BOGART SEM CIGARRO /Pedro Mexia
A gente vê o Bogart e fica logo com vontade de fumar. O cinema, sobretudo o americano, sempre funcionou como um grande elogio estético do cigarro. A preto e branco, o fumo vai em novelo, como os sentimentos. É ambíguo, evanescente, um pouco perigoso. Bogart fumava e sem cigarro não era Bogart. Soube que recentemente apagaram o indispensável apêndice de um selo de correios com o ícone de Casablanca. É absurdo. Sem fumar, Bogart está coxo, incompleto, o seu falso cinismo não tem esse ritual, esse silêncio, esse estilo gestual afastado e triste. O cinema clássico americano não faz sentido sem o cigarro.
Bem sei que agora estas coisas não se dizem. O tabaco mata. Grande novidade. Os nossos maços ostentam frases apocalípticas sobre o cancro e a impotência. Mas toda a gente sabia que o tabaco faz mal. Que diabo, quase tudo o que é bom faz mal. E o tabaco, ao que parece, não é só estiloso mas agradável. As pessoas inspiram, seguem o fumo, saem de uma reunião para fumar no corredor. E retiram disso um evidentíssimo deleite. O fumo é claramente um vício. Mas os vícios são quase todos bons (é por isso que viciam). Embora faça mal. Se os vícios fossem maus e fizessem bem, não eram vícios, eram xaropes. O tabaco é um prazer comum, acessível. Um homem fuma enlevado ao meu lado e ao lado do meu texto e percebo que fumar é bom. Pelo menos parece.
Não sei, porque nunca fumei. Só os cigarrinhos meio escondidos de adolescência, com esperança que se esvaísse o fumo e o cheiro. Um maço comprado só para comprar um maço e, se bem me lembro, atirado fora depois. As pessoas fumam por "pressão de grupo". Na adolescência, fumar é saltar etapas, ficar sem custo meio adulto, meio rebelde, toda a gente fuma e quem não fuma é pateta. Como eu sempre fui pateta, não fumar nunca fez a diferença. Experimentei e não gostei. Quer dizer, nem experimentei. Não sabia fumar, e não tentei vezes suficientes para aprender. O fumo fazia tosse, detestava o cheiro, não sabia pegar no cigarro. Fumei para fumar, para dizer que tinha fumado (e afinal não disse a ninguém), e ficou resolvido. Depois da adolescência, nunca mais pus um cigarro na boca. Se, na altura própria, o tabaco não me conquistou, não me interessa agora começar. Embora confesse que por vezes quase me apetece fumar. Não por causa do tabaco. Mas por causa de Bogart, do cinema clássico. Escrever um texto (este texto) a fumar, cabeça na mão, a mão no cigarro fumegante, a inspiração e a evaporação do fumo. Fumar quando estou triste, num café ou na varanda. Fumar depois de (quando o rei faz anos). Fumar é uma coisa bem catita. Durante a adolescência, não ligava muito a isso. Agora, talvez porque me faz falta a adolescência (que foi mazinha), estou encostado a um barracão imaginário, nas traseiras de um prédio, com dois amigos, e fumamamos. Eu, precocemente dado ao cinismo (estou a reescrever a minha biografia), sou o Bogart. O rapaz à minha direita é o James Dean, de ganga coçada. E o tipo mais entroncado é o Brando. Fumamos cigarros, como no cinema clássico, ou passamos o mesmo de um para os outros. Fumar matava, nessa altura como agora. Era um vício, então e agora. Mas era esse convívio mudo ou reticente. Fumávamos, não fumavámos, não fumo, agora é tarde para me armar em Bogart.
É talvez por causa do cinema (e da minha adolescência) que me enfureço com a tabacofobia. Com certeza que não temos que sofrer passivamente com o fumo alheio. Que os sítios públicos são sítios públicos. Mas não fumar em bares e locais noturnos? Que espécie de idiotice é essa? A polícia de costmues mascarada, mais nada. Acho que as pessoas são livres de fumar ou não, se se estiverem a matar apenas a sia próprias com a nicotina e o vício. Não tenho nada contra o vício. Só Robespierre é que não tinha vícios. Eu não fumo, nem pretendo fumar, mas defendo convictamente os fumadores. Na sociedade puritana em que vivemos, nesse puritanismo pútrido que se disfarça de progressismo, fumar é, como na adolescência, uam afirmação. é bom, porque as pessoas saem de reuniões para fumar no corredor. Mas é também um prazer cercado. Desse modo, fumar ganha foros de afirmação individual. De reivindcação de uma liberdade. Bogart aprovaria. Eu também.
Pedro Mexia
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Beijão
Ficou grande pra por nas vossas páginas.
Grato pela mensagem.
Bem, infelizmente, não poderei estar presente, pois no dia 12/12 será festa de encerramento escolar dos meus filhos. (soube tardiamente)
Fica prá próxima e desejo um maravilhoso encontro para todos.
Abs.
Horridus
Linhás, tive a honrosa oportunidade de produzir uma fita de quatro horas, meio rock meio MPB, pra famosa primeira "Festa da Interação Dialética", em 1973 ;-)
vá lá prestigiar a Vera, o blog dela foi destacado,
"lacinho vemelho" algo assim o título.
beijinho procê
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