Paula Cajaty
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Paula Cajaty

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Profissão
escritora e advogada

Passeio público (ou privado?)

Caminho relutante pela rua Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro, num dia de fevereiro em que o sol cresta a disposição de olhar as vitrines do percurso, os paralelepípedos soltos e as pedras portuguesas mal colocadas obrigam a pisar com cuidado. Distraída, bem verdade, entre pensamentos e os gritos dos ambulantes que tentam vender qualquer coisa, desde aqueles asquerosos trimmers para orelhas e narizes cabeludos, até óculos de sol cujo design imita as grifes parisienses e londrinas mais charmosas.

Por maior que fosse a bagunça, me sentia estranhamente bem andando pelas ruas conhecidas da cidade natal, até que uma mocinha de seus 20 anos, com duas tiras de pano no corpo - uma que semelharia a um mínimo short, outra que seria um bustiê - vira na minha direção e berra a plenos pulmões: - É você quem tá chamando a chuva, né, viado? e continua andando a esmo para entregar papeluchos aos passantes. Da outra esquina, com um mega-guarda-chuva colorido, aberto no meio do sol de rachar, grita o destinatário de volta: - Só assim pra apagar teu fogo, néim!, entre risadas e gracejos.

No meio da conversa pública dos dois, íntimos amigos, me senti na casa deles. Na sala deles. Na intimidade deles. Quem, há cinquenta ou setenta anos atrás, no meio da rua Buenos Aires, ousaria proferir aquelas palavras de baixo calão com tamanha desenvoltura?

Aos poucos fui me dando conta que, no Rio de Janeiro, as coisas se dão pelos reversos. Eu explico.

Contam uns dez ou quinze anos atrás, em plenos anos noventa, havia quem pregasse o trancafiamento absoluto das pessoas em suas casas, em seus carros, em seus escritórios, com a disseminação da violência e o desenvolvimento da tecnologia auxiliando essa tendência de isolamento.

Não é, contudo, o que se vê. Na Barra da Tijuca, talvez tenhamos a exceção que confirme a regra, mas em todos os demais bairros cariocas a previsão catastrófica não se confirmou.

Copacabana é destinatário de todos os shows dos artistas internacionais mais cotados do mundo, das festas mais badaladas da onda gay e isso não se restringe mais ao Réveillon. Ipanema se vê invadida de dezenas de blocos de travestis e peruas de todos os cantos do Rio, a cada Carnaval. Nos demais bairros de menor visibilidade, bares, botequins e restaurantes espraiam toldos, mesas e cadeiras pela calçada afora, resgatando a alma parisiense de cada um de seus moradores e assíduos frequentadores (com a diferença que, aqui, é mais gostoso ficar do lado de fora durante a maior parte do ano). À Lapa coube o resgate de toda a antiga boemia carioca, com casas de gafieira, forró e samba de raiz, à Praça Mauá foram transferidos os eventos musicais alternativos, dub, lounge, rave, e outras baladas ultra-pós-contemporâneas que ainda nem sei nomear. A Tijuca, bairro tradicional que exportava baladeiros de plantão e casais românticos para toda Zona Sul, descobriu sua tendência esquizofrênica e desenvolveu pólos de gastronomia com restaurantes de múltiplos cardápios e couverts artísticos.

Camelôs ficam nas calçadas, carros e kombis estacionam nas calçadas, os guardadores trabalham nas calçadas, fumantes nas calçadas, bebida nas calçadas. Na calçada, tudo pode. É a última fronteira, um lugar de trabalho, de relax, de lazer e até de confraternização e exposições afetivas. No espaço privado, contudo, há a limitação física das paredes, há a limitação do som, imposta pelo incômodo da vizinhança, há a limitação financeira – pois com água e luz no preço em que estão, preferível a brisa da rua, a água do mar. A rua ainda oferece mais encantos e o incomodado que se mude.

Volto, então, ao início das minhas divagações. Após o almoço, retorno ao trabalho pelo mesmo caminho e eis que encontro a tal menina dos tapa-sexos com o rapaz do guarda-chuva em riste. Se empurrando, se agarrando, entre gritinhos exibidos, ignorando o mundo à volta. Estão na frente da vitrine de uma loja, naquela implicância próxima e comum de quem quer namorar. Suas casas, certamente, não lhes oferecem tanto: o calor, a brisa morna, a amplidão da rua, as amizades, o trabalho intermitente, as pausas de paquera, o galanteio ao seu corpo perfeito, incitados pelo provocante piercing no umbigo, a possibilidade de abordar, pedir, oferecer, vender, ganhar. Sua casa não é mais o barraco, ali é apenas o dormitório do camping. Sua casa é o Rio de Janeiro.

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Às 21:11 em 18 fevereiro 2009, Antonio Barbosa Filho disse...
Concordo, amiga. Há muito percebi que não há sistema perfeito - embora a perfeição deva ser buscada, porque se não retrocedemos. E que não dá para simplificar, rotular, negar, qualquer dos sistemas porque é diferente do nosso. 90% do que me falavam sobre Cuba é falso, como verifiquei numa visita de menos de um mês.
Hoje mesmo fiquei sabendo de uma coisa curiosa (...): na Holanda, onde já passei no total oito meses e para onde volto em julho para mais três, até uns 15 anos atrás existia uma lei que isentava dos impostos os gastos de suas empresas com corrupção de governos estrangeiros!!!
Ou seja: quando uma empresa holandesa fechava contratos com o exterior e, para tanto, tinha que gastar em propinas, esses gastos eram deduzidos de seus impostos! Não é perfeito? Só depende do ponto de vista...
Beijo.
Às 17:36 em 20 janeiro 2009, Antonio Barbosa Filho disse...
Oi Paula, tudo bem? Claro que o Fidel não morreu, mas pelas últimas informações, está muito mal. O Chávez disse que Fidel não será mais visto, um indicativo de que seu estado pode ser terminal.
De qualquer forma, pertence à História, não só de Cuba, mas do continente. O que me interessa mais é o processo de mudanças vivio pelos cubanos. Estive lá em março passado, senti o descontentamento, mas com o Socialismo ou a Revolução. As pessoas querem mais acesso a bens, melhores salários, mas acham o Capitalismo um sistema muito pior do que o deles. Em termos de liberdades, a que mais reclamam é a de poder viajar. Um jovem me contou que seu pai não teve autorização para viajar à Bolívia, onde queria visitar os locais onde o Che lutou. É um comunista, tem o dinheiro para a viagem (que reservou durante vinte anos!) mas a burocracia do Estado o impede. Outros se queixam de uma certa indolência do serviço público, já que as pessoas ganham o mesmo salário, dedicando-se mais ou menos ao trabalho.
Uma coisa evidente é a dignidade dos cubanos. Eles se orgulham do país e da soberania. Defenderão Cuba de uma hipotética (mas já tentada) invasão, a qualquer custo. Como me disseram, são 11 milhões de soldados: cada cidadão sabe onde está sua arma, e qual sua posição de tiro em caso de agressão externa.
Vamos ver agora com o Obama se a situação melhora. O fato é que o presidente Raúl convocou um amplo debate nacional, e muita coisa está mudando. Os EUA podem ajudar muito, se mostrarem que não querem "anexar" Cuba, como era antes de 59. O processo está em aberto.
Obrigado e um abraço.
Às 17:59 em 3 outubro 2008, Antonio Barbosa Filho disse...
Oi Paula, somos todos aprendizes por aqui (com algumas notáveis exceções). Para entrar basta clicar na foto do grupo, na página inicial, ou em "grupos" nesta página. Seja muito bem-vinda!
Às 15:50 em 3 outubro 2008, Luis Nassif disse...
Paula,
sugiro colocar o convite em EVENTOS.
Às 13:52 em 3 outubro 2008, Antonio Barbosa Filho disse...
Olá Paula! Sou jornalista, e criei o grupo "La Pátria Grande", nesta comunidade, para trocarmos idéias sobre Cultura em geral (Poesia inclusive), política, viagens e tudo que se relacione aos países da nossa América Latina. Caso compartilhe desses interesses, convido-a a participar. Um abraço.
 
 
 

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