Os dogmas da bossa-nova

Os dogmas abaixo foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix.

Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar.

Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.

Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.

Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN.

Dogma 2 -- A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.

Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca.

A intenção é levantar se, no período da BN, houve um aumento da participação da música culta ou não.

Se não houve, a comprovação é a de que a BN cumpriu um papel de música culta da mesma maneira que o samba canção, antes dela, e a MPB depois -- ou muito menos.

Seria interessante se pudéssemos comparar também com clássicos da música brasileira em outros períodos, quando a chamada música culta (aquela que integra hoje em dia os clássicos da MPB) conseguia a um só tempo qualidade e penetração popular.

Dogma 3 -- a BN foi sepultada pela infatilização da música brasileira, com a entrada da música jovem.

Tentaremos levantar toda a fauna que surge em função da BN, os lançamentos oportunistas e mostrar que o "mercado" tentou explorá-la da mesma maneira que à Jovem Guarda. Se não conseguiu não foi em função de nenhum estilo mais elaborado, mas porque a criatividade do movimento se esgotou e a BN se banalizou.

Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.

Mas a BN também trazia esse apelo, ainda que se dirigisse a uma juventude pretensamente intelectualizada.

Dogma 4 -- a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.

Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.

Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova.

Dogma 5 - A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira

Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.

Para isso, teremos que discutir uma metodologia para identificar o que é samba canção, samba choro, samba sincopado e o que é BN pura. Aí poderíamos fazer uma linha do tempo com as músicas mais expressivas, tidas como BN e conferir se eram de fato.

Feito isso, separaríamos as músicas BN típicas para delimitar claramente a sua abrangência e importäncia. Acho que vai aparecer uma infinidade de composições menores de compositores menores: a fauna que gravitou em torno do movimento, não conhecia a música popular pré-BN e acabou por produzir uma música inexpressiva.

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Respostas a este tópico

Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.
Nassif,
Todo movimento artístico rompe com alguma característica da arte anterior e abraça outras. A bossa nova, por exemplo, claramente rompeu com o jeito operístico de cantar música popular, comum entre os cantores de antes, mesmo que tenha havido exceções. Mas a bossa nova tornou o canto intimista 'mainstream', para usar uma expressão da moda, e fez com que o canto 'dó de peito' fosse visto até como mau gosto. O que considero exagero, comum de todo movimento artístico, de transformar em pária uma característica dominante anterior.
Mas quem transformou a bossa nova em movimento e rompimento? Quando JG gravou Caimmy logo nos seus primeiros discos de bossa nova, ele estava rompendo? Caimmy foi gravado por Carmem Miranda, outro ícone da música anterior à BN. Mas quando JG modifica harmonias, muda o ritmo e o jeito de cantar, faz algo que não havia sido feito antes. Esse 'rompimento' talvez não seja intencional, da parte de JG ou de Jobim, mas foi visto na época desse modo. Duvido que esses dois, por exemplo, tivessem qualquer restrição à música brasileira anterior. Mas parte dos críticos viram desse modo, parte dos músicos também e foi uma maneira de se afirmar no mercado musical brasileiro, já importante e gerador de riqueza. É um palpite, mas julgo estratégia mercadológica classificar BN como revolucionária. Ela era revolucionária e ao mesmo tempo não era.
A BN, no meu entender, também abriu as portas para os demais 'movimentos de ruptura' que vieram depois, comuns nas artes plásticas, mas até então raros na música brasileira. Vamos lá: a música de protesto e de engajamento político, o tropicalismo (que pode ser visto em parte como uma volta às origens, na sua adoração por Carmem Miranda, e até mesmo na gravação galhofeira dos Mutantes para Chão de Estrelas) e, tardiamente, o rock brasileiro.
Deixo claro que, por trás de cada justificativa mercadológica que sobreviveu ao tempo, existiam músicos e música sólida. Os exageros foram estratégicos, mas havia talento. Ou alguém vai dizer que os Beatles eram só uma jogada de marketing? Eram sim, mas havia muito talento por trás. A BN deixou uma herança, mais significativa ainda pelo fato de que muitos de seus expoentes reconheceram a herança da música anterior e fizeram questão de homenageá-la, como Nara Leão, Chico Buarque, JG, o próprio Jobim e muitos outros.
Se tiver tempo, comento os outros 'dogmas'.
Na mosca! Na mosca! O grande mérito de João Gilberto foi que, ao incorporar e dar visibilidade à batida de Garoto e incluir o seu (de João) modo de cantar, permitiu que, na batida, fosse incorporado o melhor repertório brasileiro das décadas anteriores, do samba-choro ("Chega de Saudade" era), ao sincopado ("O Pato"), do samba-canção ("Manhã de carnaval") à composição tipicamente da fase ("Samba de uma nota só").

João Vergílio Gallerani Cuter said:
O que é uma cadeira? É um objeto feito de madeira que serve para sentar? Uma cadeira de metal não é cadeira? Uma banqueta é uma cadeira? E se eu uso um caixote para me sentar sobre ele, será que esse caixote se transforma por isso em uma cadeira? Uma cadeira quebrada continua sendo uma cadeira? Até que ponto? E será que existe UM ponto a partir do qual a cadeira quebrada deixa de ser uma cadeira? Se um artista pré-histórico tivesse esculpido um objeto exatamente análogo às nossas cadeiras, mas que fosse utilizado como a representação de um deus, exposto num altar, será que poderíamos dizer que esse artista foi o fabricante da primeira cadeira que a humanidade produziu? Aliás, qual será que existiu a "cadeira inaugural" - a primeira cadeira que a humanidade produziu?
Conceitos não são delimitados por um conjunto fixo e determinado de características necessárias e suficientes. Isso que não podemos fazer com um conceito simples, como o de cadeira, não podemos fazer também com conceitos históricos, como Bossa Nova. Seria inútil procurarmos um conjunto de características que se aplicam apenas à Bossa Nova, e a nada mais. Esse conjunto simplesmente não existe. É mais razoável encararmos a Bossa Nova como uma constelação de manifestações artísticas muito diferentes entre si que passaram a gravitar em torno de um núcleo, na minha opinião, muito claro - João Gilberto. João Gilberto certamente inventou muitas coisas, no único sentido que "invenção" pode ter em arte: fez uma nova síntese de elementos pré-existentes. Tomou a batida de violão do Garoto (ouvi as gravações, você tem total razão), tirou os ornamentos musicais que estavam ligados à expressão de emoções, e pôs toda a ênfase nos ornamentos musicais "absolutos", ou seja, que não remetem a nada que seja exterior à própria música - divisão, ritmo, afinação, riqueza harmônica, e por aí vai. A partir daí, toda uma série de artistas que tinham alguma coisa em comum com essas novas "ênfases" passaram, não tanto a compor e cantar de outra maneira, mas a serem OUVIDOS de outro modo. Mais precisamente, passaram a ser agrupados de um outro modo, em virtude de semelhanças parciais que tinham com esse baiano genial. João Gilberto não inventou a Bossa Nova. Foi inventado por ela, no seguinte sentido - tornou-se um ponto de referência de todas as pessoas que passaram a avaliar a música popular utilizando uma outra escala de valores. Bossa Nova é muito mais o nome desse novo sistema de avaliação, do que o nome de um movimento. Tanto é assim, que ela serviu à reavaliação de artistas que já estavam na praça há um bom tempo, e não tinham a menor pretensão de pertencerem a "movimento" nenhum. A que movimento pertencia Lúcio Alves, por exemplo? Ou Radamés Gnatalli? Ou Garoto? Ou Pixinguinha, para irmos mais atrás no tempo? A nenhum. Isso não quer dizer que não tenham trazido inovações, e que elas não tenham sido até mais numerosas e profundas do que as trazidas pelo próprio João Gilberto. Quer dizer apenas que não se transformaram em bandeiras. Permaneceram sendo até o final da vida exatamente aquilo que sempre foram: artistas de primeiríssima grandeza, como o próprio João Gilberto também foi.
Prezado Nassif,

Aqui vai a opinião de um leigo. Perdoe se eu escrever alguma bobagem.

Dogma 1- A bossa-nova foi uma revolução. Representou uma ruptura. O fato de ter sido uma revolução não significa que já não havia uma tendência neste sentido, que vinha se desenvolvendo com o samba-canção de Johnny Alf, com a música de Garoto e etc. Por exemplo, a música de Debussy representou uma ruptura, principalmente na harmonia. Porém a música de Wagner já prenunciava essa ruptura que viria com Debussy. A ruptura da bossa-nova veio com o primeiro disco de João Gilberto. A interação da sua voz cool temperada com aquela harmonia inovadora da batida do violão deu origem a um novo estilo musical.
Quanto aos depoimentos talvez seria interessante, também, entrevistar os músicos que surgiram após a bossa-nova. Os que surgiram antes, principalmente aqueles que não aderiram ao movimento, provavelmente não vão mesmo concordar que a bossa-nova tenha representado uma ruptura.


Dogma 3 – Essa “infantilização” ocorreu com todos os estilos musicais. É uma simplificação exigida pelo mercado, para vender mais. No rock dos anos sessenta, por exemplo, quantos não foram os conjuntos que pegaram a “formulinha” dos Beatles e simplificaram, com objetivos puramente comerciais?


Dogma 4 – Sem dúvida que não. Acho que nem os proponentes mais ardorosos da bossa-nova pensam assim. Ela inaugurou, (ou, talvez, acentuou), um estilo cool na música popular brasileira.

Dogma 5 – Concordo plenamente. Essa história de dizer que um estilo musical é melhor, ou superior é bobagem; é preconceito. A bossa-nova tem alguns elementos do jazz, de Debussy, de Ravel, de Vila-Lobos. É claro que, como se trata de música brasileira ela é fruto direto do samba-canção, da música de Garoto, de Caymmi e etc. Ela recebeu algumas pitadas de Debussy, Ravel e do jazz. Quando ouvimos as músicas do Tom, com toda a sua orquestração característica, aquilo tem muito de Debussy. “Dindi”, por exemplo, “chovendo na roseira”... É bem nítida a influência, principalmente na harmonia.
1. O que afirmo é que essa ruptura já tinha se dado antes da bossa-nova. No plano estritamente musical, ela foi uma continuidade da evolução da MPB dos anos 40. A propósito, Garoto foi bastante influenciado por Debussy. Já apresentei no blog umas faixas de Garoto mostrando que a batida já era praticada por ele.
2. Quem me garantiu que não houve ruptura foi um dos grandes músicos da transição da BN para a MPB: Baden. Outro foi Carlos Lyra.
Alguns links interessantes que achei:

http://www.edulobo.com/textos/constr_desconstr/condescon03.html (entrevista com Edú Lobo)

http://onne.com.br/conteudo/4447/nem-toda-bossa-nova (Carlos Lyra)

http://tropicalia.uol.com.br/site/internas/leituras_gg_bossa2.php (Da Bossa Nova à Tropicália - Contenção e excesso na música popular
Santuza Cambraia Naves)
Quanto ao jeito de cantar de João Gilberto, é surpreendente a semelhança com Chet Baker no disco chamado "Embraceable You". Esse disco é de 1957, portanto, anterior ao "Chega de Saudades" de João. Não sei se é coincidência ou João Gilberto sofreu, mesmo, influência direta de Chet Baker, principalmente desse disco.
Oi, Nassif.

Os cinco dogmas levantados fornecem, realmente, combustível para uma longa viagem. Sabemos que a questão "tempo", impera. Quem sabe, aumentando a quantidade de mãos, você não se anima e coloca o pé na estrada novamente? Outro aspecto é que, infelizmente, muita gente boa da área de música está partindo e, com elas, lá se vão também, nossas preciosas fontes de pesquisas para os depoimentos.

A aprendizagem e o desenvolvimento humanos, simplificadamente, é caracterizado como um processo contínuo, gradativo,cumulativo... e se dá em todos os "campos de vivência" ou "fenômenos psicológicos", envolvendo as esferas psicomotora (o fazer), cognitiva (o pensar) e afetiva (o sentir). Essas esferas, obviamente, agem integradamente, mantendo interface com a esfera social (cultura, ciência, realidade...). Estabelecendo um paralelo com a Bossa Nova, acho que ela pode e deve, também, ser vista com base na caracterização descrita acima.Nenhuma ruptura acontece de repente em qualquer área do comportamento humano e com a Bossa Nova não podia ser diferente, no que concordo com o colega João Vergílio que, por sinal, foi muito feliz em suas colocações.

Sempre que lemos sobre a história da Bossa Nova, constatamos que a maioria dos pesquisadores afirmam que o "parto" aconteceu com o lançamento, pela Odeon, em 10/08/1958, do disco do baiano João Gilberto, com as músicas "Chega de Saudade" (Tom e Vinícius de Moraes) e o baião "Bim-Bom" de sua autoria. O curioso é que na opinião de Tom Jobim "Chega de Saudade" não é uma composição bossanovista. Em depoimento ao crítico musical Tárik de Souza ele diz: "Inventei uma sucessão de acordes, que é a coisa mais clássica do mundo e botei ali uma melodia. Depois o Vinícius colocou a letra". Na verdade a bossa nova (o que tem de novo) nessa gravação está quase toda na harmonia, no ritmo e, principalmente, na interpretação de João Gilberto como cantor e violonista.

A harmonização de uma melodia no Brasil nos anos 40, era quase sempre indicada de maneira rudimentar. Eram as chamadas "primeira do tom" (um acorde perfeito de tônica), "segunda do tom" (um acorde perfeito da dominante) e "terceira do tom com sétima" (acorde sub-dominante acrescido da sétima). Harmonizar uma canção pode ser descrito, em termos simples, como colocar um acompanhamento instrumental à melodia cantada. A harmonia segundo o musicólogo M. Fétis, é a "ciência dos acordes". Um acorde é a emissão de duas ou mais notas simultâneas. Um cantor sozinho não pode emitir um acorde, mas uma nota de cada vez, e uma sequência de várias notas cantadas é uma melodia.

Os acordes invertidos, além do ritmo, são a marca registrada do violão de João Gilberto. O convívio musical que teve com o professor e maestro Arnaldo Albuquerque, amigo de Radamés Gnattali, contribuiu muito para seu conhecimento de harmonia, bem como a aproximação com Tom Jobim. É fato que Tom foi predonderante nos rumos da harmonia da Bossa Nova, já que ele vinha de experiências como arranjador, ou seja, criava novas harmonias que dessem colorido diferente as canções já gravadas.

Acho que a música brasileira, ou melhor, a canção popular, constitui a forma artística que mais se identifica com a nossa gente. Escritores como Mário de Andrade, Manoel Bandeira, José Lins do Rêgo...reconhecem o poder que emanda da nossa música. Sua enorme capacidade de expressão não resulta apenas no leque aberto de gêneros e estilos que se cruzaram: culturas africana, européia, indígenas, músicas de festas, cantos liturgícos de igrejas e terreiros, danças importadas como a polca..., mas da íntima integração de todos esses gêneros e estilos. Asim como nós seres humanos não funcionamos bem, estratificando nossos campos de vivências, o mesmo se dá com a nossa música e, em especial, com a Bosa Nova.

Na hitótese do dogma nº 1 ser verdadeiro, como se explica, o próprio João Gilberto continuar, mesmo depois do "divisor de águas" - "Chega de Saudade" (1958), continuar a cantar/gravar sambas tr
João,

Vou me intrometer. Uma opinião de leigo.

Essa história de dissonância na música popular acho que veio com a bossa-nova, principalmente; se acentuou mais com ela. Desconfio que já existia uma tendência para a dissonância, no samba-canção. Daí dizer que teve a influência de Debussy e Ravel; indireta, talvez, por Villa-Lobos e outros maestros. Não sei se você concorda.
Colegas: Só agora me dei conta que meu comentário de ontem saiu incompleto, mesmo eu tendo digitado todo. Devo ter feito algo errado na hora de enviar.Vou tentar novamente, do parágrafo que ficou incompleto.

Na hipótese do dogma nº 1 ser verdadeiro, como se explica, o próprio João Gilberto continuar, mesmo depois do "divisor de água" - 'Chega de Saudade" (1958), continuar cantando e gravando sambas tradicionais como: "Rosa Morena" (1942), de Dorival Caymmi, "Aos pés da cruz" (1942), de Zé da Zilda e Marino Pinto, "Morena boca de ouro" (1941) de Ary Barroso...?Essa postura de João Gilberto permaneceu pelo tempo afora, com gravações de muitos sambas, marcinhas, marcha-rancho, valsas, boleros, foxes...Na hipótese da obra de João Gilberto não ter vingado nesses 50 anos, nem por isso a canção brasileira deixaria de ter seu valor. Mas convenhamos que uma pitada de João Gilberto, no molho, faz uma grande diferença no sabor.

Agora se a "produção da Bossa Nova foi a mais rica e sofisticada da música brasileira" (dogma nº 5), posso até concordar, desde que os créditos, também, sejam estendidos a excelente safra de pré-bossanovistas como Noel Rosa, Vadico, Dorival Caymmi, Custódio Mesquita, Garoto, Laurindo Almeida, Luís Bonfá e muitos outros.

Assim como pouca gente ousaria a recriar em cima de uma partitura de Beethoven ou Bach, o mesmo digo em relação as partituras de "Corcovado", "Garota de Ipanema" e outras pérolas da Bossa Nova.

Amo de paixão a música brasileira, de todos os tempos, e isso, as vezes, compromete um pouco(?) meus comentários, permitindo (inconscientemente ou conscientemente) que a esfera da "Afetividade" reine, em alguns casos sozinha, em detrimento da esfera "Cognitiva". Mas estou ciente dessa postura, e até aceito alguns puxões de orelha dos colegas desse excelente Grupo de Música.

Abraços a todos. Laura.
Oi, João Vergílio.

Acho que vou lhe decepcionar um pouco, ou muito, porque, também, não sou especialista na temática "dissonância". Sou Pedagoga/Orientadora Educacional/Professora e trabalho com a Psicologia aplicada à Educação. Mas uma das minhas grandes paixões é a música em todos os sentidos, ou seja, ouvir, ler, pesquisar e até escrever alguns artigos sobre música, e pasme, mesmo não possuindo nenhum talento musical (nem mesmo ouvido bom), insisto em aprender a executar alguma coisa no violão. Isso é que é aberração!!!!!

Vou lhe responder de forma empírica, mas fica a promessa que vou pesquisar mais sobre o assunto, ok? Quanto ao seu questionamento que "os acordes dissonantes parecem aparecer com a Bossa Nova",a minha opinião é a seguinte: A música brasileira, acredito que a partir dos anos 20, é caracterizada pelo ritmo brejeiro, pela sinceridade quase sublime das letras... E alguns compositores como Noel Rosa, Nonô (Romualdo Peixoto - "O Chopin do Samba"), Custódio Mesquita, Garoto, Laurindo Almeida....fundaram um novo paradigma. Eles forem as células embrionárias populares que fomentaram, inspiraram e nortearam aqueles que viriam buscar qualidade na MPB.
Mas a retirada de cena de muitos deles (como se morria cedo naquela época), concomitantemente com o início da Era Vargas, o consequente fechamento dos Cassinos...marcou a inibição do processo criativo e lúdico da MPB.
Acho que as notas e acordes dissonantes estiveram embrionariamente presentes no trabalho desse pessoal, e que ficaram adormecidas por um tempo, vindo a se popularizar com a Bossa Nova.
No nosso Grupo de Música quem tem mais subsídios para uma resposta técnica e consistente é o nosso "garoto", Nassif.
A bola está com você "garoto"!!! rs...

Abraços Laura.
João,
Se você escutar Aquarela do Brasil com atenção, verá que não há só acordes naturais no arranjo, principalmente nos metais. Pudera, o arranjo original é de Radamés Gnatalli! Meu palpite - pois não sou pesquisador da área - é que o ambiente da Rádio Nacional, cassinos etc., propiciou o contato dos autores e músicos da música popular com os maestros e arranjadores de formação erudita. As soluções harmônicas mais sofisticadas desses arranjos podem ter estimulado os compositores a fazerem músicas já com seqüências mais complexas de acordes, os músicos populares a terem interpretações mais sofisticadas e por aí vai. Isso no Rio de Janeiro. Mas o Rio era a capital do país.
No restante do Brasil, devemos lembrar que o ensino de música é instituído na década de 30 por Getúlio Vargas, por inspiração e direção de Villa-Lobos. Tenho absoluta certeza de que esse foi o passo essencial para a formação de um grande público ávido por uma música popular mais sofisticada e que desembocou na bossa nova. Imagine a influência da música que se fazia na capital do país aliada com milhares e milhares de crianças estudando música e cantando em corais nas escolas. Imaginou? Deu na bossa nova e na explosão de gêneros dos anos 60. Pelo menos essa é a minha hipótese.
Agora, o ensino de música foi 'desobrigado' na reforma de ensino de 1970...

João Vergílio Gallerani Cuter said:
Laura,

Já que você resolveu nos dar uma "canja", vou aproveitar para lhe fazer uma pergunta. Você sabe como foi introduzida a dissonância na MPB? As harmonizações, desde a década de 30, já estavam bem sofisticadas. Não sou especialista no assunto, mas de vez em quando eu me tranco no quarto e cometo minhas barbaridades. Não dá para tirar os acordes básicos de uma música de Ari Barroso olhando para as estrelas, né? Mas a minha impressão é que os acompanhamentos só faziam uso de acordes naturais, mesmo nos arranjos mais sofisticados. (Corrija-me se eu estiver errado, ok? É só impressão de leigo, mesmo.) Acordes dissonantes parecem aparecer depois, com a Bossa Nova. (Ou não? Já vejo o Nassif postando um link do Garoto... rs...)
Ademário,
esse modo "clean" de cantar já existia amplamente na música brasileira. Nos dois gêneros que mais influenciam João Gilberto - samba sincopado e samba choro - nenhum intérprete reverberava a voz. É só conferir Ciro Monteiro, Dilermando Pinheiro, Luiz (esqueci o sobrenome), Joel e Gaúcho e os cantores dos conjuntos vocais, dos Anjos do Inferno aos Cariocas, passando por Lúcio Alves e D*** Farney. Todos eles são cantores até hoje contemporâneos. O que João Gilberto fez foi incluir o estilo de Chet Baker. O jeito operístico de cantar existia antes, continuou existindo durante e depois.


Ademário Iris da Silva Junior said:
Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.
Nassif,
Todo movimento artístico rompe com alguma característica da arte anterior e abraça outras. A bossa nova, por exemplo, claramente rompeu com o jeito operístico de cantar música popular, comum entre os cantores de antes, mesmo que tenha havido exceções. Mas a bossa nova tornou o canto intimista 'mainstream', para usar uma expressão da moda, e fez com que o canto 'dó de peito' fosse visto até como mau gosto. O que considero exagero, comum de todo movimento artístico, de transformar em pária uma característica dominante anterior.
Mas quem transformou a bossa nova em movimento e rompimento? Quando JG gravou Caimmy logo nos seus primeiros discos de bossa nova, ele estava rompendo? Caimmy foi gravado por Carmem Miranda, outro ícone da música anterior à BN. Mas quando JG modifica harmonias, muda o ritmo e o jeito de cantar, faz algo que não havia sido feito antes. Esse 'rompimento' talvez não seja intencional, da parte de JG ou de Jobim, mas foi visto na época desse modo. Duvido que esses dois, por exemplo, tivessem qualquer restrição à música brasileira anterior. Mas parte dos críticos viram desse modo, parte dos músicos também e foi uma maneira de se afirmar no mercado musical brasileiro, já importante e gerador de riqueza. É um palpite, mas julgo estratégia mercadológica classificar BN como revolucionária. Ela era revolucionária e ao mesmo tempo não era.
A BN, no meu entender, também abriu as portas para os demais 'movimentos de ruptura' que vieram depois, comuns nas artes plásticas, mas até então raros na música brasileira. Vamos lá: a música de protesto e de engajamento político, o tropicalismo (que pode ser visto em parte como uma volta às origens, na sua adoração por Carmem Miranda, e até mesmo na gravação galhofeira dos Mutantes para Chão de Estrelas) e, tardiamente, o rock brasileiro.
Deixo claro que, por trás de cada justificativa mercadológica que sobreviveu ao tempo, existiam músicos e música sólida. Os exageros foram estratégicos, mas havia talento. Ou alguém vai dizer que os Beatles eram só uma jogada de marketing? Eram sim, mas havia muito talento por trás. A BN deixou uma herança, mais significativa ainda pelo fato de que muitos de seus expoentes reconheceram a herança da música anterior e fizeram questão de homenageá-la, como Nara Leão, Chico Buarque, JG, o próprio Jobim e muitos outros.
Se tiver tempo, comento os outros 'dogmas'.

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