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Inteligência ou misericórdia

 

A.P.Santos

 

Confesso que tenho pouca tolerância com alunos que são adultos infantilizados. Por outro lado, com crianças procuro ter a máxima paciência. O aluno deve ter caráter, o que significa valorizar as lições dos mestres (artigo raro hoje em dia), dedicar-se aos estudos, fazer exercícios. Todavia, é preciso dizer que essa disposição encontra-se mais em muitas crianças do que nos adultos infantilizados, que acham que podem obter diplomas e certificados sem fazer esforço, como se fossem geniais.

 

O problema é que num país onde setenta por cento da população adulta é infantilizada onde se encontra gente amadurecida? E como a distribuição de adultos infantilizados não é uniforme é possível encontrar “Ilhas de Excelência” com quase cem por cento de pessoas amadurecidas bem como encontrar “Ilhas de Mediocridade” onde sejam quase todos imaturos e, como tais, bastante dependentes, inclusive dos diferentes tipos de drogas.

 

Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), o famoso MIT, uma das melhores universidades do mundo, disseram que “as crianças que, a partir dos anos 50, cresceram diante da televisão, não tem a inteligência das crianças das gerações anteriores”.

 

Como se não bastasse, o professor norte-americano, Mark Bauerlein, disse, no livro de sua autoria, “The Dumbest Generation” (“A Geração mais Idiota”), que a atual geração de jovens nos Estados Unidos é a mais idiota que ele já viu, apontando as causas: televisão, computador e celular.

Diante dessa aterradora constatação o que tem feito os homens esclarecidos e com o sentido de responsabilidade social? Evidentemente, mostrar os riscos a que a criança está exposta, diante de uma programação televisiva pervertedora. O sociólogo Betinho dizia que “A televisão é a mais fantástica máquina de imbecilização jamais criada”.

 

Eu publiquei, na Internet, um artigo intitulado “Desligue a TV, ligue-se na vida”, onde teci considerações sobre o livro da doutora Raquel Soifer, “A Criança e a TV”. Juntei-me ao doutor Valdemar Setzer, da Universidade de São Paulo e ao Mestre em Educação, Anderson Paulino, do Rio de Janeiro, nessa luta. Nenhum dos dois tinha televisão em casa, para não prejudicar os filhos pequenos.

 

Na década de 70 do século passado o professor e doutor em Estatística, Jorge de Souza, foi convidado para dar aulas numa faculdade particular de Brasília. A disciplina era “Introdução à Teoria das Probabilidades”. Logo na primeira aula ele descobriu que os alunos não sabiam trabalhar com frações. Esse é o retrato de um país de ensino fundamental e médio fracassados, onde alunos querem fazer curso superior de base matemática sem saber frações. O professor Renato Pedrosa, da UNICAMP, disse que o problema dessas faculdades particulares é que admitem o ingresso de analfabetos.

 

O que fez o professor Jorge de Souza? Começou o seu curso ensinando aos alunos a matemática do ensino fundamental. Há poucos dias, pesquisando sobre as disciplinas do curso de Ciência da Computação, da Universidade de São Paulo, vi que, no primeiro ano a instituição está ensinando a matemática do ensino fundamental. Segundo o professor Rubens Queiróz, a UNICAMP está fazendo o mesmo.

 

Ora, salta aos olhos que esta geração que chega analfabeta às universidades é a mesma que cresceu vendo televisão horas e horas por dia, sem jamais pegar livro para ler.

É dessa geração televisiva que estão saindo os médicos que se formaram nas 46 instituições de ensino de medicina em São Paulo, dos quais mais da metade não estão preparados para exercer a medicina. Imagine-se o que não está ocorrendo no resto do Brasil.

 

É dessa geração televisiva que estão saindo os mais de oitenta por cento dos advogados formados em São Paulo que são reprovados nas provas da OAB.

 

É dessa geração televisiva que estão saindo os setenta por cento dos engenheiros incompetentes para exercer atividades de nível superior, segundo dados fornecidos pelo professor Renato Pedrosa.

 

Os fracassados ensinos fundamental e médio do Brasil estão  fazendo regredir as nossas boas universidades públicas (as ruins já regrediram há muito tempo).

 

Segundo me disseram, a Universidade Federal do Rio de Janeiro não “alfabetiza” os alunos. Quem chega lá despreparado “que se vire”, que “procure tomar tenência”. Eu penso que se trata de atitude correta, pois quem chega aos vinte anos de idade sem mostrar capacidade para dar voos altos no campo da intelectualidade, da ciência e da técnica, não vai chegar muito longe. A prova evidente disso é o grande número de repetições e desistências.

 

Há meio século, quando comecei a dar aulas de xadrez para crianças, tive o privilégio e a satisfação de ver várias delas atingirem bons níveis no jogo, inclusive títulos internacionais. Hoje, dificilmente conseguiria repetir o feito. O saudoso Mestre Internacional de Xadrez, Hélder Câmara, me dizia a mesma coisa em relação aos seus alunos de xadrez.

 

Eu tenho sido uma “Voz Clamando no Deserto”. Falei com pais de crianças pequenas sobre os problemas causados pela televisão. Advertência que eles ignoraram é a consequência é que os seus filhos, hoje, são de uma ignorância de dar dó.

 

Tudo parece indicar que não se pode apelar para a inteligência dessas pessoas. Os argumentos não estão ao alcance delas. Oito professoras de uma escola de um grotão brasileiro não souberam me dar uma definição de “sistema”. Se professores desconhecem o significado das palavras, o que não dizer do resto da população desses grotões?

 

Inteligência é artigo raro. Todavia, piedade. Comiseração, misericórdia, talvez não o sejam. Eu imagino, talvez ingenuamente, que qualquer pessoa possa sentir misericórdia. Então eu apelo para a misericórdia. Tenham misericórdia dos seus filhos e alunos. Sigam o conselho do Barak Obama, que disse que “os pais tem que reduzir o tempo em que os filhos ficam diante da televisão”. O meu conselho é mais radical: nenhum tempo de televisão, computador ou celular para crianças.

 

Tenham misericórdia dos seus filhos. Impeçam que eles venham a ser fracassados, profissionais “meia-bomba” e vítimas dos açambarcadores de mão de obra barata.

 

Tenham, sobretudo, misericórdia de vocês mesmos, pois é destas gerações que sairão os médicos que irão atendê-los, no futuro. É destas gerações que sairão os profissionais que irão dar manutenção nos seus equipamentos e construir as suas casas.

 

São essas gerações que irão garantir a sua aposentadoria. Se elas não forem capazes de produzir riquezas a sua aposentadoria será mais miserável do que estas que estão sendo pagas, atualmente.

 

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