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Tudo vale a pena,

se a alma não épequena

 

Vale apontar que o tema versa sobre a contemporânea preponderância do domínio da cona. Manifesta-se com equivalência generalizada. No fundo, consubstancia rebate matemático, pelo qual, por força de lei, são equacionadas, anuladas as diferenças, protuberância e reentrância, convexo e côncavo, enfim, falo e cona, note-se, em flagrante desinteligência por indistinção de distintos. Este processo ilustra-se, v.g., em dois filmes de Marco Ferreri: Tchau Macho (1977) e O Futuro é Mulher (1984); tal qual a mulher fálica, num conto de Bukowiski, Quinze centímetros, in Crônica de um amor louco.

 

Tratar-se-ia, acaso, de insondável vingança contra a natureza, por imaginada injusta castração congênita, empreendida por geração de mulheres fálicas (razão de falar em conokracia)? Vingança, aliás, fortemente temperada de ingratidão, pois, foram homens iluministas libertários (Jonathan I. Israel, Iluminismo Radical), que abraçaram a causa da libertação das mulheres das masmorras morais do cristianismo medieval, paranóico, persecutório, perverso e piromaníaco.

 

Neste cenário, a mim chegou uma voz femininíssima, depois outra[1] - das mais femininas que o feminino já ecoou, encantando, maravilhando gerações -, essa voz bradou em defesa da liberdade sexual seriamente ameaçada por sanha fascista, especificamente, na persecução ao assédio, e, por extensão, posto pertencerem à mesma ordem, a das vibrações, desprezo pelos sentidos, sensibilidade, desejos, afetos..., tudo dever ficar e ser alhures, num mundo de ideias, uma metafísica para costume.

 

Nesses dias, o que, intoxicantemente, sobra em vitimofilia, fartamente regada a psicologia do pobrezinho, retroalimentadora de fraqueza, de ressentimento (coisa de má consciência, mesmo), rareia em desapego, perseverança na vida que segue, tal qual o espetáculo que não pode parar, cultuam neuroticamente o infortúnio, dando a envergonhar Justine, personagem de Sade (Justine ou os infortúnios da virtude). Não lembra os versos de Jorge Aragão, para desencontros, em geral,“...Reconhece a queda / E não desanima / Levanta, sacode a poeira / E dá a volta por cima”[2]?

 

Essa sanha parece provir do envenenamento de uma geração, quiçá, amamentada por leite sintético, urdido nos insossos e fétidos guetos assexuados do mais empedernido dos racionalismos, abstracionista ao esquizoide.

 

A gravidade da situação é tamanha a ponto de andarem institucionalizando mais este aspecto da vida[3], subentenda-se, disciplinando, fagocitando, desnaturando, mais nesse viés, a temida e odiada natureza[4], a primeira natureza.

 

Então, sendo inconsciência, como se procede isto: consentimento prévio, descritivo? Inda mais com o gostinho bizarro do sexo fraco por dizer não, querendo, de fato, dizer sim, no auge da arte da simulação? Ou seria apenas pueril ludicismo?

 

Tudo passa por interpretação, por flexão afetiva, mas a vida não é um minueto, com tudo ensaiadinho, de modo que toda insistência aparentemente impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém, antes de tudo e qualquer coisa, passa por como se recebe, como se interpreta a investida – a pessoa pode, e acontece muito, acabar por ceder, vislumbrar uma graça inicialmente inconcebível – água mole em pedra dura tanto bate até que fura! Ou, eruditamente, com Heráclito de Éfeso, panta rhei – tudo está em incessante movimento, logo, em transformação.

 

Efetiva violência, isto sim há-de se exigir à configuração de reprovável, abusivo[5] assédio. Diga-se, aliás, precisamente, sensual, estético[6], logo não propriamente sexual, pertencente à ordem da reprodução biológica. Abuso também verbal, ofendendo hipoteticamente o suposto código moral, efetiva idiossincrasia! da suposta vítima – a nuança é relevante para denotar a astronômica dimensão do despropósito.

 

Note-se que se há-de ter em mira perseguição imprópria, excessiva (ir atrás no banheiro, seguir próximo da "vítima", p.ex., até sua casa, não atender a um "não" inequívoco, insistir em toque já rejeitado, claro está, sem grosseria, pois o outro está realizando sua natureza, etc...).

 

Rigorosamente, entretanto, a almejada, ora impugnada, cláusula é em branco, à mercê da mera potestatividade da pessoa supostamente incomodada, e/ou, talvez pior, de um julgador externo, passando por palavrório de uns e de outros.

 

O que não se há de admitir é esse não-me-toques histérico, moralista, autoritário, orientado por fantasmagorias de pessoas com problemas em face da alteridade, seja qual for esta. Sim, elas são doentes, porque expressam sofrimento no medo diante da natureza incontrolada, insubordinada a roteiros, e causam sofrimento, sofrimento, sim, vez que implicam, na dicção spinozana, em despotencialização do agir, do afetar e do ser afetado, dos envolvidos.

 

Quem está na chuva está para se molhar. Quer proteger-se, vá, é respeitável! Entretanto, confine-se, mantenha-se ao largo, num bunker. Injusto, todavia, para isto, é restringir a liberdade alheia. Afinal, a restrição contra natura deve afetar, tão-somente, quem a protagoniza.

 

Não se pode pasteurizar a realidade, impunemente, sem deformá-la, sem criar monstros. É como querer carnaval, festa dionisíaca, da carne, das forças telúricas, sem contato, sem sentir o cheiro e a espessura do suor do outro, sem ver corpo, carne, e com um Momo apolínio!

 

Não se pode estender, ao espaço público, seu script de casinha de bonecas, asséptico, anódino, bionegativo, tudinho no seu devido lugar, enfim, modelo de bom-comportamentismo de sacristia, só de fantasia feito, restringindo a expressão afetual alheia (limitação que equivale a verdadeira castração neuroquímica-linguístico-gestual – as coisas são assim: entrelaçadas, complexas).

 

Desta má-sorte, não passa de instrumento de controle e repressão da sensualidade, em detrimento da liberdade de expressão, aqui, frise-se, expressão sensual, de quem não integrar a seita.

 

Estender idiotia (privacidade, particularidade, especificidade), idiossincrasia ao espaço público é típico de tiranos, portanto, incompatível com república, democracia, status libertatis!

 

É tão perverso, como é a sadiana destruição da natureza primeira para criação/fundação de uma segunda natureza[7], esse duplo[8] paranóico (arderá nas chamas do inferno se errar a fala, se faltar ao gesto, conforme previstos no script, na cartilha, no manual, no contrato), esse embalar-se no erro de Descartes de crer na gramática (Nietzsche), tudo num frenesi divorciado da realidade (natureza das coisas).

 

Por detrás de todos estes, aparentemente, muitíssimo bem intencionados esforços contemporâneos, há, portanto, arrogante e planejado assalto contra as paixões vívidas, fluentes, caleidoscópicas, assim, amesquinhando-as, confinando a vida no fantasismo sub-sistencial, típico da mentalidade do servo contemporâneo, dócil e submisso à disciplinarização, ipso facto, aos controles sociais e a manipulação, mesmo que por força de drogas (lícitas!). Nietzsche já antecipara o desastre da efeminização do mundo (in Segunda Intempestiva)!

 

Valem-se da ilusão de promover o paraíso da ditadura da consciência (exclusão das assustadoras(!) forças da inconsciência, da aleatoriedade e do polimorfismo típicos do desejo – por excelência: imprevisível, revestindo-se em variadas formas e recaindo sobre objetos variados). Consciência fabulista, estruturada em caprichoso desenho da imaginação, e em logicismo formalista da tradição, de viés matemático, moralista, essencialista, estigmatizante.

 

Esclareça-se que matemática provém do grego máthema, significando coisa aprendida, lição, ensinamento, por força do que principia sua integração em assimilação mimético-mnemômica (memória e repetição), afastando a experiência sensível, dos afetos, única verdadeiramente capaz de metempsicose da natureza e simpatia vibrátil[9]. Logo, o repetido de memória, não é sentido, claro, como conexão, interação com o meio, sequer, no instante real. A regra inflexível não é natural ao homem ex-sistencial, o homem livre, este faz escolhas ao lançar-se ao mundo. Esse incondicional submeter(-se) ao conhecimento ao fim e ao cabo, é servil ao despotismo, pois, o conhecimento é invenção destinada ao exercício de poder, à dominação, ao avassalamento no amálgama da estrutura de poder, teologista[10].

 

Este complexo processo vai para muito além da questão de famigerado assédio, compreendendo esforço contra a invencível evidência: o mal não existe, donde, ser inextinguível, seu não-lugar é forçosamente, tão-só, narrativo, e se dá nos delírios deste duplo.

 

O mal, frise-se, não é uma substância, uma matéria, uma coisa que possa ser extirpada do jardim como erva daninha, ou como o homem do Paraíso – sim, tal pretensão sugere mesmo complexo de D’us! reengendrando a natureza a seu próprio talante.

 

Envolve obsessão higienista, conquanto impregnada de moralina até a medula, cultivada na má consciência, ressentida e vingativa, contra a vida.

 

De certo, frise-se, não se postularia que devêssemos nos submeter felizes e contentes a toda sorte de suplícios, de infortúnios, mas que devemos saber conviver, administrar com a natureza.

 

Desta sorte, no sentido de amor fati (Nietzsche), cabe a nós (uma ética!) contornarmos os revezes, mesmo enfrentando o que nos causa despotencialização - ora, na sabedoria sertaneja, a onça é tão digna de alimentar-se quanto o veado de saciar a sede! - a interdição de uma ou outra postura é antiecológica!!

 

A arte da convivência das diferenças, dos (des)encontros, está nessa composição, nessa temperança das paixões, sem estigmatizar nenhuma delas, mas harmonizá-las dentro do extremo possível.

 

Esta harmonia não se reduz a bem-comportados, de baixa frequência, cujos ouvidos imaginam-na no estilo de Bach. Mira-se harmonia muito mais próxima de um Schönberg[11], um Xenákis[12], mesmo um Glass[13], senão da musicalidade advinda do cosmos[14]. Afinal, Nada Brahma[15].

 

E, como dizia Rilke (in, Cartas a um Jovem Poeta), se não vês a beleza dos dias, seja de sol ou de chuva, o problema não está nos dias, mas em ti.

 

Sempre bom lembrar: o que é mal para um, é maravilhoso para outro; o que é mal agora pode ser bom daí a pouco, sempre conforme as tendências do instante tal qual clinamen (Lucrécio) nos ensina, grosso modo: pode cair para lá, v.g., repulsa, pode cair para cá, desejo!

 

Acresce que o desejo não tem ética, nem estética pré-determinadas, daí, a princesa se apaixonar pelo plebeu, e a bela pela fera.

 

Com efeito, como, honestamente, reprovar, submetendo aos rigores da lei, algo tão instável, plástico, imprevisível, polissêmico, sem incorrer em arbitrariedade principesca, em idiotia despótica?! Muitíssimo mais grave, tudo com potencial de arruinar reputações em face de meras acusações, nem que fosse de um batalhão, facilmente arregimentável sob formas inconfessáveis – meras acusações, palavra de uma pessoa contra a palavra de outra... Stº Dús!

 

Pense-se nos amores nascidos de beijos roubados! Nem se fale dos amores loucos, nascidos do exercício perverso de dominador sobre dominado[16], assimilado, arrebatado na intensidade da força vital inconcebível aos padrões moralistas, pequeno-burgueses da sexualidade policiada, demonizada.

 

Vivemos tempos de exacerbação histérica, caprichosíssima, rematadamente, contra natura, com a pavimentação, maquilação, das reais vias da ex-sistência dissimulando suas adversidades, desafios mitigados por mascaramento, num planejamento total, enfim, varridas as alteridades e a legitimidade delas para debaixo do tapete da história!

 

Esqueceram, todavia, de combinar isso com o inconsciente – a vida é mui mais poderosa –, cujas reações por tais deformações, expressadas por sentimentos próprios (o sofrimento) e classificação médico-policialesca de inadequação, fazem a festa da indústria psiquiátrico-farmacêutica, com seus neurolépticos e congêneres, grosseiros e truculentos enquadradores químicos, apropriadores de corações, mentes e corpos, a perfis ajustadinhos ao engendrado por ideólogos comportamentistas, esses arrogantes sacerdotes moralistas modernos! Não será meramente ocasional qualquer semelhança com os empreendimentos científicos e de controle social nazistas e bolcheviques.

 

Hýbris (desmedida criminosa), hýbris, nada "muderna"!

 

Saudações libertárias, vitalistas, amorosas e republicanas.

 

PS: Nada qui é pessoal, como, também, não se expressa intenção alguma de ofensa, bem ao contrário, para além do sentido moralista, tão-somente, firma-se opinião sobre aspectos da época, cuja discrepância exige a incisividade, a acidez das palavras cruas, despidas, o mais possível, dos véus de Maya, das ilusões constitutivas “do mundo”, mundo imaginário, por desgraça, tão caro ao processo autorreferente, narcisista, no mais das vezes, siamês do infantilismo.

 

 

[1] Catherine Deneuve critica campanha contra assédio, in DW (Brasil),  http://m.dw.com/pt-br/catherine-deneuve-critica-campanha-contra-ass..., também, agora, Brigitte Bardot http://www.bbc.com/news/entertainment-arts-42730942

Note-se que, logo, logo, o patrulhamento ideológico das histéricas hordas fascistas, reagindo espasmodicamente a qualquer sonido – como lhe é peculiar –, com os instrumentos de massa para coação social, começando por deturpar, no caso, o propósito da crítica, como se fosse endosso a constrangedor assédio “sexual” (aqui, neste texto, também não o é!!!), forçaram a grande atriz a esclarecer o óbvio in http://www.dw.com/pt-br/catherine-deneuve-pede-desculpas/a-42148060 .

[2] Volta Por Cima, in https://www.letras.mus.br/jorge-aragao/286389/ 

[3] Slavoj Žižek – Amor e Sexo sob o Gelo dos Contratos, in https://outraspalavras.net/destaques/zizek-amor-e-sexo-sob-o-gelo-d...

[4] Peter Sloterdijk – O que separa o ser humano da natureza, in http://www.youtube.com/watch?v=EKbfweNE1zw&feature=youtu.be

[5] Abuso, além do uso natural das coisas, cumprindo a pergunta: onde estaria o abuso na tenaz busca do objeto do desejo?!! Veja-se como a questão ofende, diretamente, a liberdade de expressão sensual!

[6] Do grego, aísthêsis, sentido, donde belo ser tido como o que agrada aos sentidos.

[7] Gilles Deleuze, Sade | Masoch

[8] Clément Rosset, O Real e seu Duplo

[9] Metempsicose, alma (psickê) além (meta), abraçando/compreendendo a natureza, propiciando um sentir junto (syn + pathia), energeticamente, vibratilmente, afetualmente, um não-raciocinante, irredutível à linguagem, verbal ou matemática, linear, mental, para muito além do submissível aos domínios da consciência.

[10]  Nietzsche, in  Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra-Moral.

[11] p.ex., http://www.youtube.com/watch?v=U-pVz2LTakM

[12] p.ex., http://www.youtube.com/watch?v=n2O8bMlEijg

[13] p.ex., http://www.youtube.com/watch?v=hebUyOR6B2c

[14] p.ex., http://www.youtube.com/watch?v=lJ0WaaIqqkE

[15] Do sânscrito,  cosmo, divino, tudo é som, é música, é vibração.

[16] O porteiro da noite, filme de Liliana Cavani, 1974, in  http://www.youtube.com/watch?v=7VWX5zve5dA

 

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