não têm evitado o aprofundamento dos sintomas. São muitas as “novidades”. Assistimos nas últimas três décadas a um direcionamento inédito de capitais para os investimentos financeiros. O encarecimento dos custos do processo produtivo, expresso em meios de produção e serviços necessários à realização do valor, levou a uma profunda seleção e concentração do capital, fazendo com que muitos capitalistas migrassem seus investimentos para a especulação, à espera de uma maior rentabilidade. Pela mesma razão ocorreu um aumento de dependência da esfera produtiva em relação ao crédito, alimentando a expansão de uma estrutura financeira complexa e gigantesca.

Paralelamente a esse inchaço financeiro ocorreu um processo de liberalização e desregulamentação do movimento internacional de capitais. As fronteiras se dissolveram e o capitalismo se aproximou como nunca da consolidação de uma economia mundial, onde os Estados nacionais passam a ser simples pólos, com maior ou menor fragilidade e influência, o que resulta na redução de seu poder de controle e intervenção sobre o movimento do capital. Junto a isso, o papel desempenhado pelas instituições internacionais, blocos e grupos de Estados tem se demonstrado no mínimo insuficiente, a todo o momento limitado por contradições entre uma intervenção planejada em nível internacional e os interesses nacionais. Ademais, a atual crise – além de brotar deste contexto de hipertrofia financeira e internacionalização desregulamentada do capital – nasceu no principal centro econômico mundial. Diferencia-se por isso de todas as crises vivenciadas nas últimas décadas, nas quais os EUA terminavam por ser o garantidor em última instância da liquidez do mercado. O problema é quem garantirá agora. Estamos, portanto, diante de uma crise capitalista profunda e grave, com desdobramentos e alcances muito difíceis de prever.

Este quadro coloca para a esquerda socialista – muito mais do que respostas – uma série de questões no campo da ação política. Sabemos que as crises econômicas trazem em geral um potencial de intensificação da luta de classes, de ascenço nas mobilizações da classe trabalhadora. É certo, porém, que nem toda crise realizou de fato este potencial, inaugurando um período de grandes lutas e enfrentamentos. Mas é também certo que as grandes lutas e revoluções tiveram quase sempre uma crise econômica entre seus desencadeadores. Enfim, nem toda crise gera ascenço de massas e revoluções, mas, no mínimo, as crises criam condições mais favoráveis para que ocorram. Isto porque nos momentos de normalidade e crescimento, os trabalhadores – por mais explorada e subordinada que seja sua condição – permanecem integrados ao processo de valorização do capital, o que permite sua sobrevivência. A crise abala profundamente os laços e contratos entre trabalho e capital, abrindo caminho para o novo.

Neste momento é central o papel do elemento organizativo, das formas e níveis de organização da classe trabalhadora. É o velho debate das condições objetivas e subjetivas, ambas indispensáveis; só do raro encontro entre elas é que nascem as grandes transformações. O preparo político-organizativo é decisivo para o aproveitamento de uma circunstancia histórica favorável. Apresentar uma saída socialista para a crise do capitalismo não é somente proclamá-la. É preciso ter organizações de classe politicamente capazes e com condições de ampla mobilização para conduzir o processo de ascenço e – no limite – obstruir a reprodução do processo de valorização do capital. Estar à altura desta necessidade é o grande desafio das organizações da classe trabalhadora para a construção do socialismo.

Esse desafio envolve duas tarefas fundamentais. A primeira é, naturalmente, o acúmulo de força social pelas organizações. A capacidade de potencializar identidades coletivas a partir das demandas específicas da classe, convertendo-as em organização e mobilização, é algo essencial para a luta dos trabalhadores. Construir força social implica o desenvolvimento contínuo e progressivo deste trabalho – o trabalho de base – articulando ação reivindicativa com uma estratégia política. A possibilidade de direcionar estrategicamente ascenços de mobilização se define não no próprio momento de ascenço e nem apenas com a apresentação de bons programas, mas no dia-a-dia da organização da classe. A essa tarefa está ligada uma segunda: a construção da unidade organizativa. A fragmentação e divisão da esquerda socialista – tanto no sindicalismo quanto no movimento popular – dificulta muito o desenvolvimento de uma referência política classista, efetiva e simbolicamente. A possibilidade de nossas lutas reivindicativas permanecerem limitadas em si mesmas e do poder de mobilização que temos perder-se na dispersão é muito maior com a divisão. Só a disposição à unidade permite um enfrentamento vitorioso – especialmente neste momento de crise – do desafio de organizar uma classe desestruturada pelo capital. Assim, acumular força social e unificar forças organizativas são nossos desafios.

Uma classe mais complexa

Definir, entender e organizar a classe trabalhadora hoje é algo bem mais complexo do que foi em outros momentos do capitalismo. No princípio de seu desenvolvimento, o capital concentrou os meios de produção com a formação da grande indústria e, com isso, concentrou também os trabalhadores. Produziu condições comuns de existência, o enfrentamento no espaço de trabalho dos mesmos problemas e do mesmo adversário (o patrão), possibilitando a formação de uma identidade de classe. Os trabalhadores, vivenciando esta identidade e percebendo-se coletivamente como classe, criaram desde cedo seus instrumentos de organização para a luta, associando-se em sindicatos. O sindicato consagrou-se como a principal forma organizativa da classe para o enfrentamento direto e imediato ao capital, não só na indústria, mas também nos serviços, construção civil, comércio, etc. A classe trabalhadora se valeu das condições criadas pelo próprio capital, transformando a concentração no espaço de trabalho em identidade, organização e luta.

Mas ao longo do século XX o capitalismo passou por profundas transformações. As mudanças na produção, especialmente a partir das últimas décadas, alteraram de forma decisiva as relações de trabalho, a condição do trabalhador e a configuração da classe. Uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora está empregada no setor de serviços (e não na indústria), cujo inchaço representa o aumento da complexidade do processo produtivo e da infra-estrutura necessária para sua reprodução. Segundo dados da OIT, em 1990, 53% dos trabalhadores brasileiros estavam empregados em serviços; e, segundo o IBGE, o percentual de trabalhadores empregados na indústria no Brasil caiu de 28,5% em 1980 para 21% em 2004. Uma tendência mais recente é a perda de espaço da relação assalariada tipicamente capitalista para o trabalho por conta própria, principalmente em serviços e comércio: em 1980, 82% dos trabalhadores brasileiros eram assalariados, número que caiu para 72% em 2004 (IBGE). E nas relações assalariadas houve um movimento profundo de precarização, com o aumento dos contratos temporários, a terceirização de parte das funções, a explosão da informalidade e outros ataques à estabilidade do emprego. Mesmo o trabalho industrial, em seus postos com menor exigência de qualificação, tem sido duramente atingido pela instabilidade. A isso se soma ainda o aumento do desemprego crônico, com a exclusão sem perspectiva de retorno ou simplesmente a não inclusão de grandes massas de trabalhadores, seja por fatores de idade (muito jovem ou muito velho) seja pela maior exigência de qualificação formal mesmo para as funções mais simples.

Assim, um segmento importante da classe não consegue mais envolver-se nas relações regulares de trabalho, alternando períodos de desemprego com trabalhos temporários, informais e de baixo rendimento. Ocorre, portanto, um movimento de diversificação nas relações de trabalho e na própria condição do trabalhador, sob o signo da instabilidade. Este fato é decisivo e tem conseqüências profundas na configuração e organização da classe trabalhadora.

A instabilidade na relação de trabalho tem como conseqüência uma instabilidade nas condições de identificação e organização de classe através do espaço de trabalho. A formação de uma identidade coletiva dos trabalhadores exige um mínimo de regularidade e estabilidade na relação com o trabalho. O desempregado ou o trabalhador temporário tem condições muito menos favoráveis de se perceber enquanto classe e tomar consciência da exploração no espaço de trabalho do que o operário que mantém uma relação regular e formal com este espaço. Sem falar no trabalhador por conta própria, muitas vezes sem colega nem patrão, que é levado por sua condição a perceber os problemas e soluções como particulares e individuais. Não é por acaso a imensa dificuldade do movimento sindical em organizar estes segmentos. Assim como não é por acaso que os elementos mais ativos de grandes lutas sindicais sejam muitas vezes os trabalhadores com relação mais estável com o emprego, exemplo dos ferramenteiros nas grandes greves metalúrgicas do ABC. É claro que a instabilidade que se expressa no desemprego e no trabalho precário não é um fato novo, mas acompanhou todo o desenvolvimento capitalista A diferença hoje está na dimensão que este problema adquiriu, tornando-se um traço marcante da condição do trabalhador.

O desafio de organizar a classe trabalhadora no mundo atual passa inevitavelmente pelo enfrentamento desse problema. É insustentável para um projeto socialista desconsiderar todas essas transformações e complexidades. Se pretendemos organizar os trabalhadores devemos partir de sua condição, do lugar onde estão e da forma como se reproduzem e não esperar que a classe se adéqüe a nossas formas de organização. Organizar esta imensa massa precarizada e dispersa, atirada à própria sorte pelo capital, não é um fator secundário. É uma necessidade estratégica. A idéia de que o operariado industrial, por sua posição na produção, é o portador histórico da causa socialista e o único segmento indispensável para sua vitória não responde à situação da classe trabalhadora. O que não deve nos levar a uma inversão equivocada. É claro que sem o envolvimento de uma parte ativa do operariado – especialmente dos setores mais estratégicos da economia – não se faz revolução num país como o Brasil. Mas o operariado sozinho tampouco tem condições nem força para fazê-la. A maior parte da classe trabalhadora não está no chão da fábrica e, além disso, grande parte dela está fora das relações regulares e formais de trabalho. A organização da classe em seu conjunto exige, portanto, a combinação de formas organizativas diferentes. É nessa necessidade de dar resposta organizativa às mudanças no mundo do trabalho que os movimentos populares ganham um novo significado.

A importância do movimento popular

A questão que precisamos colocar é a seguinte: como organizar este vasto segmento de trabalhadores que está fora do raio de ação do sindicalismo? E, a partir dela, duas outras: onde está esta parcela da classe que mantém uma relação mais frágil e distante com o trabalho? De que modo vivencia as condições de exploração e forma sua identidade coletiva? O capitalismo, como de hábito, criou o problema e apresentou caminhos para a solução. Ao mesmo tempo em que fragmentou e diversificou o mundo do trabalho, o capital concentrou estes trabalhadores em imensas periferias urbanas. Criou, com isso, condições para a reconstrução de identidades e para o desenvolvimento de organizações de resistência nos territórios periféricos.

A segregação social capitalista determina uma segregação espacial. A divisão de classes se materializa no espaço e marca a formação dos centros urbanos. Apesar de apresentar-se como caótico e desordenado, o processo de urbanização responde à lógica do capital e define fronteiras internas. Por vezes fronteiras muito bem demarcadas, como no caso das “cidades paradisíacas” no meio de concentrações de pobreza (ex. de Alphaville, em São Paulo) ou nas iniciativas de murar as favelas. Forma-se um território periférico, que não é simplesmente o bairro como local de moradia do trabalhador, diferenciado de seu local de trabalho. E que não é necessariamente periferia no sentido geográfico, mas no sentido social. É um território socialmente moldado, que concentra trabalhadores e desempregados e define-se por uma série de características: forma de ocupação do solo geralmente irregular; condições de vida precárias; carência de serviços públicos e infra-estrutura básica; relação com o Estado marcada por clientelismo e repressão; coexistência com formas de poder informais e ilegais; dentre outros elementos. O território periférico não é, portanto um espaço qualquer, mas o resultado de um processo social que determina identidades econômicas, políticas e culturais. É, tal como a fábrica, um espaço de concentração de trabalhadores criado pelo capitalismo e que possibilita a formação de identidades coletivas.

O que dá sentido e potencializa o território periférico como espaço de identificação de classe é o fato de que aquela parcela mais duramente atingida pela instabilidade nas relações de trabalho mantém relações sociais mais regulares e estáveis a partir do território. É aí que vivencia uma parcela importante de seu tempo, antes vivido no espaço de trabalho, tempo marcado por condições comuns de opressão e pelas mesmas carências e problemas. Isso possibilita a percepção da identidade, como primeiro passo para uma consciência de classe. A identidade real e simbólica da periferia não pode ser subestimada no desafio de organização da classe trabalhadora. É claro que contém em si uma série de limites, sendo o principal deles o fato de que não se forma no coração do conflito entre capital e trabalho, isto é, no processo de produção. A percepção da natureza da exploração do trabalho e a definição do capital como adversário é aqui mais difícil e cheia de mediações. Mas mesmo este limite não descaracteriza seu potencial de organização e luta contra o capital. Basta notarmos que, ao longo das últimas décadas e principalmente na América Latina, surgiram inúmeras expressões de movimentos populares territoriais, organizando os segmentos mais espoliados da classe trabalhadora em enfrentamentos de grande radicalidade e por vezes com claro caráter anticapitalista.

Podemos levantar dois importantes e recentes exemplos: o movimento piqueteiro na Argentina e as organizações de bairro na Bolívia. A formação e ascenço do movimento piqueteiro se deu com o aumento do desemprego e a desestruturação das relações de trabalho. Sua marca, principalmente dos movimentos da região metropolitana de Buenos Aires, é a organização dos desempregados e trabalhadores precários a partir dos bairros. Demonstrou a capacidade de uma massa desagregada pelo capital em organizar-se e tornar-se protagonista de grandes lutas sociais. As organizações piqueteiras desempenharam um papel decisivo quando, com o aprofundamento de uma crise econômica em 2001, ocorreram mobilizações que derrubaram presidentes e converteram-se em luta política com reivindicações de classe avançadas. É certo que não foram os únicos agentes deste processo e que mostraram nele muitos de seus limites, mas isso não diminui o valor do potencial organizativo que demonstraram. No caso boliviano, a Fejuve de El Alto, junto a outros movimentos populares, levou seu poder de organização e mobilização a um nível de radicalidade capaz de enfrentar o Exército e isolar a capital do país, gerando uma crise de abastecimento, tendo grande responsabilidade para a queda do presidente Sanchez de Lozada. São apenas exemplos, que, como qualquer outro, carregam as particularidades das situações em que se desenvolveram, mas que mostram as possibilidades da organização da classe nos movimentos populares, a partir do território.

A atuação do MTST e de outros movimentos urbanos no Brasil, apesar de ainda muito limitada, também traz elementos para considerar este potencial: capacidade organizativa em ocupações e comunidades, formação de militantes para a luta de classes e um poder de mobilização que – considerando a situação das lutas sociais no país – não é insignificante. E é interessante reforçar que o que está em jogo aqui é exatamente a organização dos segmentos mais precarizados da classe: um cadastro realizado em uma ocupação do MTST na zona sul de São Paulo, com mais de 5.200 pessoas, mostrou que 71% delas eram trabalhadores temporários, informais ou desempregados, enquanto somente 26% eram trabalhadores formalizados e com emprego regular.

Os movimentos populares, por não organizarem os trabalhadores no local de produção, dificilmente têm condições de desempenhar um papel importante na obstrução do processo produtivo e, pela mesma razão, não têm o patrão como adversário direto e imediato. Esses elementos negativos ajudam a pensar o que seria o eixo de uma estratégia socialista de atuação dos movimentos no território. Se os movimentos não têm condições de parar a produção de mercadorias, já demonstraram ter condições de parar a circulação. Da mesma forma, se não lutam diretamente contra os patrões, têm grande potencial de luta contra o Estado capitalista. A formação do valor das mercadorias se dá na produção, no processo de trabalho, mas a realização deste valor depende da circulação e da venda da mercadoria. Ou seja, obstruindo-se a circulação da unidade de produção ao mercado de consumo obstrui-se o processo de reprodução do capital. A forma como essa circulação acontece no Brasil e em outros países é principalmente através de rodovias, o que faz da capacidade de bloquear rodovias um horizonte importante para a luta contra o capital.

Além disso, a luta por direitos básicos dirigida contra o Estado, embora não tome o capital como adversário direto, pode se desdobrar em uma luta anticapitalista. Reivindicações como a moradia, serviços públicos e infra-estrutura urbana são aparentemente inofensivas, por não tocarem na estrutura produtiva e nas relações de trabalho. Mas, mesmo a mais limitada das reivindicações, quando não pode ser atendida adquire um caráter geral. Ou seja, se o capitalismo não se mostra capaz de resolver o problema crônico da falta de moradia, ou qualquer outro, a luta por essa demanda – quando levada às últimas conseqüências – ganha um sentido de enfrentamento ao capitalismo. E podemos afirmar que o conjunto dos problemas urbanos (moradia, assistência de saúde, etc.) – por sua articulação interna com a lógica do capital e pela perda estrutural da capacidade integradora do Estado – dificilmente poderão ser solucionados por este sistema em países como o Brasil. Portanto, o afastamento da relação direta entre capital e trabalho não inviabiliza uma estratégia socialista para o movimento popular.

Essas formulações não têm como objetivo propor uma prioridade da atuação do movimento popular em relação ao movimento sindical ou da organização territorial em relação ao espaço de trabalho. Mas sim defender a idéia de que o movimento popular é, como o sindicato, uma forma de organização da classe trabalhadora, que pode ter um importante papel estratégico para luta contra o capitalismo. Entender esta questão como uma oposição entre sindicalismo e movimento popular seria profundamente equivocado. Trata-se, ao contrário, de uma relação complementar. A organização da classe trabalhadora em seu conjunto passa pela unidade e complementação desses diferentes pólos. O desafio é precisamente este: construir a unidade de uma classe fragmentada, partindo das diferenças nas formas de organização e de luta, para chegar ao seu encontro no objetivo histórico do socialismo.

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Respostas a este tópico

Anarquista amiga
Concordo com a Marilda: seu texto é meio desconexo.
Com meu super estilete turbo laser, retalhei o que me pareceu ser essencial, para podermos usar na discussão:

cobrar da direta ''civilizada'' esclarecimentos de como pretende começar a diminuir a desigualdade social latinoamericana a partir de um modelo conservador, transformando as massas miseráveis em cidadãos de pleno direito.

a ''democracia eleitoral'' dá sinais de esgotamento e precisa se revitalizar
- por uma participação mais efetiva da sociedade através dos movimentos sociais
- pela radicalização das propostas (de governo?), abandonando a agenda de reformas neoliberais (discutir as linhas de atuação de Evo, Chavez)


Isto é o essencial?

Enquanto aguardo as manifestações, reitero minha sugestão: visitem o site do MTST
O que me interessou nao foram as propostas, mas a menção -- a parte sobre isso está quase reduzida a uma menção -- à problemática do fim da democracia representativa, e o fato de que, ao que parece, os autores citados parecem acreditar que algo se pode fazer a esse respeito já... Fico ao mesmo tempo temerosa e atraída...
Continuando

Estou passando para cá um comentário do Propostas para 2010 sobre algo que vai nessa direção, creio.

Pessoal, eis uma rede de experiências que congrega ações práticas em Democracia Participativa (penso que devemos beber da fonte):
O Observatório Internacional da Democracia Participativa é um espaço aberto a todas as cidades do mundo, entidades, organizações e centros de investigação que queiram conhecer, intercambiar e aplicar experiências sobre democracia participativa no âmbito local para poder ter mais conhecimento sobre democracia no governo das cidades.
A rede nasce em 2001 no âmbito dos Projectos de Cooperação Descentralizada do Programa URB-AL da Comissão Europeia. Porém, a sua constituição oficial é em Novembro do mesmo ano durante a I Conferência anual do OIDP celebrada em Barcelona, onde tem lugar a aprovação do Regulamento de funcionamento. Desde 2006 o OIDP trabalha em colaboração com a organização Cidades e Governos Locais Unidos, nomeadamente na articulação de um quadro de cooperação com a Comissão de Inclusão Social e Democracia Participativa.
Site do OIDP: http://www.oidp.net
Dê o link, por favor.
Ôps! agora percebi que era comigo! desculpe

http://www.mtst.info/
Oi, Hermeneuta, obrigada pelo link. Nao tive tempo de olhar com vagar, entrei só na página principal e só abri a da Brigada Cultural. Tem vida lá dentro...
Liu, não sei se aqui é o lugar para esta foto.Mas é chocante. É em pleno inverno com temperaturas de nove graus.



Foto de Daniel Hammes, tirada hoje em Porto Alegre, próximo à passarela da Rodoviária, por volta das 17 horas.
É, Marise, dizer o quê? Nao há palavras para isso, né nao? Céus, só de pensar já me dá frio.


Não diga que não participei.
este cara, dentro dos padrões capitalistas, seria um imbecil... ou seja, ele não existe... trocar 6 por meia dúzia... ora... ora... apenas um pobre sofisma, arkx.
Amigos,
A existência do MTST assim como do Guilherme Boulos era-me desconhecida.
Com uma busca, o que pude apreender é que trata-se de um movimento que luta pela inclusao de parcela significativa da populaçao a qual encontra-se fora de usufruir de direitos que a primeira vista deveriam ser de todos.
Contudo, essa organizaçao encontra enorme resistência nos mais diferentes setores, inclusive no estado, que deveria zelar pela segurança social do cidadao.
Nessa primeira intervençao gostaria de citar a justiça que ao meu ver porta-se de forma infame ao criminalizar o movimento social, impedindo-o de manifestar-se publicamente, o que é a principal ferramenta utilizada pelo grupo.
http://www2.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Repositorio/23/Documentos/Bo...
Estava participando da discussao a respeito da adoçao de apenas uma câmara e, pensei que a existência de entidades como o MTST tem origem na falta de representatividade dos partidos polïticos, os quais tem na sua formaçao a presença de pessoas que representam interesses próprios, sendo que a sua proposiçao na disputa das eleiçoes se dá por uma pequena parcela dos indivíduos que compoem tal partido político.
Penso que parte do problema enfrentado pela populaçao, que nao tem acesso aos direitos básicos, seria resolvida pela adoçao de eleiçoes dentro dos próprios partidos, desta forma forçando-os a aproximarem-se da populaçao afim de legitimarem sua existência dado que necessitariam um mínimo de associados.

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