Tradução: "Ética", de Giorgio Agamben

Ética

Giorgio Agamben

  
* Tradução de Murilo Duarte Costa Corrêa••

O fato do qual todo discurso sobre ética deve partir é aquele de que não existe nenhuma essência, nenhuma vocação histórica ou espiritual, nenhum destino  biológico que o homem deveria cumprir ou realizar. Essa é a única razão pela qual qualquer coisa como uma ética pode existir: pois é claro que se o homem fosse ou devesse ser esta ou aquela substância, este ou aquele destino, não haveria qualquer experiência ética possível – não haveria senão deveres a cumprir.


Isso não significa, todavia, que o homem não seja ou não deva ser algo, que ele esteja condenado ao nada e possa, por isso, decidir a seu bel-prazer ser ou deixar de ser, atribuir-se tal ou qual destino (niilismo e decisionismo encontram-se nesse ponto). O homem, com efeito, é e deve ser algo, mas esse “algo” não é uma essência, nem mesmo, propriamente, uma coisa: é o simples fato de sua existência como possibilidade ou potência. Porém, é precisamente porque tudo se complica que a ética se torna efetiva. Posto que o ser mais próprio do homem é ser sua própria possibilidade ou potência, somente por essa razão (dito de outro modo, na medida em que seu ser mais próprio em certo sentido lhe falta, pode não ser; é, portanto, privado de fundamento, e ele nunca está já em sua posse), ele é e se sente em dívida. O homem, ao ser potência de ser e de não, é sempre já endividado, tem sempre má consciência antes mesmo de ter cometido qualquer ato culpável.


Tal é o único conteúdo da antiga doutrina teológica do pecado original. A moral, por seu lado, interpreta essa doutrina em referência a um ato culpável que o homem cometera e impede, assim, sua potência ao dirigi-la ao passado. A manifestação do mal é mais antiga e mais original que todo ato culpável, e não repousa senão sobre o fato de que sendo e não devendo ser senão sua possibilidade ou potência, em certo sentido o homem falta a si mesmo; ele deve apropriar-se dessa falta, ele deve existir como potência. Assim como Perceval no romance de Chrétien de Troyes, ele é culpado daquilo que lhe falta, de uma falta que ele não cometera.


É porque a ética não dá lugar algum ao arrependimento, é porque a única experiência ética (que, como tal, não soubera ser nem uma tarefa, nem uma decisão subjetiva) consiste em ser sua (própria) potência, em deixar existir sua (própria) possibilidade; em expor, dito diferentemente, em cada forma sua própria amorfia e em cada ato sua própria inatualidade.


A única forma do mal que pode haver reside, ao contrário, no fato de decidir permanecer em dívida vis-à-vis da existência, de se apropriar da potência de não como uma substância ou um fundamento exterior à existência; ou então (e é este o destino da moral), reside em considerar a potência mesma, que é o modo mais próprio de existência do homem, como uma falta que lhe convém em toda circunstância reprimir.


• Tradução da versão francesa. AGAMBEN, Giorgio.La communauté qui vient. Théorie de la singularité quelconque. Tradution par Marilène Raiola. Paris : Éditions du Seuil, 1990, p. 47-49. [Original italiano: AGAMBEN, Giorgio.La comunità che viene. Turin: Einaudi, 1990.] "Ética" é o capítulo XI da citada obra de Agamben.
•• Professor de Filosofia do Direito e Teoria Geral do Direito, vinculado ao Departamento de Propedêutica do Direito da Faculdade de Direito do Centro Universitário Curitiba (DPDFDC/UNICURITIBA); Professor do Curso de Direito do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Fundação de Estudos Sociais do Paraná (CCSA/FESP-PR). Doutorando em Filosofia e Teoria Geral do Direito (USP). Mestre em Filosofia e Teoria do Direito (UFSC). Graduado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

Exibições: 425

As respostas para este tópico estão encerradas.

Respostas a este tópico

desculpem, crianças, mas não resisto:

que papo cabeça!

 

 

Luzete,

Talvez não tenha entendido o desdobramento. O assunto é um texto, texto, texto, sobre ética, que se desdobrou em outro tema, talvez a liberdade, a brincadeira, transversalidades. Não tenho nada contra, nem a favor. O tópico está rendendo até mais do que a divulgação que pretendia do blog "Navalha de Dali".

A não ser que a sua observação tenha sido por um humor refinadíssimo em relação às cabeças Brancusi. Então, foi ótima a piada. Eu ri também.

Oi, Luzete, 

É uma ovulação, um dia poderá ser de ponta à cabeça ou uma plantação. kikiki.

 

 

este kikiki, aqui, tem marca registrada, dona flora. cuidado, pois!

ops, será que é CC? (de creative commons, prá que não se confunda com comando de caça de qualquer coisa, né?)

 

Registrada no CC? My god, pelo martelo de Thor. Vixe! quiquiqui, pode? smile, sorria, você está sendo filmado, risos a granel, LOL, BOL, ui.

Nossa Senhora do Chuveiro Elétrico, dai-me resistência, porque não caiu a flecha. Não é o Paddy.

Pode me chamar de Flora, Luzete. Não sou dona de nada, nem do meu nariz, fiz plástica de septo. kiki, tá? 

Por favor, Marli não apague essa imagem. Deixe-a aí. Muito interessante.
Senhores,

Obrigada pela participação.

Há espaço suficiente para outros assuntos em outro tópico. Esse aqui tem pretensões intelectuais, intelectualóides, chatices desse tipo, seja lá o que for. Não me importam categorias, mas implico com intimidades excessivas.

Este está fechado para comentários.

A posição pode ser revertida, apenas no caso de alguém ter achado que foi ofendido. Se for o caso, entre em contato na minha página.

Grata,

Ana Lívia B.

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço