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YGOR DIEGO DELGADO ALVES
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"Sou aluna do curso MBA em Gestão Pública e quero deixar aqui meus cumprimentos pelas aulas, não simplesmente pela qualidade que têm, mas pelo "tom" que você deixa transparecer nelas. Gosto muito da sua fala…"
9 Maio, 2015

Informações do Perfil

Profissão
Antropólogo

Trecho do livro Jamais fomos zumbis: contexto social e craqueiros na cidade de São Paulo.

O livro pode ser adquirido clicando aqui.

Este livro trata do uso do crack na região central da cidade de São Paulo, onde se encontram diversos locais de comércio, de uso e mistos. Estes últimos se dedicam, além da venda, também a oferecer local para o consumo desta substância psicoativa tornada ilícita. Lá está a Cracolândia paulistana, um espaço símbolo do pânico moral em torno do “craqueiro” e local de intervenções cruéis e desastrosas por parte do poder público, particularmente os entes municipal e estadual nas gestões José Serra e Gilberto Kassab frente à prefeitura municipal, e José Serra e Geraldo Alckmin frente ao governo estadual de São Paulo. Estas administrações chegaram ao ponto de implementar uma ação repressiva denominada “dor e sofrimento” que resultou em humilhante fiasco. Mas, a região também é palco de uma das mais ousadas e exitosas políticas de intervenção pública sobre uma população usuária de drogas no Brasil; que parte da garantia de acesso aos direitos fundamentais como moradia, saúde, trabalho e estudo através do Programa De Braços Abertos (DBA), que se expandia para outras áreas da cidade.

Embora, o crack e o seu usuário tenham sido objetos de uma grande exploração midiática, a ponto de o usuário ser igualado a um “morto-vivo” ou a um zumbi, muito pouco se sabe a respeito do uso dessa droga, além de uma série de preconceitos repetidos à exaustão, como por exemplo, a ideia de que a experimentação leva imediatamente à compulsão e de que esta forma de uso é a única possível. Portanto, ao escolhermos o uso do crack como objeto de nosso estudo, nós estamos procurando cobrir uma lacuna imensa no conhecimento a respeito do uso de drogas. Mormente, se levarmos em conta que o uso do crack, pelas possibilidades abertas à exploração midiática por seu consumo nas ruas, foi alçado a um dos principais problemas de saúde e segurança pública do país, nesta virada de milênio.

O crack fumado na região central da cidade de São Paulo, área de nossa pesquisa, é produzido a partir de pasta base, geralmente proveniente do interior do estado. Esta pasta base, após processo de feitio, com sua diluição em água quente e reação química por adição de bicarbonato de sódio, torna-se a pedra de crack. Importante salientarmos que a pasta base é a mesma matéria-prima da cocaína inalada, ao menos nesta região da cidade, conforme informações de interlocutores que tiveram oportunidade de trabalhar no feitio do crack e da cocaína. Portanto, são falaciosas as informações que tentam assemelhar o crack consumido na Cracolândia a uma espécie de subproduto da cocaína.

As pedras de crack são comercializadas no varejo, em um grande número de pontos de venda ou “biqueiras”, por pessoas com maior ou menor vínculo com a estrutura do tráfico de drogas. Um “vapor”, como são alguns de nossos interlocutores, não é muito mais que um usuário de crack, momentaneamente incumbido de abastecer de pedras, certo local de consumo. Porém, este mesmo “vapor”, que obtém estas pedras em um ponto de venda com outras pessoas de vínculos mais estreitos com o tráfico, nem sempreé usuário de crack. No local de uso, seja ele um fumódromo ou na Cracolândia[1], outros papéis sociais são desempenhados além do de “vapor”, geralmente por outros usuários de crack, mas também por não usuários, como os papéis de “disciplina”, “sintonia” e “contenção[2]”.

O uso do crack por nós estudado pode ser classificado como um uso forte, ou uso pesado da droga. Através da observação participante pudemos acompanhar pessoas em três ambientes de consumo: uma “biqueira” com fumódromo em local fechado; uma “biqueira” com fumódromo em local aberto; e a Cracolândia. Nesstes ambientes de consumo e venda da droga, regiões psicotrópicas, pudemos observar a dinâmica de comercialização e uso da pedra, como as negociações envolvendo preço e qualidade, os diferentes padrões de uso, sua evolução com o passar das horas e os conflitos de interesses entre diferentes atores. O fumódromo e a Cracolândia são ambientes de grande agitação, com uma gama de interações entre seus frequentadores. Estas interações costumam girar em torno dos mais diversos temas, mas daremos destaque àquelas desenvolvidas em torno da “treta”, ou no intercâmbio de bens e serviços. Nos ambientes do fumódromo a céu aberto e da Cracolândia, é o barraco que se destaca como local capaz de proporcionar o contexto mais propício ao uso da pedra.[3]

O uso do crack também exige, além do ambiente propício, uma parafernália de uso cujos itens entram no circuito da “treta”. Esta parafernália tem no cachimbo seu mais complexo e instigante componente, ele é um mediador sempre disponível à ação criativa do usuário que o reconstrói continuamente ao sabor das mudanças ocorridas em seu corpo, no decorrer do uso da pedra. Caso o usuário esteja mais ou menos desperto, alimentado ou descansado, ele poderá ajustar o cachimbo aos seus diferentes estados corporais.

A pesquisa, baseada na observação participante, nos permitiu acessar informações que de outra maneira não estariam à disposição, como no caso dos estudos levados à frente a partir de entrevistas semiestruturadas em ambiente controlado. Nosso trabalho se aproxima de outros realizados a partir da pesquisa de campo, porém, se diferencia destes por não termos acessado nossos interlocutores como redutor de danos e ao mesmo tempo antropólogo, ou como antropólogo disfarçado em redutor de danos.[4] Assim, pudemos conviver com os usuários de crack e entrar em contato com sua cultura marcada por toda uma terminologia própria, rituais de uso, papéis sociais, trocas de objetos, corporalidade, tecnologias para o abrigo e sexualidade. De tal modo, podemos demarcar como objetivo central da pesquisa: a descoberta das características e significados do comportamento ritualizado relacionado ao crack. O achado mais importante é que estes comportamentos fornecem uma infraestrutura para o processo de autorregulação controlador do uso.

 



[1] Usamos o termo Cracolândia por ser assim que os frequentadores do local a denominam.

[2] Pessoa responsável pela segurança em uma “biqueira”. Pode ser também o usuário indicado para garantir as boas condições ambientais e de insumos a uma roda de crack.

[3] Não sem motivo, a Prefeitura do Município de São Paulo precisa lidar com forte resistência a desmontagem de barracos na Cracolândia, após a implementação do Programa De Braços Abertos.

[4] No primeiro caso, trata-se da pesquisa de Luana Malheiros, no segundo de Taniele Rui.

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Às 1:23 em 9 maio 2015, Adriana de Souza disse...

Sou aluna do curso MBA em Gestão Pública e quero deixar aqui meus cumprimentos pelas aulas, não simplesmente pela qualidade que têm, mas pelo "tom" que você deixa transparecer nelas.

Gosto muito da sua fala e dos seus comentários.

Abraço

Adriana 

 
 
 

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