Aproveitando o sono zezitico, embalado a dipironas, xaropes caseiros e outros nem tão caseiros, nossas considerações finais. Não vamos tirar da reta na reta final.

- a propósito de um comentário lido de relance em que o dileto José Serra é insultado com a expressão “íncubo”, o que já considero um pouco demais, contraproducente, além de até mesmo “engrandecer” o alvo. Eu me envaideceria se me “acusassem” de ser um íncubo.

- então, à deriva e no limiar de mais um debate (o derradeiro?) entre presidenciáveis, que no fundo é um debate entre assessores e marquetólogos, um confronto entre staffs e um pacote para alardear o zelo “cívico” de suportes de mídia, eis que expressões como íncubo adquirem importância estratégica, porque a estratégia do espetáculo é definir santos e demônios, vilões e heróis, vacilões e falsos brilhantes.

- taí porque tais formatos de debate são exercícios de sadomasoquismo elitista, já que exibidos sempre em horários em que gente de bem deveria estar recolhida ao leito e exigindo certa/ mínima destreza na manipulação automática dos significantes e significados da linguagem televisiva diante de repertórios pessoais dos debatedores e dos espectadores.

- saber por exemplo que a próxima pergunta será formulada por Míriam Leitão me dá uma expectativa e um prejulgar diferente de saber, por exemplo, que será feita por Mino Carta.

- mas a questão essencial nem é essa, não tem nada a ver íncubos ou súcubus, mas na montagem criteriosa de uma persona cara ao conservadorismo encruado em setores chaves da sociedade, e que as pesquisas parecem estar realçando, que é a classe ibegeenamente e ibopeanamente denominada “C” e que se identifica cada vez mais a Marina Silva.

- o que se verifica no visível desmantelamento psíquico (até físico) de José Serra e a consequente beatificação de Marina Silva. Roteiro novelesco exemplar, uma personagem que “não-pegou” no coração da audiência é substituido, ao vivo e no quente, por outra de maior apelo.

- Marina Silva assume prazeirosamente a condição de protagonista da vez. Seu preparo visual, sua inflexão de voz e sua disposição anímica vem se alterando em crescendo, enquanto seu discurso adquire contornos messiânicos no sentido de redentor, de libertador, de saneador.

- se a mídia conservadora tem ainda esperança de uma guinada de expectativas: Ecce uomo! Ou melhor, Ecce mulier.

- e voltamos nós no nosso cantinho a bater nosso bumba meu boi. Debates políticos em formato TV individualizam, fetichizam e despolitizam. Servem exatamente ao intuito oposto ao apregoado: Informar. Não parece ser assim. Desinformam.

- as saudações e as considerações finais são peças preparadas para produzir um vínculo “humano”, “social” e “cordial” entre os oponentes, e os inevitáveis agradecimentos à emissora, ao mediador e ao telespectador soam tão convincentes como moeda de 3 reais, além de submissão tácita ao poder (naquele instante) maior das mídias. É jogo jogado, mas é costrangedor.

- então, nosso bumba meu boi nos diz que Marina Silva é o Messias da hora; a bola da vez, o Obama nativo, a última esperança branca (sem nenhuma intenção pejorativa).

- então, se pretendo o prosseguimento do projeto PT, tenho que jogar PT na cabeça. Significa não converter o convertido, mas convencer o relutante, essa maldita classe C eivada de preconceitos assimilados de classe, medo de transformações profundas, relutante em se olhar no espelho. Prefere eleger um doutor ou uma santa ligada a doutores, mas reluta em eleger-se a si próprio, ressente-se de seus pares, recusa pensar em processos. Troca o processo e a politização pela catarse individual.

- José Serra pode não ser nenhum íncubo e Marina Silva pode ser a encarnação da renovação política, tudo isso é discurso. Não nos importa se Serra é ou não um sujeito legal com os amigos, pai zeloso, amigo leal e político honesto, como estamos nos lixando se Marina é batalhadora, pura e sincera ou derrama lágrimas diante de uma criança desnutrida. A nós importa a sinceridade dos projetos políticos afora e acima da sinceridade/honradez pessoal.

- neste sentido, Serra e Marina estão praticando ficção, mentindo descaradamente (mesmo dizendo suas próprias verdades), porque sabem que o arcabouço de sustentação política que os constitui é antimudanças de base e conservador por natureza – se não sabem, não estão preparados para exercer nenhuma liderança, porque serão enrolados diuturnamente.

- o motivo parece simples: Não existe um partido orgânico para “fazer acontecer” o reino das maravilhas que estão anunciando. Ao contrário, o arremedo de partido que representam vai tendencialmente trabalhar contra propostas de avanço político e cultural da população, o que também é simples: são partidos com “quadros” patronais, elitistas, conservadores. O vice da Marina, o senador de Marina, os deputados de Marina, personagens que provocam um arrepio, porque repaginação pós-moderna, pós MTV, do que há de pior no pensamento do staff de Serra (que ainda guarda certo refinamento social-democrata, alguns) e representação concreta da pax social almejada pelos corredores da Fiesp.

- eis a questão. Meu vizinho pode odiar Dilma, pode achar Dilma terrorista, sapatona ou sargentona, mas precisa saber que acima de Dilma (e acima de Lula) existe o Partido, ao qual, teoricamente e na prática, deve submissão. E não é a camada burocrática-técnica do partido, mas a miríade de bocas, braços e pernas que fazem bater um coração no mesmo ritmo de “fazer acontecer”, de persistir em “ver acontecer” por mais cagadas que façam os caras lá de cima. Não me importa a mínima ver Lula beijando a bandeira nacional ou Dilma sentadinha ao lado da rainha da Inglaterra. O que faz acreditar, é constatar a atenção de uma recepcionista de posto médico público (que ainda tem o tesão de colar um buttom do PT sobre o avental ) diante de um velho esmulambento ou uma quase-indigente com um bebê raquítico no colo. Isso apesar do estresse total no ambiente de trabalho, da insuficiência de recursos e da baixa remuneração.

- se meu vizinho não admitir tal fato, haverá de admitir que o desejo que manifesta em ver um país melhor e um povo melhor é de boca pra fora, sem lastro numa realidade possível, e essencialmente hipócrita.

- esse Partido, esses militantes, estão - anonimamente, politicamente - nos aparatos públicos, são vistos no dia a dia. Numa metáfora olímpica, são os que fazem provas de revezamento, não os que carregam a tocha olímpica. Marina e Serra são carregadores de tocha. Dilma é seção inicial dos atletas de revezamento. Se tropeçar, arruina toda a equipe.

- ... provisoriamente, diria zezita, quaquá!

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Respostas a este tópico

Voto com o relator. Sem tirar e nem pôr.
Voto com o relator. Pondo e tirando.
hahahahahhahahahha
Uia, qual problema? Oxímoro, declaração de voto silenciosa... ;-)
boa liu, tá na hora de se enxergar e falar da importância do partido e sua militância no governo.
porque às vezes, até quem vai votar nela fica só no Lula.
E Lula jamais teria sido o que foi sem partido.
PT saudações, até domingo.
Ops.
Nananinanão. O preço da liberdade é a eterna vigilância... militante não tem folga não, num pópara. Como falam os Gaviões: Num para, num para, num para... é assim q se ganha jogo.
um texto do liu que eu admiro!
claro que a soma com os outros lados pode ficar instigante, mas ... mas... mas mesmo...
Puxa, Liu.
assim ....voce faz euzinha chorar.
e stellita anda muito sentimenal ultimamente.
bjs.
tb zezita num tá nem aí, prá mim.
Psé. Com o festival de baixaria, tamos todos meio à beira de um ataque de nervos... e o texto do Liu serve tb pra gente reencontrar o eixo, que o Supla me perdoe...
Ótimo!!
Maravilha Liu! È isso, os méritos do Governo Lula não são só de Lula, mas de todos que o fizeram e assim também será o de Dilma, espero.

Abs.
minha amiga-hermana, maria são de todos nós mesmo.

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