Texto postado no Blog-mae, pelo participante Johnnygo, de que gostei muito: 

"São Paulo convive com manifestações há um bom tempo. Quem trabalha na Avenida Paulista, por exemplo, vê passeatas e carreatas com razoável frequência. Tem espaço para todos os gostos naquela colméia. Sem-terra, sem-teto, funcionários públicos, professores, GLBT, sindicatos, cada um defendendo a sua causa. Isso é lindo, ainda que provoque transtornos irritantes. Nesse sentido, as atividades do Movimento Passe Livre também são lindas, a despeito de qualquer análise mais aprofundada do mérito das reivindicações. Ou seja, protesto hoje é normal e saudável, quanto a isso não há motivo para temores.

   Há algumas semanas, quando começou a se falar em aumento das tarifas de transporte, o preço que inicialmente surgiu nos jornais foi de R$ 3,45. Como as tarifas não haviam sido reajustadas nos últimos dois anos, os "especialistas" dos jornais fizeram o cálculo da inflação no período e chutaram os tais R$ 3,45. No entanto, o prefeito Haddad prometera reduzir o valor das tarifas durante a campanha eleitoral. Seu esforço de negociação conseguiu obter uma tarifa menor que a estimada pelos "especialistas" da mídia. Daí chegamos aos tão discutidos R$ 3,20. Um reajuste de 20 centavos, ou 6,7%, percentual bastante inferior à inflação acumulada nos dois anos anteriores ao reajuste, que foi de uns 15%. Podemos supor que as reivindicações estejam relacionadas ao reajuste das tarifas de transportes, caso contrário teriam ocorrido em qualquer época do ano, e não somente agora que houve o reajuste. E, por este caminho, do ponto de vista material, a reivindicação não mereceria tanta atenção. Ou seja, se for pelos 20 centavos, convenhamos, é muito pouco para tanto alarde.

   No entanto, o espectro da demanda é mais amplo: pedem que o transporte público seja gratuito. Isso não acontece em nenhum lugar do mundo, pelo menos que eu saiba. Se houver algo assim em uma democracia capitalista, merece ser objeto de estudo. Se fosse implantado, demandaria completa reformulação dos gastos do Estado e do Município. Talvez uma carga tributária nórdica, na faixa acima dos 50%, permitisse tal façanha. Assim, se enveredamos pela estatização e gratuidade do transporte público, convenhamos também que temos um pleito discutível e com poucas chances de realização, pelo menos a curto e médio prazo.

   Nem 20 centavos, nem gratuidade. Observamos que os manifestantes parecem reunir-se em torno de um ideal difuso que, em si, tem pouca relação com o discurso estabelecido. As manifestações parecem movidas por palavras de ordem que simplesmente procuram servir de bandeira, quase uma desculpa, para algo maior que talvez não estejamos vendo. Aí me vem a pergunta: o que querem estes jovens que se manifestam? O que mobiliza estes jovens é algo menos concreto que um reajuste de salário ou um pedaço de terra. Não são os 20 centavos nem a estatização e gratuidade. Tanto pela idade dos manifestantes, quanto pelos tempos nos quais todos vivemos, é natural que eles se sintam inquietos. Algo meio indefinido os perturba, uma insatisfação disforme, um pulsar de desconfiança em relação ao mundo que vão conhecendo. Isso é normalíssimo. Essa mistura energética de indignação e insubordinação faz parte de uma fase de nossas vidas. Seria até bom que sustentássemos ao menos uma faísca desse sentimento pela vida afora, mas isso normalmente não acontece. E, para completar o quadro, a insubordinação e a indignação existencial dos jovens podem ser reforçadas por um mundo que valoriza o hedonismo, o consumo e a captação fragmentada da realidade.

   Quando jovem, no primeiro ano da universidade, participei de passeatas e frequentei reuniões políticas. As causas eram imensas. Por exemplo, gritávamos pelo fim da ditadura, pela liberdade de expressão. Hoje, em geral, discutem-se causas materiais e pontuais. Os professores querem aumento de salário, os sem-teto querem casa. Não quero com isso dizer que havia mais nobreza em minhas batalhas da juventude. Eu era bem inexperiente e bem limitado, e ainda sou, embora menos. O mundo tornou-se multipolar, mais complexo, mais interligado, menos preto-e-branco. Ficou difícil encontrar uma causa abrangente. Para combater as causas abrangentes, a polícia da ditadura militar batia para valer. A gente via os olhos injetados do Coronel Erasmo Dias na TV, em sua expressão de ódio e ameaça aos "baderneiros". Ai de quem chutasse a porta de um ônibus. Apanhava, ia preso e podia sumir do mapa. Hoje, há grosseirões que chamam Dilma de sapatona e Lula de cachaceiro, sem que nada lhes aconteça. Os policiais de hoje são umas doçuras se comparados ao aparato da ditadura militar que então estrebuchava. Hoje temos uma democracia, com todas as qualidades e defeitos que lhe são inerentes. Evoluímos. É normal que ocorram protestos. No meio deles, contudo, aparecem uns extremados que depredam e tocam fogo. Estes precisam ser identificados e punidos, pois desqualificam um movimento que poderia ser uma semente fértil. Dizem que a melhor maneira de destruir um bom argumento é defendê-lo de maneira errada.

   Há dois elementos novos nessa parada. Primeiro, a repercussão desproporcional que os atos têm obtido na mídia, que lhes confere notoriedade e serve de incentivo à construção de um momento-primavera, na esteira de acontecimentos recentes em várias partes do mundo. Temos uma Europa em crise, um mundo árabe em ebulição, os pobres dos EUA mostraram a cara no Occupy Wall Street. Aqui no Brasil, passamos por um bom momento econômico. Por mais que os pessimistas de plantão queiram reclamar, temos salários em alta, desemprego em baixa, inflação sob controle (!), câmbio subindo para um nível mais atrativo às nossas exportações, investimentos em alta, atividade industrial subindo, desonerações tributárias, excelentes reservas, juros razoavelmente baixos, relação dívida/pib tranquilizadora. Tudo isso enquanto o mundo passa pela maior crise econômica desde 1929. Mesmo assim, o clima dos noticiários é de que vivemos no Brasil uma hecatombe. Um cidadão que lê todas as matérias políticas do UOL durante uma semaninha apenas vai ter vontade de estourar os miolos. O clima de eleição foi antecipado. Para reforçar este clima, um simples movimento de protesto ameaça se transformar em nossa "primavera", nossa redenção contra todas as tiranias do universo. Nunca vi nenhum movimento reivindicatório receber tanta atenção da mídia. O Movimento Passe Livre conseguiu o estrelato. Na TV, imagens das manifestações são transmitidas em linha direta, horas a fio. Abre parêntesis: pelo menos a Globo adotou como referência o termo "passagens de ônibus", embora estejam em questão os preços das tarifas de ônibus, metrô e trens. Jornalismo suspeito, que busca associar a revolta ao recém-empossado prefeito Fernando Haddad - de fato, aquele que tomou a dianteira para reduzir as tarifas. Fecha parêntesis. Há uma disseminação do pessimismo pelos "velhos do Restelo", mas nada é tão simples, o preto-e-branco acabou. Os meios de comunicação estão numa situação complicada. Evidentemente, a pauta da redução de tarifas de transporte não é relevante para eles. Causas populares não interessam a jornais, muito pelo contrário, a tradição tem sido combatê-las. Se trabalhadores do campo paralisam o trânsito da Consolação por uma tarde, recebem alguns parcos segundos e severas admoestações da TV. Assim, embora o discurso de agora criminalize os jovens, repetindo a palavra vandalismo como um mantra, não chega a defender abertamente uma repressão mais dura. Por trás disso mora um detalhe: a segurança pública em São Paulo é responsabilidade do governador Geraldo Alckmin, que será o candidato da grande mídia concorrendo à reeleição para o governo do Estado. Um imprevisto ou uma tragédia na condução da PM, como um estudante morto (oxalá isso nunca aconteça), pode comprometer definitivamente a já combalida gestão de Alckmin na segurança pública. E aí a eleição do chuchu vai para o espaço.

   O segundo novo elemento na parada prende-se ao fato de que assistimos ao parto de uma nova era da informação. Em termos históricos, creio que vivemos uma gigantesca mudança, cujos desdobramentos, tanto para o bem quanto para o mal, são imprevisíveis. A internet no Brasil começou a se disseminar nos anos 90. É muito recente, coisa de duas décadas apenas. Estamos no olho do furacão e não conseguimos enxergar o todo. Só o futuro nos dirá, isso se ainda estivermos vivos quando os fatos atuais puderem ser vistos em perspectiva. Se a população turca protesta na praça Taksim de Istambul, assistimos o evento quase que instantaneamente aqui no Brasil. A notícia se distribui por vasos comunicantes e filtrantes nas redes sociais. Formam-se numerosos grupos de interesse, estabelecem-se identificações entre as pessoas, que tentam se agrupar. O funcionamento deste novo sistema é baseado em quantidade de acessos e multiplicidade de interesses. Não sabemos ainda quais as implicações políticas desse tipo de organização da sociedade. Se temos passeata em São Paulo pela qualidade do transporte, elas também são convocadas em outras capitais, mesmo que as realidades sejam bastante diferentes em cada lugar. A informação flui pelo facebook, pelo tweeter, msn, e cria um sentimento de unidade e de pertencimento que atenuam o desconforto com o individualismo geral. Este fenômeno começa a produzir uma nova maneira de participar, ainda incipiente, é verdade, mas já capaz de surpreender. Não sabemos no que tudo isso vai dar, mas tenho a convicção de que a mudança será grande. O momento que vivemos é muito auspicioso. Auspicioso e perigoso, todo cuidado é pouco."

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Saiu no blog-mae ontem. Ótimo. 

Depois da Rede Globo e do Moralismo (do site Outras Palavras)

Iniciativas dos movimentos sociais conseguiram superar tentativa de capturar manifestações. Mas para ir adiante, será preciso esforço interpretativo intenso

Por Alex Moraes

A grande jogada da mídia corporativa brasileira foi ter conseguido nacionalizar a seu bel prazer os protestos que vinham ocorrendo em diferentes cidades do país há meses. Nacionalizar no sentido de apresentá-los como algo que, supostamente, expressava um conjunto difuso e generalizado de insatisfações. A infiltração da Rede Globo na convocação dos protestos abriu as portas das ruas para a mesma classe média moralista que, há pouco mais de meia década, apoiada pela retaguarda oligárquica, tentara promover uma onda golpista contra o governo de Lula.

O relativo êxito inicial da estratégia da rede Globo e de todos os grandes jornais do país nos obriga a pensar na enorme contradição representada pela atual estrutura midiática e nos seus efeitos nefastos quando se trata de reivindicar o aprofundamento da democracia e da participação popular. Referida contradição pode expressar-se nos seguintes termos: do ponto de vista administrativo, o Brasil possui um arraigado federalismo caracterizado por enormes singularidades políticas locais; do ponto de vista social e cultural, o grau de articulação dos movimentos populares, suas redes de alianças e suas demandas — assim como os impactos específicos do capitalismo desenvolvimentista — mudam de forma substantiva em cada região ou localidade. No entanto, continuamos expostos a um sistema de informação hiper-concentrado sob todos os aspectos (geográfico, econômico, político). Não podemos sobrevalorizar o papel das mídias alternativas e das redes sociais nesse contexto. Sua capacidade de desbloqueio da informação e de produção de outros pontos de vista é ainda bastante limitada — mesmo que crescente — e não joga um papel decisivo sobre a informação de massas.

Interpelados pela escalada conservadora, os movimentos sociais mais representativos articularam uma contra-ofensiva. Convocados por João Pedro Stédile (do MST), reuniram-se em São Paulo na semana passada para estabelecer princípios gerais de articulação. Saíram do encontro comprometidos com pautar as manifestações de rua e estabilizar um conjunto de demandas sintonizadas com os processos de luta historicamente gestados no campo popular: reforma agrária, reforma urbana, reforma política, ampliação radical dos investimentos em educação pública, etc. Na primeira grande manifestação desta semana, ocorrida segunda-feira, em Porto Alegre, os efeitos da presença progressista se fizeram notar: “Que paguem os ricos” dizia a enorme faixa à frente da marcha. Detrás dela era possível divisar dezenas de bandeiras de partidos políticos da esquerda, de sindicatos, e grupos libertários. Não estiveram ausentes as críticas abstratas à corrupção e algum ufanismo, mas sua capacidade de expressão reduziu-se bastante em comparação com situações anteriores.

Os grandes meios de comunicação omitem, mas o conflito entre esquerdas e direitas está posto nas ruas. Ele é um dos elementos dinamizadores do debate político em torno aos protestos atuais. Não seria demasiado otimismo afirmar que a cooptação midiática fracassou em seus objetivos estratégicos iniciais. A disputa de ideias está aberta e o debate ideologizou-se à revelia do hino nacional e das bandeiras verde e amarelas. Esta emergente batalha de ideias complexifica bastante o cenário atual. Por um lado, é necessário disputar nas ruas a hegemonia sobre as marchas, pois ali se encontra a única esfera pública massiva ao alcance da ação política transformadora. Por outro lado, é preciso levar adiante um esforço interpretativo que nos permita recolocar os termos do diálogo e das reivindicações. Para cumprir com o segundo objetivo, devemos começar desmontando alguns “a priori” paralisantes, instilados pelos discursos midiáticos na análise do processo político vigente. Os dois tópicos seguintes são uma contribuição neste sentido.

1) Os protestos não se espalharam do centro para o resto do país.

Esta é a interpretação típica dos grandes jornais e vem sendo comprada por alguns jornalistas de esquerda, como Eric Nepomuceno, que faz a cobertura da situação no Brasil para o jornal argentino Página 12. Para as grandes redes de televisão com sede em Rio e São Paulo não resta a menor dúvida de que as coisas se deram mais ou menos assim: poucos milhares saem às ruas num dia e sofrem forte repressão policial; jornalistas são agredidos; as marchas se massificam e o resto do Brasil copia. Qual o risco de adotarmos tal ponto de vista? Podemos cair na armadilha das “demandas difusas”, do gigante recém-desperto e confuso que precisa ser “aconselhado”. Perdemos, então, nossa capacidade de auto-enunciação, de falar por nós mesmos. Basta ter um pouco de boa vontade para constatar que, pelo menos desde o ano passado, vicejam lutas sociais em todas as grandes cidades brasileiras. Tais lutas denunciaram muitas das mazelas que, hoje, são escancaradas nas manifestações multitudinárias. A crítica dos impactos violentos das obras da Copa sobre a vida das classes populares tem sido difundida de forma constante e progressiva pelos Comitês Populares da Copa; a “higienização” das cidades e a privatização dos espaços públicos também foi o eixo de outros tantos protestos, como a derrubada, em vários pontos do Brasil, do mascote da Copa do Mundo. Em Porto Alegre, por exemplo, a “queda do Tatu Bola” em 2012 desatou uma repressão policial indiscriminada com direito a quebra de câmeras fotográficas e agressão física de vários jornalistas. A respeito do preço dos transportes, o Movimento Passe Livre e outros blocos de luta estavam nas ruas desde muito antes das recentes manifestações em São Paulo. Estes coletivos, formados por estudantes secundaristas e universitários, já haviam conseguido reverter o aumento da passagem em diferentes cidades, algumas delas capitais. Naturalmente os processos sociais têm seus ápices de expressão e isto depende de vários fatores conjunturais. A violência policial em São Paulo, muito visibilizada midiaticamente, sem dúvidas facilitou a difusão nacional das demandas por melhorias no transporte coletivo. Não é possível dizer, contudo, que a posterior “interiorização” dos protestos consistiu em mera cópia do movimento paulista. Seria mais pertinente pensá-la como a proliferação de demonstrações públicas de solidariedade que souberam aproveitar-se do momento favorável para veicular propostas políticas locais. Claro, as classes médias “globalizadas” também deram as caras; mas sem conseguir opacar o caráter visceral e o potencial transformador que os protestos deixavam antever.

2) Não existe um “movimento nacional”. Trata-se da emergência conjunta de exigências específicas, localizadas e por vezes conflitantes.

Não estamos defrontados com uma espécie de “corrente nacional”, algo do tipo “todo o Brasil deu a mão”. Esta é a visão daqueles que não vivem cotidianamente as mazelas e clivagens excludentes engendradas pelos contextos urbanos brasileiros; é o ponto de vista de determinado setor da classe média completamente desprovido de um discurso crítico, arraigado em contradições sociais concretas. Para essa classe média, é muito fácil negligenciar as demandas locais e falar da “nação descontente”, como se se tratasse de um coletivo abstrato, unificado em torno de algumas exigências supostamente gerais, mas que na verdade só descrevem o limite de consciência e imaginatividade característico dos grupos dominantes. Quando contingentes significativos da população aproveitam o atual momento de visibilidade pública das ruas para denunciar a violência policial, exercer participação social, sinalizar os limites do sistema representativo atual e exigir, ao fim e ao cabo, dignidade, não estamos falando de coesão, mas sim de contradição. Estes são sintomas de diferenças irreconciliáveis no marco da presente ordem econômica e política. Desmontar a falácia de “um só povo” (a “cadeia nacional”) e resgatar a profundidade das consignas enraizadas na experiência vivida de pessoas concretas demanda que regressemos ao nível local, às nossas próprias cidades e bairros em busca daquilo que foi suprimido pelo discurso midiático em seu afã por nacionalizar — e cooptar — o descontentamento popular.

A democracia brasileira está sendo reaberta a cotoveladas no meio de uma chuva de bombas de gás. Só seremos povo, só poderemos falar em “todos nós” quando — para retomar a consigna zapatista – o acesso à cidadania for generalizado, quando tenhamos incorporado na vida pública aquelas experiências de sociedade, aqueles sofrimentos e angústias cuja relevância política encontra-se postergada. A primeira grande vitória discursiva dos setores populares nestes protestos foi ter deixado bem claro que as “vozes das ruas” precisam ser escutadas antes das vozes do poder econômico estabelecido. Agora trata-se de enunciar necessidades e urgências em termos transformadores, definir quais são essas vozes e quem é o “povo”, evitar a domesticação do discurso, negar as soluções fáceis que só reiteram o poder das instituições de sempre, sem jamais colocá-las em xeque a partir de outras formas de imaginar o futuro. 

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