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Haddad, o Arco do Futuro, uma luz no fim do túnel

                       

EVERALDO GONÇALVES

Brasil 247, 9 de Janeiro de 2013 às 05:54

Reurbanização das várzeas do Rio Tietê-Pinheiros-Tamanduateí, conforme o Arco do Futuro, depende de um túnel direto ao mar para acabar com as enchentes

As enchentes recorrentes afetam a Grande São Paulo e a viabilidade do principal projeto do prefeito Haddad de reocupar as várzeas. É a volta à origem da cidade fundada pelo padre Anchieta, no Pátio do Colégio, em 1554, cuja lateral, pela Ladeira Porto Geral, ligava às margens plácidas do Tamanduateí, onde foi dado o grito do Ipiranga.

São Paulo começou com uma escola jesuíta e está nas mãos de um professor marxista. O sonho socialista não pode morrer e por isso cada um deve dar sua contribuição. A tarefa de acabar com as enchentes de São Paulo, por um túnel direto ao mar, tem sido meu sonho, com o Rio Tietê limpo e navegável. Por isso, vale a pena voltar ao tema tão oportuno e oferecer a saída técnica ao novo prefeito Fernando Haddad que, qual um bandeirante, pretende ocupar, ainda mais, as várzeas do Rio Tietê.

Parabéns, prefeito

Haddad, em seu primeiro dia de trabalho, adotou medidas emergenciais para limpar o lixo que entope os bueiros, acompanhada de estudo e acompanhamento de conhecidas áreas de risco de enchentes e deslizamentos localizados. A Geologia atua por princípios lógicos, cujo método, dialético, é o mesmo da filosofia: o novo no lugar do velho; a luta dos contrários; e, a tese da quantidade das águas das chuvas vai aumentando e se transforma na qualidade de força incontrolável. Em síntese da tese e da antítese: as águas correm para o mar, que assoreia e vira sertão.

O novo prefeito e o velho problema

Em 2012/13, o Tietê, novamente, não suportou as fortes chuvas que caíram na região. O extravasamento do leito do rio é um fenômeno inevitável, pois a várzea é uma área plana construída pelas enchentes cíclicas. Destarte, companheiro Haddad, a várzea não deveria ter sido ocupada, mas se já está – e tal ocorreu desordenadamente na Bacia do Tietê – e como não se pode voltar ao passado, há que buscar soluções técnicas e o apoio da população.

É preciso superar a impermeabilização do solo da cidade, que, sem infiltração, aumenta o volume e a velocidade das águas superficiais, que chegam rápido ao leito do rio, que transborda. Veja-se: em 1900, a população da cidade era de 240 mil habitantes e a vazão máxima, 175 m³/s; em 1930, subiu para 350 m3/s; e, em 1970, chegou em 750 m3/s; em 1980, superou 800 e, em 2011, ultrapassou a 1.800 m³/s, pari passu, com o crescimento da população (mais de 14 milhões de habitantes na Grande São Paulo) e da impermeabilização.

A situação piora com os sedimentos carreados, mais o lixo mal acondicionado e mal colocado nas ruas para coleta ou sem coleta, por causa das chuvas, que entopem os bueiros, tubulações, galerias, canais, córregos e aumenta a vazão dos afluentes e do rio Tietê. Há também a água desviada da Bacia do Atibaia-Piracicaba, pelo Sistema Cantareira, o que aumenta a vazão do Tietê em quase 50 m³/s; a qual se junta aquela da captação subterrânea, sem controle de poços e da vazão da ordem de 11/ m³/s.

Além de muita chuva, como as águas do Tietê não vêm sendo bombeadas há já algum tempo, via o canal do seu afluente Pinheiros para a represa Billings (essa transposição pode mandar 400 m3/s), tem havido descuido na manutenção das bombas das usinas de Traição e Pedreira, e não tem sido possível evitar as enchentes no canal do Rio Pinheiros, que há anos não aconteciam.

Time de várzea

A ampliação das pistas da Marginal, executada pelo prefeito Serra e proposta pelo prefeito Haddad, melhora o fluxo dos veículos e das águas superficiais, mas, neste caso é maléfico, piora a infiltração na várzea. Na zona leste, a região do Jardim Pantanal (o nome já diz tudo!), um leito antigo e abaixo do nível do Tietê, é um caso de hidráulica e também de gerenciamento. Nada justifica construir um conjunto habitacional convencional naquele local. Portanto, é preciso cuidado ao retomar a maior ocupação das várzeas, sem eliminar o risco das enchentes, uma vez que vão aumentar a impermeabilização e a velocidade no escoamento das águas. Na várzea, a natureza, no máximo, permite a ocupação com gramado de campinho de time de futebol de várzea. O nome veio da prática esportiva de lazer nas baixadas da cidade. Ambas sumiram juntas.

Obras paliativas e o aumento das enchentes

O rebaixamento da calha do Tietê executado nos últimos governos do estado, no qual foram gastos R$ 1,7 bilhão, minimiza o problema, porém está provado que não é a solução para as enchentes, ainda mais que mantém as caríssimas operações de desassoreamento, que não têm sido feitas e que facilitam o transbordamento do rio.

Na verdade, a obra aumentou o volume da calha ou da represa, que é de fato esse trecho acima da Barragem Edgard de Souza/Santana do Parnaíba, não a vazão do rio Tietê, definida pelo canal extravasor, comportas e vertedor daquela barragem. O motivo é geológico – uma garganta que sempre segurou as águas e formou as várzeas – e também hidráulico, pois a barragem, necessária para o sistema de reversão dos rios Pinheiros e Tietê, para alimentar a represa Billings num sistema eficiente de geração de energia na Usina Henry Borden, em Cubatão (semi-parada por motivo ambiental), represa as águas do Tietê.

Ou seja, no prenúncio de temporal, o Pinheiros e suas duas usinas elevatórias deveriam estar funcionando a toda, e continuar assim na chuva (400m³/s) e Edgard de Souza deixar extravasar o restante (1.434m³/s). Vazão superior ao limite máximo de 1.834m3/s (há quem diga que não dá essa vazão), que a calha assoreada diminui, fazem o rio sair do leito e invadir as várzeas, tal como na enchente de 9 de janeiro de 2010, quando o nível do Tietê subiu 8 e o do Pinheiros 5 metros e se repetiu igual ou maior, um ano depois.

Então, o importante “Projeto Arco do Futuro”, prioridade da Secretaria de Desenvolvimento Urbano, conforme plano de governo do prefeito Haddad, prevê a reurbanização da cidade em sua origem, na várzea do Rio Tietê. Está prevista a ampliação das faixas da Marginal, com substituição da rede elétrica aérea para subterrânea e implantação de corredor residencial/comercial, com a construção de piscinão para mitigar enchentes. A solução é um túnel direto ao mar!

As águas correm para o mar

O que fazer? Há duas soluções. Numa, o governo cria coragem e enfrenta os desinformados, com respaldo do Ministério Público e mudança na Constituição de São Paulo (veja você, caro leitor, se isso é matéria de Constituição; o artigo 46 impede o bombeamento das águas do Tietê!), que permita manter o nível da calha do Rio no ponto de espera de enchentes, na época de chuva, evitando também que o médio Tietê receba todo esgoto de São Paulo, que antes era dividido com a Billings. Por isso é preciso tratar o esgoto e mandar a água para a Billings, e gerar energia em Cubatão (800 megawatts, com vazão de 150 m³/s) pela Empresa Metropolitana de Água e Energia (EMAE), que assim terá dinheiro para poder gerenciar as enchentes, a limpeza dos canais dos rios e resolver o problema: fazer, direto ao mar, “um túnel ou ralo” extravasor das enchentes.

Túnel direto ao mar

Por esse túnel de 10 metros de diâmetro (ou, dois, um de 2 e outro de 8 metros), semelhante ao do metrô, aberto na junção dos Rios Pinheiros e Tietê, com 50 quilômetros de extensão e 750 metros de queda, captando 400m³/s de água, lançados num emissário submarino ou no canal do rio Cubatão, será possível evitar enchentes e encurtar 3.700 km. do percurso de parte das águas do Tietê em direção ao mar.

Nosso rio de integração, que nasce em Salesópolis, a 840 m. de altitude e a 22 km. do mar, é impedido de chegar até ele pela Serra do Mar. O custo estimado do túnel é de US$ 500 milhões, que poderá ser pago com o aproveitamento das rochas obtidas na perfuração; pela eliminação dos custos das enchentes e das operações contínuas de dragagem para a retirada de lodo, areia e outros materiais que assoreiam anualmente a calha do rio Tietê; com o resultado financeiro obtido na geração de energia; e, eventualmente, com o que será economizado com o menor assoreamento do Canal do Porto de Santos, cuja água doce poluída vai empurrar a areia salgada e evitar a cunha salina em Cubatão. E, sem enchentes, o canal limpo e as águas despoluídas o trecho de 30 km. – entre a barragem da Traição no Rio Pinheiros e a da Penha no Tietê – poderá ser usado como via de transporte público.

A solução radical seria derrubar a Barragem Edgard de Souza, em Santana de Parnaíba. Entretanto, implica perder o que a Companhia City, a Light e o prefeito Prestes Maia, e os últimos governos do estado e da capital, fizeram para urbanizar São Paulo e as várzeas, que garantia a energia que o Sistema Billings deu ao crescimento de São Paulo. Aí, sim, poderia aumentar a vazão do Tietê. Mas, nesse caso, as populações ribeirinhas do Tietê rio abaixo seriam afetadas nos picos de enchentes diárias, semanais, mensais, anuais ou decenais.

Em síntese, é preciso limpar a cidade, educar a população para cuidar melhor do lixo, despoluir os rios e fazer o túnel extravasor/ralo. Por isso, sem premonição, alerto a população, o prefeito Fernando Haddad, o governador Geraldo Alkmin e demais autoridades públicas que, infelizmente, as enchentes vão continuar. Cada um de nós precisa fazer sua parte e os governos têm de agir rápido, em vez de todo ano tirar a mesma lama do Rio, pois é melhor abrir um túnel direto ao mar.

*Geólogo, ex-professor da USP e da UFMG; ex-diretor da Eletropaulo e ex-presidente da CPFL - Companhia Paulista de Força e Luz.

(http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/90030/Haddad-o-Arco-do-Futur...únel.htm)

 

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