Rosa Pena
  • Feminino
  • Rio de Janeiro
  • Brasil
Compartilhar no Facebook Compartilhar

Amigos de Rosa Pena

  • Mirele Alves Braz
  • Guilherme Cardoso de Sá
  • Marco Paulo Valeriano de Brito

Música

Carregando...

Discussões de Rosa Pena

http://www.palanquemarginal.com.br/

Aniversário do Palanque Marginal...O site que publica os impublicáveis! Seja Herói! Seja Margina!Continuar

Started 26 Out, 2011

Presentes recebidos

Presente

Rosa Pena ainda não recebeu nenhum presente

Dar um presente

 

Página de Rosa Pena

Informações do Perfil

Profissão
Escritora

Anônimo suburbano

Anônimo suburbano



                                   Rosa Pena



Do lado da academia onde nado tem uma antiga padaria que acabou virando um bar. O Pão de Bigode. O dono descobriu, há alguns anos, que cerveja dá mais grana. Acabou pondo mesinhas do lado de fora, e ali reúnem-se mestrados em sua hora de almoço, aposentados do INSS, casados fujões, pinguços de plantão. Jogam porrinha (basquete-de-bolso), dama, lêem jornal, saboreando uma cerva.

Para chegar à academia, forçosamente tenho que estacionar o carro antes da padaria, pois depois é proibido. Eu e todas as mulheres, portanto, passamos a ser o alvo das brincadeiras diárias dos freqüentadores. Na aula, costumávamos reclamar dos modos destes homens. Particularmente um, que parecia ser o mais atirado; falava alto, algumas e muitas abobrinhas.

Sabíamos que o nome dele era Ernesto. A idade, indefinida. Era daquelas pessoas que a vida castigou tanto, que não conseguimos definir a idade da certidão. Tem a idade da vida vivida.

A galera sempre perguntava:

— E aí, Ernesto, tua mulher deixou tu entrar ontem bêbado?

Sorria e revidava.

— Num tava bêbado, tava feliz. Vocês não sabem o que é isso. Além do mais, não sou viciado, pois só bebo das dez da matina até às vinte e duas.

Parava de conversar quando eu começava a passar, e falava alto:

— A professora ontem foi à praia, tá cor-de-canela. Vem pra minha canjica, doçura!

Eu passava séria, com ar de ofendida. E questionava-me como ele sabia a minha profissão. A minha e de amigas da academia. Todos os dias, durante dois anos, a cena se repetia três vezes na semana.

O bando de marmanjos sacaneando ele.

— Ernesto, se toca e para de mexer com as mulheres, tu não funciona nem com Viagra!

Ele respondia com seus provérbios de beira de calçada.

— Enquanto tiver língua e dedo, de mulher não tenho medo... E aí, professora, clareou o cabelo?

Eu ficava doida, pois o danado percebeu minhas luzes, e lá em casa ninguém viu.

Ouvi um dia chamarem ele de suburbano e dizerem que saía às sete da manhã para chegar às dez no Pão de Bigode. Tinha sido obrigado a mudar de bairro, dinheiro curto. Mas estava arraigado aqui.

Aos poucos, por conversas altas e paralelas, eu ficava sabendo da vida dele e ele sabia da minha, pelo que víamos um do outro e pela Dilcilene, faxineira da academia, chegada a uma fofoca.

Descobri que ele era um homem-povo, casado há 40 anos, oito filhos, aposentado por insuficiência cardíaca. Este anônimo suburbano, ardoroso fã do sexo oposto, sequer imaginava o bem que fazia para o nosso ego. Dizia o que queríamos ouvir de nossos amados. Dizia de forma aberta, simplória, descaradamente deliciosa.

Nunca recebeu um sorriso nosso. Um sorriso meu! Na última sexta, falou de minhas argolas novas e reclamou que eu estava de cabelos presos. Meu sorriso foi interior.

Ontem, passei por lá. Reinava um silêncio absoluto. Não entendi, e depois minhas colegas foram chegando e comentando sobre este maldito silêncio. Cadê a Dilcilene para dar o furo de reportagem??? Tinha saído.

Renata, curiosa como ela só, arrumou o pretexto de comprar uma diet-coke, só para bisbilhotar. Voltou pálida. Havia um comunicado de falecimento do Ernesto na parede.

Comecei a chorar, silenciosamente e contidamente. Aos poucos percebi que todas choravam. Nada dissemos. Nada a declarar. Cada uma sabia o que este anônimo representava para nós. Com ele, foi muito da alegria do cotidiano... Foi mais, bem mais. Parte com Ernesto um pouco do folclore carioca, uma maneira alegre e despretensiosa de viver. Parte ele sem saber como era importante o seu viver.

Saudades Ernesto.



novembro de 2002

livro PreTextos/ rosa pena




Obra completa em meu site pessoal.Clique em:
www.rosapena.com

Vídeos de Rosa Pena

  • Adicionar vídeo
  • Exibir todos

Blog de Rosa Pena

Rosas na Palestina

Rosas na Palestina 

 

Rosa Pena

 

Todas as manhãs abrir os jornais e ver rostos de crianças sorrindo estampados na primeira página. Não me surpreender que elas estejam felizes, pois isso é tão natural. Depois preparar o café da manhã com suco de frutas frescas. Não me surpreender que elas estejam suculentas, pois há tanta terra no quintal de nosso planeta. Abrir as janelas da casa e…

Continuar

Postado em 26 outubro 2011 às 18:30 — 1 Comentário

Caixa de Recados

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

  • Sem comentários por enquanto!
 
 
 

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço