Quem me ensinou como a coisa funciona foi minha mãe que, diga-se de passagem, me ligou quando já estava morta há quase um ano.

Distraído pelo burburinho da cidade, eu passava por um telefone e ele tocava. Eu não percebia. Mas foram tantas as vezes que isso aconteceu que, meio cismadão, acabei atendendo.

Gaúcha e meio impertinente, a Neli foi logo dizendo:

-Beto: É a tua mãe. Desculpe insistir dessa maneira, mas se ligo na tua casa poderiam grampear nosso papo. Sabes estes tempos de dedoduragens tecnológicas? Enfim, iriam achar estranho mãe morta falar com filho vivo e , quem sabe, averiguar tua pessoa (já tão inutilmente dantes averiguada).

Daí para frente, foi aquele papo de mãe sabichona e filho ‘bestunto’, como ela me chamava. A pauta, era o meu comer sem mastigar. Não fazia bem para a minha saúde. Era só isso, mas suficiente para uma chamada inter-celestial.

Gostei tanto do expediente e do telefonema que, hoje, quando bate a saudade, pego um ônibus pro centro da cidade, compro uma pipoca e sento na praça. Fico ali vendo os pombos. Até que o telefone público toca. São meus fantasmas preferidos me ligando.

Pensando nos caminhos da música popular brasileira, na semana passada, comprei minha pipoca e fiquei por ali obesrvando o esforço das flores crescerem. O telefone tocou e atendi. Era o Tio Jobim.

- Sobrinho! Tive um tempinho e resolvi meter minha colher nesse assunto. Mas acho melhor a gente falar pessoalmente. Sabe aquele terreno baldio ali na Travessa da Mata? Espero você amanhã ali bem cedo.

Estranhei. Afinal nossos últimos papos eram de tarde e com um chopinho amigo. Deviam estar em recesso lá no paraíso.

No outro dia, nem precisei esperar. Quando abri a porta, meio caída e podre pra passar pelo muro alto, vi que ele já tinha chegado. Estava sentado num tronco embaixo duma árvore. Depois dum abraço, foi logo dizendo.

- Sobrinho, - gosto quando ele me chama assim – nesse negócio de música a coisa mais importante é o batente das janelas.

O Tio Jobim era assim, o rei da meta-parábola.

- Ele tem que estar na altura certa, e a altura certa você descobre sentando e escorregando pro chão. Se tiver que pular, ele está alto demais, mas, se for de boa altura, os pés da gente ‘pousam’ no chão. Entende? O contato com o solo é sutil, e fértil. Mas aí, sobrinho, tem o negócio da cor da madeira. Ela é fundamental.

Dê preferência praquelas que computador não consegue decompor. Você sabe aqueles amarelões indefinidos, por assim dizer, esquisitos? Verdes/matagal da Serra? Azuis celestinos rosáceos? Cinzas antes da chuva?

Relutou pouco, mas decidiu:

- É, cinza também serve. Depois, isso é muito importante, tem a coisa da parede que envolve a janela. Acho que é até mais importante que a janela propriamente dita. Ela tem que ser da cor de qualquer cor – gostou da sonoridade de ‘cor de qualquer cor’, o olho brilhou – Isso! Uma cor afinada pelo azinavre do tempo.

Outra luz brilhou no seu cabelo grisalho. Tava envelhecendo por lá. Pausa na voz, olho apertado e respiração mais lenta. Saudade de Ipanema?

- É. Como diria o Veríssimo, azinavre do tempo, e o vento. Pronto. Pra compor você já sabe por onde começar.

O Tio olhou pra copa da árvore que nos protegia do sol da manhã, lembrou de um detalhe e descansou as duas mãos nas duas pernas.

- Ia me esquecendo. É necessário que a janela seja alta, sem venezianas, só com duas folhas de madeira grossa. Se forem de pinho de Riga, que já foi madeira barata, tanto melhor. Aliás, esse tipo de pinho vinha da Letônia como lastro de navio.

O Tio Jobim e seus detalhes históricos que quase embananavam nossos papos. Uma vez, começamos falando da quantidade de fósforos nas suas respectivas caixinhas e terminamos, por causa da diferença da Kathleen Battle e da Carolina de Jesus, falando de fito-planctum.

- Riga é um porto no mar Báltico e na beira de um rio. Desde muito tempo atrás, quando os barcos chegavam aqui na Macunaíma’s Land para carregar o que vinham surrupiar, as toras pesadas de pinho eram descarregadas e perdiam a serventia. Ficavam ali no cais, jogadas. Como lixo. Então... nossa janela alta é de pinho de Riga.

E com grandes dobradiças que, de preferência, ranjam duas vezes por dia: pela manhã e de tarde. Mas podem ranger em outros horários. Quando a família sai pra buscar o ‘rancho’ na cidade, ou quando forem abertas para arejar quem está na cama com gripe, tomando chá de dente de alho e limão. Estas coisas. Ou então, de repente, com direito a susto e estardalhaço nas chuvas de verão com coriscos e ventanias. Mas as dobradiças tem que tá ali, firmes, rangedoras.

Eu ouvindo e ele contando, feito mestre Zen. Testando minha atenção, perguntou.

- Quer escrever? Não vai esquecer?

Tava me gozando. Continuou.

- Já falei das cores, da altura do chão, das dobradiças e a madeira ideal. Agora vem o mais importante de tudo: O batente. Ele tem que ser de ipê, ou, no mínimo, jacarandá. Madeiras de cerne, bem duras, aquelas satúrnicas testemunhas do tempo. E para finalizar a receita desse angu, o grande segredo: a largura do batente na sua base.

E completou com seu jeito delineador, só com os contornos do que havia para ser dito.

– A música brasileira precisa de janelas com largos batentes. Paredes de tijolo grosso feito a casco de mula suja e mão de caboclo silencioso. Tramelas e dobradiças rangendo por toda parte! Senão, fica isso que taí mesmo!

Cê já experimentou sentar em janela de batente de alumínio? Não dá!! E sabe porquê? É que a bunda da gente tem que estar bem sentada, confortável, escarrapachada, com tempo pra ver o Brasil passar.

Olhou pra mim todo sorrido.

- Compor com dor na bunda, não dá!!

Repuxou o lábio pra gargalhar, mas desistiu. Fez uma continência. Levantou e, como se estivesse refletindo ainda, saiu caminhando.

Foi quando vi que estava usando uma bengala. Pelo seu caminhar lépido era sem necessidade, mas tava usando. Acenou de costas com a bengala no ombro e cruzou a portinhola pra rua.

Fiquei ali cismando, me lembrando do incômodo parapeito de alumínio das janelas marcando o ossinho do cotovelo, ou a bunda, de tantos e tantos compositores.

A imagem que me veio em seguida foi a de um menino com um lado do suspensório caído afrouxando o calção. Estilingue no bolso e os pés balançando a dois palmos da calçada. Mas a imagem que ficou mesmo, foi a desse tio menino, emoldurado pela janela bem alta e aberta pra qualquer lugar cheirando a Brasil.

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Respostas a este tópico

Tá bom que vc já me explicou que escrever bem assim em tua casa era obrigação, mas vc ainda capricha, né não?
Então, Augusto.

Na época eu trabalhava lá na Band e editei a matéria. Mas este papo que vc viu, foi do Tom com o pasquiniano Tarso de Castro. O Tio Jobim respondia sobre o Brasil e dizia que "até o dinheiro do Brasil é de cabeça pra baixo...", e demonstrava o que vc contou tentando colocar a nota de "cabeça pra cima". O clima do papo era hilariante, com os dois meio "altos" rindo-se da ideia e deles próprios.

Como sempre,a Band apagava as fitas para economizar e reutilizar as fitas. Você nem imagina o que se perdeu!!!!

Originalmente, este texto foi produzido pro "Clube do Tom" que, aliás, merece ser visitado e foi criado pelo compositor e violonista Luis Roberto Oliveira. Mas o "maestro" não publicou alegando que no site a norma era usar textos verídicos e a minha tentativa de meta-parabolalizar o Tom ficou trancada da casa velha que descrevo...rs. Depois, foi arejada na "Caros Amigos" do amigo Sergio de Souza que era o editor-chefe do programa 90 Minutos para o qual a matéria foi feita.

Cosas de la vida.

Bração..
danou-se, você extrapolou dicumforça
belíssima história
parabéns
belíssimo texto.
voltei aos tempos de piá.
É, aquele tempo da tramela e da fúria do vento frio
uivando entre as frestas das paredes da casa-continente em construção...

e o som e as palavras do Tio Jobin constróem novas casas musicais.
abs.

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