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Analista Jurídico

Quando Clara Nunes morreu...


Quando Clara Nunes morreu todos nós morremos um pouco. Clara, Clarinha, Claridade. Clara Nunes iluminava aquela casa nos anos 70 e início dos anos 80 aqui em Fortaleza. Reinava absoluta.

Minha mãe a ouvia com verdadeira devoção cantando Cartola, Dolores, Candeia, Nelson Cavaquinho, Antônio Maria, Elton Medeiros, Monarco, Ismael Silva, Mauro Duarte, Paulo César Pinheiro, Ivor Lancellotti, João Nogueira e tantos e tantos outros.

Clara enfeitava aquela casa com as cores mais inesperadas. Sombria, irradiante, fugidia, violeira, apaixonada, ensandecida, desarvorada, feliz, feliz, feliz. E só. A solidão de Clara cantando era coisa que me impressionava. Só, no meio do salão. Só, nas águas do mar. Só, com seu realejo no jardim da solidão. Só, com seu povo do morro, das gerais e da favela. Só, no meio da feira gritando: “ê banana ouro, ê banana prata”. Só, mastigando palavra por palavra aquele forró do Sivuca que para mim é o mais bonito de todos: “moleque, sai daqui, me deixa trabalhar”.

No fundo somos todos sozinhos, minha mãe era só naquele momento em que ouvia Clara Nunes. Perdia-se em pensamentos com um sorriso no rosto ouvindo Clara desabafar cheia de esperanças: “por isso agora vou viver cantando/ porque chorando/ secou quase todo o meu pranto/ eu sei bem que mereço/ mas não esperava tanto...”

Sim, ninguém esperava tanto. Eu mesmo que aprendi a esperar esperando não esperava tanta tristeza naquele dia 02 de abril de 1983.

A casa ficou em luto. De certa forma a morte de Clara revelou pela primeira vez o peso da morte na nossa família. Meu pai ficou circunspecto, monossilábico, naquele sábado que era geralmente o seu dia de abrir sorrisos. Minha mãe nada dizia. Fechou-se em sua solidão e como quem não acreditava na imagem anunciada da tv saiu da sala e foi pegar os lps.

Separou cada um com muito cuidado, retirou-lhes de cima uma poeira imaginária e os lambeu vigorosamente com os olhos. Não disse uma palavra sequer. Sentada na cadeira de balanço embalou Clara como se fosse sua irmã. A irmã que nunca tivera.

Chorava mudamente e ninguém tinha coragem de interromper aquele instante, nem sequer para consolá-la. Mamãe não queria consolo, não queria a tristeza de nossos olhos cúmplices, não queria nenhuma compreensão que de pouco adiantaria. Ela queria Clara de volta. Era só isso que mamãe queria. Desde a internação até o dia de sua morte, mamãe só queria Clara de volta.

Ela ouviu ali mesmo, naquela cadeira de balanço, cada lp. Um a um. Ouvia tudo em silêncio, um silêncio tão doído que nunca mais me saiu da cabeça aquela imagem. Algumas vezes ela encostava a cabeça no espaldar da cadeira e soluçava, ouvindo Clara entoar: “quero recordar aquela velha casa/ quantas flores no meu jardim.../ quero recordar, não importam essas lágrimas/ às vezes faz bem chorar.”

E tal como na canção, mamãe chorava. Por ela. Pelas recordações que Clara lhe enviava nas suas canções. Pela irmandade que havia entre aquelas mulheres órfãs que tiveram de enfrentar a vida muito cedo. Clara como operária na fábrica de tecidos, mamãe como secretária num colégio de padres.

A noite veio e de madrugada, já deitado, ouvi meu pai chamando minha mãe. Era a primeira vez que alguém lhe dirigia a palavra. Não ouvi sua resposta, mas vi papai passar sozinho para o quarto. Com a porta fechada ainda dava para ouvir o som da sala onde ficava a velha radiola.

Pensei em ir lá, mas o que dizer? Não saberia dizer nada diante de seus olhos verdes cheios de lágrimas silenciosas. Apurei um pouco a audição no escuro do quarto e ouvi Clara cantar: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim/ molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas/ dei o meu tempo de espera para a marcação/ e cantei a minha vida na avenida sem empolgação/ Vai manter a tradição, vai meu bloco tristeza e pé no chão.”

Nesse momento me encolhi todo. Sentado que estava de um pulo voltei para cama. Abrir aquela porta seria como quebrar o tempo de espera, o tempo de desacerto, o tempo de descompasso entre a despedida de Clara e a dor de mamãe. Tentei dormir, mas era inútil. Eu que sempre fui apaixonado por música ficava do lado de dentro do quarto esperando a próxima música. Eu não sabia, mas esperar a próxima música era da minha natureza. Até hoje ainda é.

Tentava adivinhar qual seria a próxima canção ouvindo os primeiros acordes ou no silêncio do momento em que mamãe tirava um disco e colocava outro. Desse modo, naquela noite de tantos significados, consegui identificar a música preferida de cada lp. Ao trocar o disco ela guiava a agulha para uma canção que nem sempre era a primeira do lado A. Muitas vezes era a quarta ou quinta do lado B. E depois ouvia repetidamente a mesma canção, várias e várias vezes.

No lp Claridade sei que “O sofrimento de quem ama” era uma das mais tocadas. Era a primeira que ela escolhia e dizia assim: “dos meus olhos vertem lágrimas/ meu coração arde em chamas/ ai como é doloroso o sofrimento de quem ama/ a minha alma reclama/ sinto meu coração pelo ardor das chamas dilacerar/ por uma fingida mulher que não sabe/ que não sabe amar...” Depois ela ouvia Tudo na Vida é Ilusão e Juízo Final.

No lp Canto das três raças, Ai quem me dera, uma valsa linda do Vinícius era a escolhida: “ai quem me dera ouvir o nunca mais/ dizer que a vida vai ser sempre assim/ e finda a espera ouvir na primavera/ alguém chamar por mim...” Logo em seguida ela escolhia Lama, do Mauro Duarte. Depois surgia Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito com Tenha Paciência e, depois, Canto das três raças do Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte.

A noite passou veloz. Por baixo da porta eu sentia que o dia já estava amanhecendo. Vinha uma pontinha de claridade e o som da voz de Clara no lp mais festejado por mamãe que tinha curiosamente o nome mais bonito de toda a língua portuguesa: Esperança, de 1979.

Mamãe ouvia esse lp repetidamente, todas as canções. Todas mesmo. Suspeito que foi através dele que mamãe renasceu naquela noite e se banhou de manjericão, como dizia a primeira música “Banho de Manjericão” do Paulo César Pinheiro e João Nogueira.

Lembro que abri a porta do quarto quando esse lp já estava tocando pela quarta ou quinta vez. A música era Obsessão (Mirabeau e Milton de Oliveira) uma música linda que dizia assim: “você roubou meu sossego/ você roubou minha paz/ com você vivo a sofrer/ sem você vou sofrer muito mais...” Depois vinha Linha do Mar do Paulinho da Viola e Apenas Um Adeus do Paulinho Diniz.

Quando o disco chegou na música do Candeia e Jaime, chamada Minha Gente no Morro, eu não agüentei. Chorei do alto dos meus 10 anos de idade. E ainda hoje é uma música que me emociona profundamente: “ontem estive no morro e voltei chorando/ morro sem malandro que já tem senhor/ vejam só! / Disseram que compraram o morro/ estão derrubando barracos de zinco/ estão se acabando/ pra morar no morro tem que ser doutor...”

Na verdade, eu não sabia, meu pai não sabia, meus irmãos tampouco sabiam que mamãe havia se reinventado a partir do repertório de Clara. Clara cantava o que mamãe sentia ou pensava ou queria sentir ou não sentia ainda, mas gostava tanto que passava a sentir.

E por isso, a morte de Clara representou uma pequena morte de mamãe. Nesse momento foi quando me dei conta que viver é morrer um pouquinho todo dia, é ir se deixando aos poucos nas pessoas, nas coisas, nos gestos, nas palavras.

Por dentro mamãe morreu naquele dia 02 de abril, e quando o dia estava amanhecendo, como sempre acontece, ela foi se ressuscitando. Velou a noite inteira o seu próprio corpo e amanheceu, por conta de Clara, mais viva que antes. Olhando de lado me viu encostado no canto da porta chorando por conta daquela emoção que a música me trazia, por causa dela sentada ali naquela cadeira a noite toda, por conta de Clara ter ido embora tão cedo e de uma forma tão banal. Naquela noite eu fui cúmplice e a meu modo velei o corpo de Clara e o corpo de mamãe.

A família foi acordando aos poucos. Nessa hora ouvíamos bem alto Abrigo de Vagabundo do Adoniran Barbosa. Já não mais chorávamos. Ouvíamos cúmplices os versos: “minha maloca a mais linda que eu já vi/ hoje está legalizada ninguém pode demolir/ minha maloca a mais linda desse mundo/ ofereço aos vagabundos que não têm onde dormir...”

Hoje ainda ouvimos Clara, eu aqui na minha casa e ela lá na mesma casa de sempre. Dia desses soube que ela mandou consertar a radiola e ouviu todos os lps da Clara numa só tacada. Liguei para confirmar e ela confirmou. Quando estamos juntos e toca uma música da Clara, ela me dá uma olhada com aqueles dois olhos verdes e parece que o tempo não passou e eu ainda sou aquele menino que se emociona ouvindo música.

Sergio-Veleiro

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Às 3:46 em 11 junho 2010, Cia. De Teatro Atemporal disse...
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Às 16:54 em 22 janeiro 2010, José de Assis Júnior disse...
Excelente artigo. Parabéns!
 
 
 

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