Portal Luis Nassif

Meus estimados irmãs, irmãos, hermanos y hermanas.
Lembrando de um bom link sobre literatura hispánica:

http://revistazularte.blogia.com/">http://revistazularte.blogia.com/

Conforme prometido estou começando o envio de algumas informações de escritores chilenos.
Diversos amigos desta comunidade fizeram lembrança merecida da grande folclorista Violeta Parra, que também comentarei em outra ocasião.
Agora quero lhes enviar algo do irmão da Violeta: o grande poeta (que se auto-define como "anti-poeta") Nicanor Parra.
Prêmio Nacional de Literatura no Chile, nascido em 1914, seus fãs mais fervorosos queriam (e ainda querem) apresenta-lo ao Nobel de Literatura ("Al Nóbel con él !!!": o grito de guerra desses fãs).
De um estilo muito peculiar, em alguns aspectos é uma espécie de "Millôr" da poesia chilena. Dentre suas obras famosas destacan-se "Poemas e Anti-poemas", "Obra Grossa", "Poemas para combater a calvície" (que eu tento decorar mas não adianta porque minha careca é "insensível"), e autor de frases político-satíricas célebres como "a esquerda e a direita unidas jamais serão vencidas", aludindo a regimes socio-neoliberais que têm proliferado pelo mundo.
Qualquer semelhança como o que temos por aqui é mera coincidência, é claro.
E por falar em semelhança, o anti-poema (uma espécie de oração) que lhes envio hoje demonstra como somos parecidos nesta nossa querida Patria Grande.
Traduzido por mim o mais fidedignamente possível.
"Fuertes Abrazos" de Augusto (El Bueno) (Porque "el otro" está fritando o traseiro nas grandes frigideiras do Inferno, junto com seu amo Nixon).

DISCURSO
DO
BOM
LADRÃO (Nicanor Parra)

"Lembrai de mim quando estiveres no teu reino
Me nomeia Presidente do Senado
Me nomeia Diretor do Orçamento
Me nomeia Chefe do Tribunal de Contas"

"Lembrai da coroa de espinhos
Me faz Cónsul do Chile em Estocolmo
Me nomeia Diretor Nacional de Ferrovias
Me nomeia Comandante do Exército"

"Aceito qualquer cargo
Encarregado do Imposto Patrimonial
Diretor Geral de Bibliotecas
Diretor de Correios e Telégrafos"

"Chefe do Departamento de Estradas
Visitador de Parques e Jardins
Governador da Província de Ñuble"

"Me nomeia Diretor do Zoológico"

"Gloria ao Pai
Gloria ao Filho
Gloria ao Espírito Santo"

"Me nomeia Embaixador em qualquer parte"

"Me nomeia Capitão do Colo-Colo
Me nomeia, se assim melhor entendes
Presidente do Corpo de Bombeiros"

"Me faz Reitor do Liceu de Ancud"

"No pior dos casos
Me nomeia Diretor do Cemitério"

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28/08/2009
Agora vai o PAI NOSSO do Nicanor Parra, bem inspirado na terrena realidade humana:

"Pai nosso que estás no ceu
Cheio de toda classe de problemas
Com a cara amarrada
Como se fosses um homem comum.
Não penses mais em nós."

"Compreendemos que sofres
Porque não podes consertar as coisas"

"Sabemos que o Demônio não te deixa em paz
Desmanchando o que tú construiste."

"Ele ri de ti
Mas nós choramos contigo:
Não te preocupes com seus risos diabólicos"

"Pai nosso que estás onde estás
Rodeado de anjos desleais
Sinceramente: não sofre mais por nós
Tens que te convencer
Que os deuses não são infalíveis
E que nós perdoamos tudo."

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Obs: ver foto do Nicanor no anexo.

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ATENCIÓN !! (30/08/09)

ATENÇÃO (Nicanor Parra)

"Aos rapazes afeiçoados
Em paqueirar garotas bonitas
Nos jardins dos mosteiros
Faço saber com toda franqueza
Que no amor por casto
Por inocente que pareça no início
Costumam se apresentar suas complicações

Totalmente de acordo
Que o amor é mais doce que o mel

Mas alerta-se
Que no jardim têm luzes e sombras
Além de sorrisos

No jardim têm disgostos e lágrimas
No jardim não tem apenas verdade
Mas também um pouco de mentira."

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AVISO GERAL (meu): No grupo de "E-Books" disponibilizei ontem 29/08/09, o livro "Obra Gruesa" do Nicanor (em Espanhol), que contém grande parte de sua obra literária.
Abraços a todos:
Augusto.
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Respostas a este tópico

Maravilha Augusto! Confesso que apenas conhecia o nome de Nicanor Parra, mas jamais havia lido um sequer de seus trabalhos. Graças a você, agora vou tentar conhecer melhor o grande poeta.
Gracias, amigo.

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Estimado Antonio:
Nem precisa agradecer.
É o menos que posso fazer contribuindo singelamente para vossa grande iniciativa de criar este grupo de Patria Grande, importante e ativo.
Ainda não terminei o envio de alguns materiais do Nicanor.
Nas últimas semanas andei no Chile de correria e impactado pela morte de meu irmão Eduardo (o mais velho) na cidade de Concepción.
Voltei apenas hoje Domingo 04/10. Andei (por esses motivos) bastante afastado da comunicação com os amigos deste portal.
Ontem passei pela casa de minha irmã en Vinha del Mar e um de meus sobrinhos me comunicou com pesar que a nossa querida grande intérprete e folclorista argentina (Mercedes) estava gravíssima, nas portas da morte.
Será mais um importante luto para a cultura continental, como aconteceu décadas atrás com outros grandes nomes como o folclorista Cafrune (marido da Mercedes), Violeta Parra, Víctor Jara e diversos artistas destacados da canção que brota das raízes de nosso continente.
Também lá fiquei sabendo da vitória brasileira de trazer as próximas Olimpíadas.
Os amigos e familiares chilenos também vibraram com isso, como acredito que tenha acontecido em toda a Patria Grande.
Abraços.

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ANTI-ENTREVISTA DO NICANOR PARRA, AO FAZER 95 ANOS EM 2009 (trechos da entrevista, traduzidos por mim)(aceito críticas, tomates, ovos e pedradas em relação à tradução):

"QUASE FAZENDO 95, SE FAZ DE DIFÍCIL PARA RECEBER A IMPRENSA, ENQUANTO ACONTECE A ESTREIA DO DOCUMENTÁRIO COM A VIDA DO PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA QUE REVOLUCIONOU A POESIA ROMPENDO COM AS RIMAS TRADICIONAIS."
Raquel Correa (Jornalista chilena que fez a entrevista)

Simpático (quando está de ânimo). Insuportável (quando não está).
É como se não quisesse falar com ninguém, como se estivesse farto de tudo.
A porta da frente de sua casa tem seu selo: "anti-poeta", escrito com giz e tinta.
Na rua um fusca do ano do arco da velha, imundo.
Mas ele só está preocupado com um pneu murcho.
Onde pretende ir com o calhambeque ?
Chamaco (assim apresentado) é um de seus seis filhos.
E o Chamaco está preocupado com seu pai que amanheceu com tonturas...

No ante-jardim tem um tonel carregado de lâmpadas. Um de seus "artefatos", como os batizou.
Dentro de casa vários outros "artefatos". Máquinas de escrever antigas com letreiros "parrianos", e no fim do corredor uma reprodução da Venus do Milo com um cartaz pendurado do pescoço que diz: "Sou frígida. Apenas posso me mover visando lucro".

Magro e ágil de corpo, este mito da poesia chilena se define assim no seu "Epitáfio":
"De estatura média, com voz nem fina nem grossa. Filho mais velho de um professor primário e de uma modista de interior de loja. Magro de nascença, mesmo devoto da boa mesa....
...Fui o que fui. Uma mistura de vinagre com azeite de cozinha. Um embutido de anjo e besta ! "

Quando assistiu Retrato de un Antipoeta, o documentário com sua historia, diz ao cineasta Víctor Jiménez:
- "Antes de ver este documentário eu pensaba que era bonitão".

As folhas de Parreira ("Parra"):
No 5 de setembro, Parra completa 95 anos.
Nasceu em San fabián de Alico, perto de Chillán, em 1914.
Sua mãe, dona Clara Sandoval, de origem camponesa, tecelã e modista.
Seu pai, Nicanor, era professor primário, tocava o violino e escrevia poemas. Seguramente dali vem a veia artística da dinastia dos Parra, começando com Nicanor, seguindo com a Violeta, que, após
dar "Gracias a la vida" deu-se um tiro por un amor desenganado. Tambem herdaram talentos Roberto e Eduardo ("Lalo"). Os filhos e os netos.
De todos seus irmãos, Nicanor foi o único que teve estudos superiores. Mais ainda: o único que fez estudos secundários completos, em Lautaro, Chillán e Ancud. Aos 18 anos foi embora para Santiago. E entrou no Instituto Nacional Barros Arana com a bolsa da Liga de Estudantes Pobres. Alí ganhou seus trocados como inspetor.
Professor de Matemática e Física, quando se lhe pergunta o que tem a ver a poesia com as matemáticas, não vacila -como não vacilou numa palestra ministrada em Nova York quando lançou a idéia por primeira vez:
-A poesia é pura matemática. Basta ver um teorema: nenhuma palavra de mais, nenhuma de menos.

Criado no bairro Villa Alegre de Chillán, seu primeiro "anti-conto" foi publicado na Revista Nueva, que criara com Jorge Millas e Carlos Pedraza.
Gabriela Mistral, numa cerimónia pública em Chillán, elogiou. "Vai ser um grande poeta".
Mais tarde titulou-se em Mecânica Racional (essa carreira parece um anti-poema, verdade?), especialidade que lecionou no Instituto Pedagógico da U. de Chile.
Não lhe pareceu suficiente. Continuou com Mecânica Avançada na U. Brownsville, Texas.
E Cosmologia em Oxford. Tudo financiado com bolsas.
Seu primeiro anti-conto é Gato no Caminho. E não parou mais. Cancioneiro sem Nome foi elogiado pela própia Mistral.
Somam-se La Cueca Larga, Antipoemas, Versos de salão, Manifestos, Canções russas, Poemas e anti-poemas, Obra grossa, Os professores, Artefatos, Sermões e prédica do Cristo del Elqui, O Antilázaro, Piadas para desorientar à poesia, Coplas de Navidade, Folhas de Parreira e Poemas para combater a calvície, para nomear alguns.
Prêmio Nacional de Literatura em 1969. Têm sido feitos documentários sobre sua vida e obra. Nicanor Parra em Nova York, de Jaime Barros, e Nicanor Parra, de Guillermo Khan. Por estes dias tem estreia o de Victor Jiménez. Mas não sabe se aparecerá na estreia.

Quixotesco - ele prefere "hamletiano"-, tem uma história de amor-amores. Com a primeira esposa teve tres filhos. Logo enamorou-se de uma sueca, Inga, que tinha metade da sua idade. Com ela morou dez anos. Mais tarde, com uma senhora de sobrenome Tuca, ("La Tuca", ele diz) com a que teve a Colombina, artista e arquiteto, e Juan de Dios, "el Barraco".
Mas de todas, seu grande amor foi Ana María Molinari, na que se inspirou para escrever A mulher Imaginária. Tempo depois de separar-se, ela suicidou-se.
Ele mesmo conta que quando lhe propós casamento à mulher imaginária, ela respondeu:
-Como tu quer que case contigo ?. Es um velho boludo..., farrapento, comunista, e ainda por cima Premio Nacional de Literatura. Minha família te poderia perdoar as tres primeiras coisas, mas que sejas Premio Nacional de Literatura, não !!. São pobres e dedicam-se a escrever...

-Ele é chato ou simpático?
-Meio a meio -responde Víctor Jiménez, que teve que suportar mais de um chilique seu. Os alunos o adoram, lhe acossam e lotam qualquer local onde se encontre Parra.
Esquerdista -inclusive comunista em seus tempos moços-, não está com os revolucionários nem com os conservadores. Ele mesmo define-se. Nem capitalista nem socialista, mas tudo o contrário: ecologista. E francamente parrista.

Diretor fantasma:
Atualmente seus dias passan em Las Cruces, onde alunos, professores e acadêmicos de todas partes "peregrinam" para ve-lo. Ainda, es diretor honorário da Universidade Diego Portales: a o valorizam como uma joia. Funciona na Escola de Literatura Criativa. Lhe importa que se saiba que não ganha salário. Rodrigo Rojas, diretor da carreira, comenta:
-Parra é um diretor fantasma.
-Porque não vai nunca?
-Não. Sim vem, mas ele gosta que seu título não seja diretor honorário, mas director fantasma. Ele mesmo assumiu esse título.
De vez em quando ministra palestras.
-Como é tão popular -comenta uma ex aluna-, quando ele vem arma-se uma bagunça. Os alunos levan seus livros para que ele autografe.
Ministra palestras, sobre tudo no primeiro semestre, no seminário sobre Shakespeare...

-Ele exige que tudo seja de surpresa. Vem sem aviso. As vezes chega em traje informal, como se fosse a um safari. Mas quando tem uma atividade acadêmica, viste formal, com gravatas listradas, como se estivesse em Oxford ou Cambridge. Jaqueta de tweed, chapéu...
É asmático e bastante apreensivo. Sofre de tonturas.
Na universidade passeia pelo pátio, vai à lancheria, os alunos lhe rodeiam.
-Seria mais fácil lidar com uma estrela de rock -comenta o diretor-. Todos queren estar perto dele.
E ele gosta de conversar com a rapazeada...

O mais velho de nove irmãos é considerado por muitos como um homem de extrema esquerda. Ele o desmente, de fato, em alguns anti-poemas.
Religioso ?, para nada, entretanto, suas casas estão cheias de cruzes: "artefatos", ele diz.

-Falai, filhos, tem Marx?
-Sim, padre. Marx tem
-Quántos Marxes têm?
-Um só Marx não +
-Onde está Marx?
-No cú, na terra e em todo lugar
-Aleluia? Aleluia!
(Ao final esclarece "diz cú. Deveria dizer céu")....

....Foje dos fotógrafos como do diabo. Frente a nós, se tapa o rosto com ambas as mãos...
-Não dou entrevistas -assegura.
Entretanto, atento mas con ar distraido, segue revisando seu auto bege, como se isso fosse o único que lhe interessa no mundo.
-Não confio nos jornalistas: sempre me tergiversan.
Me mande um questionário -diz mal humorado, em quanto seus olhos bem azuis enchem de riso.
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