ANTI-ENTREVISTA DO NICANOR PARRA, AO FAZER 95 ANOS EM 2009 (trechos da entrevista, traduzidos por mim)(aceito críticas, tomates, ovos e pedradas em relação à tradução):
"QUASE FAZENDO 95, SE FAZ DE DIFÍCIL PARA RECEBER A IMPRENSA, ENQUANTO ACONTECE A ESTREIA DO DOCUMENTÁRIO COM A VIDA DO PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA QUE REVOLUCIONOU A POESIA ROMPENDO COM AS RIMAS TRADICIONAIS."
Raquel Correa (Jornalista chilena que fez a entrevista)
Simpático (quando está de ânimo). Insuportável (quando não está).
É como se não quisesse falar com ninguém, como se estivesse farto de tudo.
A porta da frente de sua casa tem seu selo: "anti-poeta", escrito com giz e tinta.
Na rua um fusca do ano do arco da velha, imundo.
Mas ele só está preocupado com um pneu murcho.
Onde pretende ir com o calhambeque ?
Chamaco (assim apresentado) é um de seus seis filhos.
E o Chamaco está preocupado com seu pai que amanheceu com tonturas...
No ante-jardim tem um tonel carregado de lâmpadas. Um de seus "artefatos", como os batizou.
Dentro de casa vários outros "artefatos". Máquinas de escrever antigas com letreiros "parrianos", e no fim do corredor uma reprodução da Venus do Milo com um cartaz pendurado do pescoço que diz: "Sou frígida. Apenas posso me mover visando lucro".
Magro e ágil de corpo, este mito da poesia chilena se define assim no seu "Epitáfio":
"De estatura média, com voz nem fina nem grossa. Filho mais velho de um professor primário e de uma modista de interior de loja. Magro de nascença, mesmo devoto da boa mesa....
...Fui o que fui. Uma mistura de vinagre com azeite de cozinha. Um embutido de anjo e besta ! "
Quando assistiu Retrato de un Antipoeta, o documentário com sua historia, diz ao cineasta Víctor Jiménez:
- "Antes de ver este documentário eu pensava que era bonitão".
As folhas de Parreira ("Parra"):
No 5 de setembro, Parra completa 95 anos.
Nasceu em San Fabián de Alico, perto de Chillán, em 1914.
Sua mãe, dona Clara Sandoval, de origem camponesa, tecelã e modista.
Seu pai, Nicanor, era professor primário, tocava o violino e escrevia poemas. Seguramente dali vem a veia artística da dinastia dos Parra, começando com Nicanor, seguindo com a Violeta, que, após dar "Gracias a la vida" deu-se um tiro por um amor desenganado. Também herdaram talentos Roberto e Eduardo ("Lalo"). Os filhos e os netos (incluindo os filhos da Violeta).
De todos seus irmãos, Nicanor foi o único que teve estudos superiores. Mais ainda: o único que fez estudos secundários completos, em Lautaro, Chillán e Ancud. Aos 18 anos foi embora para Santiago. E entrou no Instituto Nacional Barros Arana com a bolsa da Liga de Estudantes Pobres. Alí ganhou seus trocados como inspetor.
Professor de Matemática e Física, quando se lhe pergunta o que tem a ver a poesia com as matemáticas, não vacila -como não vacilou numa palestra ministrada em Nova York quando lançou a idéia por primeira vez:
-A poesia é pura matemática. Basta ver um teorema: nenhuma palavra de mais, nenhuma de menos.
Criado no bairro Villa Alegre de Chillán, seu primeiro "anti-conto" foi publicado na Revista Nueva, que criara com Jorge Millas e Carlos Pedraza.
Gabriela Mistral, numa cerimónia pública em Chillán, elogiou. "Vai ser um grande poeta".
Mais tarde titulou-se em Mecânica Racional (essa carreira parece um anti-poema, verdade?), especialidade que lecionou no Instituto Pedagógico da U. de Chile.
Não lhe pareceu suficiente. Continuou com Mecânica Avançada na U. Brownsville, Texas.
E Cosmologia em Oxford. Tudo financiado com bolsas.
Seu primeiro anti-conto é Gato no Caminho. E não parou mais. Cancioneiro sem Nome foi elogiado pela própia Mistral.
Somam-se La Cueca Larga, Antipoemas, Versos de salão, Manifestos, Canções russas, Poemas e Anti-poemas, Obra Grossa, Os Professores, Artefatos, Sermões e Prédica do Cristo del Elqui, O Antilázaro, Piadas para Desorientar à Poesia, Coplas de Navidade, Folhas de Parreira e Poemas para Combater a Calvície, para nomear alguns.
Prêmio Nacional de Literatura em 1969. Têm sido feitos documentários sobre sua vida e obra. Nicanor Parra em Nova York, de Jaime Barros, e Nicanor Parra, de Guillermo Khan. Por estes dias tem estreia o de Victor Jiménez. Mas não sabe se aparecerá na estreia.
Quixotesco - ele prefere "hamletiano"-, tem uma história de amor-amores. Com a primeira esposa teve tres filhos. Logo enamorou-se de uma sueca, Inga, que tinha metade da sua idade. Com ela morou dez anos. Mais tarde, com uma senhora de sobrenome Tuca, ("La Tuca", ele diz) com a que teve a Colombina, artista e arquiteto, e Juan de Dios, "el Barraco".
Mas de todas, seu grande amor foi Ana María Molinari, na que se inspirou para escrever A Mulher Imaginária. Tempo depois de separar-se, ela suicidou-se.
Ele mesmo conta que quando lhe propós casamento à mulher imaginária, ela respondeu:
-Como tu quer que case contigo ?. Es um velho boludo..., farrapento, comunista, e ainda por cima Premio Nacional de Literatura. Minha família te poderia perdoar as tres primeiras coisas, mas que sejas Premio Nacional de Literatura, não !!. São pobres e dedicam-se a escrever...
-Ele é chato ou simpático?
-Meio a meio -responde Víctor Jiménez, que teve que suportar mais de um chilique seu. Os alunos o adoram, lhe acossam e lotam qualquer local onde se encontre Parra.
Esquerdista -inclusive comunista em seus tempos moços-, não está com os revolucionários nem com os conservadores. Ele mesmo define-se. Nem capitalista nem socialista, mas tudo o contrário: ecologista. E francamente parrista.
Diretor fantasma:
Atualmente seus dias passan em Las Cruces, onde alunos, professores e acadêmicos de todas partes "peregrinam" para ve-lo. Ainda, é diretor honorário da Universidade Diego Portales: lá o valorizam como uma jóia. Funciona na Escola de Literatura Criativa. Lhe importa que se saiba que não ganha salário. Rodrigo Rojas, diretor da carreira, comenta:
-Parra é um diretor fantasma.
-Porque não vai nunca?
-Não. Sim vem, mas ele gosta que seu título não seja diretor honorário, mas director fantasma. Ele mesmo assumiu esse título.
De vez em quando ministra palestras.
-Como é tão popular -comenta uma ex aluna-, quando ele vem arma-se uma bagunça. Os alunos levam seus livros para que ele autografe.
Ministra palestras, sobre tudo no primeiro semestre, no seminário sobre Shakespeare...
-Ele exige que tudo seja de surpresa. Vem sem aviso. As vezes chega em traje informal, como se fosse a um safari. Mas quando tem uma atividade acadêmica, viste formal, com gravatas listradas, como se estivesse em Oxford ou Cambridge. Jaqueta de tweed, chapéu...
É asmático e bastante apreensivo. Sofre de tonturas.
Na universidade passeia pelo pátio, vai à lancheria, os alunos lhe rodeiam.
-Seria mais fácil lidar com uma estrela de rock -comenta o diretor-. Todos querem estar perto dele.
E ele gosta de conversar com essa rapazeada...
O mais velho de nove irmãos é considerado por muitos como um homem de extrema esquerda. Ele o desmente, de fato, em alguns anti-poemas.
Religioso ?, para nada, entretanto, suas casas estão cheias de cruzes: "artefatos", ele diz.
-Falai, filhos, tem Marx ?
-Sim, padre. Marx tem
-Quántos Marxes têm ?
-Um só Marx não +
-Onde está Marx ?
-No cú, na terra e em todo lugar
-Aleluia ? Aleluia !
(Ao final esclarece "diz cú. Deveria dizer céu")....
....Foje dos fotógrafos como do diabo. Frente a nós, se tapa o rosto com ambas as mãos...
-Não dou entrevistas -assegura.
Entretanto, atento mas con ar distraido, segue revisando seu auto bege, como se isso fosse o único que lhe interessa no mundo.
-Não confio nos jornalistas: sempre me tergiversan.
Me mande um questionário -diz mal humorado, em quanto seus olhos bem azuis enchem de riso...
Meus estimados: nos anexos podem ler (em Espanhol) o texto completo desta entrevista e também depoimentos do cineasta que fez o último documentário sobre o Nicanor.