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Um Morto Sem Sepultura na Novela de Aguinaldo Silva e Wolf Maia - Fernando Peixoto

Texto publicado originalmente no Portal Macunaima

por ocasião do falecimento do diretor e ator Fernando Peixoto em 2012

Em fina (flor da) estampa quem protagoniza os funerais não são os mortos e, sim, o (a) assassino confesso, sempre acompanhado a distância por um ajudante de ordens, capacho, vil e musculoso chefe da segurança. O diretor desta novela que invade, de segunda a sabado, os lares e corações brasileiros é o excelente ator e diretor de teatro e tevê, Wolf Maia, com quem o “personagem” título desta crônica pôde contar no elenco de MORTOS SEM SEPULTURA, no longínquo 1977.

Este é um assunto complexo como o que se desenha e uma tarefa ingrata, pois de pronto já se depara com a má vontade de alguns que não demonstram o menor interesse em estabelecer vínculos com os diversos conteúdos para um interrelacionamento nos dias atuais. É comum dizer que o autor do artigo misturou "alhos com bugalhos". Alertamos aos incrédulos que essa é uma crônica sobre a arte de representar (a realidade) no Brasil. Vejamos. (a imagem ao lado é um cartaz criado por, Elifas Andreatto).

 

Em meados de 1977, a resistência ao regime militar brasileiro sentia-se fortalecida com as pequenas conquistas no terreno institucional, além de vigorosa organização das inumeras iniciativas manifestadas aqui e ali pela sociedade civil. Um ano antes a companhia teatral de Othon Bastos e Martha Overbeck já havia levado à cena PONTO DE PARTIDA, escrita por um de nossos mais consagrados dramaturgos (Guarnieri), uma fábula sobre a morte do jornalista Vlamir Herzog, também dirigida por Fernando Peixoto.

Guarnieri e Antonio Petrin - Ponto de Partida - 1976

 

Cineasta Maurice Capovilla, Fernando Peixoto e Vladimir Herzog (década de 60)

 

Por essa época, animados pela receptividade do que se produzia no teatro, os artistas queriam mais - e o público também. O diretor, após experiências extraordinárias com o dramaturgo (a encenação de Don Juan foi uma das mais promissoras da dupla),descobre que o filho do dramaturgo, Paulo Guarnieri , jovem de 16 anos, é uma nova promessa para o teatro brasileiro. E isso aconteceu porque Wolf Maia já havia dirigido o “garoto” - e assimFernando não teve dúvidas: era o momento de levar à cena a peça do filósofo francês Jean-Paul Sartre, pois havia encontrado o ator ideal para interpretar François, o personagem mais novo da peça.

Durante toda a temporada, o diretor que acaba de nos deixar nunca escondeu que tinha divergencias ideológicas seríssimas com Sartre, porém fazia questão de acentuar em suas entrevistas que o foco da ação, um pequeno grupo de personagens, poderia ser o retrato em branco e preto das lideranças dos movimentos que lutavam contra a ditadura no Brasil contemporâneo. Na peça, militantes da resistência francesa, acuados num dos compartimentos de uma igreja bombardeada pelos nazistas, discutiam o seu destino. Hoje, à distância provocada por todos estes anos, sentimos arrepios só em pensar no significado que aquela situação, “teatro-plateia”, teria produzido em todos nós.

É uma pena que o teatro brasileiro nunca tenha sido suficientemente documentado pela tevê, cinema e outras formas de registro de imagens em movimento. Fotos, embora muito importantes, não dizem tudo. E é por isso que temos de nos contentar com fotografias, algumas amareladas pelo tempo, e recortes de jornais que nem parecem os mesmos da atualidade.

“Mortos” de Fernando Peixoto de 1977 foi o retrato mais contundente daquele momento vivido. Basta comparar o que veio logo a seguir.

 

Por outra, o que nos diz hoje uma telenovela como Fina Estampa, que envolve seis dias por semana - além de publicações e colunas de fofoca em revistas especializadas e Internet - grande parte da população brasileira? Um quase nada. Em geral, ficamos à mercê do capricho narcisista do autor plantando pistas falsas, numa das histórias mais inverossímeis que se conhecem, desde Direito de Nascer ou Antonio Maria.

Paulo Guarnieiri, José Fernandes e Othon Bastos

Compromisso com a audiência, normal, se considerados os investimentos para manter a roda da fortuna rodando, mas não custa nada mirar na própria história pessoal do diretor da novela, por exemplo, para ver o número de vítimas sem sepultura que se avolumam desde há muito. A sensação que temos é de que o único problema a ser efetivamente enfrentado é o caráter das pessoas (dos personagens), e não o contexto sócio-político-econômico. Não pedimos panfletagem, mas profissionalismo e respeito para com a inteligência do expectador. Não bastam interpretações extraordinárias, como as de Lília Cabral que também a seu tempo encantou Fernando Peixoto (Ato Teatral - 1983).

 

 

 

Flávio Guarnieri  substituindo seu irmão Paulo Guarnieri, Petrin e Wolf Maia

 

 

A peça escrita e logo levada à cena na França em 1946, dentro de uma Europa em frangalhos e coberta de entulho, procura um sentido para a vida, segundo propunha o existencialismo de Sartre, e também um rumo para aqueles militantes que lutaram contra o terror do Terceiro Reich. É possível deduzir que, por volta de 1977, a oposição política brasileira ainda não tinha exatamente um projeto para a sociedade, salvo resistir. Outras lutas importantes vieram a seguir, dentre elas a derrubada do AI-5 e a luta pela Anistia. O fundamental era “desmontar” o regime que continuava fazendo vítimas em razão de seu modelo econômico excludente.

Flavio Guarnieri e Othon Bastos

 

Três décadas se passaram, e estamos hoje na cena final de uma representação espantosamente épica, como a que sugeriu Othon Bastos, ator que se despencou às pressas do Rio de Janeiro para estar presente ao velório do amigo nesta segunda-feira dia 16. Paradoxalmente, estávamos ali diante de Corisco, imortalizado pelo filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, onde se pode ouvir a qualquer tempo e lugar alguém que grita “te entrega, Corisco”, ao que ele responde “eu não me entrego não”. Agora ali ao vivo vemos o atorOthon reclamando que não era lembrado hoje para fazer papel dramático, apenas épico. Ele ria, ao mesmo tempo, ao lembrar que por (cortesia), havia sido requisitado na atualidade para interpretar o papel de um mafioso (do também Aguinaldo Silva- o grifo é nosso.

 

Qual ligação podemos estabelecer entre Fina Estampa, Mortos Sem Sepultura, Wolf Maia, e Fernando Peixoto (que teatralizou parte de nossos sonhos de transformação do mundo, instigado pelo teatro)? Talvez a constatação de que as conquistas democráticas no terreno das liberdades de expressão, e algum progresso no desenvolvimento e justiça socia,l não tenham sido suficientes para sentirmos que, enfim, “as terras do bem virá” chegaram - até porque isso não aconteceu mesmo. É por essa razão que acreditamos que um artista tão importante como Fernando Peixoto tenha terminado seus dias deprimido, fugindo inclusive dos seus amigos outrora inseparáveis.

 

Após uma rápida internação, Fernando morreu, no dia 15 de janeiro de 2012, tendo em seu velório poucos amigos, sem dúvida alguns dos mais significativos. A cena final noCrematório da Vila Alpina foi de arrepiar. No centro do “palco”, o caixão fechado suspenso por um mecanismo próprio, formava um ambiente cênico muito parecido à área de representação do Teatro de Arena. Em seu centro um único ator, inerte, sem palavras. Na sala de cerimônia do crematório, onde é permitida somente a presença de amigos e parentes, chegou o momento da despedida - uma seleção de músicas, feita por Ana de Hollanda e amigos. Dentre elas, finalizando, A Ópera dos Três Vinténs (em alemão) e A Internacional.

 

Foi uma das cenas mais impressionantes do teatro moderno. Fernando adoraria vê-la, mas não pode - estava com os olhos cerrados. De qualquer forma, participou como protagonista. Na saída, um clima de final de festa e um “não sei para onde ir” (ou será que sabemos?). Perguntamos a Ana de Hollanda, logo em seguida aos abraços, o que seria feito das cinzas e ela, pega de surpresa, disse "não sei, a irmã dele gostaria de levar para Porto Alegre. A administração do Crematório deve enviar para ela".

Não é difícil concluir que Fernando Peixoto, o protagonista dessa crônica, é mais um “morto sem sepultura”. O que diremos dos demais?

 

Jair Alves – dramaturgo e ator

 

(*) Fotos gentilmente cedidas pela jornalista, Cecilia Thompson, de seu arquivo particular.

 

(**) Ficha Tecnica de "MORTOS SEM SEPULTURA"

 

De Jean-Paul Sartre

Produção: Difusão, S. Paulo

Tradução e Adaptação: Fernando Peixoto

Cenografia: Hélio Eichbauer

Diretor Assistente: Wagner de Paula

Elenco: Othon Bastos, Ariclê Peres, Antonio Petrin, José Fernandes, Wolf Maya, Whalmyr de Barros, Oswaldo Campozana, Paulo Guarnieri eWalter Breda.

Estreia: "Teatro Maria Della Costa" (São Paulo), 14 de setembro de 1977 

 

Exibições: 52

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