No meu entender, tudo se resume em saber conjugar verbos. Se a lingua é anglo-saxônica, tudo bem, é fácil. Mas se é idioma de origem latina, mormente essa nossa “última flor do Lacio, inculta e bela”, ave maria!... a coisa complica! Em língua inglesa, se uma pessoa vai caminhando por uma direção que você não concorda, você diz: STOP! Se é você quem resolve não ir mais, você diz: I STOP. E assim é com he, It, you, she ou we. Apenas isso: STOP. Se foi ontem, é só acrescentar um ED e pronto, está resolvido. Aqui no Brasil não. Se você está indo, resolve não ir mais e diz: EU PARO, todo o mundo que escutar vai ficar esperando que você dê à luz uma linda criancinha. Se a mocinha estiver muito serelepe na festa e alguém disser, PARE, o pai dela vai achar que ela pecou sem se previnir.

       Mas o que me constrange realmente, é a divergência gráfica que há entre os tempos, modos e pessoas de nossos verbos. Os dois verbos derivados do latino “VADO, VADIS, VADERE”, por exemplo, deixam-me maluco. Principalmente quando alguém chega e me diz: AMANHÃ EU NÃO VOU VIR. Aí eu não sei se ele está usando o IR ou o VIR. O verbo medir, também me complica a ideia. Quando eu era garoto, na saida de um exame biométrico, um colega me perguntou: quanto você pesa? Quanto você mede? Me embasbaquei todo e até hoje eu não sei se eu “MIDO, MÉDO, MÊDO ou MEÇO”.

       A primeira vez que um verbo me complicou o cérebro, foi quando aos onze anos, no último ano do grupo escolar, minha amiguinha Lola, linda moreninha de cabelos cacheados me disse: Eu e o Gerson ontem, brincamos de médico. Eu DI pra ele. O fato de meu melhor amigo e minha melhor amiga terem tão precocemente cometido o pecado original não me abalou e não me surpreendeu em nada. O que me estarreceu foi aquele DI pra ele. Até hoje, quando quero dizer que generosamente transferi à outrem uma coisa que me pertencia, tenho que fazer uma paradinha, na dúvida se DI ou DEI.

        Um dia desses, tentava explicar a alguns amigos, que não entro em discussões inúteis ou rivalidades desnecessárias, quando me chamaram para uma competição de talentos. Fui logo dizendo: Eu não COM... e embarranquei. Afinal, como é a primeira pessoa do singular, no indicativo presente do verbo competir? Quando terminei o ginásio e fui matricular-me no Colégio Estadual de Uberlândia haviam quatro opções de colegial: Científico, Clássico, Contabilidade e Normal. Quando a secretária perguntou-me em qual dos cursos seria minha matricula, me embarranquei. Não sabia se eu OPTO ou OPITO.

        Hoje, lembrei-me novamente do Colégio Estadual de Uberlândia, que carinhosamente chamávamos de CEU. Amanheci gripado, com o “nariztupido”, respirando dificultosa e barulhentamente. Recordei-me então de uma aula de português, em que o Prof. Vadico mandou-me conjugar o verbo RESFOLEGAR no indicativo presente. Eu não titubiei e comecei em alto e bom tom: Eu resfolégo, tu resfolégas, ele resfoléga... sêo Vadico colocou as duas mãos na cabeça, apoiou-se na mesa e disse num sussurro: ai meu Deus... perdi meu tempo.

Exibições: 1625

Responder esta

Respostas a este tópico

Emilia,

Vamos ser justos (rs)! Quem falou da tagarelice não fui eu. Só concordei. Quem reconheceu, foi você mesmo:

-Assim que abri a boca, veio uma torrente de palavras que não tinha fim. Todos tiveram que tapar os ouvidos. E tanto falei que esgotei o reservatório. A fala então ficou no nível.

Tenha paciência Emília- disse o Visconde. Ficou muito acima do nível, porque a verdade é que você ainda hoje fala mais do que qualquer mulherzinha.

– Mas não falo pelos cotovelos, como elas, só pela boca. E falo bem. Sei dizer coisas engraçadas e até filosóficas.

Fui eu quem postei. Adoro essa música, é da minha infância. 

AnaLú,

A Emilia reclama do que eu postei na página dela: Que esta boneca falante é uma tagarela! 

A troca dos malentendidos continua (rs,rs)... Eu falei que eu postei o vídeo com a música Jardim da Infância... 

Algum dia a gente acerta esta história do link (rs)... Ou o Nassif: Pede socorro para o Ning!

O Gunter sugeriu uma alternativa para o Rafla, o simples uso do @Fulano; é mais simples. O problema é que o Ning nao dá a hora exata dos comentários, só coisas "mutáveis" como X minutos/horas atrás. Se ele desse a hora exata, seria mais fácil precisar o comentário a que nos referimos. 

Certamente se aparecesse a hora seria muito muito bom. 

Outras coisas são melhores no brasilianas:

- o encadeamento pra respostas é muito mais longo

- há a possibilidade de editar o comentário a qualquer momento

- há um "hyperlink" para cada comentário, além do link para a página, podemos usá-lo para referenciar rapidamente, sem precisar dizer "está mais ou menos na terceira página".

Entre dizer e entender...

O falar bem é coisa de quem gosta
Do domínio do verbo e até aposta
Que, se de concordância é revestido,
Todo o resto do texto faz sentido...

Não é, no entanto, o que se verifica
E o "dizer", até pra quem pratica,
Traz real desafio a quem escuta,
Pois precisa entender (árdua labuta).

Por mais precisa que seja uma frase,
Para ser traduzida em mensagem,
É necessário que quem ouça, ou leia,
Saiba o que representa aquela idéia.

Se o texto da "fala" é importante,
A mensagem que traz, vai mais adiante.
Não vale mais a forma que o sentido,
Nem vale mais dizer, que ser ouvido.

Não por acaso, diz o velho dito,
“Mais que a objetividade do escrito,
É vital, para a arte do entender,
A subjetividade de quem ler.”


Jose Mayo, Rio, 21/03/2012

Puxa vida doutor! Tu és bom com as palavras e a métrica, ein? E não é somente a concordância verbal que dominas, pois afinal, tuas rimas são finas. Tenho a ligeira impressão que quando optastes pelo estetoscópio e o bisturi, (assim com eu pela broca e o boticão) o fizestes com dor no coração. Gostastes do "optastes" e do "fizestes"?

Vou aproveitar o ensejo e colocar uma aqui também:


UM POEMA

Queria compor um poema

Mas não de notório tema.

Nada de vergéis floridos

Ou rosais coloridos.

Falar de amor também não quero

Pois de Cupido nada espero.

Em estrelas cintilantes

De mim já falaram antes.

Pássaros e aves voltando ao ninho...

Ainda não é esse o meu caminho!

Pombas e sonhos que voam

Em minha mente não mais entoam.

Cotovias e canoros rouxinóis

Só com Julieta sob os lençóis.

Falar da política enfática

Também jamais me anima!

O jeito é buscar uma rima

Para a tal de matemática!

A pedidos:

Poesia Matemática

Millôr Fernandes


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Muito obrigado, meu caro,

Apenas aproveitei o teu "tema" para o Dia Internacional da Poesia, que é hoje.

Quanto às formas verbais, na verdade, se o pronome é o "tu", as formas seriam "optaste" e "fizeste" (no pretérito perfeito do indicativo), já com o "s" no final, o pronome seria o "vós", para o mesmo tempo verbal. De todo modo, aos poetas, é dada a "licença" de subverter a língua. O que importa mesmo é a "mensagem", não como as palavras vem escritas.

Saudações

RSS

Publicidade

© 2020   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço