Sofrendo (muito): foi tudo isto? Amadurecendo ( um pouco) . Mas (definitivo) começando a levantar a cabeça.

         Já sofri muito mais por derrotas de futebol. Placares a  menos, e dores demais. Hoje, até pela idade e risco, me dou licença de assistir jogos gravados, com o resultado sabido, etc.

 

         Nego, e nem poderia dizer o contrário, ter esquecido o fascínio, a galvanização de todo um país, com as cores amarela, azul e branco. Ao longo de todas estas décadas. Ritos de uma paixão efêmera , unânime,  do sonho  de  nos sentirmos enternecidos e perto demais uns dos outros. Como povo. Como se a eternidade toda coubesse em noventa minutos...

 

         Hoje, dada a precaução, posso ser menos romântico. Ou contribuir – pobre contribuição – para sairmos desta. Começaria pelos mais experientes, os mais velhos.

 

         Sete a zero, ou a um não foi o pior. Temos que admitir. E basta uma vista no teipe ( teipe?, ahh que saudades ), isenta, desapegada, coisa daqui a umas próximas seis ou dezoito semanas, para ver que depois de cinco a zero a pátria tedesca ‘tirou o pé’ nitidamente. Primeiro nem eles acreditam, depois lhes invade uma consternação ( e este olhar é licença minha) dos mesmos companheiros que lutam com eles, germânicos, nos clubes de fora.

 

         Sete a zero foi pouco. Ou a um. Poderiam facilmente ser vinte e três a zero, Vinte e sete a dois. Coisas e placares, de handebol. O desprendimento do adversário preservou a nossa hombridade. A restante, nossa dignidade futebolística, já havia nos deixado muito antes do sete a zero. Ou a um. Bem na hora em que se invade [Brasil], uma copa do mundo [Brasil] , com um selecionado [Brasil] com a ligação direta zaga / centroavante. Didi, Ademir da Guia, Pelé, Tostão, Gersón, Zico  chorariam dentro do campo, se o futebol brasileiro, o deles, tivesse parido semelhante heresia futebolística. Nesta terra (cadê o Antônio Torres?), neste gramado. Neste país, nesta copa do outro nome do futebol: Brasil.

 

         Foi esta a mágica, e mágica rompida, que nossos algozes chucrutes viram. Não acreditaram. Alguma coisa estava profundamente errada dentro desta terra mágica, deste gramado. Neste país, neste time, nesta copa...

 

         Mais doída que o sete a zero foi ( de novo licença ) esta gentileza do adversário. Incômoda por que nem decifrava, àquele momento, o seu espanto. Foi preciso ler cinco artigos hoje de manhã, dois no Viomundo, para entender, decantar este espanto. O espanto da magia que a Seleção Brasileira despertou um dia, em Cruiff, Neskens, Beckenbauer, Müller, mesmo garotos. Num cruzamento de jeito brasileiro de jogar. Ortodoxia da bola, drible de Zico e Júlio César do Flamengo, passes de Gersón e Clodoaldo, milimetricidade de Sócrates Brasileiro, bombas de Éder, de Nelinho, de Branco. Intimidades de Romário com a bola, e dela com Reinaldo do Athlético Mineiro. Ortodoxia onde, na terra da mágica do futebol, a linha direta ou o abuso de chuveirinho na sempre foi coisa de europeu.

  

        O sonho destes athletas barbados, senhores de salários astronômicos, lá no fundo, sempre foi jogar...como a gente deixou de jogar. Chucrutes de nomes complicados, árabes, judeus, eslavos, chineses, coreanos, irmãos africanos, caribenhos, hermanos, ianques, polinésios, australianos, russos ou japoneses. Reis em busca de uma coroa. Da terra mágica do futebol.

 

       Por isto sete a zero, ou a um, foi pouco.  A punição da ortodoxia rompida. A lágrima da criança de dez ou doze anos, netos, filhos ou bisnetos,  doeu muito mais.

 

       Em nome das coronárias, assistam jogos apaixonadamente. No VT

 

       Mas o tom deste texto é de catarse. A base de nossas decisões envolve um sedimento racional. Sempre. Mesmo quando a matéria é futebol. Alguém poderia sequer conceber que , dada toda esta admiração acima, os chucrutes ( agora empáticos ) se preparariam menos, quando enfrentando a magia idealizada, do outro nome do futebol, na terra deles, com a torcida dos próprios?

 

       É só ter um amigo germânico qualquer pra saber o quanto eles se levam a sério, levam o seu trabalho a sério, e levam a dimensão do outro e a coletividade profundamente a sério. Impossível enfrentar, e da maneira ou preparo com os quais enfrentamos, quem nos leva e levou tão completamente a sério. Onde, desta forma e de novo, sete a zero foi pouco. Ou a um.

 

        A organização, a prestação de serviços e o clima de fraternidade, o nível de disputa dos jogos e o rigor do espetáculo de encanto, a todos os países, unidos à esta magia  –  de se chamar pelo outro nome do futebol  –  tornaram possíveis. E inesquecíveis aos povos mundiais. Nisto o ganho como nação, raça ou povo brasileiro, tornou-se inestimavelmente valioso. Inesgotável. Muito maior que sete a zero. Ou a um.

 

      Então urge, por modéstia, aviar humildade reformulando a gestão de um assunto , uma paixão, o coração e a imagem ( vimos )  de uma nação, retirando da única gestão de um esporte praticado por uma entidade que apregoa, respira e pratica: que quem entrar na Justiça contra ela, sofrerá exclusão...

 

     Clubes alquebrados, dirigentes ricos, marketing pagando mais que salários, entidade mundial rica,  auferidos todos apenas diante de larguíssimo investimento público. Das nações.

 

      Se futebol é paixão antes do negócio, talvez nós, velhos confessionais da antiga ortodoxia brasileira da arte bretã, neguemos. Por sequer acreditarmos. Se os sete a zero nos dizem algum coisa, isto não é a negativa da ortodoxia. Trata-se de profissionalismo de gestão. Transparência e abertura. Típicos elementos do trato com a coisa e o interesse público.

 

      Sete a zero foi pouco. Doeu mais o enternecimento de quem nunca pode ver Zico jogar.

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