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VÍTIMAS DA REPETIÇÃO DA HISTÓRIA.

Flavio lyra.

Ficou célebre o adendo retórico de Marx à afirmação de Hegel de que os grandes vultos e acontecimentos da História acontecem duas vezes. Em seu livro sobre o golpe de estado (“O XVII de Brumário de Luís Bonaparte”) que manteve no poder o citado personagem, em 1851, na França: “ faltou acrescentar que se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Foram tomados como referência Napoleão Bonaparte e sua época das grandes mudanças que se seguiram à Revolução de 1779.

No Brasil atual, o período do golpe que deu origem ao governo Temer e a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República, aplica-se muito bem o citado dito de Marx, quando se faz uma comparação com o golpe militar de 1964.

Chegaram ao poder um político inexpressivo e desonesto, no primeiro caso e, de modo surpreendente, um capitão da reserva do Exército, ultradireitista, inculto e sem maiores qualificações para o posto. Este último, apenas munido de um discurso ultraconservador no campo dos costumes, de subserviência aos interesses dos Estados Unidos, de enfático combate retórico à corrupção e de um liberalismo radical e fora de época.

Continua montado, dessa maneira, o cenário para a repetição, agora na forma de farsa, do que foi a tragédia iniciada com o golpe cívico-militar de 1964, estendido até 1985.

A verdade é que tanto em 1964-85, como agora, o discurso dos vencedores, mantem-se muito semelhante no que diz respeito ao combate à corrupção, à luta contra o comunismo e a liberalização da economia.

Cabe acrescentar que em 1964, o golpe incorporou como justificativa central a defesa da democracia, tema que já não mereceu tanta ênfase na etapa atual e que chegou mesmo a ser refutado na campanha eleitoral de Bolsonaro.

Em ambas oportunidades, a chegada ao poder tem tido por propósito realizar reformas contra os interesses da classe trabalhadora e do povo em geral, em benefício da elite capitalista.

A questão que agora se coloca é a de perscrutar se a farsa tem condições de prosseguir no cenário por um período de tempo semelhante ao observado quando da tragédia e quais as consequências que podem derivar-se para o país de sua repetição transfigurada.

Nossa hipótese é de que seus resultados poderão ser muito mais nefastos para o país do que na versão original, por algumas razões:

O período da tragédia, em que pesem, os terríveis resultados observados no campo da repressão política e de restrição aos direitos da classe trabalhadora, propiciou a realização de avanços econômicos importantes com a materialização do chamado “Milagre Brasileiro”, durante o qual o país atingiu taxas de crescimento econômico da ordem de 10% ao ano, durante 6 anos.

Nesse período, ainda sob o influxo do pensamento desenvolvimentista, o pais ampliou substancialmente sua infraestrutura econômica e conseguiu afirmar uma relativa autonomia em sua política externa.

No período que vem pela frente, há razões para supor que a “repetição histórica”, seja mesmo uma farsa, nada tendo a oferecer de positivo para o futuro do país, com o risco de o comprometer definitivamente.

A crise em que o país já se encontra, é muito mais profunda do que em 1964 e a política de austeridade que já vem sendo adotada pelo governo-Temer custou ao país dois anos de forte recessão econômica e de acumulação de 13 milhões de desempregados.

O futuro governo propõe-se não somente a prosseguir com a aludida política de austeridade, mas torná-la mais efetiva tanto em matéria de austeridade fiscal, quanto de contenção do papel de empresas estatais e de aumento da abertura econômica ao exterior.   

Não se vislumbra maior preocupação com a reversão do processo de desindustrialização do país e a tendência é de restringir a ação estatal em áreas decisivas como a de exploração e industrialização do petróleo e derivados, de energia em geral, produção naval etc.

No campo da política externa, caminha-se para o alinhamento integral com os interesses dos Estados Unidos, atualmente um grande competidor do Brasil no campo da exportação de “comodites”, e afastamento do multilateralismo.

Não contariam com o apoio dos novos detentores do poder, iniciativas como o acordo dos BRICS, que estreitaria os laços econômicos e políticos com grandes mercados e com importantes investidores internacionais como a China, nem ações para o fortalecimento do MERCOSUL, principal mercado atual dos produtos industriais do país. O principal agente financiador de projetos de infraestrutura e da indústria, O BNDES, já se acha em avançado processo de esvaziamento.  

Em sua fase inicial, durante os governos da ditadura de 1964, foi possível realizar mudanças importantes na área econômica. Em sua fase final, porém, tomou forma uma grave crise econômica associada ao alto grau de endividamento externo a que o país foi conduzido. A chamada “década perdida”, 1980-90, tem suas raízes nessa fase.

A fase atual corresponderia, pois, ao “XVIII Brumário” da dupla Temer-Jair Bolsonaro, não deixando margem para qualquer dose de otimismo. A farsa que vem sendo encenada deverá prosseguir, com o aprofundamento da crise social vigente e o fechamento das portas para qualquer saída redentora no médio e longo prazos. Aos brasileiros restará o papel de vítimas da repetição da História.

Brasília, 11 de dezembro de 2018.

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