Os dogmas da bossa-nova

Os dogmas abaixo foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix.

Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar.

Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.

Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.

Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN.

Dogma 2 -- A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.

Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca.

A intenção é levantar se, no período da BN, houve um aumento da participação da música culta ou não.

Se não houve, a comprovação é a de que a BN cumpriu um papel de música culta da mesma maneira que o samba canção, antes dela, e a MPB depois -- ou muito menos.

Seria interessante se pudéssemos comparar também com clássicos da música brasileira em outros períodos, quando a chamada música culta (aquela que integra hoje em dia os clássicos da MPB) conseguia a um só tempo qualidade e penetração popular.

Dogma 3 -- a BN foi sepultada pela infatilização da música brasileira, com a entrada da música jovem.

Tentaremos levantar toda a fauna que surge em função da BN, os lançamentos oportunistas e mostrar que o "mercado" tentou explorá-la da mesma maneira que à Jovem Guarda. Se não conseguiu não foi em função de nenhum estilo mais elaborado, mas porque a criatividade do movimento se esgotou e a BN se banalizou.

Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.

Mas a BN também trazia esse apelo, ainda que se dirigisse a uma juventude pretensamente intelectualizada.

Dogma 4 -- a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.

Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.

Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova.

Dogma 5 - A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira

Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.

Para isso, teremos que discutir uma metodologia para identificar o que é samba canção, samba choro, samba sincopado e o que é BN pura. Aí poderíamos fazer uma linha do tempo com as músicas mais expressivas, tidas como BN e conferir se eram de fato.

Feito isso, separaríamos as músicas BN típicas para delimitar claramente a sua abrangência e importäncia. Acho que vai aparecer uma infinidade de composições menores de compositores menores: a fauna que gravitou em torno do movimento, não conhecia a música popular pré-BN e acabou por produzir uma música inexpressiva.

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Respostas a este tópico

Que nada. Já havia acordes dissonantes na música de Armandinho das Neves (que foi parceiro de João Pernambuco). Garoto e Laurindo são muito influenciados por Django, em uma viagem que fizeram a Paris. Essa harmonização dissonante se consolida durante e no pós-Guerra, a partir dos cassinos. Uma influência marcante, nos anos 50, foi Barney Kessel. Mas se ouvir os choros e arranjos de Severino Araújo (Orquestra Tabajara), os vocais de Os Cariocas pré-bossa-nova, o piano de D*** Farney, estava tudo lá. Dorival Caymmi também foi muitissimo importante.

Ademário Iris da Silva Junior said:
João,
Se você escutar Aquarela do Brasil com atenção, verá que não há só acordes naturais no arranjo, principalmente nos metais. Pudera, o arranjo original é de Radamés Gnatalli! Meu palpite - pois não sou pesquisador da área - é que o ambiente da Rádio Nacional, cassinos etc., propiciou o contato dos autores e músicos da música popular com os maestros e arranjadores de formação erudita. As soluções harmônicas mais sofisticadas desses arranjos podem ter estimulado os compositores a fazerem músicas já com seqüências mais complexas de acordes, os músicos populares a terem interpretações mais sofisticadas e por aí vai. Isso no Rio de Janeiro. Mas o Rio era a capital do país. No restante do Brasil, devemos lembrar que o ensino de música é instituído na década de 30 por Getúlio Vargas, por inspiração e direção de Villa-Lobos. Tenho absoluta certeza de que esse foi o passo essencial para a formação de um grande público ávido por uma música popular mais sofisticada e que desembocou na bossa nova. Imagine a influência da música que se fazia na capital do país aliada com milhares e milhares de crianças estudando música e cantando em corais nas escolas. Imaginou? Deu na bossa nova e na explosão de gêneros dos anos 60. Pelo menos essa é a minha hipótese. Agora, o ensino de música foi 'desobrigado' na reforma de ensino de 1970...

João Vergílio Gallerani Cuter said:
Laura,

Já que você resolveu nos dar uma "canja", vou aproveitar para lhe fazer uma pergunta. Você sabe como foi introduzida a dissonância na MPB? As harmonizações, desde a década de 30, já estavam bem sofisticadas. Não sou especialista no assunto, mas de vez em quando eu me tranco no quarto e cometo minhas barbaridades. Não dá para tirar os acordes básicos de uma música de Ari Barroso olhando para as estrelas, né? Mas a minha impressão é que os acompanhamentos só faziam uso de acordes naturais, mesmo nos arranjos mais sofisticados. (Corrija-me se eu estiver errado, ok? É só impressão de leigo, mesmo.) Acordes dissonantes parecem aparecer depois, com a Bossa Nova. (Ou não? Já vejo o Nassif postando um link do Garoto... rs...)
Ele é um harmonizador excepcional, com seu violão.

Maria Dirce said:
Eu por ex não gosto do João Gilberto tocando e cantando.acho monótono e chato, mas a maioria acha maravilhoso.
O Jacob se dizia influenciado por Nonô, naquele jeito de tocar no tempo fraco.

Laura Macedo said:
Oi, João Vergílio.

Acho que vou lhe decepcionar um pouco, ou muito, porque, também, não sou especialista na temática "dissonância". Sou Pedagoga/Orientadora Educacional/Professora e trabalho com a Psicologia aplicada à Educação. Mas uma das minhas grandes paixões é a música em todos os sentidos, ou seja, ouvir, ler, pesquisar e até escrever alguns artigos sobre música, e pasme, mesmo não possuindo nenhum talento musical (nem mesmo ouvido bom), insisto em aprender a executar alguma coisa no violão. Isso é que é aberração!!!!!

Vou lhe responder de forma empírica, mas fica a promessa que vou pesquisar mais sobre o assunto, ok? Quanto ao seu questionamento que "os acordes dissonantes parecem aparecer com a Bossa Nova",a minha opinião é a seguinte: A música brasileira, acredito que a partir dos anos 20, é caracterizada pelo ritmo brejeiro, pela sinceridade quase sublime das letras... E alguns compositores como Noel Rosa, Nonô (Romualdo Peixoto - "O Chopin do Samba"), Custódio Mesquita, Garoto, Laurindo Almeida....fundaram um novo paradigma. Eles forem as células embrionárias populares que fomentaram, inspiraram e nortearam aqueles que viriam buscar qualidade na MPB.
Mas a retirada de cena de muitos deles (como se morria cedo naquela época), concomitantemente com o início da Era Vargas, o consequente fechamento dos Cassinos...marcou a inibição do processo criativo e lúdico da MPB.
Acho que as notas e acordes dissonantes estiveram embrionariamente presentes no trabalho desse pessoal, e que ficaram adormecidas por um tempo, vindo a se popularizar com a Bossa Nova.
No nosso Grupo de Música quem tem mais subsídios para uma resposta técnica e consistente é o nosso "garoto", Nassif.
A bola está com você "garoto"!!! rs...

Abraços Laura.
Nassif,
Eu aceito que existiam cantores anteriores à bossa nova com o estilo intimista. Mas eles não eram dominantes, por assim dizer. O estilo bossa-novista de cantar, se já existia, só se torna o principal depois da bossa-nova. Recordo um festival nos anos 80 em que apareceu Jessé (lembra?) como se fosse uma 'novidade' no estilo de cantar. O que ele fazia, no entanto, era emular um jeito mais antigo de interpretar, anterior à BN, e que agora aparecia como 'novidade'.
Sempre vão existir artistas à frente de seu tempo e outros que resgatam o que ficou para trás. O que eu acho que não pode ser negado é a dominância do estilo intimista durante e por algum tempo depois da bossa-nova. Basta ver filmagens da Atlântida antes de 58, para se ter idéia do que era dominante na música pré BN. Basta ouvir Elis Regina antes de Cesar Camargo Mariano, para se ter uma idéia do quanto a influência da BN moldava o jeito de cantar nos anos 60.
Quando eu era criança e acompanhava os grandes festivais pela TV, lembro-me de ver os filmes da Atlântida nas sessões da tarde e pensar que eles eram de um tempo 'longíquo', tal era a diferença no que eu ouvia ali e no que a TV trazia ao vivo nos festivais. Acho que é dessa 'ruptura', que começa com JG, Jobim e os demais, que a BN traz essa impressão de vanguarda, que ela carregou com seu jeito tímido de ser.
Um abraço

Luis Nassif said:
Ademário,
esse modo "clean" de cantar já existia amplamente na música brasileira. Nos dois gêneros que mais influenciam João Gilberto - samba sincopado e samba choro - nenhum intérprete reverberava a voz. É só conferir Ciro Monteiro, Dilermando Pinheiro, Luiz (esqueci o sobrenome), Joel e Gaúcho e os cantores dos conjuntos vocais, dos Anjos do Inferno aos Cariocas, passando por Lúcio Alves e D*** Farney. Todos eles são cantores até hoje contemporâneos. O que João Gilberto fez foi incluir o estilo de Chet Baker. O jeito operístico de cantar existia antes, continuou existindo durante e depois.


Ademário Iris da Silva Junior said:
Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.
Nassif,
Todo movimento artístico rompe com alguma característica da arte anterior e abraça outras. A bossa nova, por exemplo, claramente rompeu com o jeito operístico de cantar música popular, comum entre os cantores de antes, mesmo que tenha havido exceções. Mas a bossa nova tornou o canto intimista 'mainstream', para usar uma expressão da moda, e fez com que o canto 'dó de peito' fosse visto até como mau gosto. O que considero exagero, comum de todo movimento artístico, de transformar em pária uma característica dominante anterior.
Mas quem transformou a bossa nova em movimento e rompimento? Quando JG gravou Caimmy logo nos seus primeiros discos de bossa nova, ele estava rompendo? Caimmy foi gravado por Carmem Miranda, outro ícone da música anterior à BN. Mas quando JG modifica harmonias, muda o ritmo e o jeito de cantar, faz algo que não havia sido feito antes. Esse 'rompimento' talvez não seja intencional, da parte de JG ou de Jobim, mas foi visto na época desse modo. Duvido que esses dois, por exemplo, tivessem qualquer restrição à música brasileira anterior. Mas parte dos críticos viram desse modo, parte dos músicos também e foi uma maneira de se afirmar no mercado musical brasileiro, já importante e gerador de riqueza. É um palpite, mas julgo estratégia mercadológica classificar BN como revolucionária. Ela era revolucionária e ao mesmo tempo não era.
A BN, no meu entender, também abriu as portas para os demais 'movimentos de ruptura' que vieram depois, comuns nas artes plásticas, mas até então raros na música brasileira. Vamos lá: a música de protesto e de engajamento político, o tropicalismo (que pode ser visto em parte como uma volta às origens, na sua adoração por Carmem Miranda, e até mesmo na gravação galhofeira dos Mutantes para Chão de Estrelas) e, tardiamente, o rock brasileiro.
Deixo claro que, por trás de cada justificativa mercadológica que sobreviveu ao tempo, existiam músicos e música sólida. Os exageros foram estratégicos, mas havia talento. Ou alguém vai dizer que os Beatles eram só uma jogada de marketing? Eram sim, mas havia muito talento por trás. A BN deixou uma herança, mais significativa ainda pelo fato de que muitos de seus expoentes reconheceram a herança da música anterior e fizeram questão de homenageá-la, como Nara Leão, Chico Buarque, JG, o próprio Jobim e muitos outros.
Se tiver tempo, comento os outros 'dogmas'.
Caros amigos,

coloquei no meu blog um vídeo especialmente para quem gosta de bossa-nova: Françoise Hardy cantando "Même sous la pluie". É bossa-nova purinha.

A língua francesa é especial para a bossa-nova, não é mesmo? Parece que caiu a sopa no mel...
E digo outra vez: o Nelson Motta disse que os primeiros acordes da bossa-nova foram cópias do modo de tocar do guitarrista Barney Kessel (embora eu já desconfiasse disso há tempos) no disco Julie is her name - da cantora intimista Julie London, que o pessoal do Beco das Garrafas ouvia e estudava por ele.

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