No comando do último GlobNews Painel, o jornalista William Waak sentencia:

"Acredito que esta frase do Presidente Lula, sobre a culpa da crise, é uma das que mais prejudicam o país em nivel internacional...Eu sou branco e não sou culpado pela crise".

Na quinta, dia 26 de março, na mesma GloboNews, o jornalista André Trigueiro se surpreende: "Como gafes como esta não abalam a popularidade do presidente?"

No meio da semana, logo após a declaração de Lula sobre os culpados pela crise, o G1 publicou: "Lula nega que declaração tenha sido racista".

Metonímia e cegueira interpretativa
Não precisa de muita inteligência para saber que Lula usou a expressão "brancos de olhos azuis" para se referir à elite mundial - especialmente a anglo-saxônica, culpada sim pela crise.

Um caso simples de metonímia, que toma a parte pelo todo.

Mas dizem que enfatizamos na leitura aquilo que queremos: nosso apoio significante para a interpretação que convém. Nesse caso, enfatizaram uma questão especialmente "racial", o que não foi a mesma da imprensa internacional.

Fazendo uma comparação:

1. Lula culpa os brancos de olhos azuis pela crise - leitura de William Waak, jornalista da Rede Globo.

2. Lula culpa os brancos de olhos azuis pela crise (onde brancos de olhos azuis representa, pelo biotipo dominante, a elite mandante do Planeta) - leitura de Maureen Dowd, jornalista do New York Times.


Embora não acredite que as interpretações sejam "de cada um", dependendo sim das posições/lugares ideológicos ocupados pelos indivíduos que interpretam, há que convir que desta vez o que houve foi um sintoma, diversas vezes, já anunciados por aqui: toma-se sempre pelo pior o que é dito por Lula, e insiste-se em "não ver" quando as discussões possam ser no mínimo interessantes. Trata-se de um caso típico de cegueira interpretativa.

O linguista Marcos Bagno tornou-se bem conhecido com suas pregações contra o preconceito linguístico; mas não esqueçamos que o preconceito discursivo também existe e um dos seus fatores é sem dúvida o fato de que o sujeito desse discurso rejeitado pode ser julgado negativamente por não fazer parte de determinado meio, que não o aceita como um igual.

Não se diz aqui que Lula não é mais elite: é lógico que é. E sabe perfeitamente transitar por ela.

Mas Lula não pertence originalmente às elites nacionais. E por isso sua "fala" é tomada sem qualquer condescendência. O ex-governador Claudio Lembo (DEM-SP) disse coisa parecida sobre a "elite branca paulista". E nem por isso foi visto como racista. Não houve repúdio, apenas um certo desconforto.

Além de questões partidárias
A associação de William Waak e André Trigueiro com suas posições partidárias pode soar comezinha. De antemão é necessário que se evite. Isto não é o fator mais determinante. Até porque eles não são os únicos que agem desta forma.

Mas estes seus desdéns são próprios de uma grande imprensa que é capaz de menosprezar qualquer coisa que venha do sujeito Lula, estranho ao meio, e que perde a vez para a imprensa internacional que sustenta ao longo de sete anos as melhores entrevistas com o presidente brasileiro.

Sabe-se que a grande imprensa, em seus cargos de chefia, em seu staff, é dominantemente um ambiente quase sem membros provenientes das classes populares. È evidente que há exceções. Mas são exceções.

E o fato de as melhores entrevistas com Lula terem sido feitas pela imprensa internacional (BBC, The Economist, etc) é uma evidência de como o preconceito pode impedir o bom trabalho.

Confesso que não vi nenhum artigo na grande imprensa brasileira, com uma apropriada, e não contaminada, interpretação da frase do presidente. Posso não ter procurado direito.

Mas fui encontrar no New York Times, possivelmente com muitos olhos azuis, num artigo da já citada Maureen Dowd.

Vale a pena conhecer.

Ganância de olhos azuis?


O artigo de Maureen Dowd foi publicado neste sábado. E toma a frase de Lula para fazer uma discussão interessante: "Obama é uma prova de que também os "olhos castanhos (marrons, para eles) tanto quanto os azuis, podem ser a janela (da alma) dos vencedores".

Ela cita o caso de D*** Cheney, ex-vice-presidente, que recorre frequentemente à mídia para dizer que Obama "está nos tornando menos seguro, porque (naturalmente) é um fraco". E uma "pesquisa" da Universidade Louisville que afirmou que "pessoas de olhos azuis são planejadores e estrategistas melhores".

Esta certeza é tipicamente Ocidental. E está na raiz de muitos dos preconceitos que dominam o mundo. Para ela, Lula tocou numa das maiores "rivalidades" mundiais. Eu diria que ele tocou num dos maiores mitos da Modernidade Ocidental: "a superioridade étnica" dos brancos, principalmente dos brancos anglo-saxões (o melhor exemplo é a perenidade do ícone Jesus, o maior do Ocidente, que apesar de fazer referência a "alguém nascido no Oriente Próximo" aparece como um homem branco de olhos azuis, modelo atribuído aos renascentistas).

Para Dowd, esta foi a melhor frase da semana.

Mas imagina se a imprensa brasileira vai tomar uma frase de Lula para discutir "mitos da Modernidade Ocidental". Afinal a frase é de Lula.

Op-Ed Columnist
Blue Eyed Greed?
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By MAUR...

Published: March 28, 2009

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Respostas a este tópico

Anarquista Lúcida, como vai? Apenas tenha estas referências, mas vou ver se consigo e posto para você, caso não consiga, vou escanear e postar aqui mesmo.
Abraços, Marlon.
Luiza, como vai? Conheço um texto muito belo que fala exatamente a posição do jornalista no contexto intelectual da academia: “A liberdade de fazer “como se deve””, Le Monde Diplomatique, por Alain Accardo, publicado no Brasil pela Caros Amigos (junho/2000, p. 20-21).
O texto resume muito a questão da identidade da maioria da mídia não apenas brasileira. Feitas as devidas ressalvas.
Há um trecho muito interessante e provocativo: “profissionais [jornalistas] cooptados, ideologicamente confiáveis, impedem a entrada de raposas no galinheiro ou de hereges na missa.”
Caso não consiga eu posso postar.
Abraços, Marlon.
Luzete, como vai? Todas as nossas falas estão comprometidas com a posição social, política, ideológica de quem enuncia. Imagina algumas revistas, jornais e programas de televisão fazendo uma defesa do presidente Lula? Seria e é uma cena impensável. Eles sabem muito bem o que dizem e o porque dizem e escolhem a forma de dizer. estão no papel que lhes cabe. Pobre papel.
Abraço, Marlon.
Weden, acho que somente os idealistas e comprometidos com questões universais da humanidade poderiam esperar algum tipo de crítica séria ou profunda (que pese o sentido de crítica de seriedade). Para quem defende o sistema há um limite de criticidade, lembro-me de Nov de Alain Accardo: “as críticas ao sistema estão longe de por em risco a lógica dominante; sustentam apenas um logorréico debate que quase nunca toca no essencial”.
Eu tinha como argumento ou crença pensar que a mídia brasileira era supostamente “burra ou incompetente”, ledo engano meu, não lhes falta conhecimento, nem intelecto, nem informação, nem criticidade, nem tão pouco competência, em muito pelo contrário. O formato que assumem é exatamento a dimensão de visão ideológica de seus patrões, de sua classe social, nem mais, nem menos, por isso que são o que são.
Abraços, Marlon.
Anarquijesta Lúcida, como vai? consegui escanear o texto do prof. Sírio Possenti e do Alan Accarde. Posso enviar pelo e-mail (marlonlero@bol.com.br, entre en contato). Não consegui postar aqui (tenho dificuldades ainda com a internet). Abraços, Marlon.
Marlon, interessantes tuas intervenções.
como andei sumida do tópico (sem broncas weden... sim, sim, ainda faço aquele texto sobre mídia e educação. juro! preciso me inspirar... mirar melhor o interlocutor) não percebi sua contribuição.

mas sabe marlon eu não cobro da imprensa que ela seja de esquerda (gostaria que o fossem) nem cobro que defendam o governo, mas cobro sim que eles nos passem os fatos, a verdade. que falam do MST mas não nos apresentem os dados manipulados. ou seja, queria uma imprensa não aparelhada, não mentirosa. poderia ser contra o MST por qualquer razão que fosse, mas não mentisse sobre quem é o verdadeiro bandido, que não preparasse um teatro para mostrar uma realidade forjada.
Luzete, como vai? Concordo com você em parte. Em parte porque não há um discurso ou uma palavrinha necessariamente neutra, então, mesmo que fosse só de esquerda ainda haveria problemas, mesmo que só defendesse o governo ou o MST, o problema seria maior.
Em parte porque ainda somos utópicos porque nos esquecemos que estamos sujeitos há duas imposição da existência: uma é o sistema capitalista que nos constitui enquanto sujeito e aí cobrar da imprensa que noticie o fato sem se esquecer quem paga a conta, sem se esquecer o IBOPE etc. acredito ser difícil, mas não impossível.
A outra (mesmo que fôssemos “livres” dessa imposição capitalista,estaríamos sujeito a outra) é que somos sujeitos sociais: nascemos em uma língua, em uma cultura e em uma história com tudo que isto pode significar em termos de valores, crenças, práticas sociais, atitudes, sonhos, projetos etc.
Em parte porque concordo sobre a questão do aparelhamento que de fuma certa forma está sendo vencida aos pouco, como este espaço de debate por exemplo. Ainda ficará muito popular.
Fiquei curioso sobre o texto que você comentou com o Weden.
Abraços, Marlon.

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