Apresento uma pequena reflexão acerca dos desafios da mídia ante o fenômeno da blogsfera.
Vamos retroceder pouco mais de vinte anos, para resgatar a constituição do "Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte". Já citei, em outra ocasião, aqui mesmo no seu blog, minha admiração por Francisco Whitaker. Em 1985, o "Chico" foi um dos formuladores do modelo de organização quase "anárquico" do "Plenário": um modelo de participação espontânea dos interessados, sem exigência de "identidades" padrões, sem comando uniforme acerca das iniciativas, sem datas únicas, sem "coordenação", no sentido mais hierárquico do conceito. O "Plenário Pró-Participação Popular" era uma coalizão em que um "ideário" comum insuflava a criatividade e a iniciativa de todos os seus participantes em qualquer lugar onde se encontrassem. Essa característica determinou uma capacidade extraordinária de multiplicar iniciativas que acabou ecoando fortemente na Constituinte. O conceito chave do Chico era a "rede".
Os estudos sobre as redes de movimentos sociais já possuem algum acúmulo, na sociologia. No Brasil, por exemplo, na Universidade Federal de Santa Catarina, a profa. Ilse Scherer-Warren, publicou um livro com essa denominação, em 1993. Discutindo as teoria dos movimentos sociais na América Latina, ela observa que após os debates sobre as distinções entre os movimentos "tradicionais" e os "novos movimentos sociais", abre-se uma nova abordagem, segundo qual "trata-se de passar da análise das organizações sociais específicas, fragmentadas, para a compreensão do movimento real que ocorre na articulação destas organizações, nas redes de movimentos (i.é, from grassroots to networks)" (Scherer-Warren, 1993: 23). É muito interessante outra observação que ela faz:
"(...) creio que as perspectivas de análises dos movimentos sociais para os anos 90 devem considerar o papel das tecnologias de informação e dos meios de comunicação de massa nas formas de organização da sociedade civil, mesmo porque este campo teve um desenvolvimento notável nos últimos anos. Resta verificar em maiores detalhes, tanto nos meios de comunicação de massa como na imprensa alternativa, os espaços de massificação, de uniformização, de consolidação de ideologias dominantes versus espaços de contestação das formas de dominação ou discriminação, de difusão de propostas alternativas de vida social, de novos valores universalizáveis de acordo com os interesses dos novos atores coletivos mencionados, bem como o espaço para a formação e comunicação das redes de movimentos..." (Scherer-Warren, 1993: 25).
O ex-deputado do PT-RJ, Lizst Vieira, em Argonautas da Cidadania: a sociedade civil e a globalização, publicado em 2001, pela editora Record, observa também a importância que o desenvolvimento das tecnologias de informação tem no campos dos enfrentamentos políticos e ideológicos, mesmo em âmbito internacional, em que a arena de disputa é muito maior e mais complexa:
“A tecnologia das comunicações é fundamental para a atuação das ONGs. Um bom exemplo foi a revolta de Chiapas, no México, em janeiro de 1994, que se tornou uma ‘guerra na Internet’, segundo expressão do ministro do Exterior mexicano, após dez dias de conflito armado. O fácil acesso a ONGs além de fronteiras força os governos a considerar a opinião pública dos países com os quais estão lidando, mesmo em assuntos que tradicionalmente eram tratados nos limites estritos dos governos. Ao mesmo tempo, as redes de ONGs oferecem aos grupos civis canais de influência sem precedentes, uma vez que estes grupos podem acionar outros mais poderosos, que acionam a mídia global e seus governos, de modo a que pressionem outros governos, criando um círculo de influência”. (Vieira, 2001: 205).
Finalizo, com a anotação que fiz na minha dissertação de mestrado (2002), comentando o artigo Direitos Sociais: Conflitos e Negociações no Brasil Contemporâneo, do ano 2000, de Maria Célia Paoli e Vera da Silva Telles:
"Durante o período da Constituinte, emergiu o que Maria Celia Paoli e Vera da Silva Telles (2000) denominam de “espaço público informal, descontínuo e plural”:
“...espaço público informal, descontínuo e plural por onde circularam reivindicações diversas. Espaço público no qual se elaborou e se difundiu uma ‘consciência do direito a ter direitos’, conformando os termos de uma experiência inédita na história brasileira, em que a cidadania é buscada como luta e conquista e a reivindicação de direitos interpela a sociedade enquanto exigência de uma negociação possível, aberta ao reconhecimento dos interesses e das razões que dão plausibilidade às aspirações por um trabalho mais digno, por uma vida mais decente, por uma sociedade mais justa” (Paoli & Telles, 2000: 105).
São verdadeiras “arenas públicas”,
“...nas quais os conflitos ganham visibilidade, como acontecimentos nos quais os sujeitos coletivos se constituem como interlocutores válidos e nas quais os direitos estruturam uma linguagem pública que baliza os critérios pelos quais demandas coletivas são problematizadas e avaliadas nas suas exigências de equidade e justiça” (Paoli & Telles, 2000: 106).
A blogsfera avança no fortalecimento, na multiplicação e na consolidação de tais arenas públicas informais, descontínuas e plurais.