Sobre a questão da existência ou não do Jesus histórico ou do Cristo da fé

 

Tenho acompanhado e não sem certa tristeza a discussão no blog sobre a existência histórica de Jesus. Em que pese certo mau humor, além dele, os argumentos apresentados são bem ruinzinhos. O povo que se diz ateu que frequenta o blog faz uma confusão danada entre várias coisas relativas à religião. Tem momentos que estão mais para pernósticos que agnósticos ou ateus e com os defeitos de todo militante de qualquer causa sem muita segurança ou conhecimento diante do que ou quem elegeram para inimigo.

Tratam muitas vezes aspectos do conhecimento religioso como fenômeno histórico, ou antropológico, ou sociológico, ou, ou.... Menos como religião mesmo. Caso alguém ainda não saiba o estudo de Ciências da Religião é autônomo como conhecimento há muito tempo. Não é sociologia, psicologia, história, etc., e tem pressupostos como estudo específico com ferramental próprio. Não tem nada a ver com fé ou crença. Até as estuda como manifestação fenomenológica para apoiar as pesquisas e o esforço de reflexão teórica, mas não se confunde com ela.

Pois bem, neste campo, que como qualquer outro, pressupõe a contribuição de outras áreas de conhecimento, nelas e na própria Ciências da Religião não se discute mais esta querela sobre a existência histórica de Jesus. O que ainda acontece, e com toda a liberdade e direito, diga-se, é que existe como em tudo a recalcitrância de alguns poucos dissidentes acadêmicos que efetivamente fazem pesquisa e tem validados alguns de seus processos investigativos. Não sobre a existência histórica propriamente, mas sobre aspectos particulares relacionados a questões de datação e controvérsias sobre a identidade, doutrina, etc. quando colocada em evidência e confronto as narrativas helênicas, romanas, judaicas e etc. dos tempos de nascimento, influências, vida pública, e continuidade pelos seguidores.

Ainda nas discussões do blog, além dos argumentos e fundamentos bem fraquinhos apresentados e autores citados que dá tristeza a quem efetivamente estuda estas questões de forma acadêmica, há um festival de lugares comuns que, para ser educado, se encontram no mínimo no século XIX.

Mesmo assim, para os estudos de Ciências da Religião não interessa muito na maioria dos contextos investigativos, se Jesus, Buda, Maomé, etc. existiram ou não. O que se estuda são os sistemas e suas inter relações, o que eles respondem e como fazem isto, como historicamente, antropologicamente, psicologicamente, se construíram processos explicativos sobre si próprios e sobre o universo, o mundo, a vida e etc. As comparações entre os sistemas não se dá de forma competitiva ou complementar. Não há prevalências e não há essa necessidade meio juvenil de ser contra ou a favor de nada. Não se trata de forma arrogante quem crê ou não crê ou mistura as coisas que crê; não há necessidade de dar razão a ninguém.

A religião é uma manifestação, ou criação, ou o que se queira, que na Ciências da Religião é sempre entendida como saída e mantida em pé desde sempre por homens e mulheres.E assim continuará. Não por alguma inexorabilidade, mas como componente da própria condição humana como qualquer outra realidade assemelhada. Se é bom ou ruim, certo ou errado, uma benção ou uma maldição fica por conta de cada um. O que não dá é crer ou não crer baseado no mesmo conjunto de princípios deficientes de argumentação acadêmica quando querem refutar ou afirmar algo em defesa dos seus pontos de vista. Pois, fé ou não fé é outra coisa e não precisa da academia e não foi dado o direito, pelo menos ainda, de se menosprezar quem há tem ou não. No afã de criticar crédulos e incrédulos, atropelam-se coisas elementares.

Exibições: 511

Responder esta

Respostas a este tópico

Isto aí acima me parece um texto de alguém com sérias dificuldades de aceitação de suas crenças para o meio. Claro, isso é perfeitamente natural, haja vista a gama de informações as quais somos assolados diariamente, o que leva a questionamentos. Para quem detém uma certa quantidade de crenças e poucas dúvidas, deparar-se com constetações causa impacto e deprime.

Como a conduta de gado, hoje em dia, parece estar com os dias contados, impor regras e normas se torna o único recurso. Mas, como diria meu velho mestre evolucionista, um tal de Charles Darwin, a natureza cura.

Minha visão de j cristo. Nunca existiu. Sua figura foi criada para ser logotipo de uma instituição romana.

Assim como os romanos institucionalizavam o direito , eles fizeram uma instituição canonica, a igreja católica apostólica romana. Regras e hieraquias como os da justiça. Por isso dura milhares de anos. 

Metafísica pura e pela primeira vez o que o Emílio diz faz sentindo.

Pois é, também me surpreendi.

Obrigado nina, mas tudo que eu fallo tem sentido. Assistam o filme "a vida de brain do mont phyton". Apesar de ser uma sátira, faz um retrato da época. É muito bom.

Existem costumes religiosos que são explicados pelas razões economicas, ex., peregrinação, o pessoal vinha durante as colheitas, quando havia necessidade de mão de obra, depois, o que iam ficar fazendo nas propriedades e vilas? Portanto peregrinavam e depois de alguns meses voltavam para nova colheita. No brasil, dentro das proporções históricas, os nordestinos ainda fazem isso. Passam 3 a 5 meses no sudeste colhendo e depois voltam.

Saindo do lado filosófico e indo para o lado histórico, há algumas coisas que nenhum teólogo ou historiador cristão consegue expressar, a quase total falta de referência ao evento da Galileia que teria ou não existido. Lembrem-se que os romanos eram grandes burocratas em todos os sentidos. Se tamanha comoção tivesse ocorrido em torno do ano 30 a 40 teria algum historiador romano registrado os fatos, porém as referências são praticamente inexistentes.

 

Outra coisa interessante no fato ocorrido é que a versão da Bíblia contraria frontalmente a qualquer prática de julgamento romano na época, jamais, e jamais mesmo, um Pôncio Pilatos ia deixar a cidadãos não romanos decidir e proferir uma sentença de morte, e mais, ao corpo de Rabinos não cabia esta decisão.

 

Em resumo, a Bíblia, não como um livro de revelação, que para ser tomado como tal necessita de somente fé, mas a Bíblia tanto no velho como no antigo testamento tem imprecisões históricas e áreas de sombra que como um livro histórico deixa muito a desejar.

 

Agora voltando ao que Armando escreveu, a importância histórica e sociológica de Jesus, vejo que claramente a mensagem de Jesus, que poderia ser tanto o Cristo daqueles que creem, como um Rabino profético característico da época, se vê pela a existência dos essênios que o povo Judeu estava pronto para a mensagem passada no novo testamento, o que talvez tenha ocorrido, e que a maior parte dos estudiosos da religião não crentes acreditam, é que a mensagem deste Rabino tenha sido capturada pelos romanos e tornada a religião cristão uma natural sucessora da verdadeira bagunça religiosa que era a fé dos romanos antes do cristianismo. Este tipo de interpretação baseia-se tanto na dinâmica da sociedade da época, como numa interpretação da função de personagens como Pedro e Paulo.

Concordo, Rogério. Uma das poucas referências antigas (repito, antigas) a respeito disso tudo é de um famoso historiador judeu chamado Flavio Josefo, que menciona a existência dos cristão em Roma, mas não menciona o Cristo.

Se os cristãos montaram o mito sobre eventos soltos, ajuntando partes aqui e outras ali, tudo bem, não há problema algum. A religiosidade faz parte da concepção individual das pessoas e cada um inventa aquilo que lhe proporciona segurança na crença. Mitos como os de Afrodite nascendo de uma ostra no meio do mar, de Osiris ter sido despedaçado e remontado por seus sacerdotes, são variações do tema, que é comum em várias religiões. O problema é querer transformar isso em fato histórico, em expressão da verdade absoluta. Poderia funcionar em épocas onde a mensagem era difundida boca a boca. Mas hoje, sinceramente, não dá.

Alexandre

 

Acima tocaste num ponto básico, religião para mim é revelação, quem a teve e acredita, fantástico, não precisa de mais nada, agora começar a procurar subsídios em outras esferas científicas como paleontológicas, arqueológicas e outras é atestado de ausência de fé.

Outro fato que mostra a inexistência histórica de jesus, como bem disse o rogério, são os cartórios de registros da época. Assim como é hoje,  a vida dos cidadãos romanos eram registradas. Mesmo em terras conquistadas. Nascimento, casamento e morte. Apesar de não ser romano, se jc existisse haveria algum registro da época. Não existe nenhum documento que se refere a jesus. Todos os possiveis docs e provas, além dos dogmas, foram feitos depois do século III.

Outra coincidência, a bíblia é um códico, assim como os romanos faziam com o direito, civil, penal etc. 

Ola pessoal.

Sobre a existência de Jesus, o texto  do Armando inicia-se: "Tratam muitas vezes aspectos do conhecimento religioso como fenômeno histórico, ou antropológico, ou sociológico, ou, ou.... Menos como religião mesmo". Depois continua: "Mesmo assim, para os estudos de Ciências da Religião não interessa muito na maioria dos contextos investigativos, se Jesus, Buda, Maomé, etc. existiram ou não. O que se estuda são os sistemas e suas inter relações, o que eles respondem e como fazem isto, como historicamente, antropologicamente, psicologicamente, se construíram processos explicativos sobre si próprios e sobre o universo, o mundo, a vida e etc".

Fica difícil entender os historiadores, filosófos, antropólogos na visão do Armando. Afinal o que vem a ser a tal Ciência da Religião? Sabemos que as disciplinas citadas são ciências.

O homem primitivo temendo o desconhecido, fenômenos naturais, criou suas crenças e as transmitiu através das pinturas em cavernas. Hoje entendemos parte do nosso passado e o grande desafio é entender a história em fato no momento em que ela acontece.

Agnaldo, para ser bem simples, sabe qual é o grande problema? A Ciência serve, para os crentes, no intuito de atestar as crendices e bobagens mitológicas de toda ordem. Mas quando ela quer definir conceitos e investigar os atos humanos de qualquer natureza, aí ela não presta. E então "criam-se" arremedos pseudo-científicos para atestar o absurdo.
E digo mais, tem gente que tem fé de menos e outros fé de mais.

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço