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Edmar Roberto Prandini

Blogsfera: nova arena pública, descontínua, informal e plural

Apresento uma pequena reflexão acerca dos desafios da mídia ante o fenômeno da blogsfera.

Vamos retroceder pouco mais de vinte anos, para resgatar a constituição do "Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte". Já citei, em outra ocasião, aqui mesmo no seu blog, minha admiração por Francisco Whitaker. Em 1985, o "Chico" foi um dos formuladores do modelo de organização quase "anárquico" do "Plenário": um modelo de participação espontânea dos interessados, sem exigência de "identidades" padrões, sem comando uniforme acerca das iniciativas, sem datas únicas, sem "coordenação", no sentido mais hierárquico do conceito. O "Plenário Pró-Participação Popular" era uma coalizão em que um "ideário" comum insuflava a criatividade e a iniciativa de todos os seus participantes em qualquer lugar onde se encontrassem. Essa característica determinou uma capacidade extraordinária de multiplicar iniciativas que acabou ecoando fortemente na Constituinte. O conceito chave do Chico era a "rede".

Os estudos sobre as redes de movimentos sociais já possuem algum acúmulo, na sociologia. No Brasil, por exemplo, na Universidade Federal de Santa Catarina, a profa. Ilse Scherer-Warren, publicou um livro com essa denominação, em 1993. Discutindo as teoria dos movimentos sociais na América Latina, ela observa que após os debates sobre as distinções entre os movimentos "tradicionais" e os "novos movimentos sociais", abre-se uma nova abordagem, segundo qual "trata-se de passar da análise das organizações sociais específicas, fragmentadas, para a compreensão do movimento real que ocorre na articulação destas organizações, nas redes de movimentos (i.é, from grassroots to networks)" (Scherer-Warren, 1993: 23). É muito interessante outra observação que ela faz:

"(...) creio que as perspectivas de análises dos movimentos sociais para os anos 90 devem considerar o papel das tecnologias de informação e dos meios de comunicação de massa nas formas de organização da sociedade civil, mesmo porque este campo teve um desenvolvimento notável nos últimos anos. Resta verificar em maiores detalhes, tanto nos meios de comunicação de massa como na imprensa alternativa, os espaços de massificação, de uniformização, de consolidação de ideologias dominantes versus espaços de contestação das formas de dominação ou discriminação, de difusão de propostas alternativas de vida social, de novos valores universalizáveis de acordo com os interesses dos novos atores coletivos mencionados, bem como o espaço para a formação e comunicação das redes de movimentos..." (Scherer-Warren, 1993: 25).

O ex-deputado do PT-RJ, Lizst Vieira, em Argonautas da Cidadania: a sociedade civil e a globalização, publicado em 2001, pela editora Record, observa também a importância que o desenvolvimento das tecnologias de informação tem no campos dos enfrentamentos políticos e ideológicos, mesmo em âmbito internacional, em que a arena de disputa é muito maior e mais complexa:

“A tecnologia das comunicações é fundamental para a atuação das ONGs. Um bom exemplo foi a revolta de Chiapas, no México, em janeiro de 1994, que se tornou uma ‘guerra na Internet’, segundo expressão do ministro do Exterior mexicano, após dez dias de conflito armado. O fácil acesso a ONGs além de fronteiras força os governos a considerar a opinião pública dos países com os quais estão lidando, mesmo em assuntos que tradicionalmente eram tratados nos limites estritos dos governos. Ao mesmo tempo, as redes de ONGs oferecem aos grupos civis canais de influência sem precedentes, uma vez que estes grupos podem acionar outros mais poderosos, que acionam a mídia global e seus governos, de modo a que pressionem outros governos, criando um círculo de influência”. (Vieira, 2001: 205).

Finalizo, com a anotação que fiz na minha dissertação de mestrado (2002), comentando o artigo Direitos Sociais: Conflitos e Negociações no Brasil Contemporâneo, do ano 2000, de Maria Célia Paoli e Vera da Silva Telles:

"Durante o período da Constituinte, emergiu o que Maria Celia Paoli e Vera da Silva Telles (2000) denominam de “espaço público informal, descontínuo e plural”:

“...espaço público informal, descontínuo e plural por onde circularam reivindicações diversas. Espaço público no qual se elaborou e se difundiu uma ‘consciência do direito a ter direitos’, conformando os termos de uma experiência inédita na história brasileira, em que a cidadania é buscada como luta e conquista e a reivindicação de direitos interpela a sociedade enquanto exigência de uma negociação possível, aberta ao reconhecimento dos interesses e das razões que dão plausibilidade às aspirações por um trabalho mais digno, por uma vida mais decente, por uma sociedade mais justa” (Paoli & Telles, 2000: 105).

São verdadeiras “arenas públicas”,

“...nas quais os conflitos ganham visibilidade, como acontecimentos nos quais os sujeitos coletivos se constituem como interlocutores válidos e nas quais os direitos estruturam uma linguagem pública que baliza os critérios pelos quais demandas coletivas são problematizadas e avaliadas nas suas exigências de equidade e justiça” (Paoli & Telles, 2000: 106).

A blogsfera avança no fortalecimento, na multiplicação e na consolidação de tais arenas públicas informais, descontínuas e plurais.

Tags: arena pública, blogs, blogsfera, informalidade

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Respostas a este tópico

Oi, Edmar
Voltarei aqui depois para te responder com calma que agora tenho um compromisso importante: manifestação pública das antigas, na rua, contra Gilmar Mendes... Mas fiquei satisfeito de te ver aqui, você raramente posta no Grupo Mídia, e estamos precisando de mais pessoas postando.

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Prezada Ana Lu....

Tenha convicção que minha distância não resulta da falta de interesse no tema, muito menos da falta de solidariedade para com os amigos que aqui atuam.

O problema é de tempo e do fato de não estar tão próximo vivencialmente dessa realidade quanto eu gostaria.

Mas, 100% de energia positiva a todos os que aqui se dedicam.

Abraço!

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Sabe, acho que essa "arena" da Internet tem coisas boas e ruins. Fui à manifestação contra o Gilmar, seria tao importante que estivesse cheia, mil pessoas falam nos blogues, mas ninguém tira a bunda da cadeira. Fui cheia de panfletos e entusiasmo. Foram 6 pessoas ao todo, e nao havia ninguém organizando. Assim nada se faz, só se fala.

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Bem... era em São Paulo. Aqui em Brasília será no dia 05 de maio. Mas, acho que o desafio de um ato público contra o presidente do STF é, de fato, um tema árido. Somos poucos ainda os que efetivamente temos acompanhado e entendido o que está se passando. O que há de positivo é que as pessoas que foram, caso não se conhecessem antes, puderam encontrar-se, saindo do meramente virtual.

O informal e descontínuo apresenta-se como indeterminado também. Mas, exprime um sentimento que começa a existir. Em novembro de 1983, a primeira manifestação promovida em favor das Diretas Já foi pequena.

Outro dia, eu propus ao Nassif que provocasse um encontro dos participantes do blog. Disse a ele que eu gostaria muito e creio que muitos outros de nós ficaríamos bem contentes com a oportunidade de nos conhecermos pessoalmente.

Mas, ele ainda não deu nenhum encaminhamento. Quem sabe, evoluamos nessa direção.

Abraço!

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Edmar, estou usando este link para responder ao que você colocou uns 4 ou 5 comentários mais abaixo, porque aquele seu comentário já estava no último nível de respostas previsto e nao tinha link para mais respostas.

Olhe, sobre Economia eu nao entendo quase nada. Mas, do ponto de vista político, vejo o Governo com as maos presas pela questao da governabilidade, enredado nas teias de Dantas, infelizmente (nao estou fazendo julgamento moral, mas nao há almoço grátis, e o PT está pagando o preço por escolhas incorretas que fez sem avaliar as consequências), e, pior, isso se projeta para o futuro, na medida em que nenhum partido consegue eleger seus membros, primeiro, nem governar, depois, sem ser financiado pelos lobistas de sempre, e portanto perder a autonomia de fazer um governo popular, e nao cedendo aos interesses de seus patrocinadores. É por isso que acho a questao da Satiagraha tao importante, central mesmo, na conjuntura.

Ontem encontrei um tópico que julguei maravilhoso do Idelber sobre isso, e postei aqui. Ao que parece, ele nao interessou vocês, nem a você nem o Arkx. E eu que gostaria tanto de saber o que vocês teriam a dizer a respeito...

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Complementando. Você se referiu a uma leitura que eu faria da situação, mas fiquei na dúvida sobre que tipo de leitura você estaria me atribuindo. Me pareceu que você acha que eu nao vejo avanços significativos durante o Governo Lula.

Muito pelo contrário, Edmar. Até acho que os avanços nao foram tao significativos como eu gostaria, mas estou em pânico com a idéia da Direita voltar ao governo, até porque, se ela voltar, podemos esquecer que ela nao deixará mais brechas, dificilmente será possível de novo que a esquerda venha a governar tao cedo (fora a possibilidade da Direita voltar por meio de um golpe "judiciário", com o que ando muito preocupada).

Aliás, o simples fato da mídia que a gente tem bater no governo Lula como ela bate já indica que esse governo incomoda... Faço muitas críticas ao governo Lula, mas ele de jeito nenhum é meu "inimigo principal", para usar o jargao leninista. Muito pelo contrário, muito pelo contrário. Na verdade, naquela manifestação do PSOL que houve aqui no Rio, na Cinelândia, a que eu compareci mesmo tendo que sair de uma aula mais cedo, eu a abandonei depois de ouvir uns dois discursos, de pura irritação com a falta de visao do PSOL com relação a isso. Eles nao vêem o risco de, ao centrar todas as críticas no governo, fortalecer a Direita de sempre (nao digo que nao as façam, mas nao do modo como estao fazendo).

Tb concordo com você de que um dos obstáculos para um novo ascenso do movimento social reside na satisfação do povo com o que ele conseguiu, por mais insuficiente que possa me parecer. Só que aí mora um perigo. E se essa hipótese de golpe que estou vendo realmente se materializar? Será que, de uma hora para outra, seria possível construir a mobilização necessária para barrar isso?

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Ana Lu,

Tenha certeza de que simpatizo MUITO com seu comprometimento e dedicação a prover a discussão de reflexões críticas responsáveis acerca da realidade e da conjuntura política e social.

Não respondi ao debate que você propôs sobre algo que o Idelber escreveu porque não consegui acompanhar e nem cheguei a ler o texto. Infelizmente. Desculpe-me.

Um abraço forte!

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Oi, Edmar

Postei o texto do Idelber aqui mesmo neste tópico, na p. 3, comentário das 18:44, acho. Vale a pena dar uma olhada.
Um abraço
AnaLú

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Concordo, mas é possível alargar as possibilidades, e o ex. do Eduardo é pertinente. Da outra vez que ele convocou manifestações contra o Gilmar, a coisa foi difícil, mas apareceu uma pequena "armada de Brancaleone" de 28 pessoas. É muito pouco, mas fizemos alguma coisa, distribuímos panfletos, etc. Dessa vez os "convocadores" da manifestação foram de uma irresponsabilidade total, convocaram e nem apareceram, nao havia faixas, bandeiras, nada. É possível que mais pessoas tenham ido, mas simplesmente nao acharam a manifestação. O mesmo ocorreu em BH; em Sao Paulo nao sei; eles retiraram do site as reclamações daqueles que foram e nao viram manifestação nenhuma.

Acho que os "grandes blogueiros" (Eduardo, Nassif, Azenha, PHA, Idelber) sao os que mais têm chances de convocar manifestações com comparecimento; mas cada um deles tem uma agenda diferente; e acaba que manifestação nenhuma ocorre.

Eu acho que manifestações adiantam. Podem nao "meter medo" no status quo, mas rompem o silêncio da mídia, disseminam idéias, mostram insatisfação. Podem começar pequenas. Mas é preciso que forças determinadas acreditem nelas, e se responsabilizem por incrementá-las.

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Até concordo. Mas confesso que me sinto um pouco "órfã" quanto a isso. As manifestações nao podem ser convocadas pelos partidos, por causa do sectarismo da esquerda: se forem convocadas pelo PT, o PSOL e o PSTU nao vao; e vice-versa. Quem poderia tomar a frente de um movimento popular hoje?

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Pois é, Arkx, mas entao o que poderíamos tentar encaminhar? Se os partidos de esquerda estao confortavelmente encastelados no poder (PT e PC do B) ou reduzidos a agremiações folclóricas (PSOL e PSTU), e os sindicatos estao apelegados, e a internet é impotente, nao há saída nenhuma? Posso estar vendo fantasmas, mas estou com muito medo de um golpe de estado dado com o judiciário, em vez de com as forças armadas, e fico gelada ao pensar que, se for mesmo dado, nao há quem possa reagir.
Ana Lu,

Não compartilho dessa leitura que você e o Arkx fazem. Aliás, acho que a leitura que ambos fazem é distinta completamente.

O que o Arkx chama de enclausurar nos conchavos de gabinete me parece exagerado demasiadamente para explicitar o que tem representado o governo Lula. Creio que o governo é insuficiente frente a uma gama enorme de anseios que eu tenho. Mas, um balanço honesto de seus resultados aponta para a expansão do desenvolvimento social e da atividade econômica, bem como a melhoria da renda do trabalho. Óbvio que eu não me satisfaço quando sei que R$ 160 bilhões anuais são dedicados ao pagamento de juros da dívida interna.

Mas, registro, por outro lado, que o governo conseguiu conter a expansão desses juros, com oscilação marginal, nos últimos 4 anos. Óbvio, tenho continuamente defendido aqui e no blog do Nassif que a queda da SELIC teria que ser mais rápida.

Mais que isso, defendi que o governo deveria ter vendido dólares para os exportadores, com o pagemento feito via títulos antecipados com deságio. Qual minha lógica: à medida em que a SELIC está em queda, parte dos títulos pré-fixados adquiridos há 2 ou 3 anos atrás, continham taxas de juros acordadas mais altas do que a SELIC atual. Melhor girar a dívida com a SELIC atual do que manter aqueles títulos com taxas mais elevadas.

Então não me contento com a super Bolsa Fortuna... mas, verifico avanços significativos na capacidade de atuação do Estado e nos resultados econômicos e sociais.

Então, isso, a meu ver, tem sido fator do atual "apaziguamento" das lutas sociais. O patamar de necessidades e consciência para mover um novo ascenso do movimento social terá que se elevar. Do contrário, a sociedade vai manter-se relativamente inerte a grandes mobilizações massivas.

As mobilizações de massa com temáticas nacionais como foram as Diretas Já, as Greves Gerais dos anos 80 (82 e 83, especialmente), ou o impeachment do Collor, dependem de grave crise de legitimidade governamental. Tamanha crise de legitimidade que seja capaz de provocar um generalizado consenso social contra sua continuidade, inclusive representado mais por certo maniqueísmo em que o governo representaria o "mal" contra o bem. Numa conjuntura em que encontremos um governo com legitimidade e que não esteja sob uma ameaça nítida, não terá contra si ou a favor de si a mobilização. Para conseguí-lo deveria construir adversários contra quais procurasse mobilizar a sociedade.

Sim, Lula poderia mobilizar a sociedade contra o capital financeiro. Contra a mídia. Mas, creio que ele deliberou reconstruir a capacidade do Estado e viabilizar a melhoria da condição social da população. Afastou-se de posições mais ideologicamente aguerridas, em nome de assegurar governabilidade e, com isso, obter resultados sem enfrentar a ruptura da ordem.

É um problema o esvaziamento do movimento social? Sim, óbvio!
Falta quem avance as propostas políticas além daquelas que o próprio governo pauta. Mas, esta deficiência é da propria sociedade. O trabalho de conscientização e formação de lideranças que a Igreja fez, por exemplo, nas décadas de 70 e 80, reduziram-se muito, dada a nova conformação geral do episcopado após as ações de João Paulo II. Os sindicatos sofreram os impactos da reestruturação produtiva, evidentemente. O movimento ambientalista, no Brasil, cresceu mais próximo da "responsabilidade social e ambiental corporativa", do que dos movimentos dos trabalhadores.

No campo do microcrédito, Arkx, vivemos um enorme paradoxo. Os que pregam a independência das organizações de microcrédito em relação ao Estado são acusados de concederem o crédito a custos mais elevados aos seus clientes, de tal modo que os mais "revolucionários" não podem sobreviver sem subsídio público. É o caso da crítica do movimento de economia solidária ao microcrédito.

Mas, poderíamos questionar: de que modo promover um outro modelo econômico enquanto dependermos do subsídio público sem a possibilidade de romper com os modelos atuais de reprodução social? Neste sentido, as organizações de microcrédito que atuam com taxas de juros mais caras asseguram ao mesmo tempo sua sustentabilidade econômica e uma autonomia política mais nítida, que permitiria uma maior liberdade para pensar. Entretanto, são criticadas por setores que atuam num campo interessante, como a economia solidária.

Boa noite!

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