Texto postado no Blog-mae, pelo participante Johnnygo, de que gostei muito: 

"São Paulo convive com manifestações há um bom tempo. Quem trabalha na Avenida Paulista, por exemplo, vê passeatas e carreatas com razoável frequência. Tem espaço para todos os gostos naquela colméia. Sem-terra, sem-teto, funcionários públicos, professores, GLBT, sindicatos, cada um defendendo a sua causa. Isso é lindo, ainda que provoque transtornos irritantes. Nesse sentido, as atividades do Movimento Passe Livre também são lindas, a despeito de qualquer análise mais aprofundada do mérito das reivindicações. Ou seja, protesto hoje é normal e saudável, quanto a isso não há motivo para temores.

   Há algumas semanas, quando começou a se falar em aumento das tarifas de transporte, o preço que inicialmente surgiu nos jornais foi de R$ 3,45. Como as tarifas não haviam sido reajustadas nos últimos dois anos, os "especialistas" dos jornais fizeram o cálculo da inflação no período e chutaram os tais R$ 3,45. No entanto, o prefeito Haddad prometera reduzir o valor das tarifas durante a campanha eleitoral. Seu esforço de negociação conseguiu obter uma tarifa menor que a estimada pelos "especialistas" da mídia. Daí chegamos aos tão discutidos R$ 3,20. Um reajuste de 20 centavos, ou 6,7%, percentual bastante inferior à inflação acumulada nos dois anos anteriores ao reajuste, que foi de uns 15%. Podemos supor que as reivindicações estejam relacionadas ao reajuste das tarifas de transportes, caso contrário teriam ocorrido em qualquer época do ano, e não somente agora que houve o reajuste. E, por este caminho, do ponto de vista material, a reivindicação não mereceria tanta atenção. Ou seja, se for pelos 20 centavos, convenhamos, é muito pouco para tanto alarde.

   No entanto, o espectro da demanda é mais amplo: pedem que o transporte público seja gratuito. Isso não acontece em nenhum lugar do mundo, pelo menos que eu saiba. Se houver algo assim em uma democracia capitalista, merece ser objeto de estudo. Se fosse implantado, demandaria completa reformulação dos gastos do Estado e do Município. Talvez uma carga tributária nórdica, na faixa acima dos 50%, permitisse tal façanha. Assim, se enveredamos pela estatização e gratuidade do transporte público, convenhamos também que temos um pleito discutível e com poucas chances de realização, pelo menos a curto e médio prazo.

   Nem 20 centavos, nem gratuidade. Observamos que os manifestantes parecem reunir-se em torno de um ideal difuso que, em si, tem pouca relação com o discurso estabelecido. As manifestações parecem movidas por palavras de ordem que simplesmente procuram servir de bandeira, quase uma desculpa, para algo maior que talvez não estejamos vendo. Aí me vem a pergunta: o que querem estes jovens que se manifestam? O que mobiliza estes jovens é algo menos concreto que um reajuste de salário ou um pedaço de terra. Não são os 20 centavos nem a estatização e gratuidade. Tanto pela idade dos manifestantes, quanto pelos tempos nos quais todos vivemos, é natural que eles se sintam inquietos. Algo meio indefinido os perturba, uma insatisfação disforme, um pulsar de desconfiança em relação ao mundo que vão conhecendo. Isso é normalíssimo. Essa mistura energética de indignação e insubordinação faz parte de uma fase de nossas vidas. Seria até bom que sustentássemos ao menos uma faísca desse sentimento pela vida afora, mas isso normalmente não acontece. E, para completar o quadro, a insubordinação e a indignação existencial dos jovens podem ser reforçadas por um mundo que valoriza o hedonismo, o consumo e a captação fragmentada da realidade.

   Quando jovem, no primeiro ano da universidade, participei de passeatas e frequentei reuniões políticas. As causas eram imensas. Por exemplo, gritávamos pelo fim da ditadura, pela liberdade de expressão. Hoje, em geral, discutem-se causas materiais e pontuais. Os professores querem aumento de salário, os sem-teto querem casa. Não quero com isso dizer que havia mais nobreza em minhas batalhas da juventude. Eu era bem inexperiente e bem limitado, e ainda sou, embora menos. O mundo tornou-se multipolar, mais complexo, mais interligado, menos preto-e-branco. Ficou difícil encontrar uma causa abrangente. Para combater as causas abrangentes, a polícia da ditadura militar batia para valer. A gente via os olhos injetados do Coronel Erasmo Dias na TV, em sua expressão de ódio e ameaça aos "baderneiros". Ai de quem chutasse a porta de um ônibus. Apanhava, ia preso e podia sumir do mapa. Hoje, há grosseirões que chamam Dilma de sapatona e Lula de cachaceiro, sem que nada lhes aconteça. Os policiais de hoje são umas doçuras se comparados ao aparato da ditadura militar que então estrebuchava. Hoje temos uma democracia, com todas as qualidades e defeitos que lhe são inerentes. Evoluímos. É normal que ocorram protestos. No meio deles, contudo, aparecem uns extremados que depredam e tocam fogo. Estes precisam ser identificados e punidos, pois desqualificam um movimento que poderia ser uma semente fértil. Dizem que a melhor maneira de destruir um bom argumento é defendê-lo de maneira errada.

   Há dois elementos novos nessa parada. Primeiro, a repercussão desproporcional que os atos têm obtido na mídia, que lhes confere notoriedade e serve de incentivo à construção de um momento-primavera, na esteira de acontecimentos recentes em várias partes do mundo. Temos uma Europa em crise, um mundo árabe em ebulição, os pobres dos EUA mostraram a cara no Occupy Wall Street. Aqui no Brasil, passamos por um bom momento econômico. Por mais que os pessimistas de plantão queiram reclamar, temos salários em alta, desemprego em baixa, inflação sob controle (!), câmbio subindo para um nível mais atrativo às nossas exportações, investimentos em alta, atividade industrial subindo, desonerações tributárias, excelentes reservas, juros razoavelmente baixos, relação dívida/pib tranquilizadora. Tudo isso enquanto o mundo passa pela maior crise econômica desde 1929. Mesmo assim, o clima dos noticiários é de que vivemos no Brasil uma hecatombe. Um cidadão que lê todas as matérias políticas do UOL durante uma semaninha apenas vai ter vontade de estourar os miolos. O clima de eleição foi antecipado. Para reforçar este clima, um simples movimento de protesto ameaça se transformar em nossa "primavera", nossa redenção contra todas as tiranias do universo. Nunca vi nenhum movimento reivindicatório receber tanta atenção da mídia. O Movimento Passe Livre conseguiu o estrelato. Na TV, imagens das manifestações são transmitidas em linha direta, horas a fio. Abre parêntesis: pelo menos a Globo adotou como referência o termo "passagens de ônibus", embora estejam em questão os preços das tarifas de ônibus, metrô e trens. Jornalismo suspeito, que busca associar a revolta ao recém-empossado prefeito Fernando Haddad - de fato, aquele que tomou a dianteira para reduzir as tarifas. Fecha parêntesis. Há uma disseminação do pessimismo pelos "velhos do Restelo", mas nada é tão simples, o preto-e-branco acabou. Os meios de comunicação estão numa situação complicada. Evidentemente, a pauta da redução de tarifas de transporte não é relevante para eles. Causas populares não interessam a jornais, muito pelo contrário, a tradição tem sido combatê-las. Se trabalhadores do campo paralisam o trânsito da Consolação por uma tarde, recebem alguns parcos segundos e severas admoestações da TV. Assim, embora o discurso de agora criminalize os jovens, repetindo a palavra vandalismo como um mantra, não chega a defender abertamente uma repressão mais dura. Por trás disso mora um detalhe: a segurança pública em São Paulo é responsabilidade do governador Geraldo Alckmin, que será o candidato da grande mídia concorrendo à reeleição para o governo do Estado. Um imprevisto ou uma tragédia na condução da PM, como um estudante morto (oxalá isso nunca aconteça), pode comprometer definitivamente a já combalida gestão de Alckmin na segurança pública. E aí a eleição do chuchu vai para o espaço.

   O segundo novo elemento na parada prende-se ao fato de que assistimos ao parto de uma nova era da informação. Em termos históricos, creio que vivemos uma gigantesca mudança, cujos desdobramentos, tanto para o bem quanto para o mal, são imprevisíveis. A internet no Brasil começou a se disseminar nos anos 90. É muito recente, coisa de duas décadas apenas. Estamos no olho do furacão e não conseguimos enxergar o todo. Só o futuro nos dirá, isso se ainda estivermos vivos quando os fatos atuais puderem ser vistos em perspectiva. Se a população turca protesta na praça Taksim de Istambul, assistimos o evento quase que instantaneamente aqui no Brasil. A notícia se distribui por vasos comunicantes e filtrantes nas redes sociais. Formam-se numerosos grupos de interesse, estabelecem-se identificações entre as pessoas, que tentam se agrupar. O funcionamento deste novo sistema é baseado em quantidade de acessos e multiplicidade de interesses. Não sabemos ainda quais as implicações políticas desse tipo de organização da sociedade. Se temos passeata em São Paulo pela qualidade do transporte, elas também são convocadas em outras capitais, mesmo que as realidades sejam bastante diferentes em cada lugar. A informação flui pelo facebook, pelo tweeter, msn, e cria um sentimento de unidade e de pertencimento que atenuam o desconforto com o individualismo geral. Este fenômeno começa a produzir uma nova maneira de participar, ainda incipiente, é verdade, mas já capaz de surpreender. Não sabemos no que tudo isso vai dar, mas tenho a convicção de que a mudança será grande. O momento que vivemos é muito auspicioso. Auspicioso e perigoso, todo cuidado é pouco."

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Respostas a este tópico

Exatamente como Lula fez, apoiando Sarney.

Lula e Dilma não são OBama que teve a maioria no Congresso.  

A comissão de DH aprovou a "cura" gay,  e o novo projeto da destinação dos royalties para o para educação foi novamente derrubado.

Gilmar Mendes não se preocupou em defender contra a criação de novos partidos, pois qualquer poderia deduzir que a Câmara aprovaria essa excrescência.

Indendentemente de Dilma, Paes fez uma coligação com 18 partidos. Partidos de aluguel, pagos para criar vereadores , ou melhor, para impedir a eleição de outros. partidinhos com muita grana, bandeiras, banners, "militantes", ostentando o apoio a Paes.

Essa votação é uma resposta aos que reclamam por um reforma política. De algum modo ela deu seu primeiro passo para trás.

 

Há um desvairio inimaginável que ainda confunde o governo com o Estado, na mídia, nas ruas e nos movimentos sociais difusos.

Retrata com fidelidade o neoliberalismo: a fragmentação dos movimentos e a inversão do uso dos recursos tradicionais da esquerda.

Os jovens do Ocupa Wall Street protestaram contra a perda dos seus empregos, mas fazem parte do apoio massivo aos drones de Obama.
Os jovens que MPL obtiveram apoio de partidos e de outros movimentos sociais, mas chegam às ruas declarando-se apartidários.

Hoje declararam a saída das marchas, porque a "seus objetivos já foram alcançados". Chama de "conservadores" os atos da direita fascistas que tomaram conta do vazio político que eles mesmo criaram. Mas será que foi só por isso?  O estrago imenso já foi feito

"— O movimento não vai convocar novas manifestações. Infelizmente, o PT convocou  um protesto para o mesmo local, que acabou atrapalhando o andamento da  comemoração de ontem (quinta-feira), mas também houve uma hostilidade a outros  partidos que estavam desde o início compondo luta contra o aumento. Então, nós  entendemos que foi uma avaliação errada feita pelos manifestantes e condenamos a  prática — afirmou" ( no O Globo de hoje)

Analu,

Deixo aqui uma contribuição ao seu post:

O pronunciamento de Dilma não basta

Autor: 
 Gilberto .

Sem entrar no mérito do discurso, ele não basta. Impossível que o governo não possua dados sobre os grupos que deram início aos atos. As redes sociais foram um instrumento fundamental nas manifestações. Elas não são tão democráticas e horizontais quanto se fala e pensa. Existem lideranças entre elas conseguidas através do número de seguidores, comentários feitos na página e número de compartilhamento das mensagens.

O governo não resolverá nada, exclusivamente, através de reuniões ministeriais ou conversas com lideranças políticas atropeladas pelo movimento das ruas. Ou de discursos, por melhor elaborados que sejam. Quem está na rua quer ser ouvido, não ouvir. Como não dá para receber todos para uma reunião, o gesto possível ao governo é localizar e receber estas lideranças.

Quantos jovens, que correspondem à maior parte das pessoas que deu início ao movimento, foram recebidos e consultados pelo Planalto até agora? Não será pedindo conselhos a Sarney, a Temer ou a lideranças políticas ou partidárias esvaziadas que se resolverá o assunto.

Gostaria de ver jovens recebidos no Planalto, numa reunião aberta e pública, o mais rápido possível.  É o único gesto simbólico possível ao governo neste momento que pode gerar algum resultado. Eles não estão a fim de discurso, por melhor elaborados que sejam... 

Concordo, Gil, mas acho meio inviável em curto prazo. O governo simplesmente nem deve ter analistas de web. É de uma falta de visao, isso... Espero pelo menos que a partir dagora tenha. E creio mesmo que as lideranças iniciais foram atropeladas, e, no mais, NAO HÁ LIDERANÇAS... Há, talvez, instiladores, mas com esses nao há conversa.... Ontem comecei a ler, mas parei porque estava exausta, um texto que parece ter sido postado originalmente no Tijolaço que falava disso. 

Olha, Gil, o texto. Está no Blog-mae de hoje: 

"Do Tijolaço

What is this, “companheiro”?

Fernando Brito

Recebi e copio aqui um texto da maior importância, que deve ser lido por todos os que ainda duvidam da presença de grupos organizados de provocadores e por gente contrária ao Brasil que se aproveita dos desejos generosos que movem os jovens que estão se manifestando em todo o Brasil.

Tem boi na linha. #changebrazil?  Qual seus interesses?

“Quanto mais pessoas colocarem pressão sobre o Brasil, mais rápido o Brasil terá que se dobrar”  Diz porta-voz anônimo do movimento ChangeBrazil

Nem tudo que está acontecendo parece ser espontâneo. Qualquer pessoa que já tenha trabalhado com planejamento de campanha publicitária, especialmente online, sabe que algo assim é possível. Não é tão diferente de planejar o lançamento de um filme ou turnê para o público jovem.

Há um movimento na internet, que surgiu no dia 14 de junho, voltado principalmente para jovens, chamado #changebrazil (surgiu assim mesmo, em inglês). Em português o nome do movimento é Muda Brasil. Esse movimento postou vídeos, aparentemente espontâneos, que foram vistos por mais de 1 milhão de pessoas, a maioria deles jovens (muitos secundaristas) que estão indo para as manifestações em clima de festa e máscara V de Vingança.

Na quinta-feira, dia 13 de junho a polícia de Geraldo Alckmin (PSDB)  reprimiu de forma violenta manifestantes do Movimento Passe Livre, cidadãos e jornalistas. Logo no dia seguinte a grande imprensa passou a defender o movimento e surgiu um vídeo, em inglês, com legendas em inglês, que se intitulava “Please Help us” (Por favor, nos ajude). O vídeo, com um narrador com visual rebelde (alguém sabe quem ele é?) que já foi visto por mais de 1 milhão e 300 mil pessoas, passa rapidamente sobre tarifa de ônibus, critica a mídia e estimula aos jovens o ódio contras os políticos, enaltece o STF e estimula quem ver o vídeo a espalhá-lo e debater o assunto na internet. Sugiro que quem não entende o clima da juventude no protesto ou que tem ilusões de que eles são de esquerda, o assista. http://youtu.be/AIBYEXLGdSg

O vídeo parece simples, mas a iluminação e fundo é profissional, foi feito em estúdio, e se prestar atenção, verá que o manifestantes (alguém o conhece?) de inglês perfeito, está lendo um teleprompter. O vídeo é feito em inglês, mas a maioria dos comentários é de brasileiros. Não há acessos a estatísticas. O vídeo foi feito e visto provavelmente por brasileiros, jovens, de classe média e alta que falam inglês. Fala da Copa do Mundo (preste atenção: todos falarão). E termina dizendo que “o povo é mais forte que aqueles eleitos para governá-los”.

Que movimento pelo Passe Livre faria um vídeo em inglês ? Que é esse sujeito? Quem pagou essa produção, feita em estúdio com teleprompter? http://youtu.be/AIBYEXLGdSg

As dicas sobre quem ele é o que as pessoas que estão por trás disso querem estão no segundo vídeo, postado durante as manifestações de segunda-feira.  Este fala em português. Carregado de sotaque, celebra a tomada do Congresso Nacional por “protestantes” (sic). Esse vídeo foi menos visto, mas não pouco visto, são 66 mil pessoas. http://youtu.be/z-naoGBSX9Y Ele dá parabéns pela manifestação, pelas pessoas mostrarem que “amam” seu país. E segue para dar instruções. Cita as hashtags #changebrazil e o #brazilacordou. Diz que o público não pode se desconcentrar nisso pelo gol do Neymar, ou pelo BBB. Diz que não devem falar de outros assuntos. Mas ao mesmo tempo a mensagem é vazia além de “Muda Brasil”. Ele se refere sempre sobre o que acontece como isso. E no minuto 2:06 ele diz para as pessoas fazerem o material para o exterior porque “quanto mais pessoas colocarem pressão sobre o Brasil, mais rápido o Brasil terá que se dobrar”.

Que movimento é esse que quer mudar o Brasil fazendo ele se dobrar?

Ele mistura nas pautas do seu “movimento coisas que todos defendem, como contra a corrupção, e mais verbas para saúde e educação. Talvez por “coincidência” as mesmas pautas centrais, com a mesma linha de discurso foi postada em um vídeo suspostamente feito pelo grupo Anonymous justamente quando as tarifas iam baixar para propor novas causas. Ele já foi visto por 1 milhão e 400 mil pessoas http://youtu.be/v5iSn76I2xs Importante lembrar que como os vídeos do Anonymous usam imagem padrão e voz falada por digitada pelo Google, e são postadas em contas do Youtube aleatórias qualquer um pode fazer um vídeo se dizendo Anonymous.

O nosso amigo de sotaque não é o único vídeo que veio de fora. Já ficou famoso o vídeo de uma menina bonitinha, Carla Dauden, uma brasileira que mora em Los Angeles, falando contra a Copa do Mundo. Na descrição do vídeo ela diz que tinha feito o vídeo antes dos protestos (talvez para justificar a produção apurada), mas postou no dia 17 de junho . Carla diz Mais de 2 milhões de pessoas o viram. De novo, em inglês com legendas. Pretensamente para o exterior, mas de novo a maioria dos comentários é brasileiro. Ou seja, são para jovens que falam inglês. Diz mentiras como que os custos do evento teriam sido 30 bilhões de dólares, o que parece que os estádios custaram isso. Quando na verdade os custos reais são 28 bilhões de dólares, a maior parte em obras de mobilidade urbana, não estádios – veja o vídeo aqui http://youtu.be/ZApBgNQgKPU Mas quem está checando acusações?

Prestem atenção. A soma de apenas esses 3 vídeos somente deu 5 milhões de visualizações no Youtube.

Dê uma busca por changebrazil ou Muda Brasil, o nome dos vídeos em português do “movimento” que quer dobrar o Brasil no Youtube, e descubra você mesmo. Será que está acontecendo um 1964 2.0?

“Quanto mais pessoas colocarem pressão sobre o Brasil, mais rápido o Brasil terá que se dobrar”  Diz porta-voz anônimo do movimento ChangeBrazil

Nem tudo que está acontecendo parece ser espontâneo. Qualquer pessoa que já tenha trabalhado com planejamento de campanha publicitária, especialmente online, sabe que algo assim é possível. Não é tão diferente de planejar o lançamento de um filme ou turnê para o público jovem.

Há um movimento na internet, que surgiu no dia 14 de junho, voltado principalmente para jovens, chamado #changebrazil (surgiu assim mesmo, em inglês). Em português o nome do movimento é Muda Brasil. Esse movimento postou vídeos, aparentemente espontâneos, que foram vistos por mais de 1 milhão de pessoas, a maioria deles jovens (muitos secundaristas) que estão indo para as manifestações em clima de festa e máscara V de Vingança.

Na quinta-feira, dia 13 de junho a polícia de Geraldo Alckmin (PSDB)  reprimiu de forma violenta manifestantes do Movimento Passe Livre, cidadãos e jornalistas. Logo no dia seguinte a grande imprensa passou a defender o movimento e surgiu um vídeo, em inglês, com legendas em inglês, que se intitulava “Please Help us” (Por favor, nos ajude). O vídeo, com um narrador com visual rebelde (alguém sabe quem ele é?) que já foi visto por mais de 1 milhão e 300 mil pessoas, passa rapidamente sobre tarifa de ônibus, critica a mídia e estimula aos jovens o ódio contras os políticos, enaltece o STF e estimula quem ver o vídeo a espalhá-lo e debater o assunto na internet. Sugiro que quem não entende o clima da juventude no protesto ou que tem ilusões de que eles são de esquerda, o assista. http://youtu.be/AIBYEXLGdSg

O vídeo parece simples, mas a iluminação e fundo é profissional, foi feito em estúdio, e se prestar atenção, verá que o manifestantes (alguém o conhece?) de inglês perfeito, está lendo um teleprompter. O vídeo é feito em inglês, mas a maioria dos comentários é de brasileiros. Não há acessos a estatísticas. O vídeo foi feito e visto provavelmente por brasileiros, jovens, de classe média e alta que falam inglês. Fala da Copa do Mundo (preste atenção: todos falarão). E termina dizendo que “o povo é mais forte que aqueles eleitos para governá-los”.

Que movimento pelo Passe Livre faria um vídeo em inglês ? Que é esse sujeito? Quem pagou essa produção, feita em estúdio com teleprompter? http://youtu.be/AIBYEXLGdSg

As dicas sobre quem ele é o que as pessoas que estão por trás disso querem estão no segundo vídeo, postado durante as manifestações de segunda-feira.  Este fala em português. Carregado de sotaque, celebra a tomada do Congresso Nacional por “protestantes” (sic). Esse vídeo foi menos visto, mas não pouco visto, são 66 mil pessoas. http://youtu.be/z-naoGBSX9Y Ele dá parabéns pela manifestação, pelas pessoas mostrarem que “amam” seu país. E segue para dar instruções. Cita as hashtags #changebrazil e o #brazilacordou. Diz que o público não pode se desconcentrar nisso pelo gol do Neymar, ou pelo BBB. Diz que não devem falar de outros assuntos. Mas ao mesmo tempo a mensagem é vazia além de “Muda Brasil”. Ele se refere sempre sobre o que acontece como isso. E no minuto 2:06 ele diz para as pessoas fazerem o material para o exterior porque “quanto mais pessoas colocarem pressão sobre o Brasil, mais rápido o Brasil terá que se dobrar”.

Que movimento é esse que quer mudar o Brasil fazendo ele se dobrar?

Ele mistura nas pautas do seu “movimento coisas que todos defendem, como contra a corrupção, e mais verbas para saúde e educação. Talvez por “coincidência” as mesmas pautas centrais, com a mesma linha de discurso foi postada em um vídeo suspostamente feito pelo grupo Anonymous justamente quando as tarifas iam baixar para propor novas causas. Ele já foi visto por 1 milhão e 400 mil pessoas http://youtu.be/v5iSn76I2xs Importante lembrar que como os vídeos do Anonymous usam imagem padrão e voz falada por digitada pelo Google, e são postadas em contas do Youtube aleatórias qualquer um pode fazer um vídeo se dizendo Anonymous.

O nosso amigo de sotaque não é o único vídeo que veio de fora. Já ficou famoso o vídeo de uma menina bonitinha, Carla Dauden, uma brasileira que mora em Los Angeles, falando contra a Copa do Mundo. Na descrição do vídeo ela diz que tinha feito o vídeo antes dos protestos (talvez para justificar a produção apurada), mas postou no dia 17 de junho . Carla diz Mais de 2 milhões de pessoas o viram. De novo, em inglês com legendas. Pretensamente para o exterior, mas de novo a maioria dos comentários é brasileiro. Ou seja, são para jovens que falam inglês. Diz mentiras como que os custos do evento teriam sido 30 bilhões de dólares, o que parece que os estádios custaram isso. Quando na verdade os custos reais são 28 bilhões de dólares, a maior parte em obras de mobilidade urbana, não estádios – veja o vídeo aqui http://youtu.be/ZApBgNQgKPU Mas quem está checando acusações?

Prestem atenção. A soma de apenas esses 3 vídeos somente deu 5 milhões de visualizações no Youtube.

Dê uma busca por changebrazil ou Muda Brasil, o nome dos vídeos em português do “movimento” que quer dobrar o Brasil no Youtube, e descubra você mesmo. Será que está acontecendo um 1964 2.0?

Por: Fernando Brito"

Você leu este texto (abaixo) do Blog do Rovai? Nao está todo aqui, porque nao dá. Vale a pena, contém tb um estudo do Sérgio Amadeu sobre os principais grupos na Rede discutindo as manifestaçoes. 

"O Movimento Passe Livre e a política na Era Informacional

19/06/2013 | Publicado por Renato Rovai em Geral 

O que está acontecendo nesses últimos dias no Brasil não é novo. E não pode ser pensado a partir das mesmas lógicas e padrões da sociedade industrial. É preciso buscar entender o tempo que estamos vivendo, como as dinâmicas de relação e poder se estabelecem e quais as novas demandas e padrões de luta. Não são questões fáceis e nem ensejam respostas precipitadas. O jogo é muito mais complexo no modelo atual.

Há alguns anos venho conversando sobre redes com diferentes grupos. E, entre outras coisas, tenho afirmado que estamos vivendo numa mudança de era. Estamos passando da Era Industrial para a Era Informacional. Isso tem levado a grandes transformações na economia, na cultura e também na política.

Quando migramos da sociedade agrícola para a industrial, isso já ocorreu. Foram grandes as transformações e enormes as resistências. Houve quem preferisse destruir as máquinas do que tentar entender suas possibilidades e potencialidades. Hoje a mesma coisa está ocorrendo. A sociedade em redes não permite respostas analógicas. E os partidos e movimentos tradicionais de esquerda ainda resistem em entender esse novo processo. Não entenderam que na sociedade em redes uma das grandes crises se dá em relação às organizações intermediárias. A indústria cultural foi uma das primeiras a ser afetadas por esse fenômeno. As gravadoras de música, por exemplo, tentaram resistir a ele com a criminalização do que chamavam de pirataria. Tiveram que mudar a estratégia e perderam muito espaço. Na indústria da informação está ocorrendo o mesmo. Boa parte dos grandes grupos desse setor está ruindo porque decidiu enfrentar as mudanças e não buscar se adaptar a elas. Na política, os partidos são as organizações intermediárias. São as gravadoras da indústria da música. E as pessoas que estão nas ruas não querem ser representadas por eles. Querem se representar. É uma crise da democracia representativa, para a qual ainda não se tem respostas nem soluções. E para ser franco, poucas pistas.

De qualquer forma, a resposta tradicional a isso é a de que esses movimentos negam a política. Essa é uma daquelas respostas simples que não dialogam com o problema. Entre outras coisas porque nunca se discutiu tanto questões da política como nesses anos de redes em redes.

E essas redes nascem nas ruas e se articulam na internet. Nascem na internet e se manifestam nas ruas. Elas não são produzidas em escala industrial e nem em linhas de produção. E nelas há forças centrais, mas não há um centro. E as forças centrais podem inclusive ser contraditórias.

É preciso pensar em movimentos e não num único movimento. Movimentos que em alguns momentos podem se juntar a partir de uma sensação de que algo precisa mudar. E de alguma forma é isso que parece estar acontecendo no Brasil dos últimos dias.

Geração Facebook e Passe Livre – Há um bom tempo que representantes de movimentos tradicionais de esquerda dizem frases como: “essa galera do Facebook não sai do sofá”. E além de não participar dos debates que acontecem na internet, deslegitimam aqueles que o fazem. A geração Facebook já havia saído do sofá em alguns países. E agora resolveu sair do sofá no Brasil questionando, entre outras coisas, a política tradicional.

Antes de entrar no debate propriamente dito do que é participação política na dinâmica de redes, um parênteses. O Facebook é uma plataforma, como foi o Oktuk, que hoje é um cemitério de perfis. O Facebook em breve será substituído por outra plataforma, mas as redes que nele se articulam não mais se dissiparão. Essas redes são anteriores a internet. Elas são espaços de esfera pública. Na França da revolução burguesa, os cafés de Paris faziam esse papel. Nas greves dos ABC do fim da década de 70, as comissões de base organizavam o chão da fábrica e o Sindicato dos Metalúrgicos era o principal aglutinador daquele movimento que vinha debaixo. E ao mesmo tempo o Sindicato se articulava com outros sindicatos do Brasil e do mundo construindo uma rede de lutas que foi fundamental para, no Brasil, derrotar a ditadura.

Nas novas dinâmicas de rede o que está ocorrendo é que essas organizações tradicionais preferiram o velho ao novo. Negar a rede parece ser uma forma de se defender do novo. É um equívoco brutal.

Isso não tem a ver diretamente com o Movimento Passe Livre, mas tem. O Passe Livre já há algum tempo se articula e debate a questão do transporte público no Brasil. Seus líderes, basta assistir às entrevistas que têm concedido, sabem do que falam e têm bem clara sua pauta. Nos últimos anos esse movimento já vinha crescendo, tanto que nas últimas manifestações contra o governo Kassab, houve forte repressão e, inclusive, vereadores petistas que atuavam com o momento foram agredidos.

A primeira ação do MPL no governo Haddad também foi grande, mas dessa vez havia uma insatisfação generalizada e difusa contra uma outra série de coisas. Há gente contra a realização da Copa no Brasil, movimentos sociais indignados com o governo Dilma pela ausência de interlocução, grupos de direita doidos para acabar com o PT, gente da periferia de São Paulo que não suporta mais a ação policial repressiva, outros contra a PEC 37 etc. Quando o MPL resolveu continuar na rua, as redes sociais que estão na internet, em especial no Facebook, começaram a aderir a essa luta. E buscaram reconstruir sua narrativa. E isso, neste exato momento, está em disputa.

O MPL diz que a pauta é a tarifa. E faz muito bem em fazer isso. Mas também é fato que nas conversas de rede esse, neste momento, não é o ponto de pauta mais prevalente. Muita gente tem dito que a luta é por direitos e não por vinte centavos. E outros já querem o impeachment de Dilma.

Não foi diferente no Egito, na Tunísia, na Espanha e nem no Ocuppy Wall Strett. De novo, não existe movimento, mas movimentos. E neste novo contexto as pautas estarão sempre em disputa quando o povo for às ruas. Às organizações intermediárias, enquanto a democracia representativa resistir, restará a possibilidade de tentar dialogar com a parte das ruas que tiver apreço pela democracia. E lutar para que o processo democrático não seja dinamitado. E nem em relação a isso há garantias quando existe disputa. Movimentos podem começar de um jeito e terminar de outro.
A disputa é política – Há risco de que esse movimento iniciado pelo Passe Livre seja capturado pela direita? Claro que sim. Não os líderes do Passe Livre, que parecem bem mais preparados do que a média dos políticos tradicionais. Mas as ruas podem fugir do controle.

Há risco que vem venha a ocorrer um processo de Ciberturbas, como caracteriza David Ugarte? Algo como ocorreu em Paris na revolta das periferias? Claro que sim. E em alguns cantos isso já começa a dar sinais concretos.

Mas há também a possibilidade enorme de se avançar e de o Brasil dar um passo mais largo no sentido de ampliar seus canais democráticos. Mas para isso será necessário passar a entender a política de forma dialógica e não analógica. E passar a fazer a política com seus instrumentos e não na base da planilha. A tecnocracia substituiu o deus mercado no Brasil. Antes tudo se resolvia na lógica do mercado. Hoje na base das planilhas. Os movimentos sociais estão enfraquecidos e muitos deles por compromissos com o atual governo têm abdicado das lutas. Enquanto isso novos movimentos têm surgido a partir de outras dinâmicas e criado novos paradigmas de participação. Os caminhões de som se tornaram coisas do passado. E a parte mais raivosa da direita já percebeu isso.

Segue, na sequência, um estudo  produzido pela Interangentes, dirigida pelos sociólogos Sérgio Amadeu e Tiago Pimentel. A partir dele é possível verificar como as conversas de rede foram mudando de lugar nos últimos dias. Nos primeiros dias havia uma grande dispersão, mas o MPL era um dos nós principais das conversas. Depois o Anonymous ganhou protagonismo. E nos últimos monitoramentos alguns grupos de direita ampliaram muito sua participação. Se não houver disputa nas ruas e nas redes, esses grupos podem capturar boa parte dessa luta.

Na Era Informacional a fragmentação não está em disputa, ela é um dado de realidade. O que está em disputa é a política, que não está sendo praticada na sua essência nem pelos governos que se dizem com viés de esquerda e nem pelos movimentos tradicionais de esquerda. A política como um espaço de construção de um mundo melhor e de diálogo. A política como espaço de transformação da realidade.

E quando falta política, a violência prevalece. E os riscos passam a ser grandes."

Interessantes os dois artigos, Analu.

Vi primeiro o vídeo do tal #changebrasil. Você reparou que a maior parte dos comentários ao vídeo são críticas? Já os do Anonymous Brasil são favoráveis. 

Outra coisa, é fácil perceber o alcance dos grupos pelo Alexa http://www.alexa.com/topsites/countries/BR (use o mecanismo de busca).

Qualquer pessoa pode acompanhar a evolução de acessos. Eles trazem gráficos por período e permitem comparações de desempenho entre sites. Veja os  resultados dos grupos Passe Livre e Anonymous Brasil (nos sites, não no Facebook) na última semana abaixo:

 

O vermelho é o Passe Livre? Ele nao teve acesso NENHUM entre os dias 15 e 17? Entao houve GOLPE, porque nenhum acesso a um grupo que estava liderando manifestaçoes é praticamente impossível. 

Não, o Passe Livre é o azul (MPL).

Os acessos aos sites, são mais em busca de maiores informações sobre os grupos. Para comunicação o Facebook é o mais utilizado. Mesmo assim deve haver alguma falha no controle de acessos nesta data. 

Entrando no Face se percebe o movimento pelo número de comentários. Acho que não existe outra forma de controlar o tráfego no Facebook (que eu saiba).

É, eu me atrapalhei. 

Estou meio em crise de exaustao, nao estou mais aguentando ler nada. 

Amanhã, é importante ver o Fantástico, para ver o discurso que a Globo pretende fazer sobre as "motivaçoes" dos manifestantes, que seriam medidas numa pesquisa... Sai de baixo, o que haverá de manipulaçao nao estará no gibi... 

analú ,

tb, estou  exausta não aguento ler mais nada. não  sei se vou ver  o fantastico.

varios movimentos sociais estão preparando uma carta de apoio a Dilma

depois volto aqui.

Já houve uma, nao? Pelo menos li algo assim num dos inúmeros tópicos que o Nassif tem aberto. 

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