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O mais adequado do título seria “bonecos de ventríloquos”. Essa é imagem e símbolo que ficou gravada desde ontem depois de 10 horas seguido massacre a democracia brasileira com a leitura ensaiada dos votos feita por três desembargadores que colocaram uma pá de cal em aproximadamente meio século de tentativa de afirmação do Brasil como nação moderna.

Ao longo do penoso percurso custou, mas apareceu, o que poderia caracterizar aquele espetáculo dantesco. Foi justamente quando o terceiro guardião da nova ordem social lia, com gestos estudados, uma terceira versão do escárnio. A imagem de um engomado magistrado (?), escolhendo palavras, na maioria das vezes para dizer NADA, sem mover um músculo do rosto foi a senha. Esperava-se ao menos uma contradição nos votos, afinal são, ou seriam seres humanos com juízo próprio, mas não, o trio estava ali para ler um texto, variando sobre o mesmo tema, a vontade do Senhor ausente conhecido como “voz do mercado”. Os bonecos de ventríloquos cumpriram o seu papel, suficiente para garantir-lhes 24 horas de fama. Tempo suficiente para Rede Globo, Folha, Estadão, Veja, Época e afilhados fazer o trabalho de limpeza dos despojos.

O emblemático artista conceitual Andy Warhol, se vivo, por certo esboçaria algo parecido com a imagem que ilustra esse pequeno registro de protesto. Nasceu portanto no dia 24 de janeiro de 2018 o primeiro produto do fascismo moderno, a impessoalidade do Golpe. Nem Gilmar Mendes com seu jeito histriónico, nem Aécio com seu olhar esbugalhado, nem a careca reluzente de Alckmin chamarão mais atenção, apenas a imagem plastificada do trio que não entrará para a história como protagonista. Será garantida a eles, quando muito, uma participação especial na cena final dessa Divina Comédia.

Descortina-se desde já um cenário de violência e confrontos contrastando com o que o Golpe produziu ontem - um escarro na maioria silenciosa da população brasileira. A inocência acabou aqui.

 

   Jair Antonio Alves - dramaturgo

 

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