Texto postado no Blog-mae, pelo participante Johnnygo, de que gostei muito: 

"São Paulo convive com manifestações há um bom tempo. Quem trabalha na Avenida Paulista, por exemplo, vê passeatas e carreatas com razoável frequência. Tem espaço para todos os gostos naquela colméia. Sem-terra, sem-teto, funcionários públicos, professores, GLBT, sindicatos, cada um defendendo a sua causa. Isso é lindo, ainda que provoque transtornos irritantes. Nesse sentido, as atividades do Movimento Passe Livre também são lindas, a despeito de qualquer análise mais aprofundada do mérito das reivindicações. Ou seja, protesto hoje é normal e saudável, quanto a isso não há motivo para temores.

   Há algumas semanas, quando começou a se falar em aumento das tarifas de transporte, o preço que inicialmente surgiu nos jornais foi de R$ 3,45. Como as tarifas não haviam sido reajustadas nos últimos dois anos, os "especialistas" dos jornais fizeram o cálculo da inflação no período e chutaram os tais R$ 3,45. No entanto, o prefeito Haddad prometera reduzir o valor das tarifas durante a campanha eleitoral. Seu esforço de negociação conseguiu obter uma tarifa menor que a estimada pelos "especialistas" da mídia. Daí chegamos aos tão discutidos R$ 3,20. Um reajuste de 20 centavos, ou 6,7%, percentual bastante inferior à inflação acumulada nos dois anos anteriores ao reajuste, que foi de uns 15%. Podemos supor que as reivindicações estejam relacionadas ao reajuste das tarifas de transportes, caso contrário teriam ocorrido em qualquer época do ano, e não somente agora que houve o reajuste. E, por este caminho, do ponto de vista material, a reivindicação não mereceria tanta atenção. Ou seja, se for pelos 20 centavos, convenhamos, é muito pouco para tanto alarde.

   No entanto, o espectro da demanda é mais amplo: pedem que o transporte público seja gratuito. Isso não acontece em nenhum lugar do mundo, pelo menos que eu saiba. Se houver algo assim em uma democracia capitalista, merece ser objeto de estudo. Se fosse implantado, demandaria completa reformulação dos gastos do Estado e do Município. Talvez uma carga tributária nórdica, na faixa acima dos 50%, permitisse tal façanha. Assim, se enveredamos pela estatização e gratuidade do transporte público, convenhamos também que temos um pleito discutível e com poucas chances de realização, pelo menos a curto e médio prazo.

   Nem 20 centavos, nem gratuidade. Observamos que os manifestantes parecem reunir-se em torno de um ideal difuso que, em si, tem pouca relação com o discurso estabelecido. As manifestações parecem movidas por palavras de ordem que simplesmente procuram servir de bandeira, quase uma desculpa, para algo maior que talvez não estejamos vendo. Aí me vem a pergunta: o que querem estes jovens que se manifestam? O que mobiliza estes jovens é algo menos concreto que um reajuste de salário ou um pedaço de terra. Não são os 20 centavos nem a estatização e gratuidade. Tanto pela idade dos manifestantes, quanto pelos tempos nos quais todos vivemos, é natural que eles se sintam inquietos. Algo meio indefinido os perturba, uma insatisfação disforme, um pulsar de desconfiança em relação ao mundo que vão conhecendo. Isso é normalíssimo. Essa mistura energética de indignação e insubordinação faz parte de uma fase de nossas vidas. Seria até bom que sustentássemos ao menos uma faísca desse sentimento pela vida afora, mas isso normalmente não acontece. E, para completar o quadro, a insubordinação e a indignação existencial dos jovens podem ser reforçadas por um mundo que valoriza o hedonismo, o consumo e a captação fragmentada da realidade.

   Quando jovem, no primeiro ano da universidade, participei de passeatas e frequentei reuniões políticas. As causas eram imensas. Por exemplo, gritávamos pelo fim da ditadura, pela liberdade de expressão. Hoje, em geral, discutem-se causas materiais e pontuais. Os professores querem aumento de salário, os sem-teto querem casa. Não quero com isso dizer que havia mais nobreza em minhas batalhas da juventude. Eu era bem inexperiente e bem limitado, e ainda sou, embora menos. O mundo tornou-se multipolar, mais complexo, mais interligado, menos preto-e-branco. Ficou difícil encontrar uma causa abrangente. Para combater as causas abrangentes, a polícia da ditadura militar batia para valer. A gente via os olhos injetados do Coronel Erasmo Dias na TV, em sua expressão de ódio e ameaça aos "baderneiros". Ai de quem chutasse a porta de um ônibus. Apanhava, ia preso e podia sumir do mapa. Hoje, há grosseirões que chamam Dilma de sapatona e Lula de cachaceiro, sem que nada lhes aconteça. Os policiais de hoje são umas doçuras se comparados ao aparato da ditadura militar que então estrebuchava. Hoje temos uma democracia, com todas as qualidades e defeitos que lhe são inerentes. Evoluímos. É normal que ocorram protestos. No meio deles, contudo, aparecem uns extremados que depredam e tocam fogo. Estes precisam ser identificados e punidos, pois desqualificam um movimento que poderia ser uma semente fértil. Dizem que a melhor maneira de destruir um bom argumento é defendê-lo de maneira errada.

   Há dois elementos novos nessa parada. Primeiro, a repercussão desproporcional que os atos têm obtido na mídia, que lhes confere notoriedade e serve de incentivo à construção de um momento-primavera, na esteira de acontecimentos recentes em várias partes do mundo. Temos uma Europa em crise, um mundo árabe em ebulição, os pobres dos EUA mostraram a cara no Occupy Wall Street. Aqui no Brasil, passamos por um bom momento econômico. Por mais que os pessimistas de plantão queiram reclamar, temos salários em alta, desemprego em baixa, inflação sob controle (!), câmbio subindo para um nível mais atrativo às nossas exportações, investimentos em alta, atividade industrial subindo, desonerações tributárias, excelentes reservas, juros razoavelmente baixos, relação dívida/pib tranquilizadora. Tudo isso enquanto o mundo passa pela maior crise econômica desde 1929. Mesmo assim, o clima dos noticiários é de que vivemos no Brasil uma hecatombe. Um cidadão que lê todas as matérias políticas do UOL durante uma semaninha apenas vai ter vontade de estourar os miolos. O clima de eleição foi antecipado. Para reforçar este clima, um simples movimento de protesto ameaça se transformar em nossa "primavera", nossa redenção contra todas as tiranias do universo. Nunca vi nenhum movimento reivindicatório receber tanta atenção da mídia. O Movimento Passe Livre conseguiu o estrelato. Na TV, imagens das manifestações são transmitidas em linha direta, horas a fio. Abre parêntesis: pelo menos a Globo adotou como referência o termo "passagens de ônibus", embora estejam em questão os preços das tarifas de ônibus, metrô e trens. Jornalismo suspeito, que busca associar a revolta ao recém-empossado prefeito Fernando Haddad - de fato, aquele que tomou a dianteira para reduzir as tarifas. Fecha parêntesis. Há uma disseminação do pessimismo pelos "velhos do Restelo", mas nada é tão simples, o preto-e-branco acabou. Os meios de comunicação estão numa situação complicada. Evidentemente, a pauta da redução de tarifas de transporte não é relevante para eles. Causas populares não interessam a jornais, muito pelo contrário, a tradição tem sido combatê-las. Se trabalhadores do campo paralisam o trânsito da Consolação por uma tarde, recebem alguns parcos segundos e severas admoestações da TV. Assim, embora o discurso de agora criminalize os jovens, repetindo a palavra vandalismo como um mantra, não chega a defender abertamente uma repressão mais dura. Por trás disso mora um detalhe: a segurança pública em São Paulo é responsabilidade do governador Geraldo Alckmin, que será o candidato da grande mídia concorrendo à reeleição para o governo do Estado. Um imprevisto ou uma tragédia na condução da PM, como um estudante morto (oxalá isso nunca aconteça), pode comprometer definitivamente a já combalida gestão de Alckmin na segurança pública. E aí a eleição do chuchu vai para o espaço.

   O segundo novo elemento na parada prende-se ao fato de que assistimos ao parto de uma nova era da informação. Em termos históricos, creio que vivemos uma gigantesca mudança, cujos desdobramentos, tanto para o bem quanto para o mal, são imprevisíveis. A internet no Brasil começou a se disseminar nos anos 90. É muito recente, coisa de duas décadas apenas. Estamos no olho do furacão e não conseguimos enxergar o todo. Só o futuro nos dirá, isso se ainda estivermos vivos quando os fatos atuais puderem ser vistos em perspectiva. Se a população turca protesta na praça Taksim de Istambul, assistimos o evento quase que instantaneamente aqui no Brasil. A notícia se distribui por vasos comunicantes e filtrantes nas redes sociais. Formam-se numerosos grupos de interesse, estabelecem-se identificações entre as pessoas, que tentam se agrupar. O funcionamento deste novo sistema é baseado em quantidade de acessos e multiplicidade de interesses. Não sabemos ainda quais as implicações políticas desse tipo de organização da sociedade. Se temos passeata em São Paulo pela qualidade do transporte, elas também são convocadas em outras capitais, mesmo que as realidades sejam bastante diferentes em cada lugar. A informação flui pelo facebook, pelo tweeter, msn, e cria um sentimento de unidade e de pertencimento que atenuam o desconforto com o individualismo geral. Este fenômeno começa a produzir uma nova maneira de participar, ainda incipiente, é verdade, mas já capaz de surpreender. Não sabemos no que tudo isso vai dar, mas tenho a convicção de que a mudança será grande. O momento que vivemos é muito auspicioso. Auspicioso e perigoso, todo cuidado é pouco."

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Respostas a este tópico

Texto postado pela comentarista Sonia Aranha, no mesmo tópico do blog-mae sobre a necessidade da Dilma virar o jogo: 

Ei , reaça, vaza dessa marcha

Por natacastro - Café com Nata

Não, reaça, eu não estou do seu lado. Não vem transformar esse protesto legítimo em uma ação despolitizante contra a corrupção. Não vem usar nariz de palhaço, não tem palhaço nenhum aqui. Agora que a mídia comprou a manifestação tu vem dizer que acordou?


O povo já está na rua há muito tempo, movimentos sociais estão mobilizados apanhando da polícia faz muito tempo. São eles os baderneiros, os vândalos, os que atrapalham o trânsito. Movimento pelo transporte, Movimento Feminista, Movimento Gay, Movimento pela Terra, Movimento Estudantil… Ninguém tava dormindo! Essa violência que espanta todo mundo não é novidade, não é coisa de agora. Acontece TODOS os dias nas periferias brasileiras, onde não tem câmera pra registrar ou repórter para se machucar e modificar o discurso da mídia.


Não podemos admitir que nossa luta seja convertida pela direita numa passeata contra a corrupção. Não é uma causa de neoliberais. Não é uma causa pelos valores e pela família. Não estamos pedindo o fim do Estado – pelo contrário! – Esse “Acorda, Brasil” não tem absolutamente NADA a ver com a mobilização das últimas semanas.


Então se tu realmente acredita que a mídia tá do nosso lado, abre os olhos! São muitas as maneiras de se acabar com um levante: força policial, mídia oportunista, adoção e desconstrução do discurso…
Começou a disputa pelos sentidos da efervescência:


“Não é nem um pouco fácil entender a proporção que as coisas estão tomando no Brasil. Os protestos estão cada vez mais heterogêneos, e amanhã (hoje) vai ser um dia gigante e imprevisível. Protestos são convocados por desde movimentos libertários e autogestionados (que se encontram na gênese das manifestações) até pelas páginas ufanistas/moralistas/udenistas como a antipetista Acorda Brasil, que dissemina desinformação e preconceito de classe. Se esse choque de alteridades pode ser potente, também pode gerar desmobilização numa questão de semanas. Começou a disputa pelos sentidos da efervescência. Reacionários estão determinados a também sair do facebook e transformar a insatisfação coletiva numa versão inchada do elitista Movimento Cansei, com sua pauta moralista e antipetista. Por outro lado, governistas estão mais preocupados em deslegitimar as manifestações e em blindar os governos petistas, que não se pronunciam sobre o que acontece por não conseguirem compreender o novo, e quando se pronunciam, não conseguem romper com o emcimadomurismo. A multiplicidade de pautas que desaguam nessa insatisfação generalizada torna impossível vislumbrar os rumos que as coisas irão tomar. Será árdua a tarefa de disputá-los.”

slavoj

Texto publicado no Outras Palavras (mas extraído do blog O Escrevinhador, do Rodrigo Viana): 

“Não há um partido com a nossa cara”

publicada terça-feira, 18/06/2013 às 15:58 e atualizada terça-feira, 18/06/2013 às 16:29

Resposta ao texto “Para onde vai a onda das manifestações”

por Letícia Ortiz

Os R$ 0,20 foram a gota d’água. O copo e a nossa paciência transbordaram. As reivindicações se nacionalizaram, se internacionalizaram, tomaram conta das ruas, das redes sociais, dos jornais (mesmo a contragosto de alguns), do Congresso, das conversas…

A maioria são jovens, estudantes, pacíficos. Isso já foi constatado, no entanto, a nós se juntam muitos outros. Isso também já foi constatado.

As dúvidas agora são sobre as nossas causas, nossas bandeiras, nosso rumo. Talvez não tenhamos essas respostas agora, mas estamos nos mobilizando.

Nossas causas são diversas porque tem muito a ser construído. Queremos fazer política, mas não temos partido porque desde muito ninguém nos representa, ninguém conseguiu compreender e atender as demandas de uma sociedade em transformação. Não há um partido com a nossa cara. Os que um dia foram, sentimos que perderam sua essência, os que podem ser, não são ainda.

O Brasil nunca foi melhor do que é hoje, mas está longe, muito longe do que queremos que ele seja, do que sabemos que ele pode ser.

E estamos nos mobilizando. Não de agora. O movimento pelas causas homossexuais está aí na luta já há algum tempo batendo de frente com ‘Marcos Felicianos’ e uma ala conversadora que parece não admitir que a sociedade se transforma e a lei tem que a acompanhar (ao invés de tentar encaixar a sociedade à força em uma lei sem conformidade com a vida social). O movimento pelos direitos das mulheres também está na luta, exasperado com absurdos como o Estatuto do Nascituro. As reivindicações por qualidade e acessibilidade aos transportes públicos são históricas. A população sempre clama por segurança, educação e saúde e a evidência disso é que as campanhas eleitorais sempre se focam nesses temas. Os movimentos por sustentabilidade e proteção ao meio ambiente também já estava aí, assim como aqueles que querem proteger os animais. O movimento negro nunca saiu de pauta. Corrupção? Eu ainda lembro do Dia do Basta, protestos contra a corrupção que aconteceram ano passado em 42 cidades brasileiras e muitos outros.

O que acontece agora é que nos unimos. A gota d’água serviu de pretexto, de ponto de partida. A época (paralelamente aos eventos internacionais) serviu como fator de pressão.

Muitos de nós já tínhamos acordado. Agora só conseguimos mais força, mais visibilidade, mais apoio, mais coragem, mais união.

Temos causas. Temos objetivos. Nosso objetivo é representatividade. É a defesa das minorias. É sermos escutados. É vermos as melhorias REAIS (não promessas) na educação e na saúde. É podermos sair nas ruas sem medo. É poder confiar que as autoridades, que os nossos eleitos, cumpriram seu papel. Que não morreremos em boates por negligência e falta de fiscalização. É garantir que as pessoas tenham condições de ir e vir para o trabalho, para a escola, para a faculdade. Que a polícia cumpra seu papel social e não nos oprima. Enfim, como eu disse, temos causas, sim muitas, mas isso é por que tem muita coisa errada.

A maioria de nós não é contra o sistema. Só queremos que o sistema seja um reflexo da realidade do país e pare de tentar barrar a evolução social (vide Feliciano, bancada conservadora, Estatuto do Nascituro, PEC 37, …)e aja no sentido de melhorá-la.

Prefiro acreditar que dessa vez haverá mudança, para melhor, e não retrocesso. Prefiro acreditar que temos esse poder de mudar as coisas.

Para onde vamos? Em frente.

Letícia Ortiz, 20 anos, é estudante universitária

Leia outros textos de Outras Palavras

Outro texto publicado pelo Rodrigo Viana: 

O futuro se escreve nas ruas

publicada segunda-feira, 17/06/2013 às 19:08 e atualizada terça-feira, 18/06/2013 às 16:01

por Rodrigo Vianna

Às 19h já era possivel afirmar que a onda de manifestações pelo Brasil é a maior desde o movimento pelo impeachment de Collor. 40 mil pessoas em São Paulo (e crescendo). Outras 40 mil no Rio de Janeiro. Belo Horizonte teve milhares nas ruas, com bombas jogadas dos helicópteros pela PM mineira. Em Brasília, a marcha avançava em direção ao Congresso Nacional.

Tudo isso acontecendo e a Globo passava novela das sete. Fingia que nada estava acontecendo no Brasil. Talvez, para não estragar a Copa das Confederações. Os jovens nas ruas parecem ter deixado a direita indignada e a esquerda perplexa. Ninguém entendeu nada.

Durante o dia, setores do conservadorismo mudaram o discurso. Arnaldo Jabor, que na semana passado havia avacalhado os manifestantes com um comentário boçal no ar, mostrava-se arrependido (ou foi o “comitê central” global que mudou as orientações?), pediu até desculpas. Outros comentaristas da CBN pareciam confiantes na estratégia de levar Dilma para o centro dos protestos. Mesmo assim, a Globo escondia as manifestações. Tudo confuso. A família Marinho parecia não saber bem pra que lado correr. 

Às 19h15, a Globo em São Paulo entrou ao vivo com a manifestação. O repórter dizia: “tudo tranquilo, único prejuízo é para o trânsito”. Pela Globo (na TV aberta) não se tinha noção do tamanho das manifestações que corriam o país. A GloboNews privilegiava a cobertura em Brasília. E aos poucos, a Esplanada se encheu de gente. Manifestantes tomaram por alguns minutos a Cúpula do Congresso (foto acima – Portal Terra).

Record e Band mostravam as manifestações Brasil afora. Pela internet, informações transbordavam pelas redes sociais.

Via twitter, ficamos sabendo que manifestantes ergueram faixas dizendo “Não existe Jabor em SP”.

Haddad também apanhou. ““Haddad eu não me engano / esse aumento tem bico de tucano”, grita a multidão (via @mairakubik, no Twitter).

A idéia de que a manifestação pudesse ser “usada” pela direita ou pelo lulismo não parecia fazer sentido. O mais provável é que as manifestaçõe sejam um sintoma de que algo vai mal no sistema político brasileiro. O país cresceu, os mais pobres foram incorporados no mercado de consumo. Mas os jovens, Brasil afora, mandam um recado claro: queremos mais do que isso.

Quem vai sair vitorioso dessa batalha? A quem interessa?

A direita faz o cálculo: governadores tucanos podem ser atingidos, mas o que interessa é levar Dilma junto. Isso igualaria o jogo político, deixando tudo em aberto para 2014.

Na Espanha (numa conjuntura muito diferente, com desemprego e crise), os jovens ocuparam praças, fizeram barulho e no fim o que vimos? O PP (partido de direita, franquista) foi pro poder.

Na Argentina, o povo gritou “que se vayán todos”. E terminou em que? A esquerda ganhou com Kirchner.

Ou seja, um quadro como esse que vemos no Brasil pode terminar numa  vitória rotunda do conservadorismo. Mas pode significar também uma retomada do movimento de massas, a possibilidade de criar um novo modelo de desenvolvimento.

Como vai terminar? Não sabemos. A disputa está nas ruas.   

E não adianta a Globo esconder. Porque agora já se fala em cem mil pessoas no Rio (imagens impressionantes no centro carioca) e mais de 60 mil em São Paulo. Na capital paulista, fala-se que os manifestantes poderiam caminhar em direção ao Palácio, onde Alckmin deve estar arrependido das ordens que deu pra PM, na semana passada…

Leia outros textos de Palavra Minha

Anarquista Lucida,

Temos diversas opiniões e opiniões diversas, mas, salvo poucas ressalvas você se aproximou muito da real situação, desses movimentos.

Claro, no Brasil, apesar dos pesares vivemos e guardamos muitas características democráticas. Embora no meu entender, quando vivemos no Estado de Direito, passeatas e demonstração de força não é o melhor caminho para resolução dos problemas e por isto concordo quando questiona se não existe algo que não estamos enxergando.

Falou... 

Você me preocupou agora. Se você concorda comigo (em quê exatamente, hem? para eu reexaminar), eu devo estar errada em alguma coisa. 

Anarquista,

Errada você está sempre, esse foi o unico texto seu que teve alguma noção de sanidade.

Falou...

Pois é, me diga exatamente o que você achou "sao". Para eu poder reavaliar... 

Comentário em um tópico do blog-mae que mostrava uma imagem da gigantesca multidao no Rio: 

Bela imagem que passa ~"200 mil" manifestantes!

Embora ainda meio confuso, esta rapaziada já aperfeiçoou rapidamente coisas interessantes e maduras no processo.

Rio: Manifestantes ajudam a limpar a sujeira, pichações e detritos de vândalos imiscuídos.

SP: Brado ~"é coincidência, sem polícia sem violência!"

BH: Manifestantes protegem coronel da PM

Rio: Manifestantes ajudam em "vaquinha" para pagar carro destruído de um técnico radialista.

Quase todos: "sem violência, sem violência!

Embora ainda preocupado ... vamuquivamu!

(Será que isso dará a Dilma um pouco mais de ousadia política ou teá que ser mais pé no chão ainda?)

Texto do Idelber no Facebook (nao concordo com tudo, mas sempre vale a pena lê-lo): 

Idelber Avelar Guarani Kaiowá há 11 horas Por que ninguém sabe o que está acontecendo? Ora, porque isso é política. O que significa a eleição de José Sarney para presidente do Senado? Isso nós sabemos o que significa. O que significa a aliança do PT com o PMDB? Também sabemos. O que significa a ida de Kátia Abreu para a base -- fico tentado a dizer "liderança" -- governista? Também sabemos o que isso significa. É possível saber porque isso não é Política, com P maiúsculo. Isso é administração, gerenciamento e planilha. Política é outra coisa -- é isso que estamos vivendo nas ruas.

Política é o estalar incalculável do acontecimento. É Maio de 1968, é a Primavera Árabe, é o 17 de junho brasileiro. É por isso que não me preocupo por um minuto com quem vai se apropriar do quê, qual partido vai capitalizar em cima de qual, a quê vai "levar" o movimento, quem vai "disputar a hegemonia" do quê, quais oportunistas entraram onde, e todo esse burburinho que é tão alheio ao que nós vivemos nas ruas.

O exemplo clássico: em quê Maio de 68 mudou a representação política, o jogo institucional da democracia francesa? Em nada. Em quê Maio de 68 mudou o mundo? Em TUDO. Mudou a forma como encaramos a política no planeta; mudou a forma como lemos a literatura; mudou até a forma como trepamos.

Está preocupado com a apropriação X de um movimento que você acha que deveria ser Y? 'Bora para as ruas conosco, porque é lá que você vai disputar isso. Para quem me pediu uma "análise" do que está acontecendo, as minhas palavras são essas.

1) Estou imensamente feliz de ver a pelegada batendo cabeças, sem entender nada, sem saber para onde ir.

2) Estou em júbilo de, aos 44 anos, veterano das últimas passeatas contra a ditadura, ser liderado por essa garotada maravilhosa de 20, na nossa, na verdadeira retomada da Avenida Paulista.

3) Estou incrivelmente orgulhoso do meu filho Alexandre, de 16 anos, que ontem teve seu batismo de fogo, ao longo de 9km de luta em BH.

Para onde vai tudo isso? Não sei. Ninguém sabe. Mas é maravilhoso não saber. 

Comentário no blog-mae ontem: 

Leo V

 

Os pontos objetivos da luta 

June 18, 2013 por: marcelo_pomar categoria: blogsmarcelo pomar

1. O movimento se iniciou centralmente na luta por reduzir a tarifa dos transportes coletivos, e subsidiariamente pela tarifa zero e direito a cidade. São as bandeiras do MPL, que são construídas há uma década, com manifestações maiores e menores ao longo desses anos.

2. A repressão brutal da PM de São Paulo, na noite de 13 de junho, com centenas de feridos, detidos, e espancamentos covardes causou uma comoção nacional e internacional, e levou as manifestações a uma dimensão jamais antes vista para o tema de mobilidade urbana.

3. A grande mídia brasileira, que é monopolista, e que não recebeu do governo federal o enfrentamento necessário para sua regulação na perspectiva da democratização, e que tem interesses imbricados com a direita reacionária, vendida e subserviente do Brasil, num processo de manipulação vil, tentou transformar a pauta do movimento na sua própria agenda política.

4. Isso não é novidade. Vale lembrar que em 1984, num dos comícios decisivos da Campanha das Diretas Já na Praça da Sé, o JN da Globo anunciava que as pessoas estavam ali reunidas para festejar o aniversário de São Paulo.

5. Outras bandeiras adicionadas ao movimento são legítimas e ajudam a politizar o debate, ampliando a perspectiva de que o saldo final dessa grande onda seja positivo.

6. No entanto, há uma entulhação ideológica orquestrada por partidos da direita, insufladas pelos editoriais da mídia, e que pretendem imputar ao movimento a sua própria agenda, visando colher dividendos eleitorais em 2014, ou até mesmo um acirramento que permita uma conjuntura de tipo golpista.

7. Aqui temos uma responsabilidade compartilhada: No movimento, de seguir a luta e neutralizar a babaquice reacionária, definindo um conjunto de pontos objetivos da luta, cantando palavras de ordem relacionadas a elas, escrevendo e dando informações nessa linha; Nos governos, assumir imediatamente a pauta do movimento, e propor uma agenda de curto, médio e longo prazo que inclua mecanismos de democratização do acesso a cidade, como a TARIFA ZERO.

Haddad, honre o PT e sua história! Revogação hoje do aumento das tarifas, e abrir pauta com o movimento para a Tarifa Zero nos transportes coletivos.

Estamos vivendo um momento histórico e nossa função política e atuar e construir as condições para que tenhamos vitórias concretas e não retrocessos.

http://tarifazero.org/2013/06/18/os-pontos-objetivos-da-luta/#more-...

Adoro ver o povo na rua,

Aqui no Sudeste nao está legal nao... Arruaceiros infiltrados, Globo "duplipensando": elogia, desde que os protestos sejam pacíficos, e depois só mostra cena das depredaçoes. Temo sobre o fim que isso terá. Se continuarem duas, três manifestaçoes por semana, a populaçao vai ficar contra; se depredaçoes continuarem, também. Temo 1964, aliás tb precedido por muitos movimentos na rua... 

Os meninos conseguiram vitórias importantes sobre as únicas reivindicaçoes oficiais do movimento, os preços das passagens. Deveriam recuar agora, cantando vitória, inclusive, para manterem a simpatia da populaçao conquistada; e até porque o recado foi dado, e se os governantes nao ouvirem sao suicidas. 

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