Texto assinado por Liu Sai Yam em resposta a postagem 

Por quê Zé Ketti e João do Valle Morreram na Quase Miséria? de Jair Alves a respeito de cerimõnia festiva promovida pela FUNARTE nesta semana em São Paulo.


Me parece, caríssimo Jair, que denominação mais definidora que “república utópica” seria “tribos utópicas”, porque tudo se tribalizou, não? Ou serão “guetos utópicos”?

E mesmo não sendo hoje sábado de aleluia, não há como não malhar nossos Judas de sempre, a “redentora” e a introdução (literalmente, nos nossos) da hegemonia eletrônica, via televisão, veículo chapa-branca, mão-única, que não permite diálogo e muito menos contestação. Mas em compensação produz celebridades instantâneas, além de pagar bem.

De acordo com o antigo enunciado de Lao-tse, quando artistas e produtores culturais de transformam em bons funcionários, abrem mão voluntariamente de algo que se chama liberdade, que em última instância oferece caminhos à criatividade. Quem se coloca dentro de folhas de pagamento evidentemente “ganhará” chefes e tarefas, né?

É quando os interesses individuais se confrontam com os coletivos. É quando se instaura a competição entre pares, a especialização específica, a compartimentação, a burocratização e a submissão às pautas empresariais. Tudo o que a ditadura e a matriz, à qual prestava serviços também como boa funcionária, desejavam e impuseram à custa de investimento pesado.

A fragmentação das atividades expressivas, nessa hipnose de populações inteiras por meio da telinha azulada (a gente se “vê” nela, deixamos de “ser”) destrói a arte do contato. Aquilo que Milton Nascimento cantava sobre “ir aonde o povo está”. Compartimentação no duro, linhas de montagem. Cada um em seu lugar e um lugar pra cada um.

É extensão daquela mesma discussão, né, Jair Alves? Sintomático que João do Vale e Zé Keti tenham tido seus grandes momentos nas eras da rádio, do carnaval de rua e depois em colaboração mano a mano com os dramaturgos e os cineastas. Cinema novo, cinema boca do lixo, Teatro da Arena, Portela e Vai-Vai. Aquela pororoca criativa que mesclava linguagens e técnicas na vontade de fazer o Brasil, de resistir ao autoritarismo, de produzir grande arte a partir (e apesar) do subdesenvolvimento. Em síntese, de escrever, filmar, pintar e encenar a nossa História. Mais sintomático é que a partir de 1967, e coincidente com a blitzkrieg da TV armada pelo capital internacional contra as expressões orgânicas e populares, João do Vale e Zé Keti, e dá aqui pra fazer uma lista enorme, são aos poucos condenados à inatividade, o que pra um artista é a morte. Não eram fotogênicos pra TV, não cantavam segundo o novo ritmo, seus temas eram indesejáveis aos novos agentes “culturais”. Eram, aí sim, representantes da legítima “república utópica” a favor da qual valia lutar.

Um trabalho competente, profissional, global, de destruição da arte libertária; e, no pacote, a destruição da educação e saúde públicas. A foto ilustrativa da matéria, Narciso, de Caravaggio, é perfeita e bate perfeitamente com a inspirada estrofe de Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”.

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Respostas a este tópico

ô Ana.

muito bom, bom mesmo o texto do Jair,

e o comentário do Liu sensacional.

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