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O caso Antonio Carlos: racismo à brasileira enfrenta resistência na rede


O ex-zagueiro Antonio Carlos Zago, em 2006, cometeu falta violenta no jogador Jeovânio do Grêmio, e saiu de campo "esfregando a pele", referindo-se à cor da vítima.

O gesto é típico no racismo à brasileira: esfrega-se a pele para dizer algo como "porque ele é preto".

No contexto, ficou claro que a violência cometida pelo então jogador do Juventude tinha como causa maior o fato de a vítima ser negra: "Bati porque é preto", seria o enunciado completo forjado entre dedos e caneladas.


Jeovânio (à esq): jogador vítima da violência

O zagueiro foi suspenso por seis meses na época. Hoje, aposentado, ele tenta seguir sua carreira de técnico. Arrependido pelo que fez, ainda sofre as consequencias do seu ato.

Ele foi sondado pelo Vasco, mas a torcida rejeitou o nome, dizendo que no time cruzmaltino "racista não teria vez".

Uma comunidade de torcedores vascaínos no orkut (com 310 mil membros) chegou a fazer campanha estampando a palavra "racista" ao lado da foto do técnico sondado.

Como se sabe, o Vasco foi a primeira agremiação brasileira a admitir jogadores negros no clube.

Palmeiras

Torcedores do Palmeiras também protestaram contra a contratação de Antônio Carlos. Chegaram a divulgar um vídeo no youtube em que diziam que "o clube já tem problemas demais" e que não gostariam de ter um racista à frente do time.

No vídeo de protesto contra a contratação, os torcedores lembraram que, no clube, prevalece "a união de cores, raças e etnias".

http://www.youtube.com/watch?v=VMHRvnCvedI

Lições

Isso mostra duas coisas: o racismo é hoje muito mais discutido na sociedade brasileira que há tempos, quando se jogava o problema para debaixo do tapete, silenciamento que contou com o auxílio luxuoso dos meios de comunicação.

Com a sociedade discutindo mais, abriu-se o espaço para que pessoas comuns, não pertencentes a movimentos sociais, se pronunciarem sobre o problema, finalmente admitido em nossa sociedade.

Mas as discussões não estão passando necessariamente pelos veículos de comunicação tradicionais, que geralmente lidaram muito mal com o problema, porque fazem coro ao discurso da '"plena democracia racial brasileira" - uma das vertentes do conservadorismo nacional.

Numa sociedade em rede, orkuts, blogs e youtubes transformaram-se num canal de comunicação legítimo - embora não institucionalizado - para a vocalização de discordâncias e divergências em relação aos discursos hegemônicos.

Foi o que aconteceu com "o caso Antônio Carlos": os meios tradicionais pouco voltam ao assunto, mas os dispositivos de rede, com seu arquivo difuso, mantêm o caso na memória daqueles que acompanham o futebol.

Antônio Carlos é o símbolo de um novo tempo. Por infelicidade do atleta, ele contribuiu com seu próprio "sacrifício" para mostrar que, daqui para frente, gestos e palavras racistas poderão não ser punidos pela Justiça, mas estigmatizará quem os cometeu por muito tempo.

Isso vai, com certeza, fazer o que a lei geralmente não faz nesses casos: levar o cidadão a pensar duas vezes antes de pronunciar o seu preconceito ou cometer qualquer ato discriminatório.

Embora tenha direito a uma nova vida, todos esperam que Antonio Carlos tenha aprendido a dura lição. E que a sociedade pense duas vezes antes de incorrer num gesto tão lamentável.

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Respostas a este tópico

Que ótimo post, Weden. Excelente a sua interpretação.
o crime de racismo é intolerável e punido por lei.
no entanto, a disseminação do estigma social e de seus componentes contemporâneos como o bullying e os assédios de diversas ordens é tão intolerável quanto à discriminação racial.
de modo que, o teu post para condenar o racismo açula, dissimuladamente e pela cegueira miserável dessa contrapartida político-partidário, como é próprio da elite ideológica à brasileira, a manipulação social, nas redes virtuais, da identidade deteriorada da vítima.
ou seja, teu discurso tendencioso troca seis por meia dúzia.
para defender o não-racismo açula, de modo dissimulado, estigmas e assédios sócio-morais que são o caminho do horror de um estado sem lei, do linchamento moral e físico, da eclosão de uma ordem sócio-jurídica nas mãos do estado totalitário e da sanha barbárie da multidão beócia fundamentalista.
para completar, usa o blog de um jornalista que teve e tem o mérito e a coragem, jornalísticas, de bradar e reportar contra os linchamentos da mídia e da opinião pública como no caso da escola de base e de outros.
abraços!
Caro Weden,

Oportuna esse teu post, comungo dessa idéia de que, o racismo no Brasil, continua permeando o dia a dia dos afro-brasileiros, porém, há um repúdio popular, há um constrangimento do próprio racista e que isso é muito bom.

Infelizmente há setores do movimento negro orgânico que precisa e estimula a manifestação explícita de racismo e chega a pregar que o racista deva ´sair do armário´, que seria mais fácil combate-lo, o que, evidente é equivocado. O racismo é uma doutrina, e se houverem pregadores, haverá também, seguidores.

Nós não podemos estimular isso.

abraços, Militão

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