Diriam os sábios que esta fase de especialização gerou caçadores especializados e, estes, ampliando suas técnicas, passaram a caçar homens, terras e posses. Surgiu nesta época o uso da despensa onde se guarda a comida.
Como visto, então, mesmo que os personagens sejam um pouco estereotipados, a fome especializou as atividades e, até hoje, é ela que determina e especializa o poder deste sobre aquele.
Na nossa história, surgiram primeiro os militares que invadiam reinos para dar de comer a sua tribo. Depois, os militares estrategistas que, para vencer os inimigos, sitiavam cidades cortando suas provisões de alimento para, posteriormente, tornarem-se reis que aumentavam os tributos para dar de comer a seus exércitos que defenderiam a pátria que precisava de sua produção para dar de comer a sua tribo.
(Por fora, corriam os sacerdotes que discorrendo sobre a virtude da frugalidade, comiam muito bem, obrigado! Este capítulo dos sacerdotes, suas fofocas, seus inimigos, menús, suas fogueiras, o cheiro de carne queimada em pleno inferno-em-vida e as razões do seu Saber Transcendental, nem deve ser debatido, pois que, hoje, ainda continua muito em moda na TV.)
Finalmente, surgiram os poderosos Juristas que, nomeados pelos poderosos reis/militares/estrategistas arbitravam quanto, e como, cada cidadão poderia comer para que não faltasse comida aos menos favorecidos.
Pelos tempos, o ‘Grande Saber’ cozinhou excludentemente e em fogo lento, o ‘pequeno saber’ da turba tão sequiosa de pão e circo.
Seis ou sete mil anos depois, mais recentemente, os proprietários de redes de comunicação são os militares/reis/estrategistas/juristas/sacerdotes que acumulam o poder que suas posses, segredos, informações, alimentos, lhes auferem.
Onde entram os juízes nesta história?
Eles são tão humanos quanto os poderosos proprietários das redes de comunicação, tão sedentos de reconhecimento e tão exibicionistas quanto. E a vaidade do Poder embebeda, desorienta tanto quanto o vinho das bacanais romanas ou as noites nos braços da mulher desejada.
O que os dois têm em comum?
Acesso a informações que (teoricamente) só eles têm: Eles possuem o segredo do ‘Grande Saber’ que lhes dá a chance de julgar sobre a vida e a morte dos mais humanos e, portanto, menos Divinos que Eles.
Somente Eles, com os olhos vendados ou não, sabem quem merece ter a consciência de quantos centímetros da taboa lhe falta para cair na boca dos tubarões lá embaixo.
Na era das especializações de médicos, engenheiros, cientistas e advogados, Eles alegam que a matéria sobre a qual estão versados é tão extensa que, só cartesiana e especializadamente se pode atuar e, para tanto, os prazos precisam ser menos exíguos.
E tome burocracia, tome carimbo, tome feudinhos do Saber, enquanto a ampulheta, lotada com toneladas de areia da mais fina granulometria funciona.
Separa-se estripadoramente cada área... e o todo se perde.
O ambiente e a alma das coisas, o lugar onde mora a coisa verdadeira, perde sua importância para as coisinhas paralelas. Fins e meios. Forma e conteúdo. Cachorro atrás do próprio rabo.
Como as coisas subjacentes são mais importantes do que a coisa originária, e psicólogos, professores, catedráticos, jornalistas, publicitários e juristas, sentam à mão direita dos donos do Saber e das redes de comunicação, estas, e aqueles, satisfeitos, distribuem pão (de trigo) e circo à vontade.
Quem prefere beijum de mandioca e poesia, é sumariamente aculturado. Lhes é oferecida uma pequena fatia do poder exalado do time que esconde da plebe a localização da Arca da Aliança.
Desde que o mundo é mundo os sábios dividem seu quase silêncio. Mas dividir o conhecimento parece não constar do repertório dos Sabedores. Trabalhar em equipe, pensando no todo, não é definitivamente uma vocação humana presente entre os Sábios.. Seria sim, de acordo com Eles, Supra-Humana.
(Atenção: Não confundir trabalhar em equipe com colaboracionismo corporativista.)
Provar e saborear o prazer do outro, ampliando as fontes de prazer individual (por exemplo, dividindo um simples sorriso), é um estágio inalcançável para o homem "evoluído". E manter o poder como fim máximo de nossa existência, arraigando nossa vaidade, faz-nos únicos, mas, concomitantemente atravanca a evolução.
E, tome retórica!
Mas, é possível aqui entender que somos movidos por um só raciocínio:
‘Para que continuem em segredo, meus segredos de ser humano poderoso só poderão alimentar meus pares. Só terão acesso a eles (e à gazela), aqueles que me derem o prazer máximo de alguns tapinhas nas costas’.
(Atenção à diferença interessante entre um sorriso frontal, olhos nos olhos, e um tapinha nas costas. Tapinhas são num local que nem sequer nos deixa vislumbrar quem nos tapeia. Fica aqui subentendido que não preciso ver quem me bajula, confio nele, temos um segredo, tapinhas nos unem...)
Já se especulou muito sobre a fonte das pulsões e do prazer mas, parece que, animalescamente, é a fome que mais uma vez move o homem. Manipular e controlar a torneira que libera, mais ou menos, as fontes de alimento é o truque máximo para controlar o Poder.
Fazendo as refeições, acompanhadas de bajuladores, a razão de nossas vidas parece ser liberar segredos exclusivamente para quem (com tapinhas nas costas) pode nos manter no poder, embora esquecendo que os segredos são inexistentes, e é sua aparência de segredo o que os mantêm tão secretos. Nada mais que isso.
Escolher meus pares e dosar meus segredos resume bem o Juiz de Direito que há dentro de mim, de nós. Ou vai o leitor me dizer que não é assim?
E, se assim for então, o fato determina inequivocamente a razão dos magistrados - não todos, só os que eu conheço - terem aquele ar de me tapeie as costas que eu lhe convido pra cear...
Ora, se na hora da escolha da comunicação de nossos segredos somos todos Juízes e pretendo è proteger minha dose de ração, - afinal, eu amplio cuidadosamente meu círculo de relacionamentos para que ninguém saiba que meu "segredo" -, deixem-me conversar e estar com eles. Quero saber o que eles pensam, de onde vêem, e quero, antes de tudo, sem segredos, ser pacientemente instruído. Embora, sem aquele palavrório interminável dos códigos latino/cabalísticos. Olho no olho, e mente na mente, é bom, e eu gosto!
Porque, senão, e já, o Universo se expande, e a evolução do Humano ficará mais difícil.
Por exemplo: logicamente você já percebeu como é complicado tomar um café com o Millôr Fernandes ou o Luis Fernando Veríssimo...
(segue o baile...)