O que um cientista estrangeiro quer, para vir ao Brasil? Em muitos casos, tranquilidade e qualidade de vida, como muitos dos que foram para Campinas. Em outros, a possibilidade de participar do sonho de construir um país. Às vezes, melhores oportunidades de trabalho do que nos países de origem.

Como deveria ser uma política de atração de cientistas? Qual o papel do Ministério de Ciências e Tecnologia, CNPQ, Capes, das multinacionais estrangeiras no país?

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Respostas a este tópico

Posso dizer que um cientista, assim como todo trabalhador, procura basicamente três coisas:

boa remuneração,

boas condições de trabalho e

qualidade de vida.

As três questões são muito dependente do país do qual o cientista emigra, tenho vários colegas colombianos, peruanos, cubanos. Ao meu ver já existe uma processo de atração de pesquisadores destes países.

Competir com países europeus, Canadá e EUA, é mais complicado. Não temos instituições que rivalizem com o status dos grandes centros de pesquisa destes países. Nossas bolsas são modestas para pessoas que queremos tomar destes países e a qualidade de vida nas grandes cidades brasileiras não é das melhores.

Instituições de ponta como, por exemplo, a USP têm potencial para atrair pesquisadores de quase todas as partes do mundo sob o ponto de vista acadêmico. Mas, a qualidade de vida de quem mora nas redondezas da USP é péssima. São Paulo não tem nem de longe os atrativos dos países citados (países europeus, Canadá e EUA).

Talvez a melhor estratégia seja investir em centros de pesquisa fortes em cidades que tem algo a oferecer, principalmente belezas naturais e qualidade de vida. Florianópolis e Natal tem um potencial enorme para atrair pesquisadores de todas a partes do mundo. Bom, não podemos esquecer da necessidade de remunerar bem.

Centros como USP, UFABC, UNICAMP, UFRJ, CBPF vão somente atrair locais ou aqueles que não tiveram a opção de ir para locais mais interessantes. Não estou dizendo que isso é ruim, também sou cético sobre a necessidade de concorrer diretamente com os grandes centros internacionais. O Brasil tem uma população muito grande e já é um centro de atração na america do sul.
A interação com países vizinhos é muito interessante. Cuba é um centro de excelência medicinal e esportiva há vários anos, e nos últimos 20 anos estes profissionais vieram ao Brasil.

A questão salarial pode ser um obstáculo, mas não algo proibitivo à questão de atrair cientistas para o país. O que eles procuram, além de melhores condições de vida e trabalho, é incentivos à criação por si só. Nas ciências, nas artes ou mesmo no esporte, os brasileiros respeitados no assunto por muitas vezes conquistaram seu status por meio de "total liberdade criativa", somado aos recursos necessários para tal, criando castelos a partir de ruínas. Peguem John Neschling e vejam o que ele fez com a OSESP. Os treinadores ucranianos com a equipe de ginástica olímpica. Os treinadores espanhóis nas equipes de basquete e polo aquático. A simples "quebra de paradigmas" que nós estamos acostumados a seguir ao realizarmos produção científica permite o surgimento de novas oportunidades.

Infelizmente, o único apoio que temos para a produção científica é o Estado. É ele quem oferece bolsas de pesquisa. É ele quem cria laboratorios. Vejam a Petrobras e o CENPES. A FioCruz e sua produção de medicamentos. Onde estão as grandes empresas brasileiras, que simplesmente se servem de quadros estatais ao invés de investir em Pesquisa & Desenvolvimento? O CEBRAP foi financiado pela Fundação Ford, estrangeira. Que universidade particular, além da PUC e da FGV, investem em pesquisa e formação de mestres e doutores?

O Brasil precisa, mais do que até de cientistas, de uma cultura empreendedora. De pagar para ver. Arriscar, e vencer.
Discordo. As condições de trabalho no Brasil são competitivas com locais bons (de segundo nível) nos EUA e europa. Poderia-se atrair muitissimos cientistas qualificados, mais inseridos na pesquisa mundial que os brasileiros que tem obtido vagas, caso existisse o interesse e uma política efetiva para isso.
UM CASO PARADIGMATICO EM BIOTECNOLOGIA PODE SER OBSERVADO NESTE DOIS TEXTOS JORNALISTICOS


Bioenzima, de Caruaru, é a única fábrica brasileira de enzimas, substância que não agride a natureza e é usada na indústria

Etiene Ramos

etiene@jc.com.br

O promissor mercado de enzimas, compostos formados por microrganismos que vêm substituindo substâncias químicas em diversos processos industriais e que movimenta cerca de US$ 10 bilhões em todo o mundo, é o alvo da Bioenzima, fundada em Caruaru, há 13 anos, e a única fábrica de enzimas do Brasil. A planta tem capacidade para produzir 20 toneladas de enzimas por mês, menos de 2% do que o País demanda, e atende às indústrias de ração animal, panificação e às lavanderias de envelhecimento de jeans. Só os produtores de Toritama, a cidade do jeans do pólo de confecções do Agreste de Pernambuco, respondem, em média, por 20% do consumo nacional de enzimas que, por não degradarem o meio ambiente, vêm tomando o lugar do cloro e produtos similares.

Depois de investimentos próprios que beiram os R$ 3 milhões, o engenheiro e diretor da Bioenzima, Carlos Fernandes das Chagas e seus três novos sócios irão investir mais R$ 2 milhões para ampliação da fábrica que pretendem trazer para uma capital do Nordeste por questões de logística e de visibilidade do negócio. As negociações com o governo da Paraíba, segundo ele, estão bem adiantadas.

A mudança vai ampliar o número de empregos de seis para até 70, em dois anos, e o foco num mercado ainda mais promissor: o das celulases - enzimas que quebram a celulose do bagaço da cana-de-açúcar (e outras biomassas) produzindo o etanol celulósico, o chamado etanol de segunda geração, alvo de pesquisas do Projeto Bioetanol que envolve 16 universidades brasileiras, R$ 4 milhões e é capitaneado pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A meta dos pesquisadores é tornar o Brasil ainda mais competitivo na produção de biocombustíveis com o uso da biomassa da cana mas isso só será possível a partir da redução dos custos das celulases, importadas hoje por US$ 4 a US$ 8, o quilo.

Considerando que são necessários 11 quilos de enzimas para processar uma tonelada de cana e gerar 50 litros de álcool, o professor do Instituto de Biotecnologia da Universidade de Caxias do Sul, Aldo José Pinheiro Dillon, afirma que o preço para as usinas nacionais é o grande gargalo. "O uso das enzimas ainda é uma promessa. Nem o Brasil, nem outros países, conseguiram reduzir seu custo. Estamos num bom começo, mas nada em definitivo", diz. Para o pesquisador do Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), José Geraldo Pradella, o mercado mundial de enzimas pode estourar com a conquista dessa tecnologia a baixo custo. "Os números desse mercado poderão, no mínimo, triplicar", calcula.

Americanos querem conhecer a tecnologia
Publicado em 28.06.2009

Parceira tecnológica de instituições como a Universidade de Caxias do Sul (UCS), no Rio Grande do Sul, onde firmou convênio de produção das enzimas para a indústria têxtil, e dividiu a patente para o processo do etanol de segunda geração, a Bioenzima vem trabalhando com a Sia, empresa de engenharia da Colômbia, da região de Cali, a fim de fornecer tecnologia a um grupo de investidores americanos na implantação de uma usina que usará o bagaço de cana-de-açúcar da região que gera 1000 toneladas de bagaço por dia, volume que rende 200 mil litros de etanol para a produção de etanol. Orçado em US$ 120 milhões, o projeto será instalado no Vale do Cauca.

Os americanos vão precisar de enzimas e das tecnologias de aplicação de fermentação que serão oferecidas pela gigante Du Pont – por sua subsidiária Genencor, da Suécia, e o Instituto de Energia Renovável dos Estados Unidos (IER), órgão do governo americano. "Vamos concorrer apresentando um processo fechado, fornecendo um pacote que pode resultar em US$ 20 mil dólares por dia, só em royalties”, diz Carlos Fernandes das Chagas. Ele também aproveita o momento em que o governo da Colômbia está incentivando a produção de biodiesel com a palma e o etanol da cana e do bagaço de cana e até da mandioca." O processo pode ser desenvolvido pela Sia com a Bioenzima”, revela, adiantando outra negociação com a Associação dos Bananeiros da Colombia (Augura) para o fornecimento de enzimas que poderão gerar álcool a partir da sobra diária de 200 toneladas/dia de polpa e cascas de banana.

"Estados como Pernambuco e Alagoas poderiam ter um aumento de produção de pelo menos 50% com o uso de enzimas na produção de álcool", sugere. Para Aldo Dillon, o uso das celulases vai tornar o uso do bagaço para o etanol ainda mais rentável do que para a produção de energia elétrica. "No Brasil, a energia é barata e a quantidade de biomassa dá para os dois fins: produzir álcool e gerar energia suficiente para abastecer as usinas", afirma.

SERÁ QUE OS AMERICANOS FICARIAM APENAS COM A TECNOLOGIA OU TAMBEM COM AS MENTES POR TRÁS DA TECNOLOGIA .. . CREIO QUE ANTES DE PROCURAR ATRAIR DEVERRIAMOS NOS PROGRAMAR PARA MANTER O QUE JÁ TEMOS E REPATRIAR O QUE PERDEMOS
Concordo Etiene, a Unicamp deu os primeiros passos para fibra optica e não colheu nada em troca. As universidades americanas são berços de premios Nobel e sobrevivem da suas pesquisas, descobertas e parcerias públicas e privadas; funcionam como uma empresa.
O processo ezimático da quebra da celulose funciona como uma marreta, os estrangeiros estão de olho nas pesquisas brasileiras em processos mais eficientes em fase de teste.
Concordo contigo também, Eduardo.
Caros,

De uma forma geral, há alguns pré-requisitos para que um cientista estrangeiro considere o Brasil como opção:

--salários compatíveis.Neste ponto, o real valorizado ajuda, pois os salários das universidades públicas brasileiras estão quase no nível internacional ( digo, europeu, não tanto o americano);

--número de aulas a serem dadas na universidade que não passe do usual no mundo, ao redor de seis horas por semana. Atualmente no Brasil, as boas universidades conseguem se adequar a isto, mas muitos departamentos ainda impõem cargas horárias excessivas, que afugentam qualquer um;

--condições para fazer pesquisa, ou seja, existência de financiamento. Nos melhores centros, não estamos mal neste requisito, há dinheiro razoável via CNPq, CAPES e FAPs;

--não existência de entraves burocráticos para poder passar alguns meses em centros estrangeiros e participar das conferências internacionais. Neste ponto, no Brasil, tudo depende do departamento. Se este criou um espírito de pesquisa, em geral os afastamentos são possíveis.

Se não estamos muitos bem nem muito mal, qualé a razão de haver poucos candidatos estrangeiros? Resposta: os concursos. E -- mais uma vez eles -- os implacáveis tribunais de contas e a CGU. Explico.
Os editas de concursos são feitos para brasileiros, em geral pedem documentos que só residentes aqui tem. Há verdadeiras aberrações, como não aceitar inscrições pelo correio, só indo pessoalmente na secretaria... Mas mesmo superados os obstáculos dos editais, dificilmente estrangeiros se inscrevem, pois a realização do concurso no mais das vezes é presencial, o que inibe a maioria. E ademais, temos uma aberrção total nos concursos de entrada: exames escritos. Eis uma coisa que praticamente não existe mais em nenhum lugar do mundo ( a Itália sendo uma excessão). E tudo em português. Enfim, trava tudo.

Um colega da UFABC aqui em São Paulo me conta que a universidade tem grande interesse em contratar bons pesquisadores residentes fora do Brasil, pois os candidatos atuais-- passada a primeira grande leva de contratações -- deixam muitoa desejar. Mas foi impossível convencer o procurador de que isto podia e devia ser feito, em bem de um bom serviço público.

Assim, um caminho para trair bons cientistas em início de carreira passa por:

-tornar os empregos no Brasil atrativos
-fazer os concursos mais abertos
Prezado Caio,

Falando de pesquisa fundamental, o IMPA (matemática, Rio) é candidato sério à mais bem sucedida
instituição do país.
E, de fato, o IMPA tem mostrado capacidade de atrair pesquisadores estrangeiros: o Rio é uma cidade atraente para muitos, os salários são OK e as condições de trabalho muito boas. e os concursos não são burocratizados.
Creio que salário, condições de trabalho e poucas aulas são pre-requisitos, mas é claro que não basta isto. efetivamente é preciso que o departamento, instituto, etc seja suficientemente estimulante.

Os cientistas que se dispões a vir ao Brasil querem em geral uma emprego normal, em termos acadêmicos: seis hoars de aula por semana, 4000 eurso de salário e possibilidade de viajar para congresso.
Concordo plenamente. As condições de trabalho são razoáveis e conheço muitos cientistas extrangeiros qualificados que adorariam trabalhar no Brasil nessas condições. No entanto não há uma política de atração dessas pessoas, em parte por que os concursos e processos seletivos não permitem. Em parte a origem é burocrática, mas em parte a causa é o interesse de manter o controle e garantir acesso a conhecidos.

Sugestão: sistema federal de seleção para atração de cientistas, com chamadas internacionais e processo de seleção no padrão internacional (cv, cartas de recomendação, projeto, etc.). Possibilidade de efetivação (concurso) após 3 ou 5 anos de período probatório. Por exemplo, o sistema Ramón y Cajal da espanha, que é muito bem sucedido em atrair espanhois e extrangeiros.
Concordo, mas seria preciso que TCUs fossem convencidos sobre a legalidade destes procedimentos. Atualmente, tudo isso são --legalmente falando -- questões omissas, mas sobre as quais TCUs e CGU legislam administrativamente, através de portarias normativas. E com interpretações burocratizantes. Na situação atual, o dirigentes universitário que fizer um concurso aberto corre risoc de ser processado.

O caso das cartas de recomendação é emblemático: são usadas como um dos principais meios de avaliação de cientistas. Aqui, sequer podem ser pedidas, sob risco de impugnação do concurso.

Agora, é verdade que certos departamentos se fecham a tudo que for externo -- não precisa sequer ser estrangeiro. Aí haveria de se fazer uma grande limpeza na universidade, mas isso é conversa para outros tópicos.

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