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Duas faces da Folha: a coragem de Kennedy; a obsessão de Malbergier

Kennedy Alencar é um dos melhores jornalistas da Folha. Entre os colunistas está entre os poucos que cultuam um certo equilíbrio. Ele, Janio, talvez Marcelo Coelho, e não muito mais.

Ninguém pode dizer com certeza se eles têm preferência por um ou outro partido. Não precisam ser "neutros", que ademais é impossível. Particularmente, Kennedy e Jânio são quase sempre críticos - o que é fundamental - mas com um esforço relativamente simples conseguem não ser fanáticos.

No jornalismo de política, a credibilidade passa pelo equilíbrio, necessariamente. Para a maioria dos colunistas da Folha - certamente, é o maior time de colunistas voltados para uma só opinião que já se viu no jornalismo brasileiro - tudo que o governo pratica, faz ou projeta é a visão do inferno.

Para eles, todos os petistas são canalhas; Lula é ignorante, inútil; os ministros são incompetentes; o sucesso econômico é pura herança; e a condução social, é mero populismo; a projeção internacional é obra do acaso; e os seus eleitores uma horda de ignorantes.

O resto é paráfrase. Os nomes não importam. Todos dizem o mesmo.

A avaliação vem antes do objeto avaliado. A crítica, necessária, vira obsessão. Não sabem que, com isso, simplesmente só convencem a quem está convencido. E perdem leitores críticos um pouco mais inteligentes.

Ora, esses mesmos colunistas não usam os mesmos termos para designar outros setores da política, onde também há erros, também há acertos. Exaltam os últimos, escondem os primeiros. Para piorar, colocam-se sob suspeita, diante do fato de que trabalham num órgão de imprensa que tem estreitas relações comerciais com o governo de São Paulo (serviços gráficos, compras suntuosas para escolas, etc e tal).

Quando Kennedy fez a última entrevista, a Folha explorou em manchete e fora do contexto uma frase dita pelo presidente (numa avaliação realista do quadro político brasileiro, que precisa mudar, é lógico) e fez as falsas repercussões a que estamos acostumados. Transformou a avaliação do mal na defesa do mal.

"Jesus faria aliança com Judas", pelo simples fato de que temos um quadro partidário caótico. E foi isso que o PT fez. E foi isso que o PSDB fez.

Mas Kennedy não aceitou o que fizeram com a matéria dele e publicou um artigo esclarecendo o contexto.

Mas antes, logicamente, Sérgio Malbergier teria que mostrar a mesma "indignação" e se repetir mais uma vez (a marca da neurose é a repetição). E praticamente teria que bater na mesma tecla da tradução estúpida que a Folha fez da entrevista.

Estranho Malbergier, que acredita realmente que o PMDB de Sarney é sujo, e o de Quércia, não. Mostrando que há judas e judas.

Em suma: Kennedy é o que resta de uma face plural da Folha. Mas é Malbergier que sintetiza melhor o que se transformou este jornal.

Compare.


Lula, a falha do Brasil
22/10/2009

Lula, já escrevi isso aqui, é o melhor presidente que o Brasil já teve. Fez a melhor ponte, mesmo precária, entre pobres e ricos e fechou o consenso em torno da estabilidade econômica e do respeito às regras básicas do jogo capitalista.

É esse consenso, iniciado em 1994 com o Plano Real, que permite ao país dar um salto econômico transformador.

Mas seu mandato ficará manchado pela cumplicidade com o que há de pior no Brasil, na política brasileira, a corrupção e a impunidade. E esse outro horripilante consenso fechado por Lula e seu PT, de que a corrupção desembestada deve ser tolerada em nome da tal governabilidade, é a maior trava para o desenvolvimento do país hoje.

Na entrevista que deu a Kennedy Alencar (que você pode ler a íntegra aqui), Lula mais uma vez faz de conta que não é com ele. Repete a ladainha, que ele sabe falsa, de que todos são inocentes até que sejam julgados em definitivo pela Justiça brasileira, aquela que não julga nada em definitivo. Mais: Lula defende uma visão equivocada de que, uma vez eleito, o político pode tudo, como se o voto desse licença e legitimidade para qualquer ato, mais espúrio que seja.

"Não adianta falar mal do Congresso, porque ele foi votado pelo povo", disse o petista ao ser indagado sobre seu apoio a Sarney, Renan, Collor etc.

"O cidadão que admira o Lula tem de saber que essas pessoas foram eleitas democraticamente, e o eleitor dessas pessoas é tão bom quanto ele", acrescentou.

É uma lógica torpe, cínica, querendo transferir a crítica que se faz aos piores políticos brasileiros (que o próprio Lula vivia atacando antes de ascender) aos pobres eleitores que votaram nesses supostos representantes.

O pior é que são esses pobres eleitores, em grande parte analfabetos ou semialfabetizados, os que mais sofrem com os líderes que elegem, por ignorância, pressão ou mesmo coerção econômica. Lula, filho do Brasil, sabe de tudo isso, mas é incapaz de outro gesto de grandeza: a de romper com a única coisa que não muda no Brasil, a péssima qualidade de nossa liderança política, o lado B de Lula incluído.

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24/10/2009
Lula e os fariseus

Num país cristão e conservador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou uma expressão inadequada para retratar uma realidade. Disse que seu sucessor teria de fazer alianças políticas conservadoras para governar.

Assim falou Lula: "Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

Jornalisticamente, a frase é muito boa. Forte e de uma clareza ímpar em relação ao que Lula pensa. Enxergar nela ofensa religiosa é exagero. Teve até comunista mostrando inusitada indignação religiosa. Chegou a ser engraçado, farisaico até.

É incontestável a melhora crescente de nossa política desde a redemocratização, em 1985. Mas ela ainda tem vícios graves.

Certamente, o maior deles não é a necessidade de fazer alianças esdrúxulas. Isso é ruim. E o PT paga um preço adicional por ter rasgado princípios éticos de sua fundação em nome do realismo político. Isso merece e deve ser cobrado de Lula e do PT.

No entanto, o maior dos males em nossa política é o financiamento das campanhas eleitorais. Foi montada uma engrenagem que dá vantagem a candidatos sem compromissos com os eleitores, mas apenas com os financiadores que cobrarão a fatura adiante.

O atual modelo de financiamento privado caducou. O financiamento público merecia ser examinado sem preconceito. Poderia até ser permitida a continuidade de algum financiamento de origem privado, mas com limite bem baixo. Outra ideia é levar as grandes empresas a contribuir para um fundo público, que seria distribuído de acordo com o peso de cada partido na última eleição _mais ou menos como se dividem hoje os recursos do fundo partidário e o tempo de rádio e TV no horário eleitoral gratuito.

Mas esse debate não avança. Reforma política virou palavrão por diversos motivos. É uma expressão genérica usada pelos bem e os mal-intencionados. Há muito debate sobre quais projetos deveriam compor o pacote. Definido o pacote, descer aos detalhes, onde reside o Diabo. Opinão: o país não vai melhorar o seu sistema político sem essa reforma.

Pelo peso que tem, o presidente da República deve ser cobrado a tentar tirá-la do papel. Mas não é responsabilidade apenas de Lula. A imprensa tem sua parcela de culpa. Na maioria das vezes, ridiculariza a proposta de reforma ou sentencia que uma nova articulação para aprová-la tenderá novamente a dar em nada. A imprensa deveria fazer uma campanha pela reforma.

Os dois principais partidos do país, PT e PSDB, estão divididos em relação a pontos cruciais, como a eventual criação de uma sistema distrital misto e a lista partidária. O grande bloco governista empurra com a barriga. A atual oposição, que já foi poder por oito anos, faz o mesmo.

Na entrevista à Folha, publicada na quinta-feira 22/10, o presidente Lula teve o mérito de não se comportar como fariseu. Constatou uma triste realidade do sistema político e discorreu com franqueza sobre câmbio, juros, poupança, crise econômica, interferência do Estado na iniciativa privada, imprensa, futebol etc.

A entrevista retrata um presidente maduro e explica por que ele faz um governo bem avaliado e aprovado pela maioria da população. Lula se expôs com sinceridade e clareza de pensamento, algo incomum em entrevistas desse tipo. O petista não se escondeu. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB-SP), tem razão. A entrevista mostrou bem quem Lula é. E a fotografia saiu mais positiva do que negativa, apesar dos fariseus.

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Respostas a este tópico

Boa matéria, Weden. Infelizmente, para cada Kennedy Alencar, há vinte Malbergiers.

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Sim...lógico.

Aliás, na Folha esta proporção é um imperativo.

Beijão..

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Olá Wedencley.
Gostei da matéria, o que deveria ser regra - o equilibrio - no jornalismo, infelizmente foi colocado de lado por uma parte da mídia - especialmente a paulista.
Ainda bem que a internet surgiu para podermos discutir e receber informações de outras fontes. As mídias impressas e as faladas (TV e Rádio) estão perdendo seu espaço para outras alternativas.
Atualmente, há sites, blogs e outros espaços virtuais que são lidos por milhares de pessoas, chegando a ter mais leitores que os principais jornal impressos. Nesse cenário, podemos considerar que essas novas mídias, ligadas à internet, são essenciais para tornar a informação mais democrática e com pluralismo de idéias.
Um abraço.

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