Portal Luis Nassif

Ezalmone Moreira dos Santos
  • Masculino
  • Brasilia - DF
  • Brasil
Compartilhar no Facebook Compartilhar

Amigos de Ezalmone Moreira dos Santos

  • valdivino francisco da silva
  • Rita Lelis
  • Adriana Goulart
  • Jocelino da Conceição M. Malulo
  • Jorge Amaral
  • Roberto Lúcio Milfont Garcia
  • Juarez Kalim Salomão Jr
  • Thais Matarazzo
  • Bianca Zanlorenci
  • Isabel Almeida
  • Maria José
  • Van Luchiari
  • Antonio Barbosa  Filho

Discussões de Ezalmone Moreira dos Santos

biografia de inacio pinheiro - o pernambuco do pandeiro
11 respostas 

Iniciou esta discussão. Última resposta de Cafu 17 Mar, 2010.

Presentes recebidos

Presente

Ezalmone Moreira dos Santos ainda não recebeu nenhum presente

Dar um presente

 

Página de Ezalmone Moreira dos Santos

Informações do Perfil

Profissão
Professor Universitario
ESTOU ADCIONANDO UMA SINTESE DE UMA PEQUENA HISTORIA DA FORMAÇÃO DA MUSICA BRASLEIRA, ATÉ MEADOS DA DÉCADA DE 1920. CASO QUEIRAM APROFUNDAR NO ASSUNTO, FORMULEM PERGUNTAS QUE RESPONDEREI COM MUITO GOSTO.
As desavenças entre compositores de música popular sempre ocorreram, resultando em grandes contribuições para a nossa arte maior. A primeira ocorreu entre Sinhô e o grupo de Pixinguinha, de 1918 em diante. Convém, porém, salientar que tais desavenças restringiam-se apenas ao campo musical, não afetando as relações de amizade entre os artistas. Foi o caso, por exemplo, de Noel Rosa e Wilson Batista, que protagonizaram o maior duelo musical da música popular brasileira. Noel Rosa, que dispensa maiores apresentações, nasceu no Rio de Janeiro em 1910 e faleceu em 4 de maio de 1937 com apenas 27 anos incompletos. Wilson Batista era da cidade de Campos, Estado do Rio de Janeiro, nascido em 3 de julho de 1913. Começou sua vida artística muito cedo vindo a se tornar um dos nossos mais respeitados compositores, assinando obras como "Pedreiro Valdemar", "Acertei no milhar", "Emília" e muitas outras. Faleceu em 7 de julho de 1968, há exatos 37 anos.

A disputa musical entre esses dois grandes artistas começou no ano de 1933 quando Sílvio Caldas gravou um samba intitulado Lenço no pescoço de Wilson Batista, que fazia a apologia da malandragem. A composição fez sucesso. Só quem não gostou muito foi Noel Rosa, pois achava que ela fazia uma defesa muito veemente da vadiagem e resolveu então compor outro samba em que refutava Wilson Batista conclamando as pessoas a trabalhar e deixar a malandragem. Surgiu então "Rapaz folgado", gravado por Aracy de Almeida.

É evidente que Wilson Batista não gostou nada da resposta de Noel, e resolveu então compor "Mocinho da Vila", em que faz uma dura crítica ao bairro de Vila Isabel, berço de Noel Rosa. Esta música, porém, não teve muita repercussão e a polêmica parecia terminada, não fosse o sucesso do samba "Feitiço da Vila", de Noel Rosa e Vadico, gravado por João Petra de Barros, cuja letra fazia uma verdadeira defesa e apologia ao bairro de Vila Isabel.

Dessa feita foi Wilson Batista quem retrucou, pois, devido ao grande sucesso obtido por "Feitiço da Vila", compôs um samba intitulado "Conversa fiada", desmentido Noel, e lançado em rádio por Luiz Barbosa, Mário Moraes e Léo Vilar, porém, não gravada em disco. Achando que não tinha sentido a reclamação de Wilson Batista, Noel Rosa numa atitude elegante resolveu fazer outra música homenageando outros bairros e defendendo Vila Isabel, surgindo então o célebre samba "Palpite infeliz", gravado também por Aracy de Almeida.

Diante de tal resposta, Wilson Batista perdeu as estribeiras e fez então um samba denominado "Frankstein da Vila" em que falava do defeito físico de Noel Rosa, que tinha o maxilar inferior atrofiado. Tal samba não foi gravado na época, visto ser por demais ofensivo. Contudo, foi divulgado nas rádios pelo conjunto Os Quatro Diabos. Não satisfeito Wilson Batista ainda fez outro samba intitulado "Terra de cego", também não gravado.

Para pôr fim a polêmica, que já durava três anos, Noel Rosa escreveu uma letra em cima da melodia de "Terra de cego" de Wilson Batista, dando-lhe o título de "Deixa de ser convencido", fazendo as "pazes" e fechando com chave de ouro esta grande polêmica musical que é um dos capítulos mais belos de nossa música popular.

Em 1956 a Odeon presta uma homenagem ao dois grandes compositores e convida dois intérpretes que faziam muito sucesso na época, Francisco Egydio e Roberto Paiva, para juntos gravarem todas as músicas da famosa polêmica, mais o samba canção de Noel Rosa "João ninguém" - erroneamente atribuído a uma referencia a Wilson Batista. Tudo foi reunido num esquema de revezamento, como se um tivesse realmente respondendo ao outro e obedecendo a cronologia das canções. O disco fez um enorme sucesso e resgatou para o grande público as músicas que não haviam sido gravadas na ocasião e que eram desconhecidas da grande maioria das pessoas. Os arranjos obedecem fielmente os padrões da época da feitura das músicas, e o disco ainda traz na capa um belo trabalho de Antonio Nássara, um dos maiores caricaturistas brasileiros, que atuava também como compositor e que ainda assina o texto na contra-capa.

Trata-se, portanto de um disco histórico e imprescindível para se conhecer e admirar o talento desses compositores e intérpretes, representantes da fase de ouro de nossa canção popular.

Luiz Américo Lisboa Junior



Músicas:

01 - Lenço no pescoço
(Wilson Batista)
Roberto Paiva
02 - Rapaz folgado
(Noel Rosa)
Francisco Egydio
03 - Mocinho da Vila
(Wilson Batista)
Roberto Paiva
04 - Palpite infeliz
(Noel Rosa)
Francisco Egydio
05 - Frankstein da Vila
(Wilson Batista)
Roberto Paiva
06 - Feitiço da Vila
(Noel Rosa e Vadico)
Francisco Egydio
07 - Conversa fiada
(Wilson Batista)
Roberto Paiva
08 - João ninguém
(Noel Rosa)
Francisco Egydio
09 - Terra de cego
(Wilson Batista)
Roberto Paiva

Noel Rosa
11/12/1910 4/5/1937

Biografia
Nascido e criado no bairro carioca de Vila Isabel, colaborou para transformar o bairro em ponto-chave no mapa do samba brasileiro. Mesmo tendo morrido com apenas 26 anos, deixou mais de 200 composições, entre elas inúmeros clássicos indiscutíveis como "Palpite Infeliz", "Feitiço da Vila", "Conversa de Botequim", "Último Desejo", "Silêncio de um Minuto", "Pastorinhas" e "Com Que Roupa?". Desde a adolescência mostrou gosto pela música e pela vida boêmia, deixando de lado os estudos e o curso de medicina sonhado pelos pais. Criou fama de bom violonista no bairro e em 1929 foi chamado para integrar o Bando dos Tangarás, ao lado de João de Barro, Almirante, Alvinho e Henrique Brito. Suas primeiras composições foram gravadas por ele mesmo em 1930: "Minha Viola" e "Festa no Céu". Desde cedo Noel mostrou grande aptidão para o humor, para o relato do cotidiano urbano, do amor nem sempre idílico, da realidade nua e crua e, dependendo do ponto de vista, muito engraçada. Exemplos de seu bom humor são "Coração" (samba "anatômico", lembranças do curso de medicina), "Mulher Indigesta", "Com que Roupa?", "Tarzan, o Filho do Alfaiate" (com Vadico), "Gago Apaixonado", "Cem Mil-réis" (com Vadico) e muitas outras. Já sua faceta cronista do Rio de Janeiro dos anos 20/30 se revela em "Conversa de Botequim" (com Vadico), "Coisas Nossas", "O Orvalho Vem Caindo" (com Kid Pepe), "O X do Problema", "Três Apitos". Noel vendeu alguns sambas a cantores e teve outros gravados, sendo conhecido no rádio. Mário Reis, Francisco Alves e principalmente Aracy de Almeida foram alguns dos intérpretes mais notórios de seus sambas. Com Mário Reis chegou a excursionar pelo sul do país, atuando como violonista. No ano de 1933, depois de gravar sucessos como "Até Amanhã", "Fita Amarela" e "Onde Está a Honestidade", aconteceu o primeiro "round" de seu desentendimento com o sambista Wilson Batista. Da rixa saíram as músicas "Lenço no Pescoço" (Wilson), "Rapaz Folgado" (Noel), "Mocinho da Vila" (Wilson). O segundo "round" deu-se em 1934, com "Feitiço da Vila" (Noel), "Conversa Fiada" (Wilson), "Palpite Infeliz" (Noel) e "Frankenstein da Vila" (Wilson). Nesse mesmo ano de 1934 casou-se com Lindaura, apesar de sua notória paixão pela dançarina de cabaré Ceci, para quem compôs suas músicas mais líricas, como "Último Desejo", "Dama do Cabaré", "Pra que Mentir" (com Vadico) e "Quantos Beijos" (com Vadico). Apesar da tuberculose que o atacou desde cedo, obrigando-o a internações em sanatórios, jamais abandonou a boêmia, o samba na rua, a bebida, o cigarro. Depois de sua morte, em 1937, sua obra caiu em um certo esquecimento, sendo redescoberta por volta de 1950, quando Aracy de Almeida lançou com enorme sucesso dois álbuns de 78 rotações com músicas suas. Desde então passou a figurar na galeria dos nomes fundamentais do samba.



Sucesso de Campos - O compositor e cantor Wilson Batista nasceu em Campos e tomou gosto pela música ainda criança, tocando triângulo na Lira de Apolo, banda organizada pelo seu tio, o maestro Ovídio Batista. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro no fim da década de 20 e se apaixonou pela vida boêmia do bairro da Lapa, freqüentando cabarés e bares e fazendo amizades com músicos e malandros da região, o que lhe rendeu algumas prisões. Ele também trabalhou como eletricista e ajudante de contra-regra no Teatro Recreio, mas queria mesmo é viver como músico. Por isso, compôs o seu primeiro samba em 1929 – "Na Estrada da Vida", lançado por Araci Cortes e gravado mais tarde por Luís Barbosa.
Durante sua trajetória musical, Batista passou a atuar como crooner e ritmista na Orquestra de Romeu Malagueta e no começo da década de 30 teve o seu samba, "Desacato" (em parceria com Paulo Vieira e Murilo Caldas) gravado por três grandes intérpretes da época, Francisco Alves, Castro Barbosa e Murilo Caldas. Ele tornou-se, ao lado de Noel Rosa, Assis Valente, Geraldo Pereira, um dos grandes sambistas da boêmia carioca.
Todavia, Wilson Batista e Noel Rosa fcaram conhecidos com a polêmica, que gerou sambas inesquecíveis de ambos lados, como "Lenço no Pescoço", "Frankenstein da Vila" (por causa do queixo defeituoso de Noel), todos compostos por Wilson, e "Feitiço da Vila", "Palpite Infeliz", “Rapaz Folgado”, de Noel. No meio das provocações ficaram amigos e a aparente briga acabou virando disco ("Polêmica"), lançado em 1956 pelos cantores Roberto Paiva e Francisco Egídio.
Wilson continuou trocando o dia pela noite e compondo grandes sambas, como "Mania da Falecida" Chegado a uma boa confusão e flamenguista doente (como comprova o sincopado “Samba Rubro Negro”), ele tirou sarro da torcida do Vasco (que na época tinha um dos melhores times do Brasil) compondo "No Boteco do José", sucesso na voz de Linda Batista no carnaval de 1946. O seu último sucesso do carnaval carioca foi "Cara Boa", marchinha composta em parceria com Jorge de Castro e Alberto Jesus, gravada por César de Alencar.
Biografia - O cantor carioca Noel de Medeiros Rosa é proveniente de uma família de classe média baixa. Durante parte de sua vida ele teve de um parto forçado que lhe causara fratura e afundamento do maxilar inferior, além de ligeira paralisia facial no lado direito do rosto. Mas, aos seis anos ele foi operado, aos 12 colocou uma prótese.
No entanto, aos 13 anos que resolveu aprender a tocar bandolim de ouvido, com a mãe, que percebeu sua habilidade instrumental. Do bandolim para o violão, foi um passo. Em 1925, dominava completamente o instrumento, participando ativamente das serenatas do bairro.
Enquanto Noel ensaiava os primeiros acordes musicais, estava em voga a música nordestina e os conjuntos sertanejos. O garoto logo se interessou pelas canções. Acompanhando a novidade, um grupo de estudantes do Colégio Batista e mais alguns moradores do bairro de Vila Isabel formaram um conjunto musical, denominado "Flor do Tempo". Reformulado para gravar em 1929, o grupo passou a se chamar "Bando de Tangarás". Alguns de seus componentes se tornariam, mais tarde, grandes expoentes de nossa música: João de Barro, Almirante, e Noel, que já era um bom violonista.
Mas, em 1931 entrou para a faculdade de Medicina, sem, no entanto, abandonar o violão e a boemia. O samba falou mais alto pois largou o curso meses depois. Todavia, apesar de fortes problemas pulmonares, Noel não largava a bebida e, com bom humor e ironia. Mas, foi nos últimos meses de 1937, que o artista começou a evitar as pessoas pelo seu estado de saúde. A única pessoa que o poeta visitava era o sambista e compositor Cartola, lá no morro. Na noite de 4 de maio deste mesmo ano, o artista morreu nos braços da esposa Lindaura, em seu quarto no chalé, aos 26 anos de idade



Noel Rosa X Wilson Batista: A histórica polêmica do samba



Noel e Wilson: da disputa às homenagens
Já o garoto Wilson ainda era um aprendiz, candidato a malandro e disposto a qualquer coisa para se tornar conhecido. Justamente por isso muitos até hoje não entendem por que Noel começou a rincha.

Wilson Batista, que entraria para a história como um grande sambista da década de 1940, estava apenas começando a carreira quando compôs Lenço no Pescoço. A música foi a sua terceira gravação e, em versos simples, fazia apologia à malandragem:

LENÇO NO PESCOÇO - 1933
(Wilson Batista)

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Meu chapéu do lado...

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

Meu chapéu do lado...

E ele toca
E você canta
E eu não dou
Ai, meu chapéu do lado...

Por que Noel Rosa teria se importado tanto com a música a ponto de dar a ela uma resposta? Há quem diga que seria por influência de um amigo, chamado Orestes Barbosa. Ele teria escrito: "num momento em que se faz a higiene poética do samba, a nova produção de Sílvio Caldas, pregando o crime por música, não tem perdão". Mais tarde, a música seria censurada pela Confederação Brasileira de Radiofusão, em nome da moralidade e do respeito às autoridades constituídas.

Mas e Noel? O que ele teria contra a figura do malandro? Na verdade, Noel tinha simpatia por ela, que estava presente em muitas de suas músicas. Apenas a influência de Orestes Barbosa talvez não justificasse sua resposta.

Aí é que entra uma versão mais apimentada da história. Wilson Batista havia se engraçado com uma morena, freqüentadora da Lapa e que também teria atraído a atenção de Noel Rosa. Só que os argumentos de Wilson foram mais fortes, e ele ficou com a moça, deixando Noel desapontado e ansioso para revidar na primeira oportunidade. A letra de Lenço no Pescoço era a desculpa que Noel precisava para dar uma lição no moleque atrevido. E com a arma que o poeta melhor sabia manejar: o samba. Assim, Noel compôs Rapaz Folgado, com endereço certo ao seu rival:

RAPAZ FOLGADO - 1933
(Noel Rosa)

Deixa de arrastar o teu tamanco...
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco,
Compra sapato e gravata,
Joga fora essa navalha
Que te atrapalha.

Com chapéu do lado deste rata...
Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção,
(Eu) Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão.

Malandro é palavra derrotista...
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista.
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado.

Rapaz Folgado só seria gravada em 1938, por Aracy de Almeida, mas já circulava de boca em boca nos meios freqüentados pelos compositores. Todos sabiam que a alfinetada era para Wilson, que não engolia provocações. "Brigar" com Noel era uma excelente chance para ficar famoso. Batendo na caixinha de fósforos e escrevendo a letra em papel de maço de cigarro, Wilson compôs a tréplica logo em seguida, intitulada Mocinho da Vila:

MOCINHO DA VILA - 1934
(Wilson Batista)

Você, que é mocinho da Vila,
Fala muito em violão,
Barracão e outras coisas mais.
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone,
E deixe quem é malandro em paz.
Injusto é seu comentário,
Fala de malandro quem é otário,
Mas falando não se faz.
Eu, de lenço no pescoço,
Desacato
E também tenho o meu cartaz

Considerada fraca na letra e na melodia, a criação de Wilson foi ignorada por Noel, que continuou a escrever sambas sem nenhuma relação com o debate musical. Um desses sambas foi o belíssimo Feitiço da Vila, cuja versão original fora interpretada por João Petra de Barros em 1934:

FEITIÇO DA VILA - 1934
(Noel Rosa - Oswaldo Gogliano [Vadico])

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo!

Lá em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café,
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba!

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem...
Tendo nome de Princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente...

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus,
Não venha agora
Que as morenas vão logo embora!

Eu sei por onde passo
Sei tudo que faço
Paixão não me aniquila...
Mas tenho que dizer:
Modéstia à parte,
Meus senhores, eu sou da Vila!

Nesta exaltação ao bairro de Vila Isabel, podemos sentir claramente a boemia, tão presente na vida de Noel Rosa e responsável pelo agravamento de sua doença (tuberculose). Na canção, Noel implorava para que o sol não nascesse, pois a roda de samba terminaria e as mulheres iriam para casa. Vale destacar também a beleza da imagem de galhos balançando ao som do samba.

Outra referência interessante é feita à política do café com leite de São Paulo e Minas Gerais. Apesar de a política ter se encerrado em 1930, ela ainda estava bastante presente na memória das pessoas.

No programa Case, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Noel criou novos versos para o já sucesso Feitiço da Vila. Esses versos são fundamentais para entendermos a provocação seguinte de Wilson Batista:

Versos adicionais de Feitiço da Vila

Quem nasce pra sambar
Chora pra mamar
Em ritmo de samba.
Eu já saí de casa olhando a lua
E até hoje estou na rua.
A zona mais tranqüila
É a nossa Vila
O berço dos folgados;
Não há um cadeado no portão
Porque na Vila não há ladrão.

Nos novos versos, Noel fez uma volta à infância, não só na referência ao choro pra mamar em ritmo de samba, mas, sobretudo, aos tempos em que a Vila Isabel gozava a má fama de atrair ladrões. Segundo Noel, esse tempo já teria passado, e o bairro podia se orgulhar de dormir sem cadeado nos portões. Nesse momento, Wilson Batista viu uma oportunidade de entrar novamente em ação.

Desde que sua canção Mocinho da Vila fora ignorada por Noel, Wilson Batista estava fora de cena. Ainda fiel ao sonho de ser famoso e sabedor de que nenhum compositor popular brasileiro estava tão em evidência quanto Noel, Wilson não perdeu tempo e escreveu Conversa Fiada:

CONVERSA FIADA - 1935
(Wilson Batista)

É conversa fiada
Dizerem que o samba
Na Vila tem feitiço.
Eu fui ver pra crer
E não vi nada disso.
A Vila é tranqüila,
Porém é preciso cuidado:
Antes de irem dormir,
Dêem duas voltas no cadeado.
Eu fui lá na Vila ver o arvoredo se mexer
E conhecer o berço dos folgados.
A lua nessa noite demorou tanto,
Assassinaram-me um samba.
Veio daí o meu pranto.

Noel não podia ignorar a nova canção. O ajustamento de ritmo e a bela melodia já continham elementos que permitiam antever o grande sambista que Wilson Batista seria. A música era indiscutivelmente bem-feita, e o bairro de Vila Isabel tinha sido debochadamente atacado.

O contra-ataque tinha que ser definitivo, mortal e em grande estilo. Veio na forma de um samba intitulado Palpite Infeliz - um dos mais populares e bem elaborados de toda a obra de Noel.

PALPITE INFELIZ - 1935
(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo,
Ao som do samba dança
até o arvoredo.
Eu já chamei você pra ver,
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também.

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente.
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Obra-prima da música brasileira, o samba ficaria para sempre na memória do povo e de Wilson Batista. Logo no primeiro verso, Noel chama atenção para o fato de o rival ainda não ser tão conhecido: "Quem é você que não sabe o que diz?".

Mais do que provocativa, Palpite Infeliz também é uma obra integradora, que promove a confraternização do mundo do samba. A canção defende a Vila Isabel com elegância, sem colocá-la acima de Estácio de Sá, Salgueiro ou Mangueira. Para Noel, a disputa estava encerrada. Já Wilson pensava diferente, e a nova resposta veio com um golpe baixo intitulado Frankenstein da Vila. O samba era uma pilhéria com Noel, satirizando a sua feiúra provocada pelo defeito que tinha no queixo, causado por um acidente na hora do parto.

FRANKENSTEIN DA VILA - 1936
(Wilson Batista)

Boa impressão nunca se tem
Quando se encontra um certo alguém,
Que até parece o "Frankenstein".
Mas, como diz o rifão,
Por uma cara feia,
Perde-se um bom coração.

Entre os feios estás na primeira fila,
Eu te batizo "Fantasma da Vila".
Essa indireta é contigo,
E depois não vás dizer
Que eu não sei o que digo.
(Sou teu amigo)

Algumas testemunhas afirmam que Noel não deu importância ao samba, achando até graça do deboche. Outros garantem que a história não foi bem assim. Cícero Nunes, companheiro de muitas cervejadas, jura ter visto Noel chorar ao tocar no assunto. Ainda no mesmo ano, Wilson escreveu Terra de Cego, e cantou o samba para Noel no Café Leitão:

TERRA DE CEGO - 1936
(Wilson Batista)

Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Noel gostou da melodia, mas pediu para trocar a letra no próprio botequim. Como Wilson também havia andado de namoro com Ceci - uma antiga paixão de Noel Rosa -, a nova letra foi dedicada a ela. Com a música pronta, Noel viveu um "amor de parceria": a mulher era Ceci; o parceiro, Wilson Batista.

DEIXA DE SER CONVENCIDA - 1936
(Noel Rosa - Wilson Batista)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida.
És uma perfeita artista, eu bem sei,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.
(Muita medalha eu ganhei!)
E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida.
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria.

Era o fim de uma briga musical da qual pouca gente tomou conhecimento na época (com exceção do meio artístico). É difícil saber até que ponto Noel guardou alguma mágoa ou ressentimento, principalmente com relação ao samba Frankenstein da Vila. Quanto a Wilson, façamos justiça: não foi por causa da rixa que ele se tornou alguém na vida. Seu tempo chegou pelo próprio talento. Noel faleceu em maio de 1937. A Wilson ficou saudade, respeito e grande admiração.

Antes de morrer, em 1968, Wilson Batista viu a briga com Noel virar disco nas vozes de Roberto Paiva e Francisco Egídio (Polêmica, 1956). O compositor também fez alguns sambas com menções a Noel Rosa. Entre eles, podemos citar Quero um Samba e Terra Boa.

QUERO UM SAMBA
(Wilson Batista - Waldemar Gomes)

Diga para o dono do baile
Que nós queremos sambar
A noite inteira sem tocar um samba
Nem parece que estamos no Rio,
A terra de Sinhô e o berço de Noel...

TERRA BOA
(Wilson Batista - Ataulpho Alves)

Terra de Santos Dumont
Carlos Gomes, Ruy Barbosa,
Grande Duque de Caxias,
Castro Alves, Noel Rosa...
Noel Rosa


Primeiro filho de seu Manoel e dona Marta de Medeiros Rosa, Noel veio ao mundo em 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, RJ, em parto difícil - para não perderem mãe e filho, os médicos usaram o fórceps para ajudar, o que acabou causando-lhe a lesão no queixo, que o acompanhou por toda a vida.
Franzino, Noel aprendeu a tocar bandolim com sua mãe - era quando se sentia mais importante, lá no Colégio São Bento. Sentava-se para tocar, e todos os meninos e meninas paravam para ouvi-lo extasiados. Com o tempo, adotou o instrumento que seu pai tocava, o violão.
Magro e debilitado desde muito cedo, dona Marta vivia preocupada com o filho, pedindo-lhe que não se demorasse na rua e que voltasse cedo para casa. Sabendo, certa vez, que Noel iria à uma festa em um sábado, escondeu todas as suas roupas. Quando seus amigos chegaram para apanhá-lo, Noel grita, de seu quarto: "Com que roupa?" - no mesmo instante a inspiração para seu primeiro grande sucesso, gravado para o carnaval de 1931, onde vendeu 15000 discos!
Foi para a faculdade de medicina - alegria na família - mas a única coisa que isso lhe rendeu foi o samba "Coração" - ainda assim com erros anatômicos. O Rio perdeu um médico, o Brasil ganhou um dos maiores sambistas de todos os tempos.
Genial, tirava até de brigas motivo de inspiração. Wilson Batista, outro grande sambista da época, havia composto um samba chamado "Lenço no Pescoço", um ode à malandragem, muito comum nos sambas da época. Noel, que nunca perdia a chance de brincar com um bom tema, escreveu em resposta "Rapaz Folgado" (Deixa de arrastar o seu tamanco / Que tamanco nunca foi sandália / Tira do pescoço o lenço branco / Compra sapato e gravata / Joga fora esta navalha que te atrapalha) . Wilson, irritado, compôs "O Mocinho da Vila, criticando o compositor e seu bairro. Noel respondeu novamente, com a fantástica "Feitiço da Vila". A briga já era um sucesso, todo mundo acompanhando. Wilson retorna com "Conversa Fiada" (É conversa fiada / Dizerem que os sambas / Na Vila têm feitiço) . Foi a deixa para Noel compor um dos seus mais famosos e cantados sambas, "Palpite Infeliz" . Wilson Batista, ao invés de reconhecer a derrota, fez o triste papel de compor "Frankstein da Vila" , sobre o defeito físico de Noel. Noel não respondeu. Wilson insistiu compondo "Terra de Cego". Noel encerra a polêmica usando a mesma melodia de Wilson nessa última música, compondo "Deixa de Ser Convencido"
Noel era tímido e recatado, tinha vergonha da marca que trazia no rosto, evitava comer em público por causa do defeito e só relaxava bebendo ou compondo. Sem dinheiro, vivia às custas de poucos trocados que recebia de suas composições e do auxílio de sua mãe. Mas tudo que ganhava era gasto com a boemia, com as mulheres e com a bebida. Isso acelerou um processo crônico pulmonar que acabou em tuberculose.
O REI DA MALANDRAGEM
Por Luís Nassif

Na relação dos cinco maiores sambistas da história, não pode faltar Wilson Batista. Dentre todos, nenhum foi tão eclético e com estilo tão pessoal. Apesar das características pessoais de cada compositor, suas linhas harmônicas e melódicas eram previsíveis: um acompanhante médio de violão saberá intuir o caminho da maioria das composições de Ataulfo Alves (influenciado pela toada mineira), Geraldo Pereira, Roberto Martins, Noel Rosa. Haverá mais dificuldades com as sofisticações harmônicas de Cartola, menos com as de Nelson Cavaquinho.
Mas Wilson Batista compôs alguns clássicos em que as seqüências não tinham o equilíbrio da música convencional. É como se fosse um vôo desconjuntado, em que faltavam acordes, ou aparentemente se demorava demais para mudar o acorde, para a harmonia se definir. Apenas no final da linha se percebia a beleza estranha, o nível de criatividade, o padrão estético diferenciado. O clássico “Meus Vinte Anos” (“nos olhos das mulheres / no espelho do meu quarto / é que vejo a minha idade” - parceria com Sílvio Caldas) é um exemplo típico. “Nega Luzia” (“lá vem a nega Luzia / de braços com a cavalaria” - parceria com Jorge de Castro) é outro, assim como “Chico Brito” (com Afonso Teixeira), gravado em 1950 por Dircinha Batista, e “Mãe Solteira” (com Jorge de Castro).
O ecletismo de Wilson Batista ia muito além. Compôs obras-primas do samba convencional como “Emília” (com Haroldo Lobo: “eu quero uma mulher / que saiba lavar e cozinhar”), e “Volta pra casa Emília” (com Antonio Almeida: “ai, ai / quando visto um terno amarrotado, meu Deus / tenho que me lembrar / da Emília que era tão cuidadosa mulher”) e um dos meus clássicos prediletos, “Morro de Zinco” (com Nássara: “aquele morro de zinco que é Mangueira”). Ajudou a dar forma ao samba de breque, com “Acertei no milhar” (em que Geraldo Pereira aparece na parceria, mas, pelo que se sabe, a música é apenas de Wilson)(NR: Geraldo Pereira foi incluído como parceiro a pedido do cantor Moreira da Silva, que a lançou em 1939. O biógrafo de Wilson, Bruno Ferreira Gomes, diz que Moreira retribuía assim uma parceria que teria recebido de Geraldo; já o biógrafo de Moreira, Alexandre Augusto, alega que Geraldo entrou na autoria porque ajudaria a divulgar o samba). Wilson fez também marchas de muito sucesso, como “Balzaqueana” (com Nássara).
Anos atrás, ouvi um samba de breque típico, parceria de Wilson Batista e Sinhô nos anos 20. Não consegui encontrar o CD. É até possível que tenha havido um erro de informação, pois não consta parceria entre ambos no levantamento da obra de Wilson Batista por Ricardo Cravo Albim. (NR: Moreira da Silva gravou no LP O Último dos Moicanos, em 1963, o samba "Mil e uma Trapalhadas", creditado a Wilson Batista e Sinhô.)
Wilson Batista nasceu em 1913, em Campos (RJ). O pai era guarda municipal. Aos 15 anos mudou-se para o Rio e trabalhou como acendedor de lampião. Para não ter que pegar no batente, largou a família e foi morar em uma pensão da Lapa.
Em 1933 envolveu-se em uma polêmica célebre com Noel Rosa. Wilson tinha apenas 20 anos, Noel 23. A polêmica teve duas partes. Na primeira, Noel Rosa, já consagrado, lançou “Rapaz Folgado”, para provocar Wilson Batista, que fizera a apologia da malandragem em “Lenço no Pescoço”. Wilson respondeu com “Mocinho da Vila” e Noel deu xeque-mate com “Palpite Infeliz”.
A segunda rodada foi quando estourou o “Feitiço da Vila”, de Noel e Vadico, e Wilson devolveu a provocação com “Conversa Fiada”, com algumas boas passagens, mas longe da qualidade da música de Noel, que rebateu com “João Ninguém”, e Wilson apelou com “Frankestein da Vila”, que acabou deixando-o antipatizado com o público.
Na verdade, embora ambos fossem precoces, com 20 anos Noel já era um compositor maduro. Já a curva de maturidade de Wilson Batista atinge a plenitude apenas em 1940, quando tinha 27 anos. Seus sucessos, de verdade, começaram nos anos 40, com “Oh! Seu Oscar” (com Ataulfo Alves), “Acertei no Milhar” (com Geraldo Pereira), “Emília”, “Bonde São Januário”, o clássico “Meus Vinte Anos”, de 1942, “Louco” (com Henrique de Almeida), de 1947, “Mundo de Zinco”, “Nega Luzia”, “Deus no Céu, Ela na Terra” (com Marino Pinto).
Teve alguns grandes intérpretes, como Ciro Monteiro e Jorge Veiga. Nos anos 50, já decadente, e com poucos sucessos, encontrou seu maior intérprete, Roberto Silva.
Nos anos 60, Wilson Batista já era um fiapo de homem, consumido pela boemia e pela bebida. Morreu em 1968, aos 55 anos, sem forças sequer para dar o último depoimento do Museu de Imagem e Som, de Cravo Albim.
Anos atrás, a Funarte soltou uma gravação especial do grande Roberto Silva com a grande Joyce. Recentemente, foi relançado pelo Itaú Cultural. Um grande momento, inclusive com uma entrevista exclusiva de Wilson Batista, contando a polêmica com Noel.
Wilson Batista
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Wilson Batista de Oliveira (Campos, 3 de julho de 1913 — Rio de Janeiro, 7 de julho de 1968) foi um compositor brasileiro.
Filho de um guarda municipal de Campos, ainda menino participou, tocando triângulo, da Lira de Apolo, banda organizada por seu tio, o maestro Ovídio Batista. Ainda na cidade natal, fez parte do Bando, para o qual compunha algumas músicas e, pretendendo aprender o ofício de marceneiro, freqüentou o Instituto de Artes e Ofícios.
No final da década de 1920, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro. Passou então a freqüentar os cabarés da Lapa e o Bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes, pontos de encontro de marginais e compositores, tornando-se amigo dos irmãos Meira, malandros famosos da época, cuja amizade lhe valeu várias prisões. A seguir, começou a trabalhar como eletricista e ajudante de contra-regra no Teatro Recreio.
Com 16 anos, fez seu primeiro samba, Na estrada da vida, lançado por Aracy Cortes no Teatro Recreio e gravado em 1933 por Luís Barbosa. Seu primeiro samba gravado foi Por favor, vai embora (com Benedito Lacerda e Osvaldo Silva), pela Victor, na interpretação de Patrício Teixeira, em 1932. A partir de então, passou a fazer parte da Orquestra de Romeu Malagueta, como crooner e ritmista (tocava pandeiro).
Em 1933, Almirante gravou sua batucada Barulho no beco (com Osvaldo Silva) e três intérpretes (Francisco Alves, Castro Barbosa e Murilo Caldas) divulgaram seu samba Desacato (com Paulo Vieira e Murilo Caldas), que fez muito sucesso.
Sempre freqüentando o mesmo ambiente de boêmia, fez a apologia do malandro no seu samba Lenço no pescoço, já gravado em 1933 por Sílvio Caldas, que deu início à famosa polêmica com Noel Rosa, o qual respondeu no mesmo ano com Rapaz folgado, contestando a identificação do sambista com o malandro. Sua réplica a Noel veio no samba Mocinho da Vila, recebendo então como resposta, em 1934, Feitiço da Vila (de Noel Rosa e Vadico). Continuando a polêmica, compôs Conversa fiada, ao qual Noel contrapôs, em 1935, o samba Palpite Infeliz. O caso terminou com dois sambas seus, Frankenstein da Vila e Terra de cego, que não tiveram resposta. Os dois polemistas conheceram-se entre um e outro desafio e tornaram-se amigos. As músicas dessa polêmica foram reunidas, em 1956, num LP de dez polegadas da Odeon, cantadas por Roberto Paiva e Francisco Egídio - Polêmica.
Continuando sua vida de boêmio-compositor, vendendo sambas e fazendo parcerias "comerciais", conheceu, no Café Nice, na Avenida Rio Branco, o cantor e compositor Erasmo Silva, com quem formou um conjunto, com Lauro Paiva ao piano e Roberto Moreno na percussão. Com o conjunto, realizou apresentações em Campos RJ e, de volta ao Rio de Janeiro, formou, em 1936, uma dupla com Erasmo Silva - a Dupla Verde e Amarelo - que participou da vocalização da orquestra argentina Almirante Jonas, que estava de passagem no Rio de Janeiro, seguindo com ela para Buenos Aires, Argentina, onde ficaram por três meses, ainda em 1936. De volta ao Brasil, trabalharam durante mais de um ano na Rádio Atlântica, de Santos SP, e, depois, na Record, da capital paulista, onde também gravaram, com as Irmãs Vidal, pela Columbia, seu primeiro disco, com Adeus, adeus (Francisco Malfitano e Frazão) e Ela não voltou (dos mesmos compositores e mais Aluísio Silva Araújo). Obtendo certo sucesso, seguiram para uma temporada em Porto Alegre RS, voltando a São Paulo para trabalhar na Rádio Tupi.
A fama viria em 1938, quando a dupla foi contratada pela Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, mas já no ano seguinte, com a ida de Erasmo Silva para Buenos Aires, a dupla se desfez. Em 1939 foi apresentado por Germano Augusto ao bicheiro e malandro conhecido por China, a quem venderia muitas músicas. Nessa época, sua temática sofreu modificações, ditadas não só pela associação a novos parceiros, mas principalmente pela influência direta de uma portaria governamental que proibia a exaltação da malandragem.
Ainda em 1939, fez com Ataulfo Alves Mania da falecida e Oh! seu Oscar, samba que se destacou no Carnaval de 1940, vencendo o concurso de músicas carnavalescas do Departamento de Imprensa e Propaganda do governo federal, tendo sido gravado por Ciro Monteiro, intérprete que lançou em disco, também no mesmo ano, os seus sambas Tá maluca (com Germano Augusto) e O bonde de São Januário (com Ataulfo Alves), este último grande sucesso no Carnaval de 1941.
Consagrado desde então, iniciou, com diversos parceiros famosos, uma série de composições, retratando tipos cariocas, que conseguiram êxito na maioria dos Carnavais dos vinte anos seguintes. Ainda em 1940, Moreira da Silva gravou Acertei no milhar (com Geraldo Pereira), que se tornou um dos clássicos do samba de breque; em 1941, Vassourinha lançou em disco outra música sua que se destacou no Carnaval de 1942, Emília, feita com Haroldo Lobo, seu parceiro ainda em Rosalina, destaque carnavalesco de 1945.
Homenageando a torcida do Vasco da Gama, apesar de rubro-negro, compôs com Augusto Garcez No boteco do José, que, na gravação de Linda Batista, fez sucesso no Carnaval de 1946. Três anos depois se destacaria com Pedreiro Valdemar, feito com Roberto Martins e gravado por Blecaute, e, em 1950, obteria enorme êxito com Balzaquiana (com Nássara), lançado em disco por Jorge Goulart. Sua marcha Sereia de Copacabana e o seu samba Mundo de zinco (ambos com Nássara), este gravado por Jorge Goulart, foram muito cantados nos Carnavais de 1951 e 1952, respectivamente.
Para o Carnaval de 1956 compôs com Jorge de Castro a marcha Todo vedete, que teve problemas com a censura por suas referências ao baile dos travestis do Teatro João Caetano; com o mesmo parceiro fez, para o Carnaval dos dois anos seguintes, Vagabundo e Marcha da fofoca, sendo esta última gravada pelo radialista César de Alencar. O Carnaval de 1962 foi um dos últimos de que participou, lançando, em gravação de César de Alencar, Cara boa, marcha feita com Jorge de Castro e Alberto Jesus.
Boêmio até o fim da vida, nos seus últimos anos trabalhou como fiscal da UBC (União Brasileira de Compositores), entidade que ajudou a criar.
Polêmica de sambista
José Adriano Fenerick
Especial para O POVO
Autor de livro sobre Noel Rosa narra as polêmicas envolvendo o compositor e Wilson Batista. José Adriano afirma ainda que Noel deu ao samba consciência do seu aspecto popular


05/05/2007 14:21

NOEL Rosa e Lindaura: casamento cheio de controvérsia (Divulgação)
A história dos primórdios do samba poderia muito bem ser contada por meio das polêmicas travadas entre os sambistas. Desde as disputas pela autoria do famoso Pelo Telefone (gravado em 1917), tido como o "primeiro samba", até o entrevero entre Sinhô, o aclamado Rei do Samba, e a "turma" do Pixinguinha (Donga, China etc.) na década de 1920, o samba, de certo modo, foi se criando e se formando em meio a polêmicas e discussões. Noel Rosa, como não poderia ser diferente, também deu sua contribuição à maturação do samba por meio de uma longa polêmica com Wilson Batista, travada exclusivamente nas regras da arte. Dessa polêmica entre Noel e Wilson, ou a ela relacionada, é preciso que se diga imediatamente, saíram verdadeiros clássicos do repertório noelesco, tais como: Palpite Infeliz e Feitiço da Vila. Apenas por isso já valeria a pena relembrar esse debate entre Wilson e Noel. Entretanto, o que quero chamar a atenção é para uma questão que se colocava como pano de fundo em tal polêmica: a mercantilização do samba e a profissionalização do sambista.

A polêmica entre Noel e Wilson teve início em 1933, por ocasião do lançamento do samba Lenço no Pescoço. Gravado por Silvio Caldas, este samba de Wilson Batista dizia em seus versos iniciais: 'Meu chapéu do lado/ tamanco arrastando/ lenço no pescoço/ navalha no bolso/ eu passo gingando/ provoco e desafio/ eu tenho orgulho em ser tão vadio...'. Essa descrição do malandro e essa apologia da vadiagem não passariam desapercebidas em 1933. Como de fato não passaram. Muitos compositores da época recriminaram publicamente este samba, sendo que o compositor e jornalista Orestes Barbosa chegou a publicar em sua coluna: "num momento em que se faz a higiene poética do samba, a nova produção de Silvio Caldas, pregando o crime por música, não tem perdão". Num momento em que o samba se profissionalizava nas rádios comerciais - que associavam prestígio e aceitação social de uma música com a possibilidade de atrair mais patrocinadores - não é difícil de entender as palavras de Orestes. Todavia, a resposta mais contundente a Lenço no Pescoço, e a qual o próprio Wilson levaria em conta, veio de Noel Rosa. O Poeta da Vila, ainda em 1933, responderia a Wilson com Rapaz Folgado. Este samba de Noel responde verso a verso o samba de Wilson: 'Deixa de arrastar o teu tamanco/ Pois tamanco nunca foi sandália/ E tira do pescoço o lenço branco/ Compra sapato e gravata/ Joga fora essa navalha/ Que te atrapalha'. Além disso, nos versos finais de seu samba, Noel ainda diz: 'Malandro é palavra derrotista/ Que só serve pra tirar/ Todo o valor do sambista/ Proponho ao povo civilizado/ Não te chamar de malandro/ E sim de rapaz folgado'.

A questão da profissionalização do sambista, no disco e no rádio, estava na pauta das discussões do início da década de 1930. Quando Noel responde ao samba de Wilson Batista, ele o faz visando preservar a imagem do sambista, do compositor, num meio onde as possibilidades de se viver do samba já podiam ser vislumbradas. O Poeta da Vila, que sempre optou por uma estratégia diferente para abordar o malandro, "desmonta" a personagem de Wilson Batista, tanto no seu aspecto físico (da indumentária) como no seu modo de se relacionar com o samba, e a recoloca, por meio de "propostas", num plano regido por novas possibilidades de atuação. Noel tem o cuidado de não atacar diretamente o malandro, ele prefere dizer que é a palavra malandro o fator que estaria tirando "todo o valor do sambista". Não sendo o malandro propriamente dito o alvo de Noel, nos resta verificar o criador de sambas (o compositor). Nesse quesito, o Filósofo do Samba, propõe ao compositor popular o "papel e lápis". Isto é, propõe ao sambista que, senão totalmente ao menos em parte, substitua a "experiência vivida" pelo conhecimento como instrumento para a criação. Noel, assim, propõe ao compositor que ao menos leve em conta as novas relações do samba com a sociedade, para não dizer com o mercado de música, e termina aconselhando o malandro (compositor) a "arranjar um amor e um violão" (os dois temas - amor e violão - aceitos pela música popular do período e passíveis de serem veiculados pelas rádios e ouvidos pelo "povo civilizado": os nossos queridos ouvintes). Interessava ao Poeta da Vila, tal como a outros sambistas da época, não podemos nos esquecer, que o samba tivesse um reconhecimento social e comercial, e o rádio se apresentava como o grande meio difusor de música do período.

A polêmica entre Noel e Wilson, iniciada em 1933, se arrastaria ainda por mais alguns sambas. Seja como for, no decorrer dos anos da polêmica, Noel compõe em 1934 - (sem o intuito de prolongar a discussão, até porque por esta época ele já nem se lembrava mais dela) -, o Feitiço da Vila, uma música na qual o Filósofo do Samba, mais uma vez, procurava homenagear seu bairro, Vila Isabel: 'A Vila tem/ um feitiço sem farofa/ sem vela e sem vintém/ que nos faz bem/ tendo o nome de Princesa/ transformou o samba/ num feitiço decente/ que prende a gente'... Esse samba provocou a resposta imediata de Wilson, com É Conversa Fiada, e a tréplica de Noel com Palpite Infeliz. Mas é o Feitiço da Vila que aqui nos interessa. Noel diz que em Vila Isabel o samba tem um certo feitiço (que enebria a quem o ouve), tal como o samba era entendido anteriormente, devido a sua relação inicial com a cultura negra, particularmente com o candomblé. Porém, é um feitiço diferente, é um feitiço decente, o que de antemão já denota uma preocupação com a aceitação social (e comercial) do samba. Tal como em Rapaz Folgado, onde Noel deixa o malandro nu, decompondo o seu aspecto exterior (a navalha, o lenço no pescoço, o tamanco), em Feitiço da Vila o samba também passa a ser desprovido de suas significações exteriores. Continuando a ser feitiço, o samba, entretanto, não carrega mais a sua significação religiosa oriunda candomblé: "a vela, a farofa e o vintém". Noel, deste modo, torna consciente o samba de seu novo sentido social e simbólico numa sociedade em franca modernização capitalista. O samba agora é um produto musical - passível de ser vendido em forma de disco e veiculado nas rádios -, e a atividade do (compositor) sambista, que ele tanto cuidou em sua polêmica com Wilson, é agora uma atividade profissional. Com Noel Rosa pode-se dizer que o samba tornou-se consciente de seu aspecto de música popular, em seu sentido urbano e moderno.

Blog de Ezalmone Moreira dos Santos

Alma brasileira

Como faria para identificar a alma brasileira. Seria uma alma penada pelos desvarios da elite devassa e corrupta? Ou quem sabe uma alma curtida nos navios negreiros, no lamento indígena, na esperança para se furtar da desesperança. Aquele sorriso malandro para escapar do compromisso sem estratégias do dia seguinte.


A malandragem dos capoeiristas, do mestre - sala, dos bordões de um sete cordas, nasceu desses gestos insensatos, quase insanos. Aquela senso de continuar…
Continuar

Postado em 13 março 2010 às 23:17

POLEMICA NOEL ROSA - WILSON BAPTISTA

ESTOU ADCIONANDO UMA SINTESE DE UMA PEQUENA HISTORIA DA FORMAÇÃO DA MUSICA BRASLEIRA, ATÉ MEADOS DA DÉCADA DE 1920. CASO QUEIRAM APROFUNDAR NO ASSUNTO, FORMULEM PERGUNTAS QUE RESPONDEREI COM MUITO GOSTO.

As desavenças entre compositores de música popular sempre ocorreram, resultando em grandes contribuições para a nossa arte maior. A primeira ocorreu entre Sinhô e o grupo de Pixinguinha, de 1918 em diante. Convém, porém, salientar que tais desavenças restringiam-se apenas ao campo musical,… Continuar

Postado em 14 junho 2009 às 22:48 — 1 Comentário

Caixa de Recados (3 comentários)

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Às 23:08 em 13 junho 2009, Bianca Zanlorenci disse...
Oi, como voce é professor universitário, podia me dar uma ajudinha respondendo a pergunta que postei no blog. Obrigada.
Até mais.
Às 19:32 em 16 dezembro 2008, Antonio Barbosa Filho disse...
Oi Ezalmone, tudo bem? Agradeço por aceitar meu convite, precisamos de gente boa no grupo "La Pátria Grande". Sua foto lhe mostra com um violão, o que é bom sinal.
Acabo de chegar de uma festa pública, aqui em Delft, Holanda, quando acendem as luzes da árvore de Natal na praça principal. Muita gente, mas o que encanta é música por todo parte: no palco da praça uma orquestra, numa transversal uma big band tocando clássicos americanos, na outra rua um grupo de hip hop, enfim, a cidade cheia de sons.
Mas isso é papo prá outra hora (aqui são três horas a mais, estamos nos preparando prá cama). Um grande abraço.
Às 16:27 em 6 dezembro 2008, Antonio Barbosa Filho disse...
Olá Ezalmone! Sou jornalista, e criei o grupo "la Pátria Grande", nesta comunidade, para trocarmos idéias sobre Cultura em geral, política, viagens e tudo que se relacione aos países da nossa América Latina. Caso compartilhe desses interesses, convido-o a participar. Um abraço.
 
 
 

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço