Comecei a assistir um pequeno vídeo em que aparecia um ex-professor e mais outro falando sobre políticos, não aguentei mais de dois minutos não porque concordasse ou discordasse, mas sim porque estou começando a pegar nojo de qualquer falsa análise política-sociológica-economica-empresarial totalmente “isenta” e “cientificamente correta” de membros da Academia e “Sociedade Civil em geral”.

 

Acho que todo este Pot-Pourri de análises políticas-economicas-sociológicas (podres, como diz o nome em Frances), tanto de esquerda como de direita, é uma característica dos últimos 30 anos da política nacional, quando se começou a dar voz demais aos não profissionais do assunto, à chamada sociedade civil. Este espaço é retirado dos seus verdadeiros profissionais, os políticos.

 

Quanto mais se dá voz a sociólogos, filósofos, empresários, sindicalistas e ruralistas, menos aparecem aqueles que deveriam estar botando a cara a bater. Tanto a grande Imprensa (há 30 anos), o PIG segundo muitos, como os blogs progressistas (nos últimos anos) dão espaço a filósofos à direita ou sociólogos à esquerda, se retirando espaço de quem elegeu a sua vida para aparecer e ser criticado.

 

Estes senhores, arautos e representantes da sociedade civil (eu nunca elegi nenhum deles como meu representante!), são todos capazes de resolver todos os problemas do Brasil e talvez do mundo. Fórmulas conservadoras, populistas, extremadireitistas ou esquerdistas se alternam, conforme a linha editorial do meio de comunicação. Mas apesar da profusão de ideias brilhantes, análises fantásticas, nenhum desses se atreve a se colocar na posição dos políticos tradicionais. Eu já estou de saturado de ouvir análises, interpretações e outras formas de discursos de pessoas que talvez nem sua vida pessoal consigam gerir com sucesso, e se autoelegem para representar a grande sociedade.

 

É muito fácil falar contra o Lula, o Maluf, o Serra e os partidos em geral, sem levar em conta o imbróglio que é o nosso país com suas leis confusas, suas heranças malditas e alianças esdrúxulas produto da incapacidade desta tal de sociedade civil fazer algo para desmanchar isto tudo. Corporativismos, individualismos e até oportunismos atuam para eleger algum político para posteriormente tirar vantagem disto, é a tônica de nossa sociedade civil. Podemos até dizer que isto é uma especialidade das elites dominantes desta nação, porém o pequeno eleitor do interior quando pode, tenta eleger algum vereador para ver se obtém um pequeno favor.

 

Ouvimos este monte de doutores e não doutores a ditar leis de moral e comportamento, sem que ninguém faça uma devassa em sua vida. Um professor da USP, um empresário da FIESP, um sindicalista da CUT, ou qualquer outra pessoa fora do circuito político tradicional, podem dizer qualquer coisa e depois se recolher aos seus aposentos, pois não tem a mesma responsabilidade de um político ou jogador de futebol de tempos em tempos apresentar um espetáculo agradável a população em geral.

 

Agora eu pergunto: Alguém fala se o professor que aparece na TV falando dos políticos trabalha de forma correta? Alguém pergunta ao empresário se ele é um sonegador? Ou já houve alguma verificação se o sindicalista já não traiu suas bases? Não, eles são a sociedade civil, e como sociedade civil tem direito a sua individualidade. E que são os políticos? São homens públicos, e por serem homens públicos todos tem direito a dizer qualquer coisa deles. Agora quando um desses críticos aparece na TV, escrevem nos jornais, eles não se tornam “homens públicos”? Pois bem se são homens públicos se deveriam ter suas vidas investigadas e devassadas, ter seu patrimônio levantado e verificado, e principalmente cobrada à coerência dos seus últimos vinte anos de vida. Afinal faz-se isto com os políticos!

 

Alguém pode naquele arroubo de moralidade dizer:

 

- O problema é que os políticos são todos corruptos!

 

Agora, quem impede os probos comentaristas, isentos de tudo e acima de tudo probos (parece que já disse isto) de se lançar na política e impor sua honestidade? O que impede isto?

 

Eu sei o que os impede! O medo e a covardia de se tornar pior do que aqueles que eles criticam. O medo e a covardia de num país complexo e rodeado de interesses eles não conseguirem exatamente nada, e não conseguindo nada associado a não ter espaço para falar, caiam no comportamento venal que tanto criticam. Ou pior do que tudo isto, ver a sua vida devassada e investigada provando que não são tão probos ou honestos como aparecem no primeiro momento.

 

Deem voz aos políticos, deixem o espaço político para os políticos, pois talvez só assim eles cumpram a sua tarefa de fazer política, não se deixando para falsos amadores que de tudo falam e de nada se comprometem.

Exibições: 231

Responder esta

Respostas a este tópico

Duas questoes, aliás 3: 

1) Você está propondo calar a voz de sindicalistas, por ex., e de representantes dos movimentos sociais, em geral, e só dá-la a políticos profissionais? 

2) Você nao sabe mesmo o que impede "os probos" de se elegerem? $$$$$ nao tem nada a ver com isso? 

3) Os políticos representam realmente as populaçoes, ou o interesse das corporaçoes que financiam suas campanhas? Veja a Europa, por ex... 

Primeiro, a desvalorização do político com a supervalorização dos representantes da "sociedade civil" levam a simplesmente a substituição de alguém que, bem o mal, tem que passar por um processo eleitoral, por um zé qualquer que ninguém elegeu e é chamado a dar depoimentos em meu e no teu nome!

Segundo, QUEM ESCOLHE AS PESSOAS QUE APARECERÃO nos meios de comunicação? Eu já vi trocentas palestras de industriais, sociólogos, psicólogos e praticamente nenhuma de sindicalistas, só aparecem quando há algum conflito e eles aparecem mais para se  desculpar.

Toda esta transferência do poder político a "sociedade civil", a ONGs e escambau é extremamente conveniente as classes que dominam os meios de comunicação, pois eles que escolhem, "sem critério aparente", quem fala em nosso nome.

No momento a Internet serve como uma válvula de escape, mas não pense que isto vai durar por muito tempo, algum dia eles acabam com a farra. Um dos mecanismos de superação do efeito da internet como mecanismo de  protesto é a saturação, saturação de informações, grupos em excesso e confusão geral, vide aqui o fórum, está perfeitamente esvaziado, quando ele era um dos poucos fóruns políticos ele possuía um grande público, hoje as pessoas vão para a Bosta do Facebook, e outras redes sociais, e se comunicam com outra meia dúzia de pessoas. A participação está ficando mais atomizada do que tendência Trostkista, vai-se até o Facebook e termina se mantendo o contato com alguns, é mais ou menos como ir na casa da amiga tomar chá das 5.

O descrédito da classe política é algo que está ocorrendo em todo o mundo, e criado o vácuo alguém ocupa o poder. O exemplo europeu é uma demonstração disto, o sistema está sendo ocupado por burocratas nomeados por bancos e estes é que estão fazendo os desmandos.

Ana Lú, como disse o grande filósofo e futebolista Garrincha: "Já combinou com os Russos?" Simplesmente uma mente simples (redundante mais preciso) viu que não adianta ficarmos elaborando esquemas complexos que só dão certo se tivermos concordância dos outros.

Logo, realmente prefiro que um deputado fale em nome dos seus representados, do que alguém escolhido pela Globo, Bandeirantes ou SBT fale em meu nome.

Infelizmente, para justificar a minha preocupação de forma mais correta e consistente, necessitaria mais tempo, mas posso tentar voltar ao assunto algum dia desses.

Mas os políticos estao de qualquer maneira na mao dos financiadores... e da mídia tb, eles nao ousam ir contra ela. Claro que temos que votar, claro; claro que temos que escolher os menos ruins; mas nao adianta esperar muito nao. NAO NOS REPRESENTAM. 

Bom, eu não tenho nada contra a política ou contra a classe política em geral. Tenho, como qualquer cidadão, uma sensação de desapontamento em relação àqueles em quem se confiava eticamente e que se revelaram desonestos. Eu não faço o discurso "todos são iguais" porque isso desqualifica a prática política e favorece justamente aos piores, com a nivelação por baixo.

Uma outra coisa, mas que aí tem a ver com a redução de debate e outras sensações de decepção, é que muitas pessoas consideravam o PT uma alternativa diferente da média em termos de prática política.

Sabe-se que se mantivesse como antigamente não se elegeria e/ou não governaria.

Então essa diferença na prática não tem mais. Resta pensar se há diferenças de programa, o que com tantos partidos fica difícil acompanhar. Só o Brasil, dentre as maiores democracias representativas, tem 32 partidos. Confunde mesmo.

Uma coisa que causa discussões para alguns é essa questão entre "puristas" e "pragmáticos". Mas isso é algo que concerne mais ao PT e seus eleitores fiéis. Eu, por exemplo, não preciso ficar bravo com ninguém se Erundina sai de campanha, se Maluf entra. Posso apenas ficar observando o que ocorre. E a partir daí tomar decisões.

Aqui em S.P. não tem muito estresse. Já votei em FHC (1985), Quércia (1986) e em Covas (1998) e em todas as vezes me arrependi. Porém, em todas as vezes teria me arrependido se tivesse votado na alternativa do momento. Não faz muita diferença. Das vezes que votei no PT e este ganhou (Erundina 1988, Martha 2000) foi OK. Nas outras vezes não ganhou, não dá pra saber como teria sido.

Sou obrigado a votar e também tenho interesse em fazê-lo. Então vou fazer duas coisas:

a) votar para prefeito em quem tiver mais chances de derrotar Serra no 2º turno. Se eu ficar muito em dúvida vou votar em uma pequena legenda (provavelmente PSoL) para aumentar o número de votos úteis e ajudar a empurrar para 2º turno.

b) votar para vereador em uma legenda que faça um discurso que pareça sincero e me interesse.

Fora isso, o de praxe, evitar candidatos ficha-suja, mal-afamados por insinceridade, arrogância ou tendência a autoritarismo. O que a imprensa e blogs falam de candidatos levo em consideração. Sugestões de amigos e parentes também.

E assim correrá a vida.

Não é verdade que o que impede as pessoas de se lançarem na política seja medo ou covardia. Não é nada disso. Trata-se de vocação profissional. As pessoas têm seus empregos, seus negócios, quando aposentados têm suas casas e famílias. Mesmo pra ser vereador em cidade pequena toma tempo, energia, é difícil se eleger. Então, embora "ser político" não seja uma profissão em faculdades, é uma profissão como todas as outras, precisa que a pessoa se disponha a isso. Já os cidadãos de todas as demais profissões continuam tendo o direito a falar o que pensam ou o que querem. Não deixamos de criticar um filme por não sabermos fazer cinema.

Nao quis dizer que sao todos iguais, pelo menos ainda nao. Talvez estejam ficando, cada vez mais... 

O que eu disse, em resposta ao Rogério, é que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Nao há diferenças entre políticos e pessoas da sociedade civil em relaçao a "ficarmos na mao de alguém"; ou é a mídia, ou sao os financiadores...  

Eu entendi, nem tinha pensado que vocês acham todos iguais. Eu também não acho que são todos iguais. Tem honestos (ou que parecem ser) e os que não, tem os propositivos e os que não, tem os que parecem capazes e os que não. Daí se escolhe o melhor e/ou menos pior.

Ou ficamos na mão da mídia, ou dos financiadores ou dos próprios partidos (faltou esse...)

Eu penso que em primeiro lugar está o direito de manifestação. Esta conta ou não com meu apoio, depende se me convence ou não.

Não vejo aliás grande diferença entre estas vozes. A voz do poder econômico está, com certeza, bem representada no Congresso. É uma necessidade com as regras atuais, pois sabemos o custo de um mandato...

Segunda questão: Vocês concordam com a atual representatividade dos estados? O Congresso "representa" o perfil médio da população brasileira? Eu, creio que está muito longe de representar.

Penso que só é  possível discutir sobre o assunto após uma reforma política. Como conviver com um sistema político com tantos erros, que empossa até vereador com um único voto?

Qualquer crítica portanto, merece ser considerada.

   

Pois é, mas, para fazer reforma política, os membros do atual Congresso precisa aprová-la. E eles nao farao nada contra as regras que os beneficiam... 

Só com pressão externa...

Gilberto

Ela recebeu um voto e vai falar em nome do município. Um professor, um filósofo ou um sociólogo não recebem nenhum voto e falam em nome do povo brasileiro.

Não entendi Rogério,

Quer dizer, eu entendo que seja esquisito a Globo ou concorrente apresentar um "sociólogo da FAFUQ" pra falar algumas palavras de acordo com a linha editorial do Ali Kamel, mas você está dizendo que alguém se acha representado por esses caras? Pra mim é bem óbvio que não representa ninguém, e na maioria das vezes a análise é bem chinfrim, quando não é forçada pra se enquadrar na linha editorial. Nunca vi isso como "em nome do povo brasileiro"...

Eduardo, chegaste no ponto. O que estas mídias fazem é simplesmente alugar um professor não sei lá de onde e este fica falando na TV aberta um monte de besteiras de acordo com a linha editorial do canal de TV.

O brasileiro ainda não tem um grau de escolaridade suficiente para notar que tudo isto é uma manipulação da imprensa, e os "professores" posam como pessoas "apolíticas" (como existisse isto!) e passam uma mensagem manipulada como se fosse uma verdade científica.

Vejamos alguns exemplos: Na economia, por exemplo, por décadas se falou que juros altos seguravam a inflação, e veja agora estamos baixando os juros e a inflação está caindo. Também se falava que a caderneta de poupança era imexível, o que aconteceu, o governo baixou os juros e a captação da poupança aumentou.

Ou seja, a maior parte das interpretações são verdadeiros chutes que seguem cartilhas que nos foram impostas, tudo isto falado não só por professores de universidades chinfrins, mas também por elementos da academia de primeira linha.

Pelo menos se fosse um político falando, o povo brasileiro identificaria quem eles estão defendendo.

Poderia seguir adiante nos exemplos, não os atualizo mais, porque simplesmente quando vejo alguns daqueles programas em que aparece um engravatado acadêmico (olha que sou professor universitário), simplesmente mudo de canal e vou assistir o Pica-pau.

As pessoas falam de acordo com as classes que se identificam e, por exemplo, um professor da USP ou da FGV (que ganham rios de dinheiro em consultorias) não vai falar contra o seu ganha brioches (pão é para pobre).

Atualmente as categorias mais reacionárias do Brasil são os vinculados com o setor Judiciário e com a Academia, e estes são os que mais aparecem na TV falando sobre os destinos da nação, mas isto já é outra história.

RSS

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço